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ASTUCIAS DE NAMORADA
E
UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO
ASTUCIAS
DE
NAMORADA
E
Um melodrama em Santo Thyrso
ORIGINAL
DE
M. PINHEIRO CHAGAS
LISBOA
TYPOGRAPHIA PROGRESSO
40--Rua do Alecrim--40
1873
PROLOGO
Este livro é um livro de verão. Fez-se para ser lido á sombra de uma
arvore copada, á hora do meio dia, quando póde prestar-se apenas á
leitura uma vaga attenção, e quando portanto se querem livros de enredo
ligeiro e risonho, que nem resolvam problemas, nem arripiem os nervos.
As _Astucias de Namorada_ estão escriptas ha largo tempo. As aventuras
do seu manuscripto davam assumpto a outro romance; Teem de curioso o ser
o seu entrecho baseado sobre um facto succedido realmente em Lisboa. Ha
de haver leitores que o taxem de inverosimil, pois saibam que é
verdadeiro. Mais uma vez tem razão Boileau
_Le vrai peut quelquefois n'etre pas vraisemblable._
O romance que fecha o volume, e que se intitula _Um melodrama em Santo
Thyrso_, ponho-o aqui a titulo de curiosidade archeologica. Foi a minha
estreia no jornalismo. Fundára-se a _Gazeta de Portugal_. Eu tinha
conhecimento pessoal do seu proprietario, Teixeira de Vasconcellos.
Procurei-o para lhe lêr o romance. Elle ia sair.
--Deixe-me vêr alguma coisa que lhe pareça melhor, disse-me elle.
Li-lhe tremendo a scena em que Eduardo descreve as physionomias dos
litteratos lisbonenses; Teixeira de Vasconcellos rio-se, e tirou-me das
mãos o manuscripto.
--_Il y a quelque chose lá_, continuou elle, isto para estreia basta. O
seu romance ha de ser publicado.
E foi. Estava eu baptisado folhetinista.
Hoje, relendo o romance, sorrio-me das ingenuidades do principiante, e,
para conseguir desculpa do leitor, vejo que não tenho remedio senão
dizer-lhe retrospectivamente com Alfredo de Musset
_Surtout considérez, illustres seigneuries
Comme l'auteur est jeune, et c'est son premier pas._
PINHEIRO CHAGAS
ASTUCIAS DE NAMORADA
I
Havia baile, ou antes sarau dançante, n'uma casa em Almada.
N'um pequeno jardim, que se espraiava até a beira dos rochedos
pendurados sobre o rio, vinham os grupos dos convidados descançar um
pouco das polkas e das valsas, respirar, e relancear os olhos pelo
delicioso panorama do Tejo, em cujas aguas traçava a lua como que uma
estrada argentea. De quando em quando enchia-se o jardim de risos, de
segredinhos; a lua illuminava por entre as folhas roupas alvejantes,
que passavam fluctuando como o véo dos sylphos; depois pelas janellas
abertas da sala saía uma bafagem de harmonia, proveniente dos primeiros
compassos d'uns lanceiros, os grupos dispersavam-se e engolphavam-se em
turbilhão pelas portas de vidraças, e o jardim ficava de novo solitario,
mas não silencioso; porque n'elle se escutava o rumorejar da brisa, o
echo da musica do baile, e o murmurio do rio que gemia docemente em
baixo nas fragas.
N'um dos intervallos das polkas, e quando o jardim se povoava de novo
com os fugitivos do baile, um par, mais fatigado talvez que os outros,
veio sentar-se n'uma especie de caramanchão, que ficava na extremidade
do jardim, mais proximo da orla do rochedo, e por conseguinte quasi
suspenso, como um ninho de gaivotas, sobre as aguas. Devo rectificar o
que disse; não foram ambas as pessoas indispensaveis para formarem um
par, não foram ambas as pessoas, que se sentaram; só o fez uma senhora
de vinte e cinco annos talvez, alta, elegante, morena e viva, de olhos
rasgados e cabellos negros, que scintillavam como o ébano á luz
brilhante da lua cheia.
O cavalheiro ficou de pé, apesar de sua gentil companheira lhe ter
visivelmente proporcionado um logar junto de si, como se podia deduzir do
modo como aconchegou o vestido, fazendo occupar á crinoline o menos espaço
possivel; mas essas piedosas intenções foram perdidas, porque o seu
braceiro não ousou percebel-as, e conservou-se, como dissemos, em pé, ainda
que os seus olhos ardentes, cravados no rosto da sua companheira, quando
esta o não podia ver, denunciavam que não era a indifferença que o impedia
de aproveitar o favor que se lhe queria conceder.
E comtudo esse timido moço estava na idade em que esses favores se
ambicionam com mais ardor do que aos trinta e cinco annos a pasta de
ministro, estava na idade em que se devaneiam escadas de seda fluctuando
ao sopro das auras, serenatas interrompidas por um amante cioso, amores
aventurosos, mil perigos a atravessar para se obter um sorriso, uma
flor, uma palavra, na idade feliz em que se inveja Leandro só ao pensar
quantas vezes se teria accendido o pharol de Hero antes da terrivel
noite, em que a morte, _envolta em horrendas vagas_, segundo a admiravel
expressão de Bocage, arrojou um cadaver livido aos pés da torre, em
que ainda não expirára o echo dos beijos da antecedente noite.
E o timido rapaz alisava a luva branca, e procurava com frenesi uma
palavra qualquer, que lhe não occorria em presença d'essa formosa
senhora, cujos pés desejava beijar; e pensava que immensa felicidade não
seria a sua, se em vez de estar sem animo, embaraçado e vermelho, diante
d'ella, estivesse na outra margem do Tejo, e tivesse que o atravessar a
nado para cair offegante e exanime junto d'esse adorado vulto. Então não
seria necessario fallar; a sua pallidez, os seus olhos cheios d'amor
diriam tudo, e muito infeliz seria, se a nova Hero, vendo-o ensopado por
causa d'ella, lhe não dissesse alguma cousa que lhe desembaraçasse a
lingua, e partisse o gelo, que se interpunha obstinadamente a dois
corações, que anciavam por se unir.
A gentil senhora esteve um instante olhando para elle com um sorriso
meio despeitado, meio zombeteiro, e afinal, vendo que a malfadada luva
branca ainda não parecia sufficientemente alisada, meneou a cabeça com
um gesto encantador, que fez ondular as suas tranças negras, e que
espalhou na atmosphera um aroma inebriante, aspirado com delicias pelo
timido moço. Depois voltou os olhos para o rio, encostou a face á mão
enluvada, e ficou-se a contemplar esse quadro magnifico.
A noite estava linda, uma d'estas noites de luar, como o calido estio as
envia aos paizes meridionaes. No céu d'um azul suavissimo, algumas
nuvens, volteando em torno da lua, recortadas em mil arabescos pela
brisa nocturna, embebidas todas no candido fulgor do astro da noite,
pareciam as maravilhosas rendas do véu luminoso que Phebe arrasta pelo
firmamento, em noites assim languidas e serenas. O Tejo desenrolava a
sua immensa toalha liquida, prateada no centro pelo luar, e negra junto
do caes, ou á sombra dos mastros dos navios immoveis nos ancoradoiros.
Ao longe Lisboa avultava, espraiando a sua casaria á beira do rio, e
pelas faldas das suas sete collinas. As longas fileiras dos seus
candieiros de gaz formavam á borda do Tejo como que uma fita de chammas.
Alguns barcos de pescadores deslisavam silenciosamente, soltando ao
sopro da brisa as suas velas brancas. Este panorama, que só tem rivaes
na bahia de Napoles ou na enseada de Constantinopla, devia fascinar quem
o contemplasse, como a gentil senhora em quem fallamos, do caramanchão
d'um jardim, cheio de arvores, onde expiravam os ultimos echos d'uma
valsa, onde o luar, coando-se por entre as folhas, luctava com os
luminosos reflexos, que dimanavam dos lustres, scintillando nas salas.
Parecia ella effectivamente toda absorvida na sua contemplação, quando a
voz tremula e profundamente commovida do seu joven companheiro a fez
estremecer.
Essa voz, toda vibrante de paixão, dizia simplesmente estas palavras:
--Que... linda... noite!
--Lindissima, não é? respondeu ella, voltando para o seu interlocutor o
rosto ainda encostado na mão, o que lhe permittiu erguer os olhos para
elle sem levantar a face, dando assim ás pupillas uma expressão
voluptuosa, que encerra um encanto irresistivel, um magnetismo
fascinador... Como que parecem fluctuar na atmosphera todos os sonhos
dos poetas! Sabe no que eu pensava agora, vendo aquelle bote, que
resvala á flor das aguas, como um cysne da noite? Pensava se seria esse
o barco de Lamartine, e se levaria tambem dois amantes, que fossem
murmurando um ao outro, com as mãos enlaçadas, as doces palavras que
tanto nos encantam, quando o auctor do _Lago_ as traduz na melodiosa
linguagem da sua poesia.
--Ah! bem sei, respondeu o desastrado:
_Ainsi toujours poussés vers de nouveaux rivages..._
--Oh! meu Deus, tornou a senhora visivelmente impacientada, conheço os
versos, mas, como não quero prival-o do praser de os recitar, peço-lhe
que me acompanhe á sala, e permitto-lhe depois que venha de novo confiar
á lua e ao Tejo as inspirações de Lamartine.
E a formosa menina, rubra de despeito, levantou-se, e tomou o braço do
seu interlocutor, que ficára fulminado por aquella inesperada
apostrophe, e que debalde tentava balbuciar umas palavras sem nexo.
Frederico era um moço esbelto de vinte e dois para vinte e trez annos,
d'uma gentileza verdadeiramente notavel, d'um espirito intelligente e
cultivado, d'uma bondade proverbial, mas tambem d'uma timidez
invencivel. D. Lucinda, a gentil senhora que entra n'este momento na
sala, podera apreciar as brilhantes qualidades de Frederico, ouvindo-o
conversar desembaraçadamente em uma reunião intima, onde o seu
acanhamento não tivera motivo para se revelar. Deslumbrada por esse
esplendido conjuncto de predicados, Lucinda tentára fixar a attenção do
gentil moço, e a _coquette_ conseguira-o em breve, mas, quando se
tratára de dar o passo decisivo, manifestára-se toda a timidez do
espirito virginal de Frederico. Era o seu primeiro amor, e só os tolos
conseguem atravessar affoitamente essas columnas d'Hercules. Lucinda,
experimentada n'essas questões, comprehendera primeiramente o embaraço
do mancebo, e, lisongeando-se com isso, entendera tambem que o devia
auxiliar. Mas o que animaria qualquer outro, acanhou ainda mais, se me
permittem o termo, a timidez desconfiada de Frederico. Se Lucinda fosse
uma timida menina, que córasse como elle corava, que tremesse como
elle tremia, os olhos d'ambos fallariam tanto, as palpebras mesmo,
abaixando-se a um tempo, teriam uma linguagem tão eloquente, que afinal
os labios ver-se-hiam obrigados a traduzir em palavras esse mudo idioma.
Porém, como podia succeder semelhante cousa, se o olhar ardente de
Lucinda deslumbrava aquelle em quem se fitava, se a sua tranquilla
superioridade assustava Frederico, e o fazia tremer a cada instante, com
o receio de desempenhar o papel de criança ridicula diante d'essa
esplendida mulher?!
O ridiculo, que espera nos dois extremos da estrada da vida tanto os que
avançam como fanfarrões, como os que recuam com demasiada fraquesa,
assustando Frederico que temia vel-o diante de si, assaltava-o quando
elle para lhe fugir retrogradava sem ter animo para obedecer ao férvido
olhar, que lhe dizia: «Ávante.» O pobre rapaz, vendo assim de subito
desfeitos em pó os seus planos estrategicos, preferiria um abysmo
abrindo-se-lhe debaixo dos pés a ouvir as palavras friamente zombeteiras
de Lucinda.
Entretanto o baile findára, e os lisbonenses preparavam-se para
atravessar o Tejo. Frederico e a familia de Lucinda eram as unicas
pessoas, que tinham de emprehender essa excursão. Era pouco mais de uma
hora quando Lucinda e sua mãe pozeram as capas, e foram arrancar ás
delicias do whist o patriarcha da tribu, que saiu furioso de ter de se
embrulhar em dez mantas e de ter perdido dez _rob_ consecutivos,
Frederico, depois da scena do caramanchão, bem desejaria ficar, mas a
mãe de Lucinda, sabendo que era elle o unico dos cavalheiros presentes
que regressava a Lisboa, reclamou sem ceremonia o auxilio do seu braço
para descer a ingreme calçada. Assim, Frederico viu-se obrigado a pegar
no chapéu, e a seguir, supportando o peso da sua volumosa braceira, o
pae de Lucinda, que se apoderára d'esta para lhe explicar durante o
caminho as infernaes combinações que tinham dado em resultado a derrota
memoravel d'essa noute, verdadeiro Waterloo nos seus annaes de jogador
de whist.
As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao
caes de Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas
aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da escadaria. Bradou-se
pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando estes se
levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os
venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a
insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente
na dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao
relento nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o
seu bote. Não era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o
barco era vasto bastante para que todos coubessem. Frederico viu-se
obrigado a entrar e a sentar-se defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem
ousava levantar os olhos. Desfraldou-se a vela, e o barco resvalou
silenciosamente á flor das aguas.
Os dois velhos tinham-se sentado na popa do barco. O vento, sem ser
forte, era sufficiente para infunar a vela e para dar ao bote um leve
balanço, que foi suavemente acalentando os dois esposos. Estes
principiaram a bocejar alternadamente; depois foram deixando pender as
cabeças até que tocaram quasi nos joelhos. Levantaram-se a um tempo,
e olharam espantados, com os olhos meio abertos, para o céu azul. Depois
os olhos fecharam-se de todo, e os comprimentos recomeçaram. Pareciam
dois mandarins _d'étagére_. Frederico e Lucinda a custo soffreavam o
riso, e trocavam entre si olhares de intelligencia, que presagiavam uma
reconciliação. Os dois velhos resmungavam palavras inintelligiveis, e
recostavam a cabeça para traz, de fórma que a cabeça, em vez de lhes
descair de pôpa a prôa, descaia-lhes de bombordo a estibordo, e de
estibordo a bombordo, movimento bem combinado, que produziu um
abalroamento, que os despertou a ambos.
--Senhor Azevedo, bradou a matrona indignada, não tem vergonha de vir a
dormir no bote? Já me estragou as flores da cabeça.
--Senhora D. Leocadia, respondeu o velho com dignidade, veja se dorme
com mais cautella para não amarrotar o chapéu das pessoas, que vão
acordadas a scismar nos seus negocios.
Estas apostrophes promoveram a explosão das gargalhadas, já muito
reprimidas, de Frederico e de Lucinda. O velho mirou-os com espanto,
embrulhou-se mais na manta, encostou-se para traz e principiou a resonar.
--Este Azevedo sempre foi assim, disse a velha esposa fazendo côro com
os dois, dorme em toda a parte... Como elle resona!
E dizendo isto, a boa senhora olhou com despreso para seu marido, deixou
descahir a cabeça, e entrou no duetto resonando egualmente.
A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um
lado. Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de
Lucinda.
Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas.
Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a
sua placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da
antiga Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas
pela viração. Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma
fragata immovel; um bote de remos passou rente do barco onde iam os
nossos heroes. Os remos, sulcando a agua, erguendo-se e recaindo de
novo, pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o
matizava a lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas.
Um marinheiro, recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente
embebidos no firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas
cordas algumas d'essas melancholicas toadas das nossas canções
populares. Muito tempo a corda fremente da guitarra enviou de longe aos
ouvidos de Frederico e de Lucinda, a sua melodia toda impregnada n'uma
vaga tristeza, e expirou ao longe n'uns quebros de indizivel suavidade.
Frederico suspirou.
--Pensa nos seus amores? perguntou Lucinda sorrindo.
--Amores, balbuciou elle, como, se os não tenho?
--Não os tem? Quem não tem amores aos vinte e dois annos?
--Eu que sou um desherdado da fortuna, eu para quem a natureza, mãe
benefica de todos, sempre se tem mostrado implacavel madrasta, eu para
quem as flores não tem aroma, nem luz brilhante o sol, nem suavidade
melancholica o luar.
--Oh! meu Deus, exclamou Lucinda, quererá imitar esses Obermans da moda,
que se declaram scepticos, quando ainda não tiveram nem sequer uma
illusão, quanto mais as decepções que alardeiam?
--Não, minha senhora, tornou Frederico, tenho muitos ridiculos, mas
d'esse livrou-me Deus. Porém sou um d'estes entes malfadados, que nunca
ousam levar aos labios a taça que se lhes apresenta cheia a trasbordar;
uma d'essas abelhas, a quem as rosas mostram o calice entre-aberto, e
que volteiam em torno d'ellas, sem ousarem ir delibar o seu mel na
redoma fragante que se lhes apresenta. Sou como Rousseau, deitando as
cerejas no avental de mademoiselle Galley, sem ousar ver os labios mais
vermelhos do que os fructos, convidando-o e attrahindo-o. E o que fez
mademoiselle Galley ao desastrado philosopho? voltou-lhe as costas, e
foi zombar d'elle com as suas companheiras, deixando esse Tantalo d'amor
a amaldiçoar a sua falta de audacia. Esse riso argentino, que Rousseau
ouviu talvez trepado ainda na ceregeira, oiço-o eu a cada instante
nos labios, que poderiam matar com duas palavras meigas esta sêde que me
devora.
--E essas duas palavras ainda ninguem as proferio?
--Ninguem, respondeu Frederico suspirando.
--E com tudo, tornou Lucinda, conheço eu uma pessoa em cujos labios
ellas fermem.
--E quem é essa pessoa? perguntou elle ancioso.
Lucinda estacou. Decididamente o proprio selvagem Rousseau perceberia
melhor.
--Alguem, cujo nome lhe não posso dizer.
--Oh! diga ao menos a primeira letra.
Lucinda fez-se vermelha de colera, e mordeu os labios impaciente. Subito
uma idéa qualquer, travessa de certo, illuminou-lhe o espirito, porque
os labios, que mordera para occultar o despeito, mordeu-os afinal para
suffocar o riso. Depois respondeu com ar de mysteriosa confidencia:
--Diga-me; não passa frequentes vezes pela rua de...?
--Porque? perguntou Frederico espantado.
--E, levando os olhos baixos até ao meio do comprimento da rua, quando
chega a este ponto não os levanta instinctivamente, e não os crava n'uma
varanda onde não ha só flores nos vasos?
--Assevero-lhe, minha senhora... tornou Frederico estupefacto a mais não
poder ser.
--Oh! eu sou discreta.
--Juro-lhe...
--Não jure, mas prometta-me apenas uma cousa.
--Qual é?
--Escolher-me para confidente dos seus primeiros amores.
--Mas, minha senhora... bradou Frederico, desesperado por ver fugir-lhe
o momento que tanto ambicionára, e que julgára já tão proximo.
--Silencio, respondeu Lucinda pondo-lhe a mão alva e tepida no braço,
não vê que estamos em Lisboa?
Frederico não sabia se havia de beijar ou morder essa mão travessa, que
lhe approximava da boca a taça do philtro suave do amor, para lh'o
furtar depois aos labios calcinados. Afinal não fez nem uma nem outra
cousa.
Mas effectivamente estavam em Lisboa. Nas aguas negras do Tejo, aqui e
ali ainda prateadas por um raio da lua, que se insinuava por entre a
intrincada floresta dos mastros das embarcações, ondeava o reflexo
trémulo dos candieiros do gaz. Ao choque do barco parando de subito,
acordaram estremunhados os progenitores de Lucinda. Frederico ainda
esperava ao menos poder sentir o doce peso da gentil menina, ajudando-a
a saltar em terra. Mas a volumosa mamã offereceu-lhe o braço, e em medos
e tremores reteve-o tempo bastante, para que Lucinda, ligeira como uma
gazella, saltasse para o caes, poisando apenas ao de leve os dedos finos
e alvos no braço d'um dos remeiros.
Frederico despediu-se pouco amavelmente dos seus companheiros de viagem,
e teve vontade de mandar passeiar Lucinda, quando esta lhe disse ao ouvido:
--Não se esqueça do que prometteu.
É verdade que o pobre rapaz, voltando a cara com um gesto de amuo,
não poude ver o longo olhar, apenas levemente malicioso, com que Lucinda
o seguia.
II
Na vespera d'esse dia, em que se passára a scena que narrámos recebera
Lucinda d'uma sua amiga de collegio a seguinte carta:
Minha querida amiga
Que saudades eu tenho do nosso tempo de collegio! d'aquelles bons
serões, que passavamos juntas, quando todas já estavam adormecidas,
emquanto nós deixavamos divagar a nossa imaginação por todos os
assumptos, por todos os sonhos, por todas as phantasias d'este mundo!
como eu tenho impressa na memoria a tua palavra eloquente e colorida, e
a audacia com que tu, com a superioridade da tua intelligencia,
julgavas tudo e te arrojavas aos devaneios mais longos, chegando a
assustares-me a mim, pobre criança, timida e fragil, que não ousava
seguir-te nos teus vôos, e que ficava, pallida, vendo-te pairar por
esses espaços desconhecidos, e contemplando na chamma da tua pupilla um
reflexo do fogo intimo, que te devorava.
Creio que foi mesmo essa differença de genio, que tornou mais forte a
nossa ligação. Tu consagraste á pobre orphã a amizade protectora das
mães, eu tive por ti a veneração e os extremos de filha. Eras o roble e
eu o vime, ou antes a hera que me enroscava a ti.
Mais velha do que eu, saiste primeiro do collegio, e deixaste a pobre
criança, isolada no meio de companheiras com as quaes sempre me ligára
pouco. Ah! como o collegio então me pareceu triste e sombrio, como a
regente me pareceu insupportavel, como olhei com raiva e frenesi para os
altos muros do jardim, e que odio tive á hora do recreio, outr'ora tão
alegre, porque eu, fugindo ás brincadeiras das meninas mais novas, tu
ás frivolas conversações das da tua idade, procuravamo-nos uma á
outra, e passavamos horas infinitas a contarmos as nossas impressões, e
a explicarmos o sentido dos sonhos da nossa noite.
Depois, os meus dias de jubilo foram aquelles em que recebia as tuas
cartas; mettia-as no seio, e esperava com impaciencia a hora de descer
ao jardim para as poder ler á vontade, longe do frivolo ruido dos jogos
das educandas. Assim que resoavam na pendula as bemaventuradas
vibrações, ahi descia eu toda jubilosa a escada, e ia esconder-me
n'aquelle caramanchão tão nosso favorito, que ficava junto d'aquella
fresta gradeada por onde ás vezes espreitavamos os raros passeiantes que
atravessavam a nossa rua solitaria, tu achando sempre no teu espirito
fertil um epigramma para arrojares aos pobres homens que passavam sem
suspeitarem a rapida analyse a que n'um dado instante ficavam sujeitos,
eu rindo, como uma louca, das tuas chistosas malicias.
Ahi lia pois, as tuas cartas, d'ahi te seguia n'esse mundo que me
pintavas tão bello, como o espaço immenso assusta a avesinha apenas
emplumada, que lança a cabeça fóra do ninho, e que segue em parte
com inveja, em parte com receio os graciosos vôos que a mãe descreve nos
ares, para a convidar a seguil-a. Mas a fascinação do teu espirito
vencia, como sempre, os receios do meu, e ficava com a tua carta nas
mãos, pensando nos bailes, de que tu eras rainha, nos amores, que
volteiavam em torno de ti, como as borboletas em torno da luz, e a que
tu, incorrigivel _coquette_, te comprazias tanto em requeimar as azas.
D'ahi resultou que esperei anciosa, bem que timidamente, a minha saida
do collegio, e que os prismas das tuas cartas me fizeram sonhar um mundo
côr de rosa, que está bem longe, devo confessal-o, da realidade tal como
ella se me tem mostrado nos quinze dias que já passei fóra do ninho da
nossa infancia.
Effectivamente minha tia deu a minha educação por acabada, e levou-me
para a sua companhia, muito contra vontade, segundo me parece. Não
porque ella me não tenha affecto e pelo contrario; mas minha tia, optima
senhora no fundo, tem um terrivel sestro; aos cincoenta annos quer ainda
inspirar amor, e combate, com uma energia desesperada, as asserções
da sua certidão de baptismo. Ora, uma sobrinha de dezenove annos, filha
d'uma sua irmã mais nova, é um terrivel documento, que protesta contra
os cabellos d'um ébano artificial, e contra a rebocada lisura do rosto
de minha tia.
Ah! que vida vae ser a minha, se não acho meio de diminuir a minha
edade, e de usar de novo fato curto. Minha tia, que ainda aspira a
dançar com sufficiente ligeireza, e que não deseja entrar no numero das
supplentes das contradanças, que só se convidam quando falta algum par
para fazer a quadrilha completa, não me leva aos bailes, porque são, diz
ella, perigosos para as meninas da minha edade, e até comtigo mesma,
perdôa-lhe, minha boa amiga, se não quer relacionar, dando para isso
razões frivolas, mas sendo o verdadeiro motivo os teus vinte e cinco
annos que não podem ficar bem á amiga de collegio d'uma menina tão nova
como eu devo ser, segundo os seus calculos.
Aqui vivo, pois, n'esta casa da rua de... mais triste do que no
collegio, depois da tua partida, sem chegar uma unica vez á janella,
lendo, bordando, desenhando, ou conversando com o meu piano, emquanto
minha tia, preparada, enfeitada e auxiliada por todos os cosmesticos
imaginaveis, passa o tempo á janella, travando cem namoros por dia, e
apresentando, da altura do seu quarto no segundo andar, a cuja varanda
se colloca de preferencia, um rosto juvenil, que illude um ou outro
passeiante ocioso, que ande procurando pelas janellas quem lhe acceite
as homenagens.
O que me consola um pouco da minha vida insipida é um grande jardim,
cheio de sombra e de mysterio, de flores e de aromas, onde passo as
tardes, e onde muitas vezes me esqueço e me esquecem á noite, ficando eu
largas horas scismando ao luar, e deixando-me ás vezes surprehender
pelos primeiros clarões da alvorada.
Ahi tens a vida que eu passo, minha querida Lucinda; não achas que tenho
razão para me lembrar com saudades do collegio? Escreve-me tu ao menos,
já que minha tia se obstina em me ter reclusa, e em não me permittir
a doce consolação de te vêr e de te abraçar; escreve-me, porque só as
tuas cartas me ajudarão a supportar o fastio d'esta existencia.
Tua boa amiga
Adelaide.
Comparem os leitores o que n'esta carta se diz com as indicações dadas a
Frederico por Lucinda, e perceberão qual era a travêssa idéa da
maliciosa rapariga.
III
Renunciemos a descrever o despeito de Frederico, quando teve uma prova
da completa indifferença de Lucinda no desprendimento com que ella se
fazia interprete d'um outro amor. Depois folgou de ter encontrado um
pretexto para desculpar comsigo mesmo a sua desastrada timidez, e
louvou-se de não ter avançado a ponto de se vêr collocado n'uma posição
ridicula com pessoa que a aproveitaria com tão boa vontade. A todos
estes sentimentos, que primeiro lhe tumultuaram no cerebro, succedeu o
amor proprio offendido, «Pois que! dizia elle, é de marmore esta mulher?
Está junto de mim n'aquella noite voluptuosa, toda impregnada de
languidas emanações, de vagos murmurios, de maviosissimos fulgores,
sente a minha respiração abrazada, crava os seus olhos nos meus, aperta
as minhas mãos trementes, deixa-se embalar commigo, commigo como uma
creoula na rede, pelo movimento lascivo das ondasinhas do Tejo, e nada
d'isso a commove, e lhe faz perder por um instante ao menos, os seus
habitos de _coquetterie_? A propria Leonora Falconieri de Feuillet
sentiria uma vaga impressão amorosa n'aquelle bote que resvalava ao lume
d'agua, todo banhado de luar, abrindo no rio um sulco phosphorescente, e
Lucinda, depois de me ter abrazado toda a noite com o fogo infernal das
suas pupillas, acaba por me fazer friamente a confidencia do amor d'uma
das suas amigas? Oh! _coquette_.
«Pois bem, continuava elle, hei de lhe fazer a vontade, hei de namorar
essa mulher desconhecida, e será Lucinda a minha confidente? Oh! então,
quando não tiver o receio do ridiculo que accommette um pretendente
desastrado, então serei audacioso, então fallarei com eloquencia, então,
far-lhe-hei sentir bem tudo o que ella perdeu, tortural-a-hei se não
com os espinhos do ciume, pelo menos com os da vaidade ferida,
triumpharei... e talvez conseguirei d'essa fórma attrahil-a e
fascinal-a, como ella me fascinou a mim.»
E o modesto moço, acabando este longo monologo, vestiu-se, alindou-se, e
saiu com uns modos conquistadores, para passar pela rua de...
Logo no principio da rua elle ergueu a cabeça, e principiou a revistar
as janellas; o coração pulsava-lhe com violencia, mas animou-se com a
idéa de que se não veria obrigado a dizer uma só palavra, e um olhar não
era cousa que muito custasse á sua timidez rebelde.
Effectivamente no sitio designado estava uma senhora á janella.
Frederico fitou os olhos n'ella, e achou-a linda, apesar da distancia ou
por causa d'ella; voltou a cabeça depois de passar, e encontrou de novo
os olhos da galante menina, que logo os desviou o mais depressa que
pôde, mas sem que podesse evitar o ter sido surprehendida em flagrante
delicto. Frederico affastou-se triumphantemente.
Uns poucos de dias se repetio esta manobra, sem que Frederico ousasse
passar d'essas demonstrações visuaes, mas continuando com intrepidez o
seu passeio diario. Afinal chegou a occasião de ir contar a Lucinda os
seus novos amores. A sr.ª D. Leocadia d'Azevedo encontrou-o na rua, e
convidou-o para jantar.
Á tarde desceram todos ao jardim, que tinha muro para a rua, e um
pequeno mirante cercado de madresilvas. Os convidados dispersaram-se em
grupos, e Lucinda e Frederico acharam-se sós no mirante.
A vista que d'alli se gozava era linda; via-se uma parte da cidade
baixa, e do lado do Occidente a vista estendia-se desassombrada, sobre
uma porção do rio, que se prolongava até ao extremo horisonte.
Era ao cair da tarde; o sol atufava-se nas aguas, e illuminava com um
resplendor d'oiro e purpura o horisonte, semeando de aureas palhetas o
Tejo, rodeando co mum nimbo luminoso o vulto distante da Ajuda, e mais
além uma sombra tenue, uma especie de vapor doirado, que, pela posição,
devia ser o vago perfil da torre de Belem.
A brisa fresca da tarde, ondeiando os cabellos de Lucinda, e meneiando
brandamente os ramos e as folhas da madresilva, enchia os ares de
perfumes. Frederico scismava.
--Esqueceu-se da sua promessa? perguntou Lucinda.
--Ainda se lembra d'ella? tornou Frederico amargamente.
Um relampago d'alegria illuminou os olhos da gentil senhora.
--Se lembro, tornou ella, sou uma credora inflexivel.
--Pois bem, respondeu Frederico, córando muito, e fazendo um esforço
sobre si mesmo, deixe-me agradecer-lhe o ter feito a felicidade da minha
existencia.
--Sim? tornou ella ironicamente. Então ama-a loucamente?
--Se a amo! tornou elle cravando os olhos ardentes na formosa menina que
tinha diante de si, tanto que nem eu suppunha que se podia amar assim.
Oh! mas é que tambem é uma creatura celestial, tão bella que os anjos a
invejam.
Lucinda mal podia soffrear o riso.
--E essa belleza, é provavelmente como a de Marilia, tornou ella, para a
pintarem não bastam as tintas da terra, são necessarias as do céu. Por
conseguinte nem ouso pedir-lhe que m'a descreva.
--Porque? Não a conhece! perguntou Frederico espantado.
Lucinda embaraçou-se, mas promptamente recuperou o sangue-frio.
--Somos amigas intimas, como sabe; comtudo não desgostaria de poder
apreciar o seu talento de pintor.
Frederico fitou os olhos nos d'ella, como se tentasse prescrutar o seu
pensamento. Lucinda desviou os seus.
Uma idéa, que elle julgou louca, passou pela mente de Frederico.
--Vou tentar, disse o timido rapaz, com mais animação do que a que lhe
era habitual, e cravando pela primeira vez com firmeza e ardor os seus
olhos ao rosto de Lucinda; e para me ser mais facil a tarefa,
permitta-me que lhe narre como e onde me senti verdadeiramente
deslumbrado pela sua rara belleza, e como ousei dizer-lhe com os meus
olhos o amor immenso que me enchia a alma. Era a hora do sol posto; ella
estava com a face encostada á mão e como v. ex.ª n'este momento. Nos
seus olhos negros parecia fluctuar a vaga tristeza do crepusculo; os
cabellos, arfando suavemente com a brisa, enquadravam-lhe uma fronte
alva e limpida, tão limpida, que de vez em quando parecia que n'essa
testa innundada de luz se via passar a vaga sombra do pensamento.
Rodeiava-se de flores, que formavam ao seu doce vulto uma profunda
moldura. Ao vel-a assim, melancholica como o anjo da tarde, suave e
meiga, como a anjo dos celestes amores, pensei que a ventura suprema
seria viver a seus pés, e enviando-lhe a minha alma n'um olhar,
votei-lhe um affecto, profundo e ardente como os seus negros olhos.
Lucinda ouvia-o arrebatada; fôra isso mesmo o que ella desejára, fôra
isso mesmo o que ella tivera em vista acenando-lhe com essa miragem
d'amor da velha tia, amor nada perigoso, porque, da mesma fórma que a
miragem, de longe podia fascinar, mas de perto conhecia-se o
areial... dos cincoenta annos.
Se Frederico se deixasse arrastar pelo demonio da inspiração, e
levantasse um pouco mais o véu de gaze com que encobrira a sua
declaração, Lucinda poderia auxilial-o, confessando-lhe o seu ardil, e
quebrando d'essa forma o gelo. Mas infelizmente a maliciosa rapariga, um
instante docemente perturbada pela eloquencia de Frederico, pensou de
subito, quando elle findou o seu trecho, na ficticia inspiradora d'esse
memoravel discurso, e deu aos seus labios uma expressão de riso
reprimido, que bastou para que o espirito sensitivo de Frederico logo se
retraisse, e tremesse de ter avançado tanto.
Lucinda percebeu o erro, e quiz remedial-o. Já era tarde. Frederico
retirou-se desgostoso. Ella, vendo-o partir, bateu o pé com despeito. A
_coquette_ ia-se enleiando nas suas proprias redes.
--É necessario que esta comedia acabe, murmurou ella com as lagrimas nos
olhos, ainda que eu tenha de me lançar nos seus braços, como uma doida;
porque sinto agora essa commoção desconhecida, de que tanto me
fallavam, e de que eu tanto zombava. Amo.
IV
Não conhecem os leitores o caracter de Lucinda, se supposeram que ella
se importasse um instante só com o desejo que a tia d'Adelaide
manifestára de não se relacionar com a amiga de collegio de sua
sobrinha. Foi ella mesma que tomou a iniciativa; apresentou-se em casa
da sua antiga companheira, não pareceu reparar na frieza da dona da
casa, lisongeiou-a na sua mania de combater a velhice, declarou alto e
bom som que Adelaide era no collegio uma creancinha, de que ella fôra
não a companheira, mas a protectora, a segunda mãe. Esteve quasi dizendo
que a sua amiguinha entrára para o collegio ainda de mama. Estas
asserções illuminaram n'um momomento o rosto da tia, dissiparam como por
encanto a sua frieza, e deram a Lucinda o logar d'amiga intima. Esta,
affectava sempre tratar D. Marianna com familiaridade, fazia-lhe
confidencias imaginaveis, e pedia-lhe egual franqueza. A boa senhora
caiu no laço, e, córando pudicamente, principiou a narrar-lhe aventuras
não menos suppostas, porque os namoros que obtinha desfaziam-se sempre á
luz traidora do dia, quando o desgraçado pretendente, fazendo sentinella
á porta da casa, via a dois passos de distancia os encantos que o haviam
fascinado da altura d'um segundo andar.
D. Marianna devia ter sido formosissima; e d'essa formosura extincta
conservava olhos, onde ainda se não apagára de todo o sacro fogo. Eram
elles o nucleo em torno do qual se agrupavam os feitiços artificiaes.
Notava, comtudo, Lucinda, uma extraordinaria tristeza em Adelaide.
Preoccupada e melancholica, a loira creança, em vez de procurar a
companhia da sua amiga de collegio, evitava-a pelo contrario, e parecia
estar cada vez mais affeiçoada á solidão do seu jardim. Debalde
Lucinda tentava penetrar o segredo d'esta preoccupação. Adelaide era
impenetravel. Lucinda, devemos confessal-o, não insistiu muito, e,
pensando unicamente no meio de deslindar a comedia, cuja teia
imprudentemente urdira, depois de scismar alguns instantes na
extraordinaria melancholia da sua amiga, não fez mais esforços para
penetrar o mysterio.
Os seus amores é que progrediam maravilhosamente, Frederico fallava-lhe
do seu amor tão fervidamente, acompanhava as suas confidencias com tão
ardentes olhares, que não se podia duvidar que, apesar de toda a sua
timidez, um levissimo impulso bastava para quebrar os cordões da
mascara, e transformar n'uma declaração franca e discreta, as confissões
que se trocavam enygmaticamente, por meio d'essas bemaventuradas
confidencias e que se commentavam e explicavam pelo fogo das pupillas.
Comtudo o momento decisivo approximava-se, estava já por tal fórma
retezada a corda do arco, que por muito que Frederico hesitasse em
despedir a frecha inflammada, ella partiria expontaneamente, n'um
instante de exaltação. Vinte vezes Lucinda julgára que esse momento
cubiçado era chegado emfim, vinte vezes vira Frederico apertar-lhe a mão
convulso, e mover os labios como se fosse a proferir a palavra que
rasgaria o véu transparente, que encobria esses amores, e vinte vezes a
mão lhe descaira gelida, e vinte vezes os labios se tinham cerrado sem
balbuciarem um som. E comtudo não era a timidez de Frederico o
obstaculo; n'esses instantes estava elle n'esse estado d'ebriedade
doida, em que se não pensa, em que os sentidos, o espirito, a
imaginação, tudo se acha exaltado a tal ponto que o mais timido se
arroja a audacias que depois o fazem estremecer. É como esse instante
rapido, em que nas batalhas o fumo da polvora, o troar da artilheria, os
gritos de victoria, o clangor das trombetas exaltam os proprios covardes
e os arrojam, momentaneamente intrepidos, ao centro das fileiras
inimigas. Lucinda estava tambem demasiadamente commovida para que
podesse gelar esse enthusiasmo fervente com um sorriso ironico, uma
palavra mordaz. Mas parecia que uma voz desconhecida, uma sombra
fatal vinha murmurar ao ouvido de Frederico algumas palavras sinistras,
e, remorso ou receio, Frederico ficava melancholico e sombrio, como os
convivas de Lucrecia Borgia, ouvindo no meio dos seus cantos bachicos
resoarem as notas funebres do côro dos monges.
Lucinda não percebia esta hesitação de nova especie, e receiando
vagamente um novo perigo, resolvera dar á comedia o seu desenlace.
Duas palavras de Frederico decidiram-n'a de todo.
Um dia, depois de terem feito mil floreados sobre o amor a proposito ou
antes a desproposito de intangivel, da vaporosa Laura d'aquelle
Petrarcha inconstante, Frederico deixou pender a fronte melancholica, e
murmurou:
--Pobre criança!
Lucinda ia desatando a rir; a frase «pobre criança» applicada á
quinquagenaria tia era d'um effeito comico, ainda realçado pelo tom
sentimental do romantico mancebo.
Mas, ao mesmo tempo, Lucinda sentiu um inexprimivel jubilo. Essa frase
queria dizer: «Pobre victima, que julgas ser o alvo dos meus
pensamentos, e que não és mais do que o escudo, que me serve para
conquistar, com mais resguardo, o amor da mulher a quem adoro.» Assim,
essas suas palavras eram uma confissão explicita do que se passava na
sua alma; encerravam em si a chave do enygma.
Porém, Lucinda não desejava que esse sentimento de compaixão soasse
indefinidamente no peito de Frederico Nunes; julgára que, apesar da
distancia, o seu namorado chegasse a tomar a sério o amor de D.
Marianna. A pretenciosa tia podia parecer uma galante senhora, bem
conservada, nunca uma formosa rapariga. Lucinda sempre julgára Frederico
cumplice do seu amoroso artificio. Vira que elle precisava d'um meio,
por mais tenue que fosse, para fallar sem receio, proporciona-lhe a
occasião de o obter. Se elle a acceitasse, é porque realmente a amava.
Assim succedeu, e como, nos termos a que tinham chegado, o véu, além de
ser inutil, era tambem prejudicial, tratou de o dilacerar.
Para isso dirigiu-se a D. Marianna, e disse-lhe que um mancebo elegante
que nutria por ella a mais violenta paixão, que se julgava
correspondido, se podia acreditar nos ternos olhares com que da
janella o favorecera, sabendo a amisade que as ligava, e sendo da
intimidade de Lucinda, se dirigira a esta para que obtivesse da sua
amiga uma entrevista, em que lhe podesse declarar o seu affecto e o
desejo que alimentava de o ver coroado por um feliz hymineu. D. Marianna
caíu das nuvens. Tinha distribuido os seus olhares ternos com tanta
prodigalidade que não sabia qual dos felizes mortaes contemplados na
distribuição, queria dar ao crepusculo da sua vida uma ventura raras
vezes reservada para essa idade, a d'um casamento por amor.
Escusamos de dizer que, depois da resistencia pudica e indispensavel, D.
Marianna consentio na entrevista. Marcou-se dia, ou antes noite, porque
D. Marianna, allegando a maledicencia das visinhas, mas na realidade
para não ter que affrontar senão a luz mentirosa das vellas, exigio
obstinadamente que fosse a essa hora. Convencionou-se que Lucinda daria
a chave do jardim ao aventuroso namorado, e que passaria aquella noite
em sua casa para entreter Adelaide, e velar assim para que não fosse
perturbada a amorosa entrevista.
Combinado por este lado o plano estrategico, Lucinda dirigiu-se a
Frederico. Disse-lhe que a sua amiga desejava ardentemente fallar-lhe,
que o encarregava de lhe dizer que era tão urgente a necessidade d'uma
entrevista que a obrigava a pôr de parte a modestia feminina, e a
dirigir-se a elle, fiando-se na sua honra de cavalheiro. Demais uma
senhora respeitavel assistirá á entrevista. Concluiu dizendo-lhe que era
na seguinte noite que devia realisar-se a entrevista, ensinando-lhe a
topographia da casa e dando-lhe a chave do jardim.
Lucinda dissera isto com voz artisticamente suspensa, como se debalde
tentasse reprimir os soluços. Estava preparando uma explosão. Podia ser
esse o instante supremo. Frederico devia talvez cair-lhe aos pés, e o
susto que teria, elle o timido moço, de ter uma entrevista com uma
mulher, apressaria o desenlace. Teria nesse caso a coragem do medo.
Effectivamente era esse o caminho que iam tomando as coisas. No primeiro
impeto Frederico ia arrojar-se aos pés de Lucinda, atirando para
longe de si a chave do jardim. Mas a reflexão sobreveio, e o extranho
rapaz apanhou a chave, e passando a mão pela testa, disse com voz firme:
--Irei. É um dever d'honra.
Lucinda amaldiçoou os escrupulos do seu namorado. O destino
obstinava-se; a comedia tinha de se representar até ao fim.
V
Chegou finalmente o dia marcado, e esperado com impaciencia por D.
Marianna. Lucinda andava perturbada, e tanto que nem deu por um
redobramento de tristeza que se tornava bem visivel no rosto da sua
amiga Adelaide, de quem ella se esquecia tanto. Adelaide primeiro fugira
a escolhel-a para confidente, porque bem conhecia a sua indole
sarcastica, e não queria expor os pobres passarinhos dos seus sonhos a
terem a aza magoada por algum epigramma de Lucinda.
Mas pouco a pouco Adelaide sentiu-se despeitada, por vêr que á sua boa
amiga era tão completamente indifferente o estado do seu espirito.
Adelaide, vendo isto, julgou-se a pessoa mais infeliz d'este mundo;
tinha na vida, negro o presente, o passado, e o futuro; o presente
ensombrava-lh'o a ciosa preoccupação da sua vida, o passado, onde ella
se engolphava com jubilo quando a realidade da existencia a torturava,
ennegrecera tambem com a indifferença de Lucinda, o futuro, esse
devaneiara-o ella bem dourado, e bem cheio de luz, um sonho rapido e
fragrante atravessara-lhe, e perfumára-lhe o viver.... mas esvaíra-se bem
ligeiro como sonho que era, tornando apenas com a sua luz fugitiva mais
espessas as trevas, que voltaram de novo a enlutar-lhe a mocidade.
A amisade, que votava á sua companheira de collegio, e a profunda
tristeza que a salteiára, venceriam a resolução em que estava de
conservar secreto tudo o que se passava no seu espirito, e o receio que
tinha dos sarcasmos de Lucinda, se a indifferença d'esta não a ferisse
mais do que todos os seus motejos. Mas Lucinda andava preoccupada,
Lucinda nem reparava na pallidez da sua amiga. Vir ella passar um dia a
sua casa, prometter ficar á noute, e não lhe dirigir durante esse
tempo todo, mais de quatro ou cinco palavras, era uma cousa que a pobre
Adelaidesinha não podia perceber, e ainda menos, a intimidade subita que
se estabelecera entre sua tia e a sua amiga. N'esse dia andou aquella
toda azafamada a enfeitar-se, a pintar-se, a lustrar o cabello, a dispor
_coquettemente_ a sala de visitas; Lucinda ajudava-a n'este trabalho, e
trocava com ella em voz baixa palavras mysteriosas. Perguntou Adelaide,
espantada de ver tantos preparativos, se se esperava alguem nessa noute,
recebeu uma resposta secca das duas senhoras; e a pobre menina,
suffocada em soluços, e não podendo conter as lagrimas, refugiou-se,
levando um livro, no seu caramanchão favorito. Ahi desaffogou, derramou
prantos copiosos, nomeou-se, por decreto proprio, a mais infeliz de
todas as mulheres, e pensou que estava abandonada por todos, e que,
orphã desde a infancia, era destino seu caminhar solitaria no mundo.
Entretanto, descia a noute, e ella não pensava em voltar para casa.
Lucinda, vagamente inquieta, não se tirava da janella. Apezar das
palavras que Frederico dissera, ao receber a chave do jardim, Lucinda
conhecia bastante a sua timidez organica (se assim podemos dizer) para
suppôr que elle não ousaria nunca transpor o limiar da porta. Embebida
n'esses pensamentos, esquecera-se completamente de Adelaide, e do
encargo que recebera de a entreter, emquanto durasse a entrevista. D.
Marianna, enebriada por aquella inesperada aventura, collocava as vellas
de modo, que se conservasse na sala a tibia luz, aconselhada por
Garrett, a penumbra tão util aos amantes, e duplamente util, a quem só
dispõe d'esse recurso para combater, com mais ou menos vantagem, os
inconvenientes d'uma certidão de baptismo, que já podia entrar na classe
honrosa dos documentos historicos.
Lucinda, encostada á janella do seu quarto, cravava os olhos na
escuridão, procurando distinguir o vulto elegante de Frederico. De vez
em quando ia espreitar á porta da sala e ria-se. D. Marianna, sentada no
canapé, vestida com o fato mais fresco e juvenil, esperava
magestosamente a visita d'aquelle a quem os seus encantos tinham
rendido.
Afinal, Lucinda viu um homem que se dirigia, envolto n'uma capa escura,
para a porta do jardim. As pulsações febris do seu coração
indicaram-lhe, mais depressa do que a vista, que era esse o vulto de
Frederico.
A noute estava negra; mas um candieiro de gaz, illuminando em cheio a
porta do jardim, permittia a Lucinda seguir todos os movimentos de
Frederico. Viu-o hesitar, metter a chave na fechadura, tiral-a e
affastar-se. Lucinda sorriu-se.
--Deita-a por cima do muro, e foge, murmurou ella.
Mas enganava-se; Frederico pareceu tomar uma resolução definitiva,
tornou rapidamente a metter a chave na fechadura, abriu a porta e entrou
no jardim.
--Está predestinado, murmurou Lucinda affastando-se da janella. Os seus
tolos escrupulos obrigam-n'o a enterrar-se até á cintura no tremedal do
ridiculo. E depois quem sabe? Talvez depois de reconhecer a
quinquagenaria formosura da Calypso que vae abandonar, o punjam mais os
remorsos.
E Lucinda desatou a rir. Mas a reflexão veiu, e uma sombra de
melancholia se lhe espalhou no semblante.
--Esta minha indole zombeteira, murmurou ella, ha de ser sempre um
obstaculo á minha felicidade. Devo fazer penitencia. O ridiculo, a que
expuz os dois actores da scena que se vae passar na sala, é enorme. Eu
não o perdoava. Perdoal-o-ha Frederico? Perdôa de certo, perdôa e com
que jubilo, em sabendo o motivo que me guiou! Mas não devo deixar passar
uma noute sobre o seu resentimento. Agora mesmo, agora quando esse D.
Quixote de donzellas cincoentonas voltar mal-ferido da sua justa cortez,
farei como Altisidora, ousarei pôr de parte o pudor feminino para lhe
dizer «Amo-te» e para o consolar com essa palavra só do encantamento da
nova Dulcinéa.
E a travessa rapariga, desatando a rir, desceu a escada que ia ter ao
jardim.
Não havia ainda luar como dissémos, porém, emquanto não surgia a rainha
da noute no seu carro triumphal de madre-perola, as estrellas
scintillavam com vivissima luz no ceu azul, e insinuavam os seus raios
d'ouro pallido por entre a folhagem das arvores, que a brisa meneava.