O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do
leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa historia.--Porque se não
preenche?--Página preta na historia de Tristam Shandy.--Novellas e
romances, livros insignificantes.--O adro de San'Francisco e as
suas acacias.--Que será feito de Joanninha?--O peito da mulher do
norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.--A
corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu, Portugal,
eheu!
Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os
ossos do sancto ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura das
freiras, porcerto, digo, reconheceu ja a tua natural perspicacia ao
nosso Frei Diniz, o frade por excellencia--frade por teima e acinte.
Pois esse era, não ha dúvida.
Assim se passou aquella scena e assim m'a contaram. Do que mediára entre
ella e o acontecido com o frade, Carlos, Joanninha, a avó e a ingleza,
d'isso é que nada pude saber.
É uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que
enchê-la de imaginação.
Oh! eu detesto a imaginação.
Onde a chronica se calla e a tradição não falla, antes quero uma pagina
inteira de pontinhos, ou toda branca--ou toda preta, como na veneravel
historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristão Shandy, do que
uma so linha da invenção do chroniqueiro.
Isso é bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos
leem todavia, ainda os mesmos que o negam.
Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que não...
Emfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas viagens.
Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordação das tremendas
scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo
mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de
Santarem.
Dei pouca attenção ao bello adro e á solemne vista que d'elle se
descobre--e menos ainda ás doentias acacias que ahi vejetam infezadas e
rachiticas, como plantadas de má mão e em má hora--porque môças são
ellas, é visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. São
triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar
ao que era morto.
Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas arcadas do claustro,
pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do último
guardião d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora
aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle.
Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses
tumulos e inscripções que por ahi estão, e que tanto characterizam este
um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino.
Mas em vão interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solidão
responde tristemente ás minhas perguntas, responde que nada sabe, que
esqueceu tudo, que aqui reina a desolação e o abandôno, e que se
apagaram todas as lembranças de outro estado...
Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que será feito d'esse
homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde está?
Resignou-se ella devéras? Sepultou comeffeito, sob o gêlo apparente que
veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo
aquelle fogo intenso e íntimo que solapadamente lhe devora o coração?
Não tenho esperanças de saber nada d'isso aqui.
So pude descubrir que, no dia immediato á scena nocturna das Claras, Fr.
Diniz sahiu de Santarem, não se sabe em que direcção--que n'esse mesmo
dia Georgina sahíra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua
carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas--que
não houvera mais novas de Carlos--e que a sua última carta, aquella que
escrevêra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mãos
convulsas quando partíra.
Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada
Santarem, ja me cansam éstas perpétuas ruinas, estes pardeiros
interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza
d'estas ruas desertas. Vou-me embora.
E comtudo San'Francisco é uma bella ruina, que merecia examinada de
vagar, com outra paciencia que eu ja não tenho.
Se tudo me impacienta aqui!
Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadação milítar; andou a mão
destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos,
riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado
d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os,
degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta
militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta
final...
Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero ver isto.
Não é horror que me faz, é náusea, é asco, é zanga.
Maldittas sejam as mãos que te profanaram, Santarem... que te
deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nação que
tudo perdeste, até os padrões da tua historia!..
Eheu, eheu, Portugal!