Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por
explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
trabalho.--Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.--Desce
o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades
materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem
de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do
animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
Este é que é o pinhal da Azambuja?
Não póde ser.
Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque
druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de
Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui
perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão
Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta
illusão...
Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro
escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos
fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel,
pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia _promptos e
recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de
Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide
perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto--não ter onde os
pôr!..
Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje
em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo,
depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor,
como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a
historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os
edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem
cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do _vivo_ da
natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é
trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e
sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente.
Eu lhe explico.
Todo o drama e todo o romance precisa de:
Uma ou duas damas,
Um pae,
Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
Um criado velho,
Um monstro, incarregado de fazer as maldades,
Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.
Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de
Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que
precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo,
azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks;
fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que
sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se
uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os
figurões, com os palavrões _illuminam-se_... (stylo de pintor
pinta-monos).--E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura
original.
E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!
Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos
quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o
desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma
verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza.
E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e
topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do
pinhal da Azambuja...
Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra,
levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos
salteadores lusitanos?
Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar
os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de
entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a
maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam
todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por
acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se
obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o
thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque
se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?
Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer...
Sim senhor, digo: _está consolidado_. E se não sabe o que isto quer
dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos
os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como _se
consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente
não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem
_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna--é o
mesmo--vai para a commissão de fazenda--depois lord do thesoiro,
ministro: é _escalla_, não offendia nem a rabujenta constituição de 38,
quanto mais a carta........................................................
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O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas
areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da
Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei
como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe
perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me não
lembro bem--estatellado no chão.
Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar
para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada
mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli
até Santarem.
Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este
tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o ânimo á altura da
situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de
trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado
albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e
lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e
amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e
excentrico amigo, o marquez do F.
Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel
fidalgo--o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas
adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos
da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem
ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de
praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com
que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel.
Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha
do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel
Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades
toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.
Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que
tenho conhecido, aquelle fidalgo.
Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres
adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que
sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis
por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar,
guardava-o e desmanchava as fòrmas....--Não acabo se coméço a contar
historias do marquez do F.
Piquemos para o Cartaxo, que são horas.