XVI

Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado,

_seu_ Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas,

olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede

encardida.

Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas

passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.

Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da

molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se

quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo,

que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se

enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o

avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola

e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que

esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia,

tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e

escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com

os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou

torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.

A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais

côr de cidra.

Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia.

O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.

O pae chamou-a:

--Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me

incommodando. O paletot está sem botões.

Ella não respondeu, foi dentro e voltou:

--Estão aqui outras meias.

--Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...

Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:

--As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom

alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu

terno de casimira está escovado?

Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a,

com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com

exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que

as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas

morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.

Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar

rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os

olhos para reter as lagrimas.

Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua

defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.

Quem diria que de tal mãe...

Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da

cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.

De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:

--Que jantarzinho cangueiro...

Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que

elle engulia com esforço.

Nesse dia a tarde estava quente.

O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras

de baixo, reunidas no quintal.

Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira

voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas

frias tornou-se insuportavel.

Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a

bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.

O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos

livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e

de sentir a morrinha da casa suja.

Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de

alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda

recambiada, fatias de _Mané-taiado_, ou cocadas com abobora, sujeitas

ao azedume. E então era só:

--Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos

dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E

adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!

Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.

Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o

Ribas.

_Seu_ Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao

rapaz, mas abria os ouvidos.

Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia

duzia de palavras:

--Hontem houve um baile em casa de _seu_ Theodoro. Diz que a rua estava

cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...

--Quem acredita nisso...

--O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos.

Foi ao baile coberta de joias. _Seu_ Guimarães, _seu_ Castro, todos

estes turunas do café foram lá.

--Como sabe você de tanta coisa?

--Foi o Isidoro quem me contou.

O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles,

fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.

O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz,

sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:

--Você não tem que fazer?

--Eu ainda não achei emprego...

--Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha

casa.

--Meu cunhado não me governa.

_Seu_ Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada

sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo

de vida, um zum-zum de fóra.

O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem

um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades

só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda

aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só

fallar com o _Pirueta_ da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a

capoeiragem...

Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que

esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o

seu ventre enorme.

Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando

ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não

entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.

--Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...

--Queria que você me emprestasse quinhentos réis...

--Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!

--Na gaveta do balcão.

--Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu

o que aconteceu; vá-se embora!

--Não seja má, Deolinda.

--E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha

creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada.

Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!

--Não seja sovina; depois eu pago.

--Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.

--Ora...

E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta

encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia,

tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas

ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu

as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.

Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de _seu_ Joaquim, postando-se

como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua

faina entrarem e sahirem sem interrupção.

Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada

de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão

do filho para o trabalho.

O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,--e

accrescentava:

--Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem.

Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a

Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na

volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será

então tempo de você ceder-lhe o campo...

--E eu estou morto por isso...

--Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do

_Equateur_.

Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim,

seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria

um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria

ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre

na moldura dos seus cabellos louros.

Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e

dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.

Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa

commercial, que já não acabaria com elle.

Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho

perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a

sentir que lhe não perdera o amor.

Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com

elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro,

feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...

A fallencia · 第 26 / 36 题