E elle, á primeira, começou-se de escusar de o fazer; dês-ahi, como é

doce cousa reinar, antes de muitas palavras outorgou que lhe prazia, e

foi alçado então por rei: e pediram-lhe, os que com elle vinham, grandes

mercês e officios no reino, e elle mui de grado lhe outorgava tudo,

dando o que ganhado tinha, e promettendo o que era por ganhar; cá em tal

tempo assim lhe cumpria de o fazer. E foi isto no anno de mil e

quatrocentos e quatro.

Partiu d'alli el-rei Dom Henrique caminho de Burgos, onde era el-rei Dom

Pedro, e chegou a Navarrete, o qual se lhe deu nem ousando de esperar

combate, e foi combatida Briviesca, e tomou-a.

El-rei Dom Pedro, sabendo tudo isto, sabbado de Ramos, bem pela manhã,

mandou matar João Fernandez de Tovar, por queixume que houve de seu

irmão, e, sem dizer cousa nenhuma aos seus, cavalgou por se partir logo.

E vieram a elle os maiores da cidade, dizendo que os não deixasse, cá o

conde era oito leguas d'alli: e não prestando nenhuma cousa suas razões,

quitou-lhe a menagem, e partiu-se logo, e foram com elle alguns

cavalleiros, e seiscentos mouros de cavallo, que andavam na guerra em

sua ajuda, que lhe dava el-rei de Granada. E muitos dos seus ficaram em

Burgos, a que prazia de tudo isto, e quem se d'elle partia não ousava de

tornar mais a elle.

E aquelle dia que el-rei d'alli partiu, mandou suas cartas a todos os

que por elle tinham as fortalezas que em Aragão ganhara, que as

desamparassem, e destruissem se pudessem, e se viessem para elle. E

elles fizeram-no assim, mas muitos d'elles se foram para el-rei Dom

Henrique, e aqui cessou então de todo a guerra de Aragão, a qual ia em

onze annos que durava.

Certamente perdera-se o reino de Aragão todo, se fortuna tão cedo não

abreviara os annos da vida d'este rei Dom Pedro, cá onze vezes que elle

em Aragão fez entrada, ganhou cincoenta e dois logares aqui contidos,

afóra outros muitos que aqui não são nomeados. E chegou el-rei Dom Pedro

a Toledo, e poz recado na cidade, e d'ahi partiu para Sevilha.

Os de Burgos, vendo que se não poderiam defender de el-rei Dom Henrique,

mandaram-lhe seus recados e receberam-no na cidade, e coroou-se alli por

rei, e vieram a elle muitos procuradores das villas e cidades do reino,

e receberam-no por senhor, em guisa que do dia da coroação a vinte e

cinco dias, foi todo o reino a seu mandado: e elle recebia todos

graciosamente, e a nenhum era negado cousa que pedisse. E deu el-rei Dom

Henrique alli muitas terras áquelles senhores e cavalleiros que vinham

com elle, assim estrangeiros como seus naturaes, e mandou a Aragão por

sua mulher e filhos, e foi recebida honradamente.

D'alli partiu e veiu-se a Toledo, e foi na cidade grande revolta se o

receberiam ou não, porque a uns prazia que o recebessem, outros eram de

todo em contrario; pero finalmente houveram accordo de o acolher em

ella, e foi recebido com grande prazer.

*CAPITULO XXXVII*

_Como el-rei Dom Pedro de Castella enviara uma sua filha a Portugal, e

como elle partiu de Sevilha com temor que houve dos da cidade_.

El-rei Dom Pedro estando em Sevilha, soube novas d'estas cousas todas, e

posto em grão pensamento, accordou com os seus de enviar pedir ajuda a

el-rei de Portugal, seu tio. E por lhe dar mór cargo de se mover a lhe

fazer tal ajuda, enviou-lhe dizer que bem sabia como era posto casamento

da infante Dona Beatriz, sua filha, com o infante Dom Fernando seu

primogenito filho, e que porém lhe mandava a dita infante e toda a

quantia do haver que era posto de lhe dar ao tempo do casamento, e que

essa Dona Beatriz ficasse herdeira dos reinos de Castella, e de Leão. E

mandou-a logo de Sevilha, e com ella Martim Lopez de Trujillo, um homem

de que elle muito fiava, e mais certa quantia de dobras que deixara a

esta infante Dona Maria de Padilha, sua madre, com joias, e aljofar, e

outras cousas.

E partida Dona Beatriz de Sevilha para Portugal houve el-rei Dom Pedro

novas como el-rei Dom Henrique caminhava de Toledo para Sevilha, e

accordou de enviar pelo thesouro que tinha no castello de Almodovar, que

era todo em moedas de prata e de oiro, e fez armar uma galé em que o

poz, com todo o haver que tinha na cidade, e entregou a galé a Martim

Yanhez, seu thesoureiro, e mandou-lhe que se fosse a Tavira, villa de

Portugal no reino do Algarve, e que alli attendesse a galé, até que elle

fosse. E tambem mandou carregar muitas azemolas de seus thesouros, e

levou comsigo mui grande haver de oiro, e pedras, e aljofar assim do que

tomara a el-rei Vermelho e aos seus, como de outro muito que tinha

junto, e isso mesmo da prata toda a que poude levar.

E el-rei estando assim para partir de Sevilha, disseram-lhe como os da

cidade se alvoroçavam contra elle, e o queriam roubar alli onde estava:

e com grão temor que houve, partiu-se logo para Portugal. E levou

comsigo Dona Constança, e Dona Isabel, suas filhas, cá Dona Beatriz, a

maior, havia já mandada, como dissemos. E iam com el-rei Dom Pedro,

Martim Lopes de Cordova, mestre d'Alcantara, e Diogo Gomes de Catanheda,

e Pero Fernandez Cabeça-de-vacca, e outros.

E segundo alguns escrevem, como el-rei partiu de Sevilha, taes ahi

houve, dos que iam com as azemolas do haver, que vendo como el-rei fugia

do reino por aquella guisa, se tornavam para a cidade com o que levavam,

e outras saiam do logar e lhe roubaram parte d'aquelle haver. E Misser

Gil Boca-negra, seu almirante, que era genovez, armou em Sevilha uma

galé e outros navios, e foi tomar a galé do haver, em que ia Martim

Yanhez para Tavira, no rio Guadalquivir, cá ainda não era mais arredado.

E era o haver, que ia em ella, trinta e seis quintaes de oiro, e outras

muitas joias, de que el-rei Dom Henrique depois houve a maior parte.

*CAPITULO XXXVIII*

_De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu tio que era em seu

reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer ajuda_.

El Rei de Portugal, em esta sesão, pousava nos paços de Vallada, que são

a cerca de uma villa que chamam Santarem, e era isto no mez de maio. E

quando el-rei Dom Pedro, mandou sua filha Dona Beatriz, como anteagora

ouvistes, para casar com o infante D. Fernando, por azo de haver melhor

ajuda de el-rei seu tio, soaram primeiro novas em Vallada, onde pousava

el-rei, que el-rei de Castella lhe mandava duas suas filhas, que estavam

já nas Alcaçovas, que são d'alli vinte leguas; mas não sabiam dizer

certamente porque as mandava a el-rei, nem em que intenção. El-rei de

Portugal, que parte não sabia que el-rei seu sobrinho era em tal pressa

posto, cuidando que as infantes vinham por outra maneira, porém que não

era mais que aquella uma, mandava correger casas e camaras em seus

paços, em que ellas bem podessem pousar.

El-rei de Castella partiu de seu reino, e tão trigoso andar poz no

caminho, sem se detendo em nenhum logar, que antes que sua filha

chegasse onde el-rei de Portugal estava, a achou elle no caminho em que

vinha. E chegou el-rei Dom Pedro a Serpa, e d'alli a Beja, e dês-ahi a

Coruche, que eram vinte e uma leguas d'onde el-rei seu tio estava, e

d'alli lhe fez saber como vinha, e a ajuda e accorrimento que lhe d'elle

cumpria, e isso mesmo o casamento de sua filha com o infante Dom

Fernando, seu filho.

El-rei de Portugal, como isto soube, teve bem assaz em que cuidar, e

mandou-lhe dizer que não fosse mais adiante, mas que estivesse alli até

que visse seu recado. E mandou chamar o infante Dom Fernando seu filho,

que não era ahi, e com elle e com seus privados houve conselho sobre

este feito, e foi falado por alguns que o visse e acolhesse em seu

reino, e que o ajudasse a cobrar sua terra. Dês-ahi, cuidando bem

n'isto, acharam que o não podia el-rei fazer sem grandes trabalhos, e

gasto, e mui grão damno de seu reino, e, o peior de tudo, não ter

nenhumas azadas razões como tal feito podesse vir a acabamento, quejando

cumpria, porque, el-rei Dom Henrique, seu irmão, tinha já toda Castella

a seu mandar, salvo alguns logares, tão poucos, de que não era de fazer

conta; e com isto haviam lhe grande odio todos os do reino, assim

grandes como pequenos. De guisa que bem era de cuidar quanto todos

fariam por cobrar em elle; pois quem houvesse de lançar fóra de Castella

el-rei Dom Henrique e todos os da sua parte, assim por batalha como por

guerra guerreada, grão poderio lhe convinha ter, e, não se fazendo

segundo seu desejo, ficava ao depois em grande homisio e guerra com

elle. Recebel-o outrosim em seu reino, e não trabalhar de o ajudar,

era-lhe grande vergonha e prasmo; dês-ahi, vendo-o e falando-lhe, não se

poderia escusar d'elle.

Porém accordaram que o mais são conselho era que o não visse elle nem o

infante seu filho, buscando algumas rasões coloradas por que parecesse

que direitamente se escusava.

Então foi a Coruche o conde Dom João Affonso Tello, onde el-rei de

Castella estava esperando a resposta de seu tio, cuidando de ser

aposentado em Santarem, e disse-lhe como el-rei vira seu recado, e

soubera parte da sua vinda de que guisa era, e que elle de boa mente o

recebera em seu reino e o ajudara a cobrar sua terra, como era razão e

direito, mas que por então não estava em ponto de o poder fazer como

cumpria, porque d'aquellas vezes que lhe elle fizera ajuda, assim por

mar como por terra, os fidalgos de seu reino vieram d'elle e de suas

gentes mui mal contentes e escandalisados; e que vinham em sua companha

taes, com que alguns houveram razões, e que era por força haver entre

elles grandes bandos e arruidos, o que a serviço d'ambos pouco cumpria.

Além d'isto, que sabia bem como o infante Dom Fernando, seu filho, era

sobrinho da rainha Dona Joanna, que então novamente entrara em Castella,

irmã de sua madre Dona Constança, filha de Dom João Manuel, e que não

entendia de postar com elle que lhe muito prouvesse de tal ajuda. E foi

assim certamente, segundo alguns escrevem, que o infante deu grão torva,

porém razoada, em este feito. Com estas e outras razões escusou o conde

el-rei seu senhor, que elle áquelle tempo o não podia vêr, nem lhe fazer

mais ajuda da que feita havia; e despediu-se d'elle, e foi-se para a

pousada.

*CAPITULO XXXIX*

_Como el-rei de Castlla partiu de Coruche, e se foi de Portugal; e quaes

enviaram em sua companha_.

Não embargando as razões que dissemos, e outras muitas que faladas foram

entre el-rei de Castella e o conde sobre o feito de seu negocio, bem

entendeu el-rei Dom Pedro que o fim de todos seus ditos era não haver

el-rei seu tio vontade de lhe dar acolhimento em seu reino, nem lhe

fazer ajuda por nenhuma guisa: e houve d'isto tão grande queixume, que

não poude com sua vontade que o logo não desse a entender por algum

modo.

E depois que o conde com elle falou, e se despediu e se foi para a

pousada, ficou el-rei triste e melancolioso, e com torvado gesto tomou

dobras, que tinha na mão, e deitou-as por cima de um alpendre das casas

onde pousava. Um cavalleiro de sua companha, vendo isto que el-rei

fazia, disse-lhe, como sorrindo, por que deitara assim aquellas dobras,

cá melhor fôra dal-as a alguns dos seus, a que prestassem; e el-rei lhe

respondeu dizendo: «não cureis d'isso, cá quem as semeia as virá depois

colher»; dando a entender, se seus annos tão poucos não foram, que elle

lhe fizera de bom talante guerra, por não achar então em elle ajuda nem

acolhimento nenhum. E houve seu accordo de se ir a Albuquerque e deixar

ahi as filhas e todas suas cargas; e chegando ao logar não o quizeram em

elle acolher, antes se lançaram dentro alguns dos que iam em sua

companha.

E el-rei, vendo como seus feitos iam cada vez peior, mandou dizer a

el-rei de Portugal, seu tio, que pois lhe outra ajuda fazer não queria,

que lhe enviasse carta de seguro, por que podesse passar por seu reino:

e isto fazia elle temendo-se do infante Dom Fernando de Portugal, por

ser sobrinho da mulher de el-rei Dom Henrique, como dissemos.

A el-rei de Portugal prouve muito, e enviou a elle o conde de Barcellos,

que ouvistes, e Alvaro Peres de Castro, que se fossem com elle pelo

reino, e o puzessem em salvo em Galliza. E elles se foram por elle, e

começaram de andar seu caminho, e quando chegaram á Guarda, segundo

alguns contam, disseram elles alli a el-rei que se queriam tornar e não

podiam ir mais com elle, porquanto se receiavam do infante Dom Fernando,

que os enviara ameaçar por irem assim em sua companha, e que el-rei lhes

deu então seis mil dobras, e duas cintas de prata, e dois estoques, que

se fossem com elle até Galliza. E se assim adveio por esta guisa, isto

foi fingido que elles disseram, cá o infante não tinha razão de lhes tal

cousa mandar dizer, pois, com seu accordo, fôra ordenado em conselho que

o acompanhassem até fóra do reino. E dizem que chegaram com elle até

Lamego, e mais não. E á partida lhe furtou o conde uma filha de el-rei

Dom Henrique, seu irmão, que el-rei levava presa comsigo, de idade de

quatorze annos, que chamavam Dona Leonor dos leões, porque el-rei Dom

Pedro, por queixume que de seu padre havia, sendo esta moça em poder de

sua ama, nada de mui poucos mezes, com grão crueldade a mandou tomar, e,

esfaimados os leões que criava antes por um dia, no curral onde andavam

mandou que lh'a lançassem em camisa, e foi assim feito como elle mandou.

E os leões vieram, e chegaram-se a ella, e prouve a Deus que lhe não

fizeram nenhum nojo, mas assim como se d'ella houvessem piedade, se

chegavam a ella sem lhe fazerem outro mal. Foi isto dito a el-rei por

alguns seus, e mandou-a el-rei tirar d'alli, e entregar áquelles que a

criavam, e poz-se porém em ella tal guarda, que nunca seu padre a poude

haver. E levava-a el-rei então comsigo, e o conde a trouxe a el-rei de

Portugal, e depois foi entregue a el-rei Dom Henrique, seu padre.

*CAPITULO XL*

_Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo de São

Thiago, e se foi para Inglaterra_.

Partiu de Lamego el-rei de Castella, assaz desamparado e com mui pouca

gente, cá não iam com elle mais que até duzentos de cavallo, e chegou a

Monte-rei, uma villa de Galliza, e d'alli escreveu a Logronho, e a

Soria, e a Samora, que tinham sua voz, que se esforçassem, cá elle lhes

accorreria.

E fez saber a el-rei de Navarra, e ao principe de Galles, como era em

Galliza, e queria saber que esforço tinha em elles, e esperou alli o

arcebispo de São Thiago, e Dom Fernando de Castro, seu alferes-mór e

adiantado em terra de Leão e das Asturias, o qual antes d'isto viera a

Galliza por seu mandado, e falou com todos os prelados, e cavalleiros, e

escudeiros, e cidades, e villas, e fortalezas, de guisa que todos

tiveram sua voz.

E estiveram tres somanas, havendo conselho se era melhor ir-se a Samora,

e d'ahi caminho de Logronho, pois el-rei Dom Henrique, com suas

companhas, estava em Sevilha; ou ir-se a Bayona de Inglaterra catar seus

accorros com o principe de Galles. E teve-se el-rei antes ao conselho da

ida de Inglaterra, que tornar outra vez a seu reino, porque tão pouco se

fiava nos que tinham voz por elle, como nos outros que não eram da sua

parte.

E partiu de Monte-rei, e foi ter o São João a São Thiago de Galliza, e

alli houve accordo com os seus de matar o arcebispo, e tomar-lhe as

fortalezas. E onde Dom Sueiro vinha seguro, a seu mandado, dia de São

Pedro, que lhe mandara el-rei dizer que viesse ao conselho, entrando

pela cidade foi morto á porta da igreja de São Thiago, por Fernão Perez

Turrichão, e Gonçalo Gomez Gallinhato, e dois cavalleiros que lhe mal

queriam, a que el-rei mandara que o matassem, e mataram mais Pero

Alvarez, deão de São Thiago, homem mui letrado e bem sisudo, e el-rei o

olhava de cima da igreja, como se tudo isto fazia. E tomou el-rei quanto

haver o arcebispo tinha no castello da rocha, e deu as fortalezas a Dom

Fernando de Castro, e fel-o conde de Trastamara, e de Lemos, e de

Sarria, d'onde soía ser conde el-rei Dom Henrique, para elle e para

todos seus herdeiros lidimamente nascidos.

E Dom Alvaro Perez, seu irmão, e André Sanchez de Gres, que vinham vêr

el-rei, quando souberam a morte do arcebispo, tornaram-se para suas

terras com medo, e tomaram voz d'el-rei Dom Henrique.

El-rei partiu d'alli, e foi-se para a Corunha, e n'aquelle logar lhe

chegou recado do principe de Galles, que se fosse para o senhorio de

Inglaterra, e que elle lhe ajudaria a cobrar o reino. E partiu el-rei da

Corunha, e levou comsigo vinte e duas naus, e uma galé, e uma carraca, e

deixou Dom Fernando de Castro em Galliza, e commetteu-lhe todo seu

poderio, e el-rei ia na carraca com suas filhas todas tres, e o thesouro

todo que comsigo levava, que eram trinta e seis mil dobras em oiro

amoedado, porque todo o outro thesouro deixara na galé que Martim Yanhez

havia de levar a Tavira, e levava muitas joias de oiro, e de aljofar, e

de pedras de grão valor. E passou o mar, e chegou a Bayona, onde ia

corregendo seus feitos, de que mais por ora dizer não queremos.

*CAPITULO XLI*

_Como el-rei Dom Henrique chegou a Sevilha, e da alliança que fez com

el-rei de Portugal_.

El-rei Dom Henrique partiu de Toledo, sabendo tudo o que adviera a

el-rei Dom Pedro em Sevilha, e isso mesmo em Portugal, e como se fôra

depois a Galliza. E chegou a Cordova, onde o receberam com grão prazer,

e d'ahi levou caminho de Sevilha, sabendo que tinha voz por elle, onde

foi recebido com tão grão festa que, pero el-rei chegou pela manhã a

cerca do logar, passava de meio dia quando entrou em seu paço.

E partiu el-rei com os seus, e com aquellas companhas que com elle

vinham, em guisa que todos foram mui contentes, e mandou-os para suas

terras; pero ficaram com elle Mosse Beltrão de Claquin, e outros

senhores, com alguns inglezes e bretões, que eram todos companhias, até

mil e quinhentas lanças.

E esteve el-rei em Sevilha quatro mezes, e antes que d'alli partisse,

escreveu a el-rei Dom Pedro de Portugal, como queria haver paz e amisade

com elle, e que elle enviaria taes, ao extremo, de que fiava por seus

procuradores, para tratarem avença entre elles, e que el-rei Dom Pedro

mandasse ahi outros, que com seus feitos fossem concordados.

E foi assim de feito, que enviou el-rei Dom Henrique Dom João, bispo de

Badalhouce, e Diego Gomez de Toledo, cavalleiro, e el-rei de Portugal

enviou Dom João, bispo de Evora, e Dom Alvaro Gonçalves, prior do

Hospital; e juntaram-se todos na ribeira de Caya, no extremo dos reinos.

E alli trataram, pelos ditos reis, que fossem fieis amigos um do outro,

e houvessem paz e concordia, e que el-rei de Castella trabalhasse, a

todo seu poder, que el-rei de Aragão fosse amigo de el-rei de Portugal

pela guisa que o elle era, e que el-rei de Aragão deixasse vir para

Portugal a infanta Dona Maria, filha do dito rei Dom Pedro, mulher que

fôra do infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, com todo o seu, ou

viver na terra qual ella antes quizesse; e louvaram e approvaram as

avenças que em outro tempo foram feitas em Agreda, entre el rei Dom

Fernando e el-rei Dom Diniz, seus avós.

Outrosim, Mafamede, rei de Granada, tratou logo amisade com el-rei Dom

Henrique, e ficou por seu amigo.

E partiu el-rei de Sevilha, e foi-se a Galliza, e cercou em Lugo Dom

Fernando de Castro, que tinha voz de el-rei Dom Pedro, e não o poude

tomar, e preitejou com el-rei, que se lhe el-rei Dom Pedro não

accorresse até cinco mezes, que deixasse o reino e lhe entregasse todas

as fortalezas, e se quizesse ficar em sua mercê, que lhe desse a villa

de Castro Exarez, d'onde sua linhagem se chamava de Castro, e elle

conde, depois que lh'a el-rei Dom Pedro dera, e que em este tempo não se

fizesse guerra de uma parte á outra, a qual cousa lhe Dom Fernando mui

mal teve.

A el-rei Dom Henrique prouve d'isto, e tornou-se para Burgos, e alli

ordenou côrtes, nas quaes foram juntos os maiores do reino; e certos da

vinda que el-rei Dom Pedro queria fazer, lhe foi promettida ajuda para

despeza da guerra, e offerecidos os corpos a seu serviço, como bem podia

vêr. E el-rei, em tanto, mandava por gentes que lhe cada dia vinha, com

que partia grandemente, e lhe fazia muita honra. E porque dos feitos

d'estes reis ambos, mais não adveiu em tempo de el-rei Dom Pedro de

Portugal, cessaremos de mais dizer d'elles, e em quanto elles juntam

suas gentes para a batalha que depois ouvireis, contaremos nós outras

cousas, segundo requer a ordenança d'esta obra. Mas antes que as

digamos, ouvi isto que achamos escripto, a saber, que féria quinta,

vinte e dois dias do mez de outubro d'esta presente era de Cesar de mil

e quatrocentos e quatro annos, foi feito um movimento no céo, desde a

meia noite para adiante, o qual foi por esta guisa: correram todas as

estrellas do levante para o poente, e depois que todas foram juntas,

começaram de correr umas cá e outras lá; dês-ahi deixaram-se estalar do

céo tantas e tão espessas, que, depois que foram baixas no ar, pareciam

grandes fogueiras, e que o céo e o ar ardia, e que a terra queria arder;

e o céo parecia partido por muitas partes alli onde estrellas não

estavam; e não havia homem que isto visse, que não fosse fortemente

espantado; e era tamanho o medo, que quantos isto viam todos cuidavam de

serem mortos, durando isto por mui grande espaço. E isto escrevemos por

não haverdes por nova cousa quando outra tal acontecer, dês-ahi por

relembrança das maravilhas que Deus faz.

*CAPITULO XLII*

_Como el-rei de Portugal enviou seus embaixadores a casa do principe de

Galles, por se desculpar do que el-rei Dom Pedro dizia_.

A grão melancolia que levou el-rei Dom Pedro de Castella do mau

gasalhado que em Portugal achara, lhe fez que ás vezes não podia, em

falando, que o não desse a entender com sanha, e algumas horas, estando

com o principe, presente muitos, fazia queixume do mau acolhimento que

achara em seu tio el-rei de Portugal, esperando d'elle receber o

contrario, dizendo que o não havia tanto pelo seu, como das infantes

suas filhas, as quaes lhe devera de agasalhar e receber em sua

encommenda: e fallando em ello muito largamente, mostrava com isto

geitos e semblante que de o vingar tinha grão desejo.

E foi isto assim falado, e por taes palavras, que não minguou quem o

escrevesse a el-rei de Portugal, o qual, conhecendo sua preversa

condição, e prevendo o que advir podia, ordenou de se enviar desculpar

presente o principe, mostrando que a culpa não fôra em elle, assim em

seu recebimento, como em agasalhar suas filhas; e mandou allá o bispo de

Evora, e Gomez Lourenço do Avelal, os quaes chegaram a Gasconha, onde

el-rei e o principe por então estavam.

Elles alli, ordenou o principe o dia e hora para dizerem sua embaixada,

a qual, proposta ante elle, sendo el-rei presente, começaram de contar

pelo miudo tudo o que em Portugal diziam alguns de que se ei-rei Dom

Pedro agravava, fazendo queixume de el-rei seu tio, e que elles eram

alli vindos para o mostrarem sem culpa, como a sua mercê bem podia vêr.

El-rei de Castella respondeu a isto dizendo, que assim era como elles

diziam, que elle se sentia por mui agravado d'elle, pelo não receber em

seu reino e lhe dar acolhimento como era razão, sendo seu tio, irmão de

sua madre, e que mór melancolia havia não dar gasalhado ás infantes suas

filhas, que da aspereza que contra elle mostrara, porque se as el-rei

seu tio tomara e lh'as tivera em sua terra guardadas, com alguns haveres

que elle levava, onde era certo que estariam seguras, que elle ficara

desempachado d'ellas, e então tornara a recobrar seu reino. Dizendo que

muitos se alçaram contra elle, que o não fizeram se o viram presente,

mas pelo empacho que tinha, das filhas, que lhe conviera de fugir com

ellas, não tendo logar seguro onde as deixasse; porque áquelle tempo que

as deixar quizera em algum castello de sua terra, em nenhum havia tanta

fiusa por que ousasse de o fazer.

Sobre isto correram tantas palavras entre el-rei Dom Pedro e os

embaixadores, até que pediram por mercê, ao principe, que fizesse

pergunta a el-rei, se áquelle tempo que elle escrevera a seu tio que era

em seu reino, se lhe fizera saber por sua carta que lhe queria deixar

suas filhas e o thesouro que comsigo trazia, segundo elle arrazoava

presente elle. E o principe lh'o perguntou então, e elle disse que não

ementara nenhuma cousa das filhas, nem do haver que levava comsigo.

--Pois, disse o principe, nem vosso tio não era adivinho do que vós

tinheis na vontade.

Então fizeram recontamento ao principe das ajudas que de Portugal

recebera, assim por mar como por terra, e como todos os senhores e

fidalgos, que allá foram, vieram d'elle e dos seus mui mal contentes e

escandalisados, e que esta fôra uma das razões por que o el-rei seu tio

não quizera ter em sua terra, por se não levantarem, entre uns e os

outros, bandos, e arruidos, e mortes.

Chronica de el-rei D. Pedro I · 第 7 / 8 段