Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é preciso para
que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no Colliseu
assím como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que
estado se acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real
sôbre a caveira.--O rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem
nunca viu o rei cuida que é de oiro.--Brutalidades da soldadesca
n'um tumulo real.--O que se acha nas sepulturas dos reis.--A
phrenologia.--Vindicta publica, tardia mas ultrajante.--Camões e
Duarte Pacheco.--A sombra falsa da religião.--Regimen dos barões e
da materia.--A prosa e a poesia do povo.--Synthese e analyse.--O
senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou Jesuita?--Jesu Christo e
os barões.
Não chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do último capitulo;
senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá haver
é desacêrto nas palavras, porque em verdade não sei explicar a impressão
que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me
n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes
altares expostos ás chuvas e aos ventos do ceo,--que o sol os queimasse
de dia,--que á noite, á luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das
estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sôbre seus arcos
meio-cahidos.
Não me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o
monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sôltas, entre as hervas
humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu coração á glória, á
grandeza, o meu espirito ás sublimes aspirações da idealidade. O
material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham affligir ahi.
Deus, a idea grande do mundo--Deus, a Razão Eterna--Deus, o amor--Deus,
a glória--Deus, a fôrça, a poesia e a nobreza d'alma--Deus está nas
ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore
de San'Pedro.
Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas
Obras-públicas para servir de quartel de soldados--aqui não habita
espirito nenhum.
Quero-me ir embora d'aqui!
E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? Não póde ser, é verdade.
Onde está elle?
No côro alto.
Subamos ao côro alto.
Oh! que não sei de nôjo como o conte!
O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado ás delicias do prazer
como foi seu pae ás austeridades da justiça, em que estado elle está!
Oh nação de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que é este!
O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles é um sarcophago de pedra
branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais
sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo
XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o não foi a
vida do rei que ahi incerraram depois de morto.
Percebem-se ainda vestigios das vivas côres em que foram induzidos os
relevos da pedra branca:--stylo byzantino de que não sei outro exemplar
em Portugal. Este é--ou antes, era--precioso.
Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel.
Imaginou a estupida cubiça d'estes Allanos modernos que devia de estar
alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,--talvez cuidaram
achar sôbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis
com que fosse interrado,--talvez pensaram incontrar appertado ainda
entre as sêccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro
macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba,
e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo
imperio;--talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de
ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se
sabe, porque se ve, é que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram,
primeiro, levantar a campa; não poderam: tam solidamente está soldada a
pedra decíma ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece macisso e
inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos
dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa não cedeu: parece
chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o sêllo tremendo que so
se hade quebrar no dia derradeiro do mundo.
A cubiça estolida dos soldados não se aterrou com a religião do
sepulchro, nem lhe causou attrição, ao menos, ésta resistencia quasi
sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de
alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas que
trabalhou em vão muito tempo.
Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente
mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente
suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da
frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um braço todo e
póde explorar o interior do tumulo á vontade.
Assim o fiz eu, que metti o meu braço por essa abertura barbara, e achei
terra, pó, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem,
outra de criança.
Não me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado
tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres
das crianças nos jazigos dos paes, dos parentes, até de meros amigos de
suas familias.
Tive, confésso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida
compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores,
quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos--de reis ou de
mendigos--ossos, terra, cinza, nada!
Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se
acreditasse na phrenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio
na sciencia, felizmente--n'este caso--para a minha consciencia. Tambem
não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei'
que fez 'fraca a forte gente' não são reliquias as suas que se guardem.
Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este abandôno, este desacato do tumulo
de um rei, alli na sua terra predilecta--D. Fernando era santareno de
affeição--não será elle o juizo severo da posteridade, a vindicta
pública dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a
memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe
deshonrára o nome?
Quero acreditar que tal não podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de
D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de...
Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde _esteve_? que
ainda é mais vergonhosa pergunta ésta última.
Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. Até a sua falsa sombra,
que é a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar,
ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez
cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito...
Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo,
apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte
de seu corpo. Mas uma nação piquena, é impossivel; hade morrer.
Mais dez annos de barões e de regimen da materia, e infallivelmente nos
foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do
espirito.
Creio isto firmemente.
Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está são:
os corruptos somos nós os que cuidâmos saber e ignorâmos tudo.
Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não intendemos a poesia do
povo; nós, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos
extranhos ás aspirações sublimes do senso-íntimo que despreza as nossas
theorias presumpçosas, porque todas veem de uma acanhada anályse que
procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e
imperfeitos;--em quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem da Razão
divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas
grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem.
E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou.
Que sou eu então?
Quem não intender o que eu sou, não vale a pena que lh'o diga...
Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim d'este capítulo ja
tam seccante, e prometto não reflectir nunca mais.
Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro
e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu
Christo soffreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos
insultos lhe fizeram a elle e á sua missão divina; perdoou ao matador, á
adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando viu os barões a agiotar
dentro do templo, não se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os
sem dor.