Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar
o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razão, e
tira-se depois, ao padre José Agostinho.--No meio d'estas
disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para
tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque,
quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusíadas, Fausto e a
Divina-Comedia.--Desgraça do Camões em ter nascido antes do
romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores
sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do
marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta
Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixão do
marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a
este mundo e ao Cartaxo.
O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o
mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos
na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_, é sem-dúvida a
heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do
maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do
christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira
fazer ao padre José Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido
_in pontificalibus_ deante de um retabulo, não me lembra de que sancto,
dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto
bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. não
se póde; é uma que realmente... E então aquelle famoso conceito com que
elle acaba, digno da Phenix-Renascida:
O falso deus adora o verdadeiro!
Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me,
chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no
mundo, desde a _Divina-Comedia_ até ao _Fausto_...
O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na
sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande--não so
poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era
pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque
sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette
creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje
creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no
mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema
constitucional que felizmente nos rege.
Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um
pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda
creio no nosso Camões: sempre cri.
E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam
aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores,
aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--até ésta fatal
edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do
espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres
movimentos do coração chymeras de enthusiastas--até ésta edade de
saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no
presente--em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e
o sentimento intimo do _bello_ me dão na leitura dos Lusiadas outro
deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram--eu
senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude,
por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo--nem siquer
desculpa.
Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo
de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente
achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar--é pôr-se uma pessoa
nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.
Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade
de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a
sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que
por aquelle fraco o atacar.--E porque será isto? Porque chegou a minha
hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje é
a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas
difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.
Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e
quem sou eu; mas tracta-se da _intalação_, que é a mesma apezar da
differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a
crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que
tinha por mestra e modêlo.
Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito
atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de
Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de
Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com
os _Tristes_ de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de
Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo
supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o
remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados
pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de
Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido
mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos
maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha
sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_
que vae para a India...
Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda
sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron
acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto _a
marcha do intellecto_ no mesmo terreno, é tudo uma miseria.
Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e--depois do Dante--da
poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com
o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria.
E aqui direi eu com o vate Elmano:
Camões, grande Camões, quam similhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha
obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso
de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E
onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse
d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo?
Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, não me atrevo a fazer comedias
com taes logares de scena,--e não sei, não gósto de brincar com essas
coisas.
Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge,
do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar
com os mortos sem compromettimento serio, e....
Eis-me ahi no êrro de Camões--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas
a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci....
Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante
não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe
servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio
christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o
descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o
perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram
para os dignos pares... Não se tinham ainda descoberto as mangações
liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade
ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas
palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. Não
havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem
ministros para pagar as tolices da gazeta.
O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu
catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.
Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle!
Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o
que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos
gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a
irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam
pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros,
cahiam depois todos sôbre o poeta, e--se o não podessem inforcar, pelo
menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria
muito grande.
Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais
commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto
quizer.
Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de
Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao
Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com
uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao
pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide
atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos...
Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro
d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho
e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e
arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as
orelhas.
Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo
jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas
de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas
verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton...
Oh! ésta agora!... Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras,
marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi é
que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o
mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é
de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma
portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_;
quanto mais!...
O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos lá...
E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de
Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve
de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos
que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi
metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de
Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre
soube esconder o seu jôgo.
A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e
venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto
importante.'
Deitou-me a tremenda luneta.
--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'
Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se.
--'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de
Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...'
'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?'
Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de
anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de
Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os
hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia
por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.
Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande
café do Cartaxo.