Prologo dos editores. pag. v

Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar

na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu

immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem.

Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi

lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e

um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os

da calça larga levam a melhor. 1

Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens.

Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e

mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e

por seu escudeiro, Sancho Pança.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha.

Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de si mesma; e sophisma de

Jeremias-Bentham.--Azambuja. 13

Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade

do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas

eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão

para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de

economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao

diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um

ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este

seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de

direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho

para o pinhal da Azambuja. 23

Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e

divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do

mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho

ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de

outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda

erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um

ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de

zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re

amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este

capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao

seguinte. 31

Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se

por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo

romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco

trabalho.--Transição classica;--Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A.

d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da

vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na

triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do

marquez do F. que adorava o choito. 39

Capitulo VI.--Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão

misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se

razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.--No meio d'estas

disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é

preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao

outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça

de Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e

o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o

A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do

poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixão do

marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta

d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este

mundo e ao Cartaxo. 47

Capitulo VII.--Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as

carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral,

e de como são o characteristico da civilização de um paiz.--O

Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do

Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua

fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e

Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se

evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59

Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que

o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do

imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de

Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é philosopho e

chega á ponte de Asseca. 71

Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente

levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do

capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos que

não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e

Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da

Assecca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem de um

dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi

jacobino desde piqueno.--Inguiço que lhe deram.--A duqueza de

Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. 79

Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por

entre umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta

janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel

inferioridade do homem que não é poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de

Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi

completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos

pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo

seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.--A menina

dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crítica dos

elegantes muito para rir.--Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91

Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os

philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas

sim.--Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A.,

tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho,

agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se

como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos

juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo

admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração.

Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a

dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido

de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á

posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no

capítulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a

duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis

leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.--Dido e a

mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha

estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por

Joanninha, sua neta. 99

Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais

que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne

prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal.

Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher

desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da

natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes

de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A.

Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando

a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se

interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz. 109

Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado,

socialmente e artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade

do que o barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o

barão, sua clasificação e descripção linneana.--Historia do castello do

Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas

não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'--De

como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao

frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso

perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os

barões a gritar contos de réis.--Como se contam e como se pagam os taes

contos.--Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e

explica-se ésta predilecção. 121

Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue

o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a

manga a beijar a avó e á neta, e do mais que entre elles se

passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descubrir-se onde a

historia vai ter. 133

Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que não foi para o

depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das

Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a

de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.--Que o

podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os liberaes não intendem o

que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se

fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e

pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. 147

Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos

antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e

depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a

velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia

aziago. 155

Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a

neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da

banda de Lisboa.--Por que razão muitas vezes a mais animada conversação

é a que mais facilmente pára e quebra de repente.--Nova demonstração de

dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o

monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar

da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véo que cobre os mysterios

da nossa historia. 171

Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre

o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hábito e

o monge. 181

Capitulo XIX.--Guerra de postos avançados, Joanninha no bivac.--De como

os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a

retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este

nome.--A sentinella perdida e achada. 191

Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do

Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do

seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado

á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e

pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao

mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se

parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.--De como

os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais

interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar por fim. 203

Capitulo XXI.--Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa

o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, a

mais perigosa e falsa das situações. 215

Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da

velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus

botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que

achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e

se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores.

Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade levantar a primeira

pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento. 225.

Capitulo XXIII.--Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao

pensamento de Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau

da familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes

difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos

os poetas moyen-ages do nosso tempo. 235.

Capitulo XXIV.--Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam

natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por

suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os braços

abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia

prazer. 247.

Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde

tambem.--Pasmosa contradicção da nossa natureza.--De como os olhos

verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o

coração da mulher que ama, sempre advinha certo. 261.

Notas. 275.

Notas:

[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem

faltava um braço.

[2] Célebre urso do Jardim das Plantas em París.

[3] Pag. 40, 41, 42.

Viagens na Minha Terra (Completo) · 第 50 / 105 题