--'Georgina, Georgina!'
--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de
me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te
amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve
relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva
dedicação de todo o meu ser... dize-o tu.'
--'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es...'
--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não
ama.'
--'Não, certo, não.'
--'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam
felizes como nós nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua
ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas
cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o
mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam:
não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego:
o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos
de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar
fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram
meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas
confortava-me, vivia de esperanças... triste viver mas doce! Emfim
vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que não eram menos
ternas nem menos apaixonadas...'
--'Se eu nunca deixei, nem um momento...'
Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação, Georgina pôs
a mão na bôcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma
blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com
um arrebatamento, uma _furia_, n'um paroxismo de lagrymas e de soluços,
que partiriam o coração ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a
inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas
palpebras de seus olhos; mas se chegou até elles alguma lagryma mais
rebelde, prompta refluiu para o coração, porque ao levantá-los outra vez
e ao fixá-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros,
celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.
Ella continuou:
--'As tuas cartas, que não eram menos ternas nem menos apaixonadas,
começaram todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram menos
verdadeiras por fôrça. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da
minha amizade vinha então para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei,
procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos
contendores: presagiava-me o coração que me havia de ser preciso. E foi;
cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal acção
que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no
hospital dos feridos. Aopé de ti estava um frade...'
--'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'
--'Era elle.'
--'Pois tu sabes?..'
--'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras...'
--'Tu a elle... disseste?..'
--'Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei que me não importava o que
fazia. Vi depois que me não inganára na confiança que posera n'elle.
Trouxemos-te para este convento, trattámos de ti, conseguimos salvar-te
a vida... E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui... fui
feliz. A tua gente... a tua familia do valle tambem veio para
Santarem... tua avó e tua prima, Carlos...'
--'Joanninha! Joanninha está aqui?'
--'Está; socega; ja t'o disse, logo a verás.'
--'Eu! Eu para quê? Eu não quero...'
--'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.'
--'Tudo o quê, Georgina?'
--'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella
que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fôra minha
irman. Intendes bem agora que te não amo? Comprehendes agora que tudo
acabou entre nós, e que não vejo, não posso ver em ti ja senão o espôso,
o marido da innocente criança que tomei debaixo da minha protecção, e a
quem juro que hasde pertencer tu?'
--'Juras falso.'
--'Como assim! Pois queres mais victimas? Não estás satisfeito com a
minha ruina? Eu aomenos não sou do teu sangue. E essa velha decrepita
que é tua avó, que duas vezes foi em verdade tua mãe porque te
criou,--essa innocente que te ama na singelleza do seu coração... e esse
pobre frade velho...'
--'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha
familia. Malditto sejas tu, frade!'
O desgraçado não acabára bem de pronunciar éstas palavras, quando a
porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de
Fr. Diniz estava deante d'elle.