A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de Pedr'alvares
Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do
Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o
prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a
infanta D. Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre,
convertida em capella de stylo philipino.--O homem das botas, e o
que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel
e graciosa esperteza da regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e
theoria dos governos folgasões; os melhores governos
possiveis.--Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.
Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do
arrendado e elegante frontispicio gothico da Graça. A ausencia de não
sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que
tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperança de
visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como
outras bellas e interessantes antiguidades de não menor preço.
Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro illegitimo, porque não
pertence aos barões assignalados
Que, sem passar além da Taprobana,
No velho Portugal edificaram
Novo reino que tanto sublimaram.
Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da
irmandade que é, á grande cerimonia da exposição e ostensão do
Sancto-milagre.
Junctos descémos á egreja, que é perto.
A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel
não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de
homens e mulheres em relêvo que visivelmente pertenceram a edificação
antiga, e que actualmente estão incrustados na tosca alvenaria do
cruzeiro.
Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, altos de relêvo e
desenhados com uma franqueza que se não incontra em esculpturas muito
posteriores.
São talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas
successivas reedificações se teem ido conservando. Abençoado seja o
escrupuloso que as salvou d'este último _melhoramento_ que houve no
desgraçado e desgraçioso templo: o que não foi ha muitos annos por
certo.
Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por que é a phrase vulgar e
impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com
mais exacção se devêra dizer mosarabe.
Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de
irmãos com tochas, distribuiram-nos a cada um de nós a sua, e
processionalmente nos dirigimos á porta lateral do altar-mor, da qual se
sobe, por uma escada assás larga e commoda, á especie de camarim que
está parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se
conserva o grande paladio santareno.
Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao
alto, ajoelhámos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com
a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de
sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns
versetos a que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu
repositorio uma especie de ambula de ouro de fábrica antiga, mas não
mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.
Depois de nos inclinarmos e receber a bençam que o padre nos deitou com
a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e
observar.
Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o
pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da
particula consagrada que a judia roubára para seus feitiços.
Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente
sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, não nos
perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior
compuncção.
Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrámos em
conversação com o prior.
N'aquelle mesmo camarim juncto á devota reliquia se conservaram, por
espaço de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho
nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpção,
que fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da occupação d'aquella villa
pelas fôrças realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, foi
mettido n'um caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção
estragou e rompeu a folha, e uma infecção terrivel apestava a egreja.
Soffreu-se isto annos, representou-se ao govêrno por vezes, mas nenhuma
resolução se pôde obter. Até que afinal, declarando o prior que, se não
mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle
se via obrigado a mettê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse
como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da
egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, á direita.
E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção nem epitaphio, a muito
alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso
principe D. João o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da
conquista e navegação etc.
Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!
A visita ao Sancto-milagre não é completa sem se ir ver a casa onde elle
se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande veneração, e
em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje está
abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma má porta que a defende
das incursões dos animaes. Pena e desleixo grande, porque é elegante e
graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gôsto do
decimo-sexto seculo, de renascença ja muito adiantada no classico: é um
verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha
em toda a peninsula.
A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada
com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da
independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem
com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.
Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras
beatas a irreverencia apparente, que bem sabem não ser eu de motejar com
as coisas sérias e sanctas. Mas o facto é que a historia do
Sancto-milagre está ligada com a célebre historia do 'homem das botas.'
Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja
instrucção principalmente escrevo este douto livro, que pela invasão de
Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e
ahi se conservou alguns annos até muito depois da completa retirada dos
francezes.
Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse--ou
profanasse--que era o mais provavel--a sancta reliquia, começou a
reclamá-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de
lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre
Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do
Rocio.
Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govêrno que
tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.
Não assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel
stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun
el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos
felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu
povo, mas fazendo-o rir.
Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a
restituição do Sancto-milagre que era de justiça fazer-se a Santarem,
mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alborôto no povo.
Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gôsto; e bom
gôsto teve tambem o govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em
que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava
fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,--fez-se annunciar
por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em
umas botas de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a
pé sem mais embarcação, vela nem remo.
A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No
dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios,
outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as
classes, e todos passaram o melhor do dia á espera do homem das botas.
No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu
barco de agua-arriba, e navegava com vento e maré para as ditosas
ribeiras de Santarem.
Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa senão quando
constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram
aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.
Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam
innocentemente se riu govêrno algum de ter inganado o povo.
Nós celebrámos a historia como ella merecia, e fomos jantar á Alcaçova,
para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu
inclyto alfageme.