Se dizem que o que faz nojo a outrem escreve o que faz no pó, e o

injuriado em pedra marmore, bem se cumpriu isto em el-rei Dom Pedro; cá

elle movido por sobejo queixume contra seus irmãos e outros do reino,

por aso da tenção que tomaram em favor da rainha Dona Branca e contra os

parentes de Dona Maria de Padilha, segundo ouvistes (que já em tempo

havia mais de trez annos, andando então a era em mil e trezentos e

noventa e seis,) ordenou em Sevilha, alli onde estava, de matar o mestre

de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, e mandou-o chamar onde vinha da

guerra que fôra tomar a villa de Jumilha, que é no reino de Murcia, por

lhe fazer serviço.

E no dia que o mestre havia de chegar á cidade, chamou el-rei em sua

camara o infante Dom João, seu primo, e tomou-lhe juramento sobre a Cruz

e os Evangelhos, e descobriu-lhe como o queria matar, rogando-lhe que o

ajudasse a fazer tal obra, e ter-lh'o-hia em serviço, e como fosse

morto, que logo entendia de ir a Biscaia matar o outro irmão Dom Tello,

e dar-lhe a elle as suas terras. O infante Dom João respondeu que lhe

tinha em grande mercê querer fiar d'elle seus segredos, e que lhe prazia

muito do que tinha ordenado, e era contente de o fazer assim.

N'isto chegou Dom Fradarique, antes de comer, uma terça-feira, vinte e

nove dias de maio, e como chegou de caminho foi logo vêr el-rei, que

estava no alcaçar da cidade jogando as tabolas, e beijou-lhe a mão e

muitos cavalleiros com elle. E el-rei o recebeu mui bem, mostrando-lhe

boa vontade, e perguntou-lhe d'onde partira, e que pousadas tinha. O

mestre disse que partira de Santilhana, que são d'alli cinco leguas, e

que as pousadas cuidava que seriam boas. E el-rei, porque entraram

muitos com o mestre, disse que se fosse aposentar, e depois se viria

para elle.

O mestre partiu-se, e foi vêr Dona Maria de Padilha e as sobrinhas, que

estavam em outra parte dos paços, e d'alli se veiu ao curral onde

deixara as bestas, e não achou ahi nenhuma, cá assim fora mandado aos

porteiros.

O mestre não sabendo se tornasse a el-rei, ou que fizesse, disse-lhe um

seu cavalleiro, suspeitando mal de tal feito, que se saisse pelo postigo

do curral, que estava aberto, cá lhe não minguaria besta se fosse fóra.

Elle cuidando se o faria, vieram-lhe dizer que o chamava el-rei, e elle

começou de tornar para el-rei, pero espantado, receando-se muito. E como

ia entrando pelas portas dos paços e das camaras, assim ia cada vez mais

desacompanhado, em guisa que quando chegou onde el-rei estava, não ia

com elle salvo o mestre de Calatrava. E estiveram á porta ambos, e não

lhes abriram; e pero lhe todas estas cousas apresentavam mensagem de

morte, vendo-se sem culpa, tomava já em si quanto de esforço.

N'isto abriram o postigo do paço onde el-rei estava, e el-rei disse a

Pero Lopez de Padilha, seu bésteiro-mór, que prendesse o

mestre.--Senhor, disse elle,--qual d'elles?--O mestre de São

Thiago,--disse el-rei. E elle travou d'elle, dizendo:--Sêde preso!

O mestre ficou espantado, e quando ouviu outra vez que el-rei dizia aos

bésteiros da maça que o matassem, desenvolveu-se de Pero Lopez, que o

tinha preso, e houve-se no curral; e quiz tirar a espada que tinha na

cinta, e foi sua ventura que não poude, por aso do tabardo que tinha

vestido, e andando muito rijo de uma parte á outra, não o podiam ferir

os bésteiros com as maças, até que o houveram de ferir, e caiu em terra

morto.

El-rei, quando viu o mestre jazer em terra, saiu pelo alcaçar cuidando

achar alguns dos seus para os matar, e não os achou, cá eram fugidos e

escondidos. E achou no paço onde estava Dona Maria de Padilha, Sancho

Diaz de Vilhegas, camareiro-mór do mestre, que se acolhera alli quando

ouviu dizer que o matavam, e tomou Dona Beatriz, filha de el-rei, nos

braços, cuidando por ella escapar da morte, e el-rei fez-lh'a tirar das

mãos, e deu-lhe com uma brocha que trazia, e matou-o. E tornou-se onde

jazia o mestre, e achou que não era bem morto, e fel-o matar a um seu

moço da camara: d'ahi, foi-se assentar a comer.

E mandou logo n'esse dia, pelo reino, que matassem estas pessoas, a

saber: em Cordova, a Pero Cabrera, um cavalleiro que ahi morava, e um

jurado que diziam Fernando Affonso de Gachete; e mandou matar Dom Lopo

Sanchez de Vendano, commendador-mór de Castella; e mataram, em

Salamanca, Affonso Jofre Tenorio; e em Toro, Affonso Perez Fermosilhe; e

mataram, em Mora, Gonçalo Mendez de Toledo. E estes dizia el-rei que

mandava matar porque foram da parte da rainha Dona Branca; e pero lhes

el-rei havia já perdoado, não curando do que promettera, mandou a todos

cortar as cabeças.

*CAPITULO XXI*

_Como el-rei partiu de Sevilha por tomar Dom Tello, seu irmão, para o

matar; e como matou o infante Dom João, seu primo_.

Estando el-rei ainda comendo, mandou chamar logo o infante Dom João, seu

primo, e disse-lhe em segredo como, tanto que comesse, queria partir

para Biscaia, por ir matar Dom Tello, seu irmão, e que se fosse com

elle, e dar-lhe-ia o senhorio d'aquella terra.

O infante, não embargando que estivesse casado com Dona Isabel, irmã da

mulher do conde Dom Tello, prouve-lhe muito com taes novas, e beijou as

mãos a el-rei por ello, cuidando pouco no que lhe elle tinha ordenado: e

el rei partiu logo, e o infante com elle, e foi em sete dias em Aguilar

do Campo, onde Dom Tello estava.

E Dom Tello andava aquelle dia ao monte, e um seu escudeiro, quando viu

el-rei foi-lh'o logo dizer, tossemente. E elle fugiu á pressa, e chegou

a Bermeto uma sua villa ribeira do mar, e entrou em pinaças de

pescadores, e foi-se para Bayona de Inglaterra.

El-rei, cuidando de o tomar, seguiu o caminho por onde elle fôra, e

aquelle dia que Dom Tello chegou a Bermeo e entrou no mar, esse dia

chegou el-rei, e entrou em outros navios, cuidando de o alcançar. O mar

era um pouco buliçoso, e el-rei anojou-se, e deixou de o seguir porque

ia mui longe, e tornou-se em terra, e prendeu Dona Joanna, sua mulher.

O infante Dom João, quando viu Dom Tello por esta guisa partido, disse a

el-rei que bem sabia sua mercê como lhe dissera em Sevilha que queria

matar Dom Tello, e dar-lhe a terra de Biscaia, que era sua, e que pois

Dom Tello era fóra do reino sem sua graça, que fosse sua mercê de lh'a

dar como lhe promettera. E el-rei disse que mandaria aos biscainhos que

se ajuntassem, como haviam de costume, e que elle iria lá, e lhe

mandaria que o tomassem por senhor. E o infante, com leda esperança de

cobrar a terra, lhe beijou as mãos por isto, tendo-lh'o em grande mercê.

Os biscainhos indo para se ajuntar onde haviam de costume, falou el-rei

com os maiores d'elles, dizendo-lhes em segredo que respondessem, quando

elle propuzesse para dar a terra a Dom João, que não queriam outro

senhor salvo el-rei; e elles disseram que assim o fariam.

Elles juntos, bem dez mil, propoz el-rei muitas razões por parte do

infante seu primo, como a terra de Biscaia lhe pertencia por direito,

por aso do casamento de sua mulher, e que lhes rogava e mandava que o

tomassem por senhor: elles responderam que nunca tomariam outro senhor

salvo el-rei de Castella, e que nenhum lhes fallasse em outra cousa. E

el-rei disse então ao infante, que bem via as vontades d'aquelles

homens, que o não queriam haver por senhor, porém, que elle iria a

Bilbao, e que ainda tornaria outra vez a falar com elles que o tomassem

por senhor. O infante começou de entender que isto era encoberta que el

rei fazia, e teve-se por mal contente.

El-rei em Bilbao, mandou em outro dia chamar o infante, e elle veiu, e

entrou só na camara, e ficaram dois seus á porta; e os que sabiam parte

de sua morte começaram de joguetear com elle, por lhe tomarem um pequeno

cutello que trazia, e assim o fizeram; e Martim Lopez, camareiro-mór de

el-rei, abraçou-se então com o infante, e um bésteiro deu-lhe com uma

maça na cabeça, e dês-ahi outros, e caiu o infante morto: e foi isto uma

terça-feira, havendo quinze dias que o mestre Dom Fradarique fôra morto

em Sevilha. E el-rei mandou-o deitar na rua por uma janella da casa onde

pousava, e disse aos biscainhos que estavam ahi juntos:--Vêdes ahi o

vosso senhor de Biscaia, que vos demandava por seus?

Isto feito, mandou logo el-rei João Fernandes de Hinestrosa que se fosse

a Roa, onde estavam a rainha de Aragão, sua tia, madre do dito infante,

e Dona Isabel, sua mulher, e que as prendesse ambas, não sabendo parte a

madre do filho, nem a mulher do marido. E foram presas em um dia, e

el-rei chegou no outro, e fez-lhes tomar quando tinham, e mandou-as

presas a Castro Exariz; e d'alli partiu-se, e veiu-se a Burgos, onde

esteve uns oito dias, e alli lhe trouxeram as cabeças d'aquelles que

ouvistes que mandara matar pelo reino, quando o mestre Dom Fradarique

foi morto.

*CAPITULO XXII*

_Como foi quebrada a tregua de um anno que havia entre os reis, e como

el-rei Dom Pedro juntou armada por fazer guerra a Aragão_.

Nós não dissemos a morte do mestre Dom Fradarique e do infante Dom João,

da guisa que ora ouvistes, por nos prazer contar crueldades, mas

puzemol-as um pouco assim compridas, mais que dos outros, porque eram

notaveis pessoas, e vêrdes o geito que el-rei teve em os matar.

Onde sabei, que por este aso não embargando que ainda durasse a tregua

de um anno, que o cardeal puzera entre el-rei Dom Pedro e el-rei de

Aragão, que tanto que o conde Dom Henrique soube como Dom Fradarique,

seu irmão, era morto, e isso mesmo disseram ao infante Dom Fernando,

marquez de Tortosa, da morte do infante Dom João, seu irmão, juntaram

logo suas gentes, e entraram por Castella. E o conde entrou por terra de

Soria, e chegou á villa de Seiron, e a rombou, e combateu o castello e

alcaçar cuidando de o tomar, e tornou-se para Aragão; e o infante Dom

Fernando entrou pelo reino de Murcia, e fez muito damno n'aquella terra.

El-rei soube isto em Valhadolid, e pôz logo fronteiros contra Aragão, e

veiu-se a Sevilha, e fez armar á pressa doze galés; e em as armando,

chegaram seis galés de genovezes, que então haviam guerra com os

catalães, e prouve muito a el-rei com ellas, e tomou-as a soldo, dando

por mez a cada uma mil dobras cruzadas. E com estas dezoite galés chegou

a uma villa, que chamam Guadamar, que era do infante Dom Fernando, e fez

el-rei uma manhã, que eram dezesete dias de agosto, sair muita gente de

todas as galés para combater a villa, e pero fosse bem cercada, tomou-a

por força, e acolheram-se muitos ao castello.

E estando o combatendo, á hora do meio dia, alçou-se um vento mui forte,

que é travessia n'aquella terra, e como as galés estavam sem gente, deu

com todas a travez á costa, que não escaparam mais de duas que jaziam

dentro no mar, uma d'el-rei e outra dos genovezes. E ás dezeseis mandou

el-rei pôr o fogo, porque se não podiam reparar: e dos remos, e outros

apparelhos, não se salvou senão mui pouco, que pozeram em uma nau de

Laredo, que ahi estava. E houve el-rei, e os patrões dos galés, bestas

em que partiram d'alli, das gentes de Guterre Gomez de Toledo, que

chegara ahi, elle e outros, com seiscentos de cavallo; e foi-se el-rei

mui triste com este acontecimento, e todos os das galés de pé com elle,

mui nojosos.

E chegou el-rei a Murcia, e foram-se os genovezes para sua terra em

navios de Cartagena, e el-rei mandou logo a Sevilha que fizessem á

pressa galés. E em oito mezes foram feitas doze galés novas, e reparadas

quinze d'outras que estavam nas tercenas; e fez fazer muitas armas e

grande almazem, e mandou perceber todos os navios do reino que não

fretassem para nenhuma parte.

E partiu el-rei de Murcia, e foi-se á fronteira de Aragão, e ganhou

alguns castellos, e tornou-se para Sevilha: e foi esta a quarta vez que

el-rei Dom Pedre entrou em Aragão.

*CAPITULO XXIII*

_Como veiu o cardeal de Bolonha para fazer paz entre el-rei de Castella

e el-rei de Aragão, e os não poude pôr de accordo_.

Estando el-rei Dom Pedro assim em Sevilha, soube como Dom Guilhem,

cardeal de Bolonha, era na villa de Almaçan, por tratar paz entre elle e

el-rei de Aragão. E fez saber o cardeal a el-rei se lhe prazia de ir a

Sevilha, onde elle estava, ou se aguardaria alli por elle, havendo de ir

para aquella comarca.

E el-rei era já partido de Sevilha para a fronteira de Aragão, quando

lhe chegou este recado em Villa Real, e disse que lhe prazia muito com

sua vinda, e que o aguardasse n'aquella villa, cá elle ia direitamente

para ella. E foi assim que chegou ahi el-rei a poucos dias, e falou o

cardeal a el-rei, presentes os do seu conselho, tudo o que lhe o papa

enviava dizer, assim do nojo que tomava pela guerra em que eram elle e

el-rei de Aragão, como do grão prazer que haveria se os visse postos em

paz.

El-rei respondeu que a guerra que elle havia com el-rei de Aragão era

muito por sua culpa, e contou ao cardeal o que lhe adviera com o capitão

de suas galés na foz de Barrameda de San Lucar, como já ouvistes, e como

fizera saber tudo a el-rei de Aragão, e que nunca quizera tornar a ello

como devia, e demais, que mandara a França por todos seus inimigos, para

lhe fazer com elles guerra.

O cardeal disse que queria ir falar a el-rei de Aragão sobre isto, e

el-rei disse que lhe prazia, e que de boamente haveria com elle paz,

fazendo el-rei de Aragão estas cousas: primeiramente, que lhe entregasse

aquelle cavalleiro, para d'elle fazer justiça onde elle quizesse, e que

lançasse fóra do reino o infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, seu

irmão, e mais D. Henrique, conde de Trastamara, e todos os outros que

vieram em ajuda da guerra, e que lhe desse os castellos de Oriola e

Alicante, e outros logares que foram de Castella antigamente, e mais

pelas despezas que fizera na guerra lhe tornasse quinhentos mil florins.

O cardeal, pero lhe isto parecessem cousas desarrazoadas, disse que lhe

prazia de tomar cargo de ir falar a el-rei de Aragão sobre ello; e

chegou a Aragão e contou a el-rei, por miudo, todas as cousas que lhe

el-rei dissera.

El-rei de Aragão respondeu, dizendo assim:--Cardeal amigo, bem vêdes vós

que se elle houvesse vontade de haver comigo paz, que me não demandaria

taes cousas como me envia requerer; cá o cavalleiro não é direito que

lh'o entregue para o matar, pois não fez por quê; mas isto quero fazer,

mande-o accusar por direito, e se for achado que merece morte, eu lh'o

quero entregar preso, que o mande matar em seu reino. Ao que diz que

envie eu fóra de meu reino Dom Henrique, Dom Tello, e Dom Sancho, seus

irmãos, pois são seus inimigos, digo que me praz, se ficar com elle de

accordo, mas desterrar fóra do reino o infante Dom Fernando, meu

legitimo irmão, isto me parece estranho de pedir. Os logares que me

requere que lhe entregue, não tenho razão por quê, cá foram julgados a

este reino por sentença de el-rei Dom Diniz de Portugal, e pelo infante

Dom João de Castella, presentes muitos fidalgos de seu reino, e elle e

eu temos cartas de como foram partidos. As despezas que fez na guerra

não sou tido de lhe pagar, cá se não começou por minha vontade, antes me

pezou muito, e peza, de haver entre mim e elle tal desvairo; mas tanto

lhe farei, se houvermos paz, que havendo elle guerra com el-rei de

Granada ou de Bellamarin, que o quero ajudar seis annos com dez galés

armadas á minha custa quatro mezes cumpridos, e se mouros passarem, e

lhe convier pôr a praça, que o ajude com meu corpo e gentes, e ser com

elle no dia da batalha. De outra guisa, dizei que lhe requeiro, da parte

de Deus, que me não queira fazer guerra, pois justa razão não tem, e se

o de outra guisa fizer, deixo tudo na ordenança e justiça de Deus.

Tornou o cardeal a el-rei de Castella, e contou-lhe isto que ouvistes, e

el-rei começou-se de queixar, dizendo que el-rei de Aragão não prezava a

guerra, nem se queria chegar para haver avença com elle, mas que d'esta

vez provaria cada um para quanto era, porém, por elle entender que lhe

prazia de haver paz, que elle se partia das outras cousas que demandava,

e que lhe desse os cinco logares que lhe requeria, e que lançasse de seu

reino seus irmãos e as gentes que eram com elles.

O cardeal foi d'isto mui lêdo, tendo que pois se el-rei D. Pedro descia

do que á primeira dissera, que poderia aproveitar n'este tratamento, e

foi-se a Calatayud, onde el-rei de Aragão estava, e contou-lhe como

el-rei, por bem de paz, requeria sómente estas duas cousas.

El-rei de Aragão houve accordo com os do seu conselho, e disse que as

gentes todas lançaria fóra mas que nenhuma villa nem castello não

entendia de dar de seu reino, e que el-rei de Castella devia ser bem

contente da primeira resposta.

Quando o cardeal tornou com este recado, foi el-rei Dom Pedro mui

sanhudo, dizendo que tudo eram razões, pelo estorvar da armada que fazer

queria, e porém disse ao cardeal que lhe perdoasse, cá não entendia de

falar mais n'isto, mas continuar sua guerra o mais que pudesse. Ao

cardeal pezou muito de tal resposta, e não podendo mais fazer, cessou de

falar em ello.

El-rei Dom Pedro mui sanhudo, por tomar logo alguma vingança, passou por

sentença contra o infante Dom Fernando, seu primo, e contra o conde Dom

Henrique, e outros cavalleiros muitos, por a qual razão os perdeu então

de todo ponto, e o peior d'isto: mandou matar a rainha Dona Leonor, sua

tia, madre do dito infante Dom Fernando, e Dona Joanna de Lara, mulher

de Dom Tello, seu irmão; nas quaes cousas cumpriu sua vontade, e não fez

muito de seu serviço. E depois que mandou fazer estas e outras cousas,

pôz seus fronteiros contra Aragão, e partiu de Almaçan, e veiu-se a

Sevilha.

*CAPITULO XXIV*

_Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a el-rei de

Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a Aragão_.

Sendo el-rei de Castella em tal desaccordo com el-rei de Aragão, e tendo

vontade de fazer grande armada contra seu reino em este anno de mil e

trezentos e noventa e sete, pero assaz de frota tivesse, assim de naus

como de galés, não foi d'isto ainda contente, e mandou dizer a el-rei de

Portugal, seu tio, por João Fernandez de Hinestrosa, seu camareiro-mór,

que lhe rogava que as dez galés, que lhe promettidas havia de dar em

ajuda contra Aragão, que as mandasse fazer prestes, cá lhe eram muito

cumpridoras.

A el-rei prouve muito d'ello, e mandou logo armar de boas gentes dez

galés e uma galeota, e o seu almirante Misser Lançarote em ellas.

El-rei como soube que as dez galés de Portugal eram prestes, partiu de

Sevilha no mez de abril meiado, com toda sua armada junta, a qual eram

oitenta naus de castello d'avante, e vinte e oito galés suas, e duas

galeotas e quatro lenhos, e mais tres galés d'el-rei de Granada, que lhe

enviara em ajuda a seu requerimento.

E esteve el-rei em Aljazira quinze dias, aguardando pelas galés de

Portugal, e quando viu que não vinham, partiu para Cartagena, e alli

esperou todas suas naus; e foi sobre Guadamar, e tomou a villa e o

castello, e d'alli foi pela costa, combatendo alguns logares que tomar

não poude, e chegou ao rio de Ebro, a cerca de Tortosa, cidade de

Aragão, e alli chegaram as dez galés de Portugal, que lhe el-rei seu tio

enviava em ajuda. E prouve muito a el-rei com ellas, e a todos os da

frota, e tinha el-rei então, por todas, quarenta e uma galés, afóra as

fustas pequenas.

E partiu el-rei d'alli com toda armada e chegou a Barcelona, uma vespera

de paschoa, onde estava el-rei de Aragão; e achou doze galés armadas, e

não as poude tomar, cá se puzeram todas a travez, junto com a cidade, e

d'alli as defendiam com muita bésteria e trons.

E esteve el-rei ante Barcelona, com toda sua frota, tres dias, e d'alli

se foi á ilha de Iviça, e cercou uma boa villa que ha assim nome; e

tendo-a afincada com engenhos e bastidas, soube como el-rei de Aragão

tinha armadas quarenta galés com que estava na ilha de Mayorca, e queria

pelejar com elle.

E el-rei de Castella, como isto soube, disse que lhe não cumpria estar

mais em terra, nem curar de cerco d'aquelle logar, pois todo o feito da

guerra havia de haver fim por aquella batalha, em que os reis haviam de

ser por seus corpos. E fez logo recolher toda sua gente á frota, e

metteu-se el-rei n'uma grande galé, que fôra dos mouros, que passava

quarenta cavallos sob sota, e mandou fazer n'ella tres castellos de

madeira, um na pôpa e outro na prôa, e um na metade, e pôz n'ella cento

e sessenta homens d'armas e cento e vinte bésteiros. E partiu el-rei, de

Iviça, com toda sua frota, e veiu-se a um logar que dizem Calpe, e alli

ancoraram as naus e galés a cerca de terra, traz uma alta penha que ahi

ha, de guisa que se não podiam ver, salvo de perto.

As galés de Aragão appareceram d'alli á vella até duas leguas, pouco

mais ou menos, dentro no mar, e eram quarenta sem outros navios, e não

vinha el-rei n'ellas, cá os seus não quizeram, e ficou em Mayorca. Ellas

não haviam vista da frota de Castella, por aso d'aquella grande penha

que as amparava; e vinham todas á vella, n'esta ordenança: em meio

d'ellas eram duas galés grossas, com castellos feitos de que pelejassem,

e n'uma vinha o conde de Cardona, e n'outra Dom Bernardo de Cabrera,

almirante de Aragão; e duas galés de guarda vinham diante por grão

espaço das outras; e muitas gentes de pé e de cavallo, por terra, para

as ajudarem se mister fizesse.

As duas galés, que vinham diante, como houveram vista das naus e frota

de Castella, calaram as vellas e tomaram os remos; as outras todas, como

isto viram, fizeram logo por aquella guisa por se ordenarem á sua

vontade; e sabendo parte das naus que ahi eram, de que houveram mui

grande receio, não as ousaram de attender no mar, e logo essa tarde, á

hora de vespera, se metteram todas no rio de Denia.

El-rei Dom Pedro fez logo fazer todos os seus prestes, cuidando outro

dia de haver batalha; e o mar era tão sem vento que se não podia

aproveitar das naus; e havido seu conselho, em que eram desvairados

accordos, determinou que pois a armada dos imigos jazia em tal rio, que

por sua estreitura não podia pelejar com elles, que se fossem entanto

para Alicante, por vêr se quereriam depois pelejar.

E el-rei como d'alli partiu com a sua frota, e as galés de Aragão

vieram-se lançar em Calpe, onde a frota de Castella jazera primeiro.

*CAPITULO XXV*

_Como se partiu o almirante de Portugal com as dez galés, e como el-rei

Dom Pedro desarmou a frota; e de outras cousas_.

Havendo seis dias que el-rei de Castella estava em Alicante, e vendo que

a armada de Aragão não apparecia, partiu d'aquelle logar e veiu-se para

Cartagena. E alli disse o almirante de Portugal a el-rei, que seu

senhor, el-rei de Portugal, lhe mandára que estivesse com aquellas suas

dez galés tres mezes, onde quer que o elle mandasse, e que pois os tres

mezes eram já passados, que não ousaria mais de estar alli, nem passaria

mandado de seu senhor.

El-rei Dom Pedro, quando isto ouviu, pezou-lhe muito, cá não quizera que

tão asinha partira, e não podendo fazer que se tivesse alli mais,

deu-lhe licença que se fosse.

E como se as galés de Portugal partiram, accordou el-rei de deixar a

frota e ir-se por terra para Castella, e mandou as galés todas a

Sevilha, e deu logar ás náus que se partissem, e elle veiu-se para

Outerdesilhas, onde estava Dona Maria de Padilha, madre de seus filhos.

As galés de Aragão, como souberam que el-rei de Castella desarmara a

frota, desarmaram elles trinta galés suas, e deixaram dez que andassem

pelo mar, por fazer damno a alguns navios de Portugal ou de Castella: e

foi assim que o fizeram a alguns, mas poucos porém, e em pequenos

navios.

N'esta sesão, no mez de setembro, o conde Dom Henrique, e Dom Tello, seu

irmão, e alguns fidalgos e cavalleiros de Aragão até oitocentos de

cavallo, entraram por Castella por terra de Agreda, e Dom Fernando de

Castro e João Fernandez de Hinestrosa, e outros, que estavam na

fronteira da comarca de Almaçan, com uns mil e quinhentos de cavallo,

sairam a elles. E foi de tal guisa que pelejaram a cerca de Moncayo. E

foi vencido Dom Fernando de Castro, e morto João Fernandez de

Hinestrosa, e outros bons fidalgos, e preso Inigo Lopez de Orosco, e

outros.

A el-rei Dom Pedro pezou d'isto muito, e seus inimigos cobraram grande

esforço; e mandou n'este anno matar em Carmona, onde estavam presos, Dom

João e Dom Pedro, seus irmãos, filhos d'el-rei Dom Affonso seu padre, e

de Dona Leonor Nunez de Guzman: era Dom Pedro de quartoze annos, e Dom

João de dezenove, moços innocentes que nunca lhe mal mereceram.

Chronica de el-rei D. Pedro I · 第 4 / 8 段