Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.--Horacio na
sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.--A policia
e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema que nos
rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de
_old-sack_ sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre
San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este
último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
Abeillard no Pere-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o _auctor_ á
sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas
dos Lusiadas.--De como emfim proseguem éstas viagens para Santarem,
e que feito será de Joanninha.
Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu
Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu paletó de viagem. Alli,
sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua
história, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com
os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros
presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella
civilização pasmosa.
E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!..
Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fóra aquella deliciosa
satyra, creio que a nona do L. I.,
Ibam forte sacra via, sicut meus est mos,
Nescio quid meditans nugarum...
Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o pé ao papa.
Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma...
E não é preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a
que Duarte Nunes menos estragou...
O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas
antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas
venerandas e deliciosas _sagas_ portuguezas... Em ponto historico pouco
mais eram do que _sagas_, verdade seja, mas como taes, lindas. E o
Duarte Nunes, que era um pobre grammaticão sem gôsto nem graça, foi-se
ás filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles
monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traços historicos que eram
muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma
história, tendo apenas destruido um poema. Ficámos sem Nibelungen,
podendo-o ter, e não obtivemos história porque se não podia obter assim.
Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedeça
á lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glória da
benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor
que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em
que, além da porcaria e mau-cheiro, não ha perigo nenhum senão o de
rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em
qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que
imaginar conspirações, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar
para as Lamas á sua vontade. Mas emfim ca não ha d'outros nem haverá tam
cedo, graças ao muito que agora, diz que, se cuida nos interêsses
materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu
passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica:
verá se não é outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas
reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas estão por tantos e tam
successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de
todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz
systema que nos rege, ainda assim mesmo não ve erguer-se deante de seus
olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se não ouve fallar as
pedras, bradar as inscripções, levantar-se as estátuas dos tumulos; e
reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas
edades maravilhosas!
Tenho-o experimentado muitas vezes: é infallivel. Nunca tinha intendido
Shakspeare em quanto o não li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um
carvalho secular, á luz d'aquelle sol baço e branco do nublado ceo
d'Albion... ou á noite com os pés no _fender_, a chaleira a ferver no
fogão, e sôbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a
luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores do _old
sack_; em quanto o fogão e os ponderosos castiçaes de cobre brunido
projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de
carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de
que as velhas fazem visões e almas-do-outro-mundo, de que os
poetas--poetas como Shakspeare--fazem sombras de _Banco_, bruxas de
_Mackbeth_, e até a rotunda pansa e o arrastante espadagão do meu
particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legítimas
consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras,
dos poltrões pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os
atura em tendo as costas quentes.
Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu es maior homem que Sancho Pança.
Creio que não. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens.
Quando nossos avós renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e
invocaram a San' Jorge, tu vieste, ó Falstaff, em sua comitiva de
Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha
d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda.
Este importante ponto da nossa história, da demissão de San'Thiago e da
vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu
_homem-de-ferro_--ésta grande descoberta archeologica que tanta coisa
moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli
os antigos exemplares: que é a minha doutrina.
Em tudo, para tudo é assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez
legítimo e _cru_, virgem de toda a corrupção continental; calça de
ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na
cova-do-ladrão. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao
Pére-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da
algibeira, pôs-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido
muito menos excentricas cabeças que a do meu inglez puro-sangue. Não é
nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido,
bradando por um conego da sé que lhe acudisse, que se queria identificar
com o seu modêlo, purificar a sua paixão, ser emfim um completo--ou um
incompleto Abeillard.
Eu não sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sôbretudo desde que dei
a minha demissão de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me
succedeu o outro dia. Tinha estado ás voltas com o meu Bentham, que é um
grande homem por fim de contas o tal quaker, e são grandes livros os que
elle escreveu: cançou-me a cabeça, peguei no Camões e fui para a
janella. As minhas janellas agora são as primeiras janellas de Lisboa,
dão em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans
d'hynverno, como as não ha senão em Lisboa. Abri os Lusiadas á ventura,
deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias
E ja no porto da inclita Ulyssea...
Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da
fronte... as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com
elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi está em monumento-caricatura da
nossa glória naval... E eu não vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira
portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a tôrre de Belem ao
longe... e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez
Portugal.
Tal fôrça deu o prestigio da scena ás imagens que aquelles versos
evocavam!
Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o
ministro da marinha que ia a bórdo.
Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas
camelias.
Andei tres dias com odio á lettra-redonda.
Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas
viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos
capitulos nos temos demorado?
Vem e vem muito: vem para mostrar que a história, lida ou contada nos
proprios sitios em que se passou, tem outra graça e outra fôrça; vem
para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me
fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a
escrever para teu aproveitamento, a interessante história da menina dos
rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.
Sim, aqui tenho estado extendido no chão, as mulinhas pastando na relva,
os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as últimas horas de
uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem
percursora da noite.
Mas basta de valle, que é tarde. Oh lá! venham as mulinhas e montemos.
Picar para Santarem, que no inclyto alcaçar d'elrei D. Affonso-Henriques
nos espera um bom jantar d'amigo--e não é so a _vacca e riso_ de Fr.
Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos
austero e muito mais risonho.
--'Porquê? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez
a amavel leitora.
--'Não, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta:
'não, minha senhora, a historia não acabou, quasi se póde dizer que
ainda ella agora começa; mas houve mutação de scena. Vamos a Santarem,
que lá se passa o segundo acto.'