Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina
do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto
esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis
leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos
governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais
nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se parece o auctor
da presente obra com um pintor da edade-média.--De como os abraços,
por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
que pareçam, sempre teem de acabar porfim.
Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de
macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia
profundamente.
A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores,
illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas
graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo
vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão
de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação
exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas.
Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo,
lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa
recendente dos prados.
Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos
livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e
fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição--Joanninha não
estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem,
que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de
melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e
admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um
poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos
rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora,
á menina do seu nome.
Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim
do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso
canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a
distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das
árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu
outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de
sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados,
tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e
maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.
O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem
trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do
novo actor que lhes vou appresentar em scena.
Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não
póde faltar.
O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto
das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que
trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições
de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.
A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte
como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e
decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e
largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitação das
modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o
desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se
por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores,
realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de
incarnado...
Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações--que
essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado
n'esta terra, proscreveram do exército... por muito portuguez demais
talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o
em uniforme da bicha!
Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por
interromper com ella o meu retratto.
Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras,
sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus
paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e
conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes
expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia
a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo
mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...
Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo.
Voltemos ao nosso retratto.
Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa,
denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexão...
mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso,
facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas
impossivel de esquecer uma injúria verdadeira.
A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito
menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade
inquestionavel e não disputada.
O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e
longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa
alta e desaffogada.
Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais
piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character
pouco vulgar e difficilmente bem intendido.
D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte
antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem
d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão
que lhe désse.
N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas
árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse--quebrado
comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto,
de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na
face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de
novo--que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que
era...
Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e
inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo...
Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi
mancebo porque o não parecia--o homem singular a quem o nome, a historia
e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão.
--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do
crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da
exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria!
Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois
annos?..'
Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão
adormecida e a levou aos labios.
Joanninha estremeceu e acordou.
--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados,
Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um
sonho, não foi, meu Carlos?..'
E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os
cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.
--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu
não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás
vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão
quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos,
meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu
Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...'
--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'
--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou
acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'
--'Joanna!... prima... minha irman!'
E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço--com
um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um
primeiro beijo d'amantes...
O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo
na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que
a habitam.
Senão... invejariam os anjos a vida da terra.
Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os
olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o
rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como
quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e
sem nexo:
--'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou
o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem:
eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso,
nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu
aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto...
Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!--Lá isso não me importa; deixá-los
dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a
avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem
eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.--Oh!
minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante
preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco...
Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê?
Ella é cega, coitadinha, não sabes?'
--'Cega, que dizes? minha avó está cega?'
--'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não
sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando...
Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te
sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella
ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos
de fallar--nós dois sos--á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu
sabes... Agora vamos, Carlos.'
E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto,
froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo
azul.