VIII

Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se

passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas

para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a

depressa.

--Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.

--E outro para a minha, Noca?

--Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.

--Um só, Noca, sim?

--Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem

roupa!

Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se

nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e

ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço,

levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a

mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella

creatura.

A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores

quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um

rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras.

Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se

acercou da taboa.

--Agora é que você está chegando, Dionysio?!

--É Fui levar um recado de _seu_ Mario... A senhora já sabe que elle

deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe

tirar o chapéo!

--Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças,

que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois:

--É loura ou é morena?

--Morena, altinha, muito _chic_.

--Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande.

Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar

sonso.

--Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D. Nina.

--Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.

Um retrato.

Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda

continuou:

--Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto...

--É para Sergipe.

A cabocla sorriu.

--O professor de musica está ahi...

--Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu

botar de infusão.

Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por _dona_.

Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com

acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias

de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as

impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um

remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem

escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança.

Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua

prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia

economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de

côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo

volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade.

Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma

imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e

concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma

explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições

curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma

verdade indiscutivel.

E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla

consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe

explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para

tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos,

rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos...

Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de

gostar de ser util e servir de muito a muita gente...

Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla.

Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande

novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o

pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido

parecia não comprehender!

A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver

nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ...

esse tambem ruminava qualquer coisa...

Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o

pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do

engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo.

A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade.

Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não

passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por

causa de um homem? Não vê!

Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente

achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo

muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da

Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para

dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito

desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis;

Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita;

morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer

soffrer.

Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo,

Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona,

com as mãos inuteis, o olhar febril.

A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do _Neptuno_, não a

deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e

aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente,

e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em

negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos?

No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era

em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas

toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que,

apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para

elle.

Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou,

ao voltar da cidade.

--Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a _Aïda_. O

Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia...

--Que entende o Negreiros de musica!

--Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em

baixo...

Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando

o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em

frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular

enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio

interrompido.

--«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo

dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e

instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa

moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha;

não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço,

compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia.

Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr

educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre

para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e

revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que

andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a

uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em

discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias;

por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o

individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A

instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a

vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume

que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal

geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o

ambiente em que vivam depois.

É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões,

á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a

verdade e não escapam aos ouvidos delicados.»

--Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras...

--O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin.

Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor.

--Porque?

--Porque ainda não tem edade para comprehendel-o.

Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um

excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e

mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com

prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu?

--Está ahi, atraz do senhor.

--Ah...

Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via

muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia,

dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com

medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só...

Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da

mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo

e danças até a madrugada.

Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as

violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa

silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas

leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do

robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro.

Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se

lamentava por isso da ausencia.

A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins

illuminados a _balões_ e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos

terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de

vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes,

essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no

banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e

sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por

sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o

unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho:

tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro,

almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças

corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista

pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu

repertorio.

A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco

Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança,

alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das

attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de

posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois,

na balburdia da vida.

Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao

piano, ou cantasse algum romance italiano.

Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para

que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos

regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as

senhoras edosas ao _buffet_, recommendando á Noca que distribuisse pela

criadagem vinhos e doces.

Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo

barulho que pela intenção.

Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas

mangas dos commendadores ou dos empregados do marido.

Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia

sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho

honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro,

a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho.

O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos.

Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam

para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de--minha

estudiosa--gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados

para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam

encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das

estrellas...

Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete

Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na

quietação cançada da familia.

Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os

talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de

luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os

marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e

as lanternas disseminadas pelo jardim.

Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer

aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os

ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam

nervosamente.

Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu:

--Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo!

eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da

colonia. Não quero fazer figura triste.

--Alguma manifestação? perguntou Gervasio.

--Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje

d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que!

Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O

engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora,

que se apresenta a occasião, faz cara feia!

Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na

execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao

movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de

pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava.

Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro

pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e

dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas

se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda,

entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos,

encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo

e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava

uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas.

Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas,

pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma

doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava:

já nem pensava nisso!

Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á

felicidade, ella foi esquecendo.

A fallencia · 第 13 / 36 题