Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á
mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra.
Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou
importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto
esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só
para a sobremesa disse espantado:
--É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou?
Nina murmurou, desculpando-o:
--Acho que está incommodado...
--Vou ver isso.
Theodoro levantou-se.
Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre
si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu
amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante.
Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario!
Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar
firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que
nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas
azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que
ella temia...
E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se
festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e
commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico...
Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo,
que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em
escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo.
Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma
expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava,
fallava...
Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho.
--Então, _seu_ Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para jantar é
volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de visitas?!
--Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa.
--Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias
ao menos respeitar o hospede.
--Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem,
papae, não posso vêr aquelle homem!
--Tu estás doido! porque?!
Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe
insistia, furioso:
--Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa
raiva?
--Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por instincto...
Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ... aquella
voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as suas
mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua
assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os
vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que
é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe
pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente.
--Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o
que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não
se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não
sou bom!
Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que
effectivamente o Mario estava indisposto...
Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um--até logo!
Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa
aborrecia-o.
A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada,
vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro.
Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando
flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto.
Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e
leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem.
--Cuidado, minha filha!
--Ahi vae um beijo, mamãe!
O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o
passeio continuava, arrastado e feliz.
--Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã
cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir!
--Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente!
--Lá vens tu...
Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á
claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo
ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava
na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus
ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua
força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava,
unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz
cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel.
Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades
estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens
fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em
baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos
distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do
somno.
Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das
estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo
escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a
penumbra.
O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe.
--Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico.
--Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro,
consultando o céu. E chuva de arrazar!
Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do
medico. Despediram-se.
Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca:
--_Seu_ Mario?
--_Seu_ Mario sahiu...
--Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga...
Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para
a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla
impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e
perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela
golla do vestido.
--Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada.
Nina sacudiu as formigas com o lenço.
Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata.
--_Seu_ Mario?
--Elle ainda não voltou...
--Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando
elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu?
--Percebi, sim, senhor.
--Agora chame o Dionysio.
E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.
Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos
com a agulha, mal acertando com a costura.
Theodoro voltou-se para ellas:
--Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se
á mesma hora que os paes...
--Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla.
--Pois sim!
--E se chover? A noite está tão feia...
--Que volte para traz. Não vem a pé.
--Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e
debaixo d'agua...
--Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou
raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?!
--É a mocidade...
--Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em dois
ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei
com o suor do meu rosto!
--Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco.
--Mais uma razão.
--Qual razão!
--Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em
casa a horas convenientes ou...
--Ou?...
--Ou que vá dormir para o diabo!
Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz
replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco
Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da
sala para não responder, batendo com a porta, num desespero.
--É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o
negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as
chaves.
Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes
um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera,
corporisava-a, tornando-a irrespiravel.
Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos,
amodorrados, bambos.
Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe,
soturnamente.
Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para
dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao
beiral do telhado.
A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta.
O que passou depois, foi o vento.
Ella deitou-se com um suspiro.
Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu
a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do
arvoredo.
Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos
pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania,
lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos,
com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da
noite.
Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma
cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á
janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo.
Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em
falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova
lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo.
A unica janella illuminada da visinhança fechou-se.
O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á
distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.
Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel.
Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o
aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na
inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam
arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre
as telhas, com estrondo.
Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela
fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo,
não a amaria nunca.
Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo
pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos.
Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para
ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada
mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e
em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não
comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na
infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho!
Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa
classe; mais nada; e não era pouco.
Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos
agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era
nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços
caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se
atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no
fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse
casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada
deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma
creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na
casa de Francisco Theodoro.
Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de
preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás
palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava
isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o
traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra.
Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então
os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do
seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a
aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois
bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor
de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos
beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que
até então ella só parecia ter espreitado de longe.
Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a
edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua
força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a
ceder ás suas vontades absurdas.
De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina
em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a
peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para
essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são
para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos,
rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da
vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era
exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos.
Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da
sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas
graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo.
Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos
flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e
humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a
varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe
batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro
resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma
instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou.
O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe
em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um
filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta.
Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca,
sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que?
Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado
por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o
coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa
que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer.
Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber
d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada?
Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia
mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses
recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida,
escarnecida, miseravel.
No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a
alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento;
então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o
encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que
redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria.
Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro
cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda
bailou macabramente com o arvoredo escuro.
A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e
offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias,
mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava.
Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada,
brutal, ensurdecedora.
A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e
voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir
indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury.
Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:
--Mario! Mario!
Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio.
O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o
pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na
sombra, ia-se embora.
Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.
Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço,
com a precaução de quem vae para o crime.
Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia,
praguejando raivoso.
Ella tacteou os ferrolhos e recommendou:
--Espere um bocadinho, Mario!
--Que estupidez!
--Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse
de fóra.
Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral.
--Que idéia foi esta de deixarem a chave...
E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que
seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?
--Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.
Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a
chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do
chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario
percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de
carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara
nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado,
sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto
impudico e voluptuoso.
Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso
naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a
prima o amava?
A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de
hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços.
Nina comprehendeu.
Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e
subiu correndo.
A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo
de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no
passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu
desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se
quedara estupefacto no mesmo ponto.
Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina
sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto
até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.
Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da
chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se
atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo,
juncto aos seus calcanhares.
Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada
assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de
que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a
porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á
fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago
conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda.
Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no
chão.
E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa,
muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de
repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a
camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da
sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no
vidro...
Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia
um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e
adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se
arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de
que fugira...
Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu
alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados.
Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava
para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a
porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,--e ainda Nina, na
estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro,
soffria, soffria, soffria...
No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou
na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da
familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro
para a sua mesa.
--Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle,
fixando-lhe os olhos pisados.
--Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando.
Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:
--Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses
sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção
foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a
ultima vez que sou desobedecido.
Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas
junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que
ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou
então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe
partisse uma fatia do _roast-beef_ frio e que lhe fosse depois buscar o
_Jornal_, esquecido em cima, no quarto de _toilette_.
Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos
seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos
violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma
d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a
admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora.
Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio.
X
Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não
se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os
desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia
sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das
suas devoções.
Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a
gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus
passos vagarosos, de mulher gorda e cançada.
--Que milagre! a senhora por aqui!
A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que
fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas
o nó da mantilha preta.
--Mal imagina você por onde tenho andado!
Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N.
S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando
esmolas.
--Tão cedo?
--Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em esmolas,
hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?
--Não, senhora.
--É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as
atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves,
que faz annos hoje. Não imagina como ellas são...
--Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:
--Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu?
--Ainda estão dormindo?!
--Tio Francisco já sahiu.
--Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por
todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande
concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte
Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar
a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá
não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos
espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é
para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê...
--A senhora falle com tia Milla. _Seu_ João! chamou ella interrompendo
outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é
preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não ha rosas,
faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?
--A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos
canteiros, que Deus nos acuda!
--Veja se remedeia isso hoje mesmo...
O jardineiro passou; D. Joanna disse:
--É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario
Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia,
pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do
filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas...
--Quer café, tia Joanna?
--Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se
arrepender...
--Não tenho tempo... Quer mais assucar?
--Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz
de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...
Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da
tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de
folhas arremessadas pela ventania.
D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em
pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de
melancholia.
Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu
cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido
branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao
corpo um ar de anjo de cathedral.
--Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a.
Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.
--Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora!
--Porque?...
--Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver a
lua e as estrellas.
--Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de
egreja...
--Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da
Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos
cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão
Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora.
Leve-me lá, titia, sim?
--É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.
--Seria querer demais. Você já leu hoje a _Flor de Neve_, Nina?
Nina meneou com a cabeça, que não.
--Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna.
--É um romance do _Jornal_, muito bonito. Estou morta por saber se a
Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no
_Jornal_!
D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço,
bonita, de _peignoir_ côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás
duas filhas pequenas.
Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que
naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de
jantar.
--Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia
Joanna?
--Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...
Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e
beijou-o no pennacho.
Depois, para a velha:
--O que a trouxe tão cedo?
D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e
apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da
capella do Monte Serrate.
--Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não;
porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa.
--Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete?
--Posso mandar.
--Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um
perfeito homem.
--Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?
--Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num
folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua
filha.
--O pae não se importa, que hei de fazer?
--Ainda não fez a primeira communhão?
--É cedo.
--Não é tal. Ella não quererá?
--Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas
as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o
casamento.
--Heresias... E o Mario ... como vae o Mario?
--Está um moço bonito.
--E ... mais ajuizado?
Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas
brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso:
--Como todos os rapazes de vinte annos...
Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego
verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca,
que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna
levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.
Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da
poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou
gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o
tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em
movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma
musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um
vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella,
conversava baixo com a Camilla.
D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria
aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na
sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas.
Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.
«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um
burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.
Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no
quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr.
Gervasio não estava.
Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com
desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu
tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe
pouca attenção.
Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de
pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito
calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito
suspiros curtos, que afogava em _bordeaux_...
Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não
estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição;
depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para
as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de
criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras,
risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois
gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde
da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do
encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as
pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e
paredes sujas de predios velhos.
Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um
impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos
castos e pudibundos da velha.
Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D.
Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha:
--Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se
persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus
pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia,
Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus
sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para
ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas
meninas a respeitarem a nossa religião?
Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou:
--Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa ao
domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma
ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem
adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se
esquecia dos seus deveres.
Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia;
para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração
d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para
elle:
--Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites?
--Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não?
--Como se chamam os seus deuses?
--Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum
poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por
que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que
aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da
mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D.
Joanna, e que inferno bellissimo!
--Vá trazendo para cá essas ideias...
--Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A
senhora já ouviu fallar em Byron?
--Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor?
--Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda
voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua
glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras
apotheoses da arte.
--Só por isso?
--É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe.
--Julga-me muito bronca.
--Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se quer,
discutamos religião e philosophia. Conhece Comte?
--Algum damnado.
--É o termo.
--Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que
peccado!
--Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados.
--O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões?
--Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para
enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras.
A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira?
Tenho uma _Yellow Persian_ quasi perdida!
--A sua medicina nem para as plantas serve?
--Nem para as plantas, a miseravel!
--Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.
--Que é?
--Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã...
--Meu Deus! e eu de _peignoir_!
Dr. Gervasio voltou-se e disse:
--Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas,
sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido
tão bonito.
--Então vou assim mesmo...
D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era
seguida!
--Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O
dinheiro dos bilhetes?
--É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras.
Até outra vez, tia Joanna. Lembranças.
--Adeus.
A moça sahiu.
--Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla
esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves!
O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe
no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha
percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle
lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra
de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario.
Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim
preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente
emmoldurado.
A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira
anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do
seu cordão de ouro.
A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo...
--Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este _peignoir_
é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, não é?
A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.
--Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de
um bello sorriso.
--É facil. Vem participar-me o seu casamento!
--Casar-me, eu? qual!
--Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro.
--Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de
dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus
pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade,
Paquita?
Paquita meneou a cabeça, que sim.
--Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?
--Em um _bond_.
--Já me tardava. O _bond_ é o eterno mexeriqueiro d'esta terra. Tambem
vocês quando não querem comprometter os seus informantes, attribuem ao
pobre _bond_ todas as indiscreções... Por isso o abomino. Só saio de
carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua
Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protectoras do Sagrado
Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de
religião, eu não me metteria nisto. Já me têm pedido para organizar
festas em beneficio de escolas e de hospitaes para pobres, como se na
nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não ha
miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de
fé christã.
Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.
Houve uma pausa.
--Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está
muito bonito moço.
Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já
tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.
--Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...
--Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria
o mesmo.
--Sim, mas o pae é que não se resigna a isso.
Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou:
--Já recebeu convite para o nosso baile?
--Já...
--Esperamos que seja Mario quem nos marque o _cotillon_. Papae gosta
muito do Mario.
O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo
cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda
a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle
gabava-se dos seus principios rudes e pesados.
--Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta,
disse Camilla.
--Já se falla nisso.
A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos.
Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de
repente com uma phrase secca:
--Vamo-nos embora.
--Sim, vamo-nos embora.
Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no
concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a
_matinée_.
A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto,
caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados,
o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados
de morena.
Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á
observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso,
um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a
manga.
Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que
sahia tambem, cançado de esperar por Camilla.
Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a
silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de
cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria,
achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de
religião.
Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a
ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.
Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do
_Neptuno_. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de
bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma
mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco
Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só
Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos
frios.
E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu
pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por
Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou
que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella
mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza?
As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo.
--Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo,
muito fraco pelas denguices das gemeas.
Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua
roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma
tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando
dôr de cabeça e subiu para o seu quarto.