Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e
salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do
Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão
elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.--Tudo
melhor quando visto de longe.--O baile público.--Soirée de piano
obrigado.--Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel
das traducções. Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o
subterraneo e o cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A
bella e necessaria palavra 'gallimathias.'--Se as saudades
matam.--Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito
das coisas humanas.--De como a logica é a mais perniciosa de todas
as incoherencias.
Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hóspede, nos regios paços
de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos
os cavalheiros da terra.--Não quero dizer as notabilidades, por ser
palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.--As iguarias de
legítima eschola portugueza, não menos saborosas e delicadas por
apparecerem estremes de _sautés e salmis_ extrangeirados. Brilharam
sôbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e
Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.
Acabámos tarde, montámos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma
descémos á Ribeira; era quasi sol pôsto quando la chegámos.
É o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella.
Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram á sombra dos castellos
feudaes e que, libertas, depois, da oppressora protecção, cresceram e
ingrossaram em substancia e fôrça: o castello, esse está vazio e em
ruinas.
Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o
Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios
e independencia do character primitivo: é a unica parte viva de
Santarem.
Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum
vestigio, confrontar algum sítio onde podessemos collocar, pela mais
atrevida supposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas
espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas--e o
joven Nun'alvares passeando alli por pé, ao longo do rio--como diz a
chronica--namorado d'aquella perfeição de trabalho, e dando a 'correger'
a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos
vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem
e salvador da sua patria.
Nada podémos descubrir com que a imaginação se illudisse siquer, que nos
désse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para
reconstruirmos a gothica morada do célebre cutileiro-propheta que a
historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez
reclama da historia.
Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer
verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e
replastagens successivas teem anachronizado tudo. É uma feliz expressão
do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi
todos os nossos monumentos, ésta de anachronismo.
Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha
os templos, os conventos, a cêrca das muralhas que todavia conservam a
physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.
Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto é, da sua pedra e
cal: gósto immenso da sua gente.
Outra surpreza de mui differente genero nos esperava á noite em
Marvilla, no elegante salão da B. d'A. com quem fomos tomar cha.
Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros
circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de
civilização e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo
graciosamente as honras d'ella--por mais que se devesse esperar--sempre
espanta á primeira vista: parecia golpe de varinha de condão.
Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se
desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se
não perder detodo a côr local talvez.
Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos
amigos, das festas do último hynverno, das probabilidades que se deviam
esperar do futuro.
Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos París e Londres e não
sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a
seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades
d'ella; e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a que não era tam
má terra como isso.
Admiravel condicção da natureza humana, que tudo nos parece melhor e
menos feio quando visto de longe!
O baile público mais semsabor, detestavel de barulho e confusão, em que,
para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso
furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se não sabe d'onde
vieram, levar desalmadas pisadellas do dançante noviço, do deputado
recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha--e, mais
horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as
caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e
desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja não é senão reminiscencia
que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece
outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animação lembra com
prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a
suspirar por elle.
A soirée mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka
das primas e casino das tias velhas--recordada em eguaes circumstancias,
tambem ja não accode á memoria senão como uma reunião escolhida e
íntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.
Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que
soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações do tenor,
ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!
A injoativa traducção de uma comedia da Rua-dos-condes, roída de
incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graças do stylo de
Scribe.
E o destempêro original de um drama plusquam romantico, laureado das
imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas
bôccas! Lá de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que
fummou todo o primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, e conversou
nos outros, até á infallivel scena da xacara, do subterraneo, do
cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador
branco, indoudece de rigor,--o gallan, passando a mão pela testa, tira
do profundo thorax os tres _ahs!_ do stylo, e promette matar seu proprio
pae que lhe appareça--o centro perde o centro de gravidade, o barbas
arrepella as barbas... e maldicção, maldicção, inferno!... 'Ah mulher
indigna, tu não sabes que n'este peito ha um coração, que d'este coração
sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias--e que n'estas veias
corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sêde, e
é de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero
matar... esquartejar, chacinar!'--E a mulher ajoelha, e não ha remedio
senão applaudir...
E applaude-se sempre.
E não é de mim que fallo, que eu gósto d'isto: os outros é que se
infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...
Mas emfim o que digo é que na provincia não ha tal fastio, que esquece a
canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se
percebe.
Peço aos illustres puritanos que, á fôrça de sublimado quinhentista, tem
conseguido levar a lingua á decrepitude para a curar de suas
infermidades francezas, peço-lhes que me perdoem o _gallimathias_,
porque elle é muito mais portuguez que outra coisa. A célebre oração
_pro gallo Mathiae_ deu origem a ésta bella e expressiva palavra, que
sim foi procreada em francez, mas hoje precisâmos ca muito mais d'ella
que em parte nenhuma.
Volto ja da digressão philologica: tornemos á optica e á catoptrica.
Grande coisa é a distancia!
E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a salvação de
muita coisa que, em seu pleno gôso e posse pacífica, pereceria de
inanição ou morreria da oppressora molestia da saciedade.
Por isso eu não gósto de metter o scalpello no mais perfeito da
construcção humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do
seu funccionar...
Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na
herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se
cuidava... vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos
antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro
demais que temos passado a vida a mentir...
Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um
mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida
tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições,
as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a
rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as
incoherencias.
Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo.