Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de
Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da
familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes
difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a
todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.
Não ha nada como tomar uma resolução.
Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e
complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra
vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces
ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a
resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é
por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto
d'honra, teima.
Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era
longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram
ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se
avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de
fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores
acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular
_malucos_.
Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?
Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma
agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que
tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a
primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido!
Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque
cegaria ella?
Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou.
Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e
desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça
aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau
d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um
grande crime... um ser de mysterio e de terror.
Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava
detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e
íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes
abhorrecer esse homem.'
Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a
elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que
tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que
elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar...
E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa?
Esperava em Deus que não.
Desconfiaria alguma coisa?... O quê?
E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os
labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores?
Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo
porque fugira da casa paterna?
Havia de?..
Não.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se
ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.
Mentiria, juraria falso se fosse preciso.
E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a
consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua
filha?
Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado,
infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o
passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra
de o não tornar a cruzar mais.
Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um
proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?
Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de
desculpa, depois o tempo daria conselho.
_Veremos_!--é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades
da vida, sempre que é possivel espaçá-las.