lamentava talvez o ter-se enleiado, para conseguir o seu fim, n'esse tão
complicado enredo, que afinal a nada remedeiára, porque se via obrigada
a dar o primeiro passo, exactamente como se não tivesse ideado tantas
combinações machiavelicas para obrigar esse timido Cesar, que podia
chegar, ver e vencer, a passar o Rubicon.
N'isto um vulto de homem appareceu, vindo do lado da habitação,
cosendo-se com os troncos d'arvores, mas fugindo ligeiramente. Devia ser
Frederico.
Lucinda avançou para elle, com o coração a pulsar-lhe violentamente.
--Frederico! balbuciou ella.
O homem parou.
--Sou eu, sou Lucinda, continuou a ousada menina n'esse momento mais
timida do que elle, eu que venho expiar a minha culpa, e fazer-lhe a
confissão que me absolve. Sim dil-o-hei, sem temer que me accusem de
immodesta: «Amo-o».
E as suas mãos procuravam as de Frederico. Mas coisa notavel, ou as mãos
d'este se lhe esquivavam, ou D. Marianna, arranjando uma variante á
mulher de Putiphar, em vez de lhe arrancar a capa, lhe arrancara as mãos.
Mas quando Lucinda passava do espanto á colera, recebeu um impulso
violento que a fez ir, cambaleando, segurar-se a um ramo de jasmineiro,
e ouviu uma voz grosseira e avinhada, que lhe dizia:
--Você, além de ser descarada, é ladra tambem? Dize-me ternuras, minha
Phylis, mas larga os timidos volateis.
Lucinda soltou um grito horrivel, e fugiu como louca na direcção de
casa. A esse grito sentiram-se passos precipitados, que vinham do fundo
do jardim. Um outro homem lançou-se ás guellas do interlocutor de
Lucinda, e uma outra voz juvenil de senhora começou a bradar por soccorro.
A este barulho correram os criados e destrancaram-se as portas, o jardim
innundou-se de luz. D. Marianna appareceu com esplendida _toilette_ á
porta de casa, o causador d'este tumulto fugiu por cima do muro,
deixando os seus despojos nas mãos do seu contendor, e Lucinda, que
ficára offegante á sombra de uma alta figueira que se afferrava ao muro,
pôde vêr, com doloroso espanto, a seguinte scena:
Frederico victorioso, mas vermelho de colera e vergonha, tinha nas mãos,
como tropheus da sua gloria, duas gallinhas. A pouca distancia estava
Adelaide escondendo o rosto nas mãos. D. Marianna ficára como que
petrificada, os criados riam e segredavam.
VI
Voltemos agora ao instante em que vimos Frederico desapparecer no jardim.
Os calculos de Lucinda peccavam pela base. A auctora d'este enredo não
podia costumar-se a considerar Adelaide, que tinha menos seis annos do
que ella, como uma mulher capaz de amar e de ser amada, não suspeitára
que por baixo da varanda do segundo andar, onde estava Marianna, havia
uma janella de peitos, que n'essa janella, por maior que fosse a
reclusão em que Adelaide vivesse, ia esta espairecer por alguns
instantes, que seria exactamente n'uma dessas occasiões que Frederico
passaria, e que o vulto elegante e nobre d'este moço não produziria
menos impressão na creança de dezenove annos, do que produzira na mulher
de vinte e cinco.
Frederico amava realmente Lucinda, e aproveitára com avidez a occasião
que se lhe offerecia de vencer a sua timidez, e de ter com a esplendida
_coquette_ essas longas conversações d'amor, que nunca ousaria encetar
se esse pretexto se lhe não proporcionasse. Mas a suave figura
d'Adelaide não deixára de lhe fazer impressão, e a tristeza que
principiava a ver na physionomia d'ella, á medida que os dias iam
correndo, sem que essa troca de olhares tivesse resultados, causára-lhe
um vago remorso. Parecia-lhe que essa formosa menina merecia mais do que
servir de pretexto á poesia, de que era outra o objecto verdadeiro;
parecia-lhe que elle commettia um crime, povoando de sonhos d'ouro
aquella juvenil imaginação, para depois só os esmagar com a massa brutal
do desdem.
Portanto aceitára a entrevista, como se acceita o calice d'amargura, que
um dever nobre e elevado nos impõe a obrigação de bebermos. Queria
fallar com Adelaide, confessar-lhe tudo, mostrar-lhe uma franqueza
tal, humilhar-se tanto, que, se não lhe podesse amortecer a dôr, lhe
lisongeasse pelo menos o amor-proprio e o impedisse de se ferir no
doloroso espinho, que lhe ia fazer brotar na tenra haste d'essa namorada
flor da phantasia. No mesmo dia da entrevista (era um domingo) entrava
elle n'uma egreja. Acabava a missa, e no templo solitario estavam apenas
duas mulheres, uma, elegante e airosa, parecia absorvida n'uma prece
fervente, a outra, que era uma criada velha, mostrava impaciencia
visivel de se retirar.
Finalmente a devota senhora ergueu-se, e os seus olhos encontraram os
olhos de Frederico, que reconheceu com espanto a mulher, cuja imagem o
perseguia como um remorso. Estava pallida, os olhos azues languidos e
tristes denunciavam lagrimas enxutas de pouco. Fitou um longo olhar em
Frederico; este pallido e trémulo curvou-se respeitosamente, levando a
mão ao coração, como se uma dôr subita o ferisse, e desviando os olhos
d'ella, affastou-se rapidamente.
N'essa noite, como vimos, estava elle á porta do jardim. Entrou, e,
apenas dera dez passos n'uma pequena alameda, encontrou um vulto
feminino, que se dirigia vagarosamente para casa. Á luz do candieiro de
gaz, que illuminava uma pequena porção da alameda, os dois
reconheceram-se. Adelaide recuou um passo, e soltou um pequeno grito.
--O senhor aqui! bradou ella com voz que debalde procurava tornar firme
e austera. Ah! percebo, continuou ella como que ferida por uma idéa, e
desatando a chorar, julga talvez que sou uma d'essas mulheres levianas,
com as quaes basta empregar a audacia...
Não pôde dizer mais. Os soluços suffocaram-a. Audacia! Era a primeira
vez que Frederico ouvia uma mulher dirigir-lhe similhante accusação.
--Oh! juro-lhe que se engana, exclamou elle caindo-lhe aos pés e não
reparando até no incomprehensivel espanto d'essa mulher, que, segundo
elle julgava, fôra a primeira a conceder-lhe um _rendez-vous_, a ninguem
n'este mundo merece mais respeito. Sou culpado, bem o sei, mas tudo vou
resgatar com a minha franqueza extrema e sem limites.
Adelaide não o ouvia; pendia-lhe desfallecida nos braços; não ousamos
dizer que fosse completamente involuntario esse desfalecimento.
Frederico, consternado, olhou em torno de si, e vio um banco ao fundo da
alameda. Segurando com o braço na cintura de Adelaide, foi-a levando
para esse lado.
Adelaide caiu sentada no banco, e escondeu o rosto entre as mãos.
Frederico ficou silencioso junto d'ella. Sentia d'elle uma desconhecida
perturbação. Aquelle encontro inesperado, a solidão e a noute, o perfume
das flores, combinado com essas vagas e voluptuosas emanações das noites
d'estio, esse vulto flexivel e airoso de mulher que lhe pendera nos
braços, tudo isso, sobrevindo d'um modo tão imprevisto, o enebriava e
entontecia.
Vendo aquella mulher tão linda, com o rosto banhado de lagrimas, o animo
desfalleceu-lhe; como havia elle de dizer a essa creatura do ceu, quando
estava elle mesmo sujeito ao indizivel magnetismo, á fascinação do seu
olhar, como havia elle de lhe dizer: «Illudi-a, sacrifiquei-a a uma
_coquette_, fiz do seu vulto gracioso e angelico, anteparo, que me
resguardasse do fogo d'uns olhos audazes, que me fascinavam e me
queimavam?»
Impossivel! completamente impossivel!
Por isso Frederico pôde apenas balbuciar:
--Perdoa-me?...
Ella abaixou para elle os olhos, em que atravez das lagrimas
transparecia um amor immenso, e com voz suave, tremente, doce e
suavissima, como vibração longiqua d'harpa eolia, murmurou:
--Perdoar-lhe! como lhe não hei de perdoar, se por este momento anciava,
se o meu desejo era vel-o ahi onde está, e ouvir a sua voz? Oh! meu Deus
bem sei que me vae julgar mal, bem sei que o devia repellir, que devia
estranhar o seu proceder? Que quer? Não tenho animo. Ha tanto tempo que
a ventura me foge, que não posso fugir-lhe agora que ella me surge de
subito! Depois eu sei que é cavalheiro, sei que me ama, li-o no seu
olhar, e esse livro mysterioso para nós outras mulheres não tem
segredos. Confio na sua honra, e sequiosa ha tanto d'esta suprema
felicidade, ouso dizer-lhe: «Obrigada por ter vindo, obrigada por
ter prevenido o meu secreto desejo, obrigada por ter lido nas minhas
faces pallidas, nos meus olhos amortecidos a anciedade que me devorava,
por ter adivinhado que morria longe de si, como a flor, a que falta o
orvalho, como a arvore a que falta o sol.»
Frederico, arrastado por esta eloquencia ardente, fascinadora, auxiliada
por uma indescriptivel melodia de voz, pelos murmurios dulcissimos do
jardim, sentia abrazar-se-lhe a imaginação, e o vulto de Lucinda, que
por momentos fluctuava diante d'elle, esvaía-se ao longe como um sonho
ao romper da alvorada, e as palavras d'ella, que primeiro se haviam
interposto ao seu ouvido, e á voz d'Adelaide, pareciam-lhe agora tão
frias e descoradas, comparando-as com essas phrases vehementes, que lhe
iam ferir o coração, porque do coração partiam!...
--Minha senhora... balbuciou elle.
--Oh! chame-me Adelaide, tornou ella, apertando-lhe as mãos com impeto
febril, e diga-me o seu nome para que os meus sonhos o saibam, e mo
venham repetir á noite, depois de eu adormecer balbuciando-o.
--Adelaide, que me enlouquece, bradou o mancebo com a cabeça em fogo.
--O seu nome, o seu nome!
--Frederico! murmurou elle e tão proximo d'ella, que os labios
d'Adelaide pareceram aspirar essa palavra, assim que saiu da bocca do
seu amado, como se temesse que a surprehendesse a brisa.
As arvores meneavam as suas folhudas copas impellidas pelo sopro da
viração; a luz das estrellas tremia no ceu azul, e os seus pallidos
raios, coando-se por entre os ramos, illuminavam frouxamente a alva
fronte de Adelaide.
Subito soou um grito de mulher ancioso e dilacerante.
Frederico levantou-se d'um impeto, e correu para o sitio d'onde partia o
brado; na escuridão topou um homem que fugia, estendeu as mãos e
afferrou-se-lhe ao pescoço.
O resto sabem-n'o os leitores.
.........................................................................
D. Marianna, que, sentada no sophá, vestida, enfeitada, e collocada
na sombra, debalde esperava a promettida visita, correu ao jardim,
ouvindo o grito, e já lá encontrou os criados.
Viu então o ladrão das gallinhas fugir por cima do muro, deixando os
seus despojos no campo de batalha, Frederico empunhando os volateis, e
junto d'elle Adelaide.
A tia ficou fula de colera, notando que sua sobrinha estava n'um
_rendez-vous_, emquanto ella esperava debalde o seu. Era possivel mesmo
que os dois não fizessem senão um.
--O que é isto? bradou ella. A menina com um homem no quintal!
--Minha senhora, disse Frederico abandonando as gallinhas, confesso que
fomos culpados occultando a v. ex.ª os nossos amores, mas estamos a
tempo de reparar essa culpa, porque tenho a honra de pedir a v. ex.ª a
mão de sua sobrinha.
--O logar é improprio bastante, respondeu seccamente D. Marianna, queira
portanto sair. E a menina recolha-se ao seu quarto e seja mais prudente.
Debalde a pobre tia pedia explicações a Lucinda. Esta furiosa
declarou-lhe que nada percebia, e no dia seguinte retirou-se para sua casa.
D'ahi a quinze dias recebia uma carta de Adelaide, a qual, como podem
suppôr, ignorava tudo o que se passára.
A carta dizia o seguinte:
«Minha boa amiga.
«Caso-me daqui a um mez. Não podes imaginar como sou feliz. Quero fallar
comtigo muito, muito e muito.»
Lucinda rasgou a carta, e pizou-a aos pés com lagrimas de raiva. Ao
outro dia tanto instou com seu pae, tão doente disse que estava que o
resolveu, apesar da extrema repugnancia da sr.ª D. Leocadia em deixar
Lisboa, a irem passar o resto do verão n'uma quinta que possuiam no
Ribatejo.
FIM
UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO
UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO
I
Estou embirrando solemnemente com o titulo do meu romance. Um melodrama
em Santo Thyrso, n'uma terra pacifica e bem morigerada, cujos habitantes
mais notaveis pela sua respeitabilidade, lêem o _Flos Sanctorum_, e
suspiram pelo tempo dos frades, d'esses incançaveis moralisadores e
bemfeitores da população!
Eu podia inventar um enredo terrivel, e tornar editores responsaveis das
peripecias mais criminosas do meu entrecho, alguns habitantes de quem eu
tivesse tido razão de queixa, quando estive em Santo Thyrso (porque eu
estive em Santo Thyrso, oh! patricios alfacinhas) mas n'aquella boa
terra não fui offendido senão pelas pulgas da estalagem, e, a respeito
de pulgas, nem mesmo as industriosas são proprias para personagens de
melodrama.
Mas eu não quero inventar, quero apenas ser chronista da muito veridica
historia (chavão infallivel) que passo a contar a quem tiver paciencia
de me ler, e declaro desde já aos Santo Thyrsenses, que, se os factos,
que historio, teem uma apparencia melodramatica, a culpa não é minha...
é dos acontecimentos.
Anoitecia; a tarde, apesar do outono ir já adiantado (a acção do meu
romance passa-se em novembro), tinha estado linda, e até mesmo quente;
mas ao pôr do sol levantára-se um vento fino e glacial que ameaçára os
prudentes frequentadores da botica com um diluvio de catarrhos e
constipações, e os narizes dos veneraveis minhotos, victimas d'um abuso
de confiança atmospherico, tinham obrigado os seus donos a procurarem um
abrigo nos lares domésticos, para não apanharem o ar humido da noite,
quando, segundo o seu costume, abandonassem o gamão, para voltarem para
casa a horas mortas.
A horas mortas?! Sim, não posso deixar de confessar que a perversão dos
costumes tinha chegado a Santo Thyrso! Uma roda de jovens extravagantes,
todos de menos de sessenta annos de edade, haviam instituido, com grave
escandalo das pessoas sérias, o costume de se recolherem ás dez horas!!!
Ás dez horas! Ás dez horas, raça degenerada! Quando, no quintal
fronteiro á botica, as gallinhas se recolhiam á capoeira, não vos
parecia ver passar d'envolta com ellas as sombras venerandas dos vossos
avós, aconselhando-vos o regresso a casa?! Netos degenerados, as cinzas
dos vossos antepassados tremem de indignação, não vos sentindo ressonar
ás oito horas da noite... Horror!
Fataes consequencias do progresso! E por toda a parte vae lavrando este
contagio funesto. Tudo está impregnado de immoralidade; a litteratura
mesmo está viciada. Ó adoradores do passado, compadecei-vos de nós!
Actualmente lêem-se os romances de Alexandre Dumas, filho. No vosso
tempo lia-se o _Cavalheiro de Faublas_, e a _Justina_ do marquez de
Sade. Ó tempos felizes d'outr'ora! Ó moral das passadas éras!
Começo eu a perder-me em digressões. É um defeito, que confesso
humildemente; prometto emendar-me d'elle, e vou entrar immediatamente na
minha narração.
Começava pois a anoitecer, quando á porta de uma das melhores casas de
Santo Thyrso um moço e esbelto official de caçadores se apeava de um
cavallo, que mereceria uma descripção especial, se o meu protesto de me
deixar de digressões não fosse ainda tão recente. Basta dizer-se que o
sendeiro de Nicolau Tolentino era um prodigio d'obesidade, comparado com
o ente (rebelde a toda a classificação zoologica), em que vinha montado
o nosso joven official.
A casa, junto á qual tinha parado o intrepido rocinante d'aquelle D.
Quixote arregimentado, tinha uma apparencia seductora para um lisboeta
desterrado na provincia. Via-se que o proprietario attendera ás
condições de elegancia e conforto, quando mandou construir a casa. Duas
senhoras novas ainda, soffrivelmente feias, um tanto pardas, e ambas de
luneta, adornavam ou desadornavam uma das sacadas. Os sons d'um
piano desafinado, (como qualquer piano d'um terceiro andar da baixa, e
tocado com a mestria com que o poderia tocar em Lisboa a menina da casa,
filha d'um negociante rico, em funcção de annos com enthusiasticos
applausos dos convidados... se o serviço ao chá foi bom) chegaram aos
ouvidos do official de caçadores, e vieram demonstrar-lhe que os
instinctos phildesharmonicos da nova geração feminina se revelavam em
Santo Thyrso com tanto vigor, como na terra das alfaces.
O nosso lisboeta (o rapaz effectivamente era de Lisboa) comprimentou
aquelles dois exemplares do sexo feminino, tirados em papel pardo, e
perguntou:
--V. ex.as teem a bondade de me dizer se mora aqui o sr. Bernardo da
Fonseca Guimarães, antigo negociante?
--Sim, senhor, respondeu uma das interpelladas, é meu pae.
--N'esse caso tem a bondade de lhe dizer que lhe trago uma carta do seu
amigo de Lisboa o sr. Antonio Ricardo de Sousa.
--Ó _paesinho_, tornou a rapariga, voltando-se para dentro, está
aqui um senhor official, que o procura.
--Manda subir, Adelaide.
Ao mesmo tempo abriu-se a porta, e o nosso amigo, depois de ter atado á
aldrava a redea do rocinante (o arrieiro chamava-lhe redea, com o mesmo
direito com que o governo chama barão a um lapuz opulento), subiu a
escada, no patamar da qual encontrou o nosso Bernardo Guimarães, em
chinellos de moiro, na mão um barrete conico, em fórma de apagador, e
prompto a receber diplomaticamente a visita inesperada.
--_Antão bossenhoria_ traz-me uma carta do meu amigo Antonio Ricardo?
Ora pois, muito estimo, muito estimo. Como está aquelle maganão?
--Menos mal!
--Elle d'antes padecia muito de callos!
--Ainda hoje.
--Ora bom, entre aqui para a sala... como se chama _bossenhoria_? Quero
apresental-o a minhas filhas, a quem dei uma educação, que não a teem
melhor as fidalgas de Lisboa! Como é a sua graça?
--Eduardo Augusto d'Almeida Teixeira.
--Vá entrando, vá entrando que eu vou ler a carta do meu Antonio Ricardo.
Eduardo Teixeira entrou na sala, e achou-se em frente das duas pardas,
que já tinha visto, e d'uma terceira, que estava sentada ao piano,
bonita fallando em absoluto, e formosissima comparando-a com as outras.
Lindos olhos pretos rasgados, um pouco morena, grande a bocca, mas não
muito desgraciosa,--tal é o retrato da desalmada pianista.
Eduardo comprimentou-as; ellas responderam com um comprimento
ceremonioso, e ficaram todos em silencio.
As raparigas olhavam para Eduardo, como olhariam para um objecto de
curiosidade; e o nosso alfacinha, que não gostava de ser contemplado
como se fosse um macaco de especie rarissima, ou um embaixador japonez,
entendeu que devia sair d'aquella posição embaraçosa, lançando mão da
primeira banalidade, que lhe occorresse. Lembrou-se que ao subir a
escada tinha ouvido o _La dona é mobile_ desfigurado com a maior bulha
possivel pela pianista provinciana.
Foi uma idéa salvadora! Eduardo, por conseguinte, puxou os punhos da
camisa, torceu o bigode com toda a affabilidade, tossiu agradavelmente,
esboçou no sorriso o prologo de uma fineza, e disse com o tom mais
mellifluo que pôde encontrar:
--Minha senhora, eu assim que entrei n'esta casa, tive uma surpresa
muito agradavel.
--Sim, então qual foi? tornou a martyrisadora de Verdi.
--Ouvi tocar admiravelmente no piano um trecho do _Rigoletto_.
As tres meninas olharam umas para as outras boquiabertas. Finalmente a
pianista desfez provisoriamente o ponto d'admiração em que tinha
transformado a cara, e exclamou:
--É espantoso! Como conheceu!
--Mas, minha senhora... observou Eduardo.
--Não admira, é de Lisboa, interrompeu uma das pardas.
--Mas, minha senhora... acudiu o lisboeta.
--Frequenta muito o theatro lyrico, tornou a parda n.º 2.
--Mas, minha senhora... continuou Eduardo já atterrado por aquella
insistencia.
--Oh! o theatro lyrico, acudia a pianista em tom inspirado, e
arregalando muito os olhos, o sanctuario do prazer. Como deve ser bello!
Vio a Lotti, sr. alferes? Tem ouvido o _Rigoletto_? Como elle conheceu!
Eduardo escandalisou-se; o espantarem-se de que elle conhecesse _La dona
é mobile_ era a maior offensa que se podia fazer aos seus conhecimentos
musicaes, por isso não poude deixar de responder:
--Mas, minha senhora, em Lisboa não ha um só gaiato, que não conheça
este trecho.
--Ah! é vulgar!
--Sim, minha senhora, é do dominio do realejo.
N'este momento entrava na sala o sr. Bernardo Guimarães. Vinha com uma
cara prazenteira, oculos no nariz, e sorvendo com delicia uma pitada de
simonte.
--_Antão_ já se conhecem, bradou elle, olhem que este senhor é afilhado
do nosso Antonio Ricardo. _Antão_ está agora em caçadores 7, e tem
licença de um mez? Anda a ver o nosso Minho. Isto para quem vem de
Lisboa, não tem que ver.
--Ora se tem, sr. Guimarães! é um torrão abençoado. Que deliciosas
paisagens, que magnificos panoramas! É realmente uma provincia muito
pittoresca, e muito curiosa até pelas suas recordações historicas.
Guimarães possue reliquias archeologicas importantissimas, e é pena que
as não saibam avaliar devidamente, e que profanem os venerandos
monumentos do berço da monarchia, sarapintando de verde e azul, por
exemplo, a pia do baptismo de D. Affonso Henrique.
--Ora, não me venha com lerias. Os conegos fizeram muito bem. Estava a
pia suja, que mettia medo, e envergonhava a collegiada. Ha mais tempo
que o deviam ter feito. Vejam como agora está bonita. Ninguem ha de
dizer que tem oitocentos annos a tal pia. Vão lá adivinhal-o. Agora nem
o mais pintado.
E o bom do negociante confirmava a sua dissertação artistica com o silvo
estrondoso d'uma pitada.
--_Bossenhoria_ agora fica comnosco alguns dias, tenha paciencia. Hei de
lhe dar agua da fonte da Maria Velha, que tem a virtude de fazer que
quem a bebe só com muito custo saia de Santo Thyrso. Já tem um quarto
preparado, vá descançar um pouco, depois ceia comnosco ás sete horas,
sem ceremonia, sem ceremonia.
--Ó _paesinho_, observou a mais bonita das filhas, este senhor póde ser
que esteja costumado a tomar chá e _tostas_, veja lá não lhe faça mal
ceiar.
--Oh! não, minha senhora, muitissimo obrigado; o meu estômago é d'uma
flexibilidade espantosa, presta-se a todos os usos gastronomicos das
differentes terras. Isto para um militar é essencial.
--Bem dito, bem dito, tornou o sr. Bernardo, até d'aqui a pedaço, hein?
--Até já, minhas senhoras; um creado de vv. ex.as
E Eduardo Teixeira saiu da sala, guiado pelo seu hospedeiro.
II
Vamos nós, amigo leitor, assistir á ceia do sr. Bernardo Guimarães. O
digno negociante não se deve zangar comnosco; eu pelo menos vou com o
proposito firme de não lhe acceitar cousa alguma; porque ao amaldiçoado
caldo verde, e ao detestavel vinho verde tenho um odio particular. Venho
simplesmente, como grande curioso que sou, espreitar o aspecto da mesa,
e ver se pesco a conversa dos convivas, que deve estar interessante.
Ao pé do respeitavel sr. Bernardo, está sentado o nosso alferes de
caçadores, a cair de somno, segundo parece; porque as palpebras
cerram-se-lhe a miudo, e os bocejos, apesar dos esforços incriveis que
faz para os reprimir, tornam-se cada vez mais frequentes.
Á esquerda do nosso Eduardo Teixeira senta-se a veneranda metade do
venerando Bernardo. Cincoenta vezes tem florido a amendoeira desde, que
Santo Thyrso teve a gloria de produzir um dos mais feios especimens da
fealdade humana. Apesar d'isso, rosnavam os maldizentes que um certo
mestre de meninos da villa se encarregára do papel de Cyrineu, que
ajudasse o sr. Bernardo a levar aquella cruz desdentada ao Calvario
matrimonial. Linguas damnadas, que não poupam nem a virtude... nem os
mestres de meninos.
Defronte estava sentado o sobredito sr. Themudo (que este era o nome do
chichisbéo) homem rubicundo, e de proporções herculeas, capaz de levar
trinta cruzes, principalmente carunchosas como aquella, ao Golgotha mais
elevado.
Este senhor estava flanqueado pelas tres meninas da casa, e felizmente
para o equilibrio gastronomico, ficava elle d'esse lado da mesa, porque
as filhas do negociante, donzellas vaporosas e ideaes, achavam feio
comer diante de gente; mas o nosso amigo tratava com muito cuidado do
seu estomago, do coração de D. Belizaria Guimarães, e da cabeça do
ex-negociante, porque comia como quatro, deitava olhos ternos á
respeitavel matrona, e aconselhava o uso do chinó ao marido, que se
queixava de frequentes constipações na cabeça.