Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra
terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra
vez. _Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco.
--'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa
e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas tu, Georgina? Ja não sou
nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que
derramavas em torrentes sôbre a minha alma, em que trasbordava o teu
coração; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o
mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve
no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte
celeste d'onde manava? Nem as recordações de nossa passada felicidade,
nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios
tremendos que por mim fizeste, nada, nada póde acordar na tua alma um
echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da
nossa vida, Georgina, porque nós chegámos a confundir n'um só os dois
seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu até este dia? E tu, tu que
refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado,
que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'
--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que
mais o desesperava:--'Carlos, não abuses da pouca saude que ainda tens.
O esfôrço d'alma que estás fazendo póde-te ser prejudicial. Socega. Tu
illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti,
Carlos, e discorramos pausadamente sôbre a nossa situação, que não é
agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que póde supportar-se
se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos
convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente é. Ouve-me,
Carlos: tu amaste-me muito...'
--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'
--'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez
nenhum.--Não quero perder ésta última illusão... ja não tenho outra...
Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu...
oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma
cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam
completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio,
este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde
consagrar licitamente.