Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado,
_seu_ Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas,
olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede
encardida.
Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas
passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.
Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da
molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se
quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo,
que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se
enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o
avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola
e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que
esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia,
tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e
escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com
os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou
torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.
A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais
côr de cidra.
Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia.
O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.
O pae chamou-a:
--Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me
incommodando. O paletot está sem botões.
Ella não respondeu, foi dentro e voltou:
--Estão aqui outras meias.
--Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...
Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:
--As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom
alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu
terno de casimira está escovado?
Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a,
com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com
exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que
as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas
morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.
Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar
rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os
olhos para reter as lagrimas.
Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua
defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.
Quem diria que de tal mãe...
Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da
cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.
De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:
--Que jantarzinho cangueiro...
Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que
elle engulia com esforço.
Nesse dia a tarde estava quente.
O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras
de baixo, reunidas no quintal.
Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira
voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas
frias tornou-se insuportavel.
Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a
bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.
O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos
livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e
de sentir a morrinha da casa suja.
Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de
alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda
recambiada, fatias de _Mané-taiado_, ou cocadas com abobora, sujeitas
ao azedume. E então era só:
--Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos
dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E
adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!
Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.
Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o
Ribas.
_Seu_ Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao
rapaz, mas abria os ouvidos.
Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia
duzia de palavras:
--Hontem houve um baile em casa de _seu_ Theodoro. Diz que a rua estava
cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...
--Quem acredita nisso...
--O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos.
Foi ao baile coberta de joias. _Seu_ Guimarães, _seu_ Castro, todos
estes turunas do café foram lá.
--Como sabe você de tanta coisa?
--Foi o Isidoro quem me contou.
O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles,
fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.
O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz,
sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:
--Você não tem que fazer?
--Eu ainda não achei emprego...
--Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha
casa.
--Meu cunhado não me governa.
_Seu_ Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada
sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo
de vida, um zum-zum de fóra.
O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem
um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades
só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda
aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só
fallar com o _Pirueta_ da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a
capoeiragem...
Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que
esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o
seu ventre enorme.
Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando
ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não
entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.
--Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...
--Queria que você me emprestasse quinhentos réis...
--Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!
--Na gaveta do balcão.
--Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu
o que aconteceu; vá-se embora!
--Não seja má, Deolinda.
--E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha
creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada.
Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!
--Não seja sovina; depois eu pago.
--Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.
--Ora...
E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta
encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia,
tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas
ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu
as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.
Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de _seu_ Joaquim, postando-se
como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua
faina entrarem e sahirem sem interrupção.
Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada
de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão
do filho para o trabalho.
O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,--e
accrescentava:
--Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem.
Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a
Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na
volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será
então tempo de você ceder-lhe o campo...
--E eu estou morto por isso...
--Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do
_Equateur_.
Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim,
seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria
um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria
ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre
na moldura dos seus cabellos louros.
Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e
dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.
Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa
commercial, que já não acabaria com elle.
Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho
perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a
sentir que lhe não perdera o amor.
Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com
elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro,
feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...