razão, disse que o não havia por culpado como antes; e na parte da nau e
haveres, que lhe el-rei de Portugal enviava dizer que em Inglaterra eram
retidos contra razão, que elle os faria logo desembargar, como seu amigo
que era e queria ser. E assim o fez de feito, que em breves dias foram
despachados.
*CAPITULO XLIII*
_Como Dom João, filho de el-rei Dom Pedro de Portugal, foi feito mestre
de Aviz_.
Vós ouvistes, no primeiro capitulo d'esta historia, como depois da morte
de Dona Ignez, ei-rei sendo infante, nunca mais quiz casar, nem depois
que reinou quiz receber mulher, mas houve um filho de uma dona, a que
chamaram Dom João. D'este moço deu el-rei cargo a Dom Nuno Freire,
mestre de Christus, que o criava e tinha em seu poder, e que criando-o
elle assim, sendo em idade até sete annos, veiu-se a finar o mestre de
Aviz, Dom Martim do Avelal.
O mestre de Christus, como isto soube, foi-se logo a el-rei Dom Pedro,
que então pousava na Chamusca, e pediu-lhe aquelle mestrado para o dito
seu filho, que levava em sua companha, e el-rei foi mui ledo do
requerimento, e muito mais ledo de lh'o outorgar.
Então tomou o moço o mestre nos braços, e tendo-o em elles, lhe cingiu
el-rei a espada e o armou cavalleiro, e beijou-o na boca, lançando-lhe a
benção, dizendo que Deus o accrescentasse de bem em melhor, e lhe desse
tanta honra em feitos de cavallaria, como déra a seus avós: a qual
benção foi em elle bem cumprida, como adiante ouvireis.
E disse então el-rei contra o mestre:
--Tenha este moço isto por agora, cá sei que mais alto ha de montar, se
este é o meu filho João de que me a mim algumas vezes falaram, como quer
que eu queira antes que se cumprisse no infante Dom João, meu filho, que
n'elle; cá a mim disseram que eu tenho um filho João, que ha de montar
muito alto, e por que o reino de Portugal ha de haver mui grande honra.
E porque eu não sei qual d'estes Joões ha de ser, nem o podem saber em
certo, eu azarei como sempre acompanhem ambos estes meus filhos, pois
que ambos são de um nome, e escolha Deus um d'elles para isto, qual sua
mercê fôr. Como quer que muito me suspeita a vontade que este ha de ser,
e outro nenhum não, porque eu sonhava uma noite o mais estranho sonho
que vós vistes: a mim parecia, em dormindo, que eu via todo Portugal
arder em fogo, de guisa que todo o reino parecia uma fogueira, e estando
assim espantado vendo tal cousa, vinha este meu filho João, com uma vara
na mão, e com ella apagava aquelle fogo todo. E eu contei isto a alguns
que razão teem de entender em taes cousas, e disseram-me que não podia
ser, salvo que alguns grandes feitos lhe haviam de sair de entre as
mãos.
Ora, assim adveiu depois, como dizemos, que, isto feito, tornou-se o
mestre de Christus para a villa, e mandou seu recado aos commendadores
da ordem de Aviz, que viessem logo alli, por haver de falar com elles
cousas que eram de serviço de Deus e prol de sua ordem (e isto fazia o
dito mestre porquanto a ordem de Aviz e a de Christus são ambas da ordem
de São Bento), os quaes, por suas cartas e requerimento, vieram logo
áquelle logar.
O mestre falou então com o commendador-mór, e com Fernão Soares, e Vasco
Peres, todo o que era vontade de el-rei, dês-ahi entrou com elles em
cabido, segundo costume de sua ordem, e o commendador propoz ao mestre,
em nome seu e dos commendadores, dizendo que elle bem sabia como seu
senhor, o mestre de Aviz Dom Martim do Avelal, era finado, e que elles
não tinham mestre que os houvesse de reger como cumpria a serviço de
Deus, segundo sua ordem mandava, nem entendiam de eleger outro, senão
aquelle que lhes elle desse; e que pois elle era de sua regra e o fazer
podia, que lhe pediam por mercê, que por serviço de Deus e bem da dita
ordem, lhes desse mestre que os houvesse de reger segundo sua regra
mandava.
O mestre respondeu que diziam mui bem, como bons cavalleiros e bem
sisudos, e porque elle era tido de fazer e requerer toda causa que fosse
serviço de Deus e prol de sua ordem, que porém queria tomar cargo de
lhes dar mestre que os houvesse de reger segundo sua regra mandava, e
que para ser seu mestre lhes dava Dom João, filho de el-rei Dom Pedro,
que elle criava, que entendia que era tal senhor que os regeria como
cumpria a serviço de Deus e prol de sua ordem.
O commendador-mór, e os outros disseram então, que lhe tinham em grande
mercê de lhes dar tão honrado senhor por seu mestre: e logo o dito Dom
João foi chamado, e foram-lhe tirados os vestidos seculares, e lançado o
habito da ordem de Aviz, e como lhe foi vestido, o commendador-mór e os
outros lhe beijaram o mão por seu mestre e senhor. E isto assim feito,
foi elle levado para a ordem de Aviz, de onde era mestre, e alli se
criou alguns annos, até que começou de florescer em manhas, e bondades,
e autos de cavallaria, segundo a historia adiante dirá, contando cada
umas em seu logar.
E se alguns quizerem dizer que os poucos annos de sua idade e não
legitima nascença embargavam de não poder ser mestre, a taes se responde
que o Papa dispensou com elle, que posto que provido fosse antes do
tempo, e nado de não legitimo matrimonio, que seus bons costumes e
honroso proveito que d'elle vinha á ordem, corrigia tudo isto, e que o
confirmava em elle.
*CAPITULO XLIV*
_Como foi trasladada Dona Ignez para o mosteiro de Alcobaça, e da morte
d'el-rei Dom Pedro_.
Porque semelhante amor, qual el-rei Dom Pedro houve a Dona Ignez,
raramente é achado em alguma pessoa, porém disseram os antigos que
nenhum é tão verdadeiramente achado, como aquelle cuja morte não tira da
memoria o grande espaço do tempo. E se algum disser que muitos foram já,
que tanto e mais que elle amaram, assim como Adriana, e Dido, e outras
que não nomeamos, segundo se lê em suas epistolas, responde-se que não
falamos em amores compostos, os quaes alguns autores abastados de
eloquencia, e florescentes em bem ditar, ordenaram segundo lhes prouve,
dizendo em nome de taes pessoas razões que nunca nenhuma d'ellas cuidou;
mas falamos d'aquelles amores que se contam e lêem nas historias, que
seu fundamento teem sobre verdade.
Esse verdadeiro amor houve el-rei Dom Pedro a Dona Ignez, como se d'ella
namorou sendo casado e ainda infante, de guisa que, pero d'ella no
começo perdesse vista e fala, sendo alongado, como ouvistes, que é o
principal azo de se perder o amor, nunca cessava de lhe enviar recados,
como em seu logar tendes ouvido. Quanto depois trabalhou pela haver, e o
que fez por sua morte, e quaes justiças n'aquelles que em ella foram
culpados, indo contra seu juramento, bem é testemunho do que nós
dizemos.
E sendo lembrado de lhe honrar seus ossos, pois lhe já mais fazer não
podia, mandou fazer um moimento de alva pedra, todo mui subtilmente
obrado, pondo elevada sobre a campa de cima a imagem d'ella, com corôa
na cabeça, como se fôra rainha. E este moimento mandou pôr no mosteiro
de Alcobaça, não á entrada, onde jazem os reis, mas dentro na egreja, á
mão direita, a cerca da capella-mór.
E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde
jazia, o mais honradamente que se fazer pode, cá ella vinha em umas
andas, muito bem corrigidas para tal tempo, as quaes traziam grandes
cavalleiros, acompanhadas de grandes fidalgos, e muita outra gente, e
donas, e donzellas e muita clerezia.
Pelo caminho estavam muitos homens com cirios nas mãos, de tal guisa
ordenados, que sempre o seu corpo foi, por todo o caminho, por entre
cirios accesos; e assim chegaram até ao dito mosteiro, que eram d'alli
dezesete leguas, onde com muitas missas e grão solemnidade foi posto seu
corpo n'aquelle moimento. E foi esta a mais honrada trasladação que até
áquelle tempo em Portugal fôra vista.
Semelhavelmente mandou el-rei fazer outro tal moimento, e tambem obrado,
para si, e fêl-o pôr a cerca do seu d'ella, para quando acontecesse de
morrer o deitarem n'elle.
E estando el-rei em Estremoz, adoeceu de sua postremeira dôr, e jazendo
doente, lembrou-se como, depois da morte de Alvaro Gonçalves e Pero
Coelho, elle fôra certo que Diogo Lopes Pacheco não fôra em culpa da
morte de Dona Ignez, e perdoou-lhe todo queixume que d'elle havia, e
mandou que lhe entregassem todos seus bens: e assim o fez depois el-rei
Dom Fernando, seu filho, que lh'os mandou entregar todos, e lhe alçou a
sentença, que el-rei seu padre contra elle passára, quanto com direito
poude.
E mandou el-rei em seu testamento, que lhe tivessem em cada um anno,
para sempre, no dito mosteiro, seis capellães que cantassem por elle
cada dia uma missa officiada, e sairem sobre ella com cruz e agua benta.
E el-rei Dom Fernando, seu filho, por se isto melhor cumprir, e se
cantarem as ditas missas, deu depois ao dito mosteiro, em doação por
sempre, o logar que chamam as Paredes, termo de Leiria, com todas as
rendas e senhorio que n'elle havia.
E deixou el-rei Dom Pedro, em seu testamento, certos legados, a saber: á
infante Dona Beatriz, sua filha, para casamento, cem mil libras; e ao
infante Dom João, seu filho, vinte mil libras; e ao infante Dom Diniz,
outras vinte mil; e assim a outras pessoas.
E morreu el-rei Dom Pedro uma segunda-feira de madrugada, dezoito dias
de janeiro da era de mil e quatrocentos e cinco annos, havendo dez annos
e sete mezes e vinte dias, que reinava, e quarenta e sete annos e nove
mezes e oito dias de sua idade. E mandou-se levar áquelle mosteiro que
dissemos, e lançar em seu moimento, que está junto com o de Dona Ignez.
E porquanto o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, não era então
ahi, foi el-rei detido e não levado logo, até que o infante veiu; e á
quarta-feira foi posto no moimento.
E diziam as gentes, que taes dez annos nunca houve em Portugal, como
estes que reinára el-rei Dom Pedro.
* * * * *
Fim da Chronica de El-rei D. Pedro I
*INDEX*
Duas palavras
Chronica do Senhor Rei D. Pedro I, oitavo Rei de Portugal, Prologo
Capitulo I--Do reinado de el-rei Dom Pedro, oitavo rei de Portugal, e
das condições que n'elle havia.
Capitulo II--Como el-rei de Castella mandou pelo corpo da rainha Dona
Maria, sua madre, e da carta que enviou a el-rei de Portugal, seu tio.
Capitulo III--Das cartas que o papa, e el-rei de Aragão enviaram a
el-rei de Portugal sobre a morte de el-rei, seu padre.
Capitulo IV--Da maneira que el-rei Dom Pedro tinha nos desembargos de
sua casa.
Capitulo V--De algumas cousas que el-rei Dom Pedro ordenou por bem de
justiça e prol de seu povo.
Capitulo VI--Como el-rei mandou degolar dois seus criados, porque
roubaram um judeu e o mataram.
Capitulo VII--Como el-rei quizera metter um bispo a tormento, porque
dormia com uma mulher casada.
Capitulo VIII--Como el-rei mandou capar um seu escudeiro, porque dormiu
com uma mulher casada.
Capitulo IX--Como el-rei mandou queimar a mulher de Affonso André, e de
outras justiças que mandou fazer.
Capitulo X--Como el-rei mandava matar o almirante; e da carta que lhe
enviou o duque e commum de Genova, rogando por elle.
Capitulo XI--Das moedas que el-rei Dom Pedro fez, e da valia do oiro e
da prata n'aquelle tempo.
Capitulo XII--Da maneira que os reis tinham para fazer thesouros, e
accrescentar n'elles.
Capitulo XIII--Por que guisa el-rei Dom Pedro de Castella começou de
juntar thesouro.
Capitulo XIV--Como el-rei fez conde e armou cavalleiro João Affonso
Tello, e da grão festa que lhe fez.
Capitulo XV--Das avenças que el-rei de Castella e el-rei Dom Pedro de
Portugal firmaram entre si, e como lhe el-rei de Portugal prometteu de
fazer ajuda contra Aragão.
Capitulo XVI--De algumas pessoas que el-rei Dom Pedro de Castella mandou
matar, e como casou com a rainha Dona Branca e a deixou.
Capitulo XVII--Como se começou o desvairo entre el-rei Dom Pedro de
Castella e o conde Dom Henrique, seu irmão, o qual foi aso porque se o
conde foi fóra do reino.
Capitulo XVIII--Como e por qual aso se começou a guerra entre Castella e
Aragão.
Capitulo XIX--Como el-rei de Castella entrou por Aragão e das cousas que
fez n'este anno.
Capitulo XX--Como el-rei Dom Pedro fez matar o mestre de São Thiago Dom
Fradarique, seu irmão, no alcaçar de Sevilha.
Capitulo XXI--Como el-rei partiu de Sevilha por tomar Dom Tello, seu
irmão, para o matar; e como matou o infante Dom João, seu primo.
Capitulo XXII--Como foi quebrada a tregua de um anno que havia entre os
reis, e como el-rei Dom Pedro juntou armada por fazer guerra a Aragão.
Capitulo XXIII--Como veiu o cardeal de Bolonha para fazer paz entre
el-rei de Castella e el-rei de Aragão, e os não poude pôr de accordo.
Capitulo XXIV--Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a
el-rei de Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a
Aragão.
Capitulo XXV--Como se partiu o almirante de Portugal com as dez galés, e
como el-rei Dom Pedro desarmou a frota; e de outras cousas.
Capitulo XXVI--Como o cardeal de Bolonha quizera tratar paz entre os
reis e não poude, e como as gentes d'el-rei Dom Pedro pelejaram com o
conde e o desbarataram.
Capitulo XXVII--Como el-rei Dom Pedro de Portugal disse por Dona Ignez
que fora sua mulher recebida, e da maneira que em ello teve.
Capitulo XXVIII--Do testemunho que alguns deram no casamento de Dona
Ignez, e das razões que sobre ello propoz o conde Dom João Affonso.
Capitulo XXIX--Razões contra isto, de alguns que ahi estavam, duvidando
muito n'este casamento.
Capitulo XXX--Como os reis de Portugal e de Castella fizeram entre si
avença, que entregassem, um ao outro, alguns que andavam seguros em seus
reinos.
Capitulo XXXI--Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram
entregues os outros, e logo mortos cruelmente.
Capitulo XXXII--De algumas cousas que el-rei Dom Pedro de Castella
mandou fazer, e como fez paz com el-rei de Aragão entrando em seu reino.
Capitulo XXXIII--De algumas entradas que el-rei este anno fez no reino
de Granada, e como el-rei Vermelho se veiu pôr em seu poder, cuidando de
ser seguro, e el-rei o mandou matar.
Capitulo XXXIV--Das avenças que el-rei de Castella fez com el-rei de
Aragão, entrando em seu reino, e como as depois não quiz guardar.
Capitulo XXXV--Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua
frota de naus e galés, e das cousas que alli fez.
Capitulo XXXVI--Como o conde Dom Henrique entrou por Castella com muitas
companhas, e foi alçado por rei; e como el-rei Dom Pedro mandou
desamparar todos os logares que em Aragão tinha filhados.
Capitulo XXXVII--Como el-rei Dom Pedro de Castella enviava uma sua filha
a Portugal, e como elle partiu de Sevilha com temor que houve dos da
cidade.
Capitulo XXXVIII--De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu
tio que era em seu reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer
ajuda.
Capitulo XXXIX--Como el-rei de Castella partiu de Coruche, e se foi de
Portugal; e quaes enviaram em sua companha.
Capitulo XL--Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo
de São Thiago, e se foi para Inglaterra.
Capitulo XLI--Como el-rei Dom Henrique chegou a Sevilha, e da alliança
que fez com el-rei de Portugal.
Capitulo XLII--Como el-rei de Portugal enviou seus embaixadores a casa
do principe de Galles, por se desculpar do que el-rei Dom Pedro dizia.
Capitulo XLIII--Como Dom João, filho de el-rei Dom Pedro de Portugal,
foi feito mestre de Aviz.
Capitulo XLIV--Como foi trasladada Dona Ignez para o mosteiro de
Alcobaça, e da morte d'el-rei Dom Pedro.
End of Project Gutenberg's Chronica de el-rei D. Pedro I, by Fernão Lopes