Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio
onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente,
occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o
espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.
Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam
as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que
inventar para fazer: pôz-se a pensar.
Que remedio!
Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia.
A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria
á redea sôlta pelo espaço...
Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de
cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas
incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim...
todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza
todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O
desgraçado...--Porque não heide eu dizer a verdade?--o desgraçado era
poeta.
Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é
que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino
sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so
teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os
artistas.
Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis
leitoras que não teem metro, nem rhyma--nem razão... Mas emfim versos
não são.
'Olhos verdes!..
'Joanninha tem os olhos verdes...
'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.
'Nem o fogo--e o fummo das paixões, como nos pretos.
'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a
transparencia do mar...
'Tudo está n'aquelles olhos verdes.
'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?
'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz
tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar,
quanto tinha que dar.
'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre
a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_
'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas
palavras: _Ama-me, que es meu!_
'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres
moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão.
'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?
'Que lingua fallam eles?
'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?
'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...
'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro.
'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde.
'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza.
'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da
formosura creada.
'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.
'O ceo é azul...
'A noite é negra...
'A terra e o mar são verdes...
'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e
bellos como a noite.
'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim
de uma longa noite quem não suspira pelo dia?
'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!..
'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar
para elle.
'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina...
'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na
variedade infinita de seus matizes tam suaves.
'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é
alegre.
'A vida compõe-se de alegrias e tristezas...
'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida.
'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'
Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_
ao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia.
Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos
tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas
se pôde obter o fragmento que deixo transcripto.
Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a
collecção completa!
Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_....
Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos
surdos do coração--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos
invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero,
que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.
E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador
renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de
romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!
Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos
grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e
escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não
produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o
Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de
outros nomes tam obscuros como estes?