Entretanto, o padrinho de Narcisa não escarmentava no sestro de
casamenteiro; é certo porém que similhantes casos assim funestos, não se
repetiram nas suas operações matrimoniaes. Por esse tempo, casou elle a
filha com diminuto dote, e abriu a carreira do sacerdocio a um filho,
que outras vocações depois afastaram da egreja. Os seus teres, com
judiciosa economia, seriam bastantes á decencia aldeã; porém, privar-se
da mesa farta e franca, era privar-se de amigos que lhe festejassem as
anecdotas. Pinto Monteiro, no dia em que falisse de auditorio, começaria
a morrer no abafador silencio da cellula penitenciaria.
Empobrecia rapidamente: mas dava a perceber que a philosophia de Job é a
ultima moeda com que o homem decahido compra a resignação e a gloria
eterna, _par dessus le marché_ dizia elle.
Amaro Fayal, confidente dos secretos desfalques do patrão, pensou em
retirar-se para o Brazil, visto que não tinha secretaria para
fiscalisar, nem desprendimento tamanho que acceitasse outra vez o
officio de moço de cego.
É aqui o logar de repetir litteralmente uma accusação que todos os meus
informadores, sem discrepancia, irrogam ao cego de Landim:
Um lavrador da Lamella, induzido por Pinto Monteiro, vendeu as suas
herdades por alguns contos de réis, a fim de ir negociar no Brazil e
centuplicar o seu dinheiro. Sahiu Monteiro com destino ao Rio, levando
em sua companhia o lavrador. Passados dias, apparece em Landim o cego,
fingindo-se doentissimo, e diz que o seu companheiro embarcara, e elle
retrocedera forçado pela molestia. Ora, do lavrador nunca mais houve
noticia; mas, no governo civil de Lisboa, fôra visado o passaporte de
José Pereira da Lamella, e o mesmo nome inscripto na lista dos
passageiros. Isto não obstante, o cego era accusado de haver matado em
Lisboa o lavrador, não podendo roubal-o por maneira mais suave; e a
certeza confirmou-se quando parentes que o Lamella tinha no Rio,
perguntados a tal respeito, responderam que nunca viram tal homem, nem,
depois de chamado pela imprensa de todas as provincias, apparecera.
Asseveravam, porém, que um nome similhante se lia na lista dos
passageiros desembarcados no Rio, no mesmo navio e mez em que de
Portugal se informava que elle partira.
Seria mais natural suppor que José Pereira morrera obscuramente em
alguma rossa; mas á calumnia pareceu mais romantico decidir que o cego o
matára.
--Como presumem os senhores que o cego matasse o lavrador?--perguntei.
--Não sabemos; mas o mais provavel é que o atirasse ao rio quando o bote
ia para bordo da galera.
Esta era e é a opinião corrente. Pelos modos, o cego, em pleno sol do
Tejo, na presença dos barqueiros, alijou o passageiro ao rio, e fez
remar para terra o bote com a bagagem do morto; depois, saltou no Caes
das Columnas com a mala do dinheiro debaixo do braço, e ás apalpadellas
lá se foi pacificamente caminho de Landim.
Corre parelhas em maldade e estupidez esta aleivosia, é certo; mas o
lavrador, de feito, fôra assassinado em Lisboa.
Agora, posto que tardia, ahi vem a rehabilitação de Antonio José Pinto
Monteiro.
Quem induzira o lavrador da Lamella a vender as terras foi Amaro Fayal,
offerecendo-lhe sociedade em negocio que rendia 200%. O Pereira da
Lamella era calaceiro. O trabalho agricola pezava-lhe: as suas terras,
avaliadas em cinco contos, rendiam escassamente o passadio grosseiro do
lavrador minhoto. Calculou, firmado na prova mathematica das cifras de
Amaro, que, ao fim de cinco annos, devia ter cinco contos dez vezes
multiplicados. É claro: 200%--5 vezes 10--50 contos. Vendeu as terras e
partiu com o ex-secretario do cego. Pinto Monteiro, sinceramente
affeiçoado ao seu confidente de vinte annos de varia fortuna,
acompanhou-o até ao Porto, e d'ali voltou para Landim algum tanto
enfermo, e ás pessoas que lhe perguntavam pelo Pereira da Lamella
respondia naturalmente que tinha embarcado. Dava-lhe, porém, que scismar
não estar o nome de Amaro Fayal na lista dos passageiros.
O leitor já descobriu que o assassino do lavrador foi Amaro; que o
passaporte do morto serviu para o matador; mas ignora os pormenores do
crime, e eu tambem os não sei.
Passados annos, um correspondente de gazeta escrevera o essensial da
calumnia que assacava o homicidio ao cego. O delegado de Villa Nova de
Famalicão, Soares d'Azevedo, e advogado de Pinto Monteiro em diversas
demandas, aconselhou-o que justificasse a sua innocencia n'este crime
que lhe imputavam, porque deixal-o á calumnia e á revelia era
arriscar-se a perder todos os seus pleitos. O cego, com a lucida
intuição de quem tinha longa pratica de crimes tenebrosos, explicou a
morte do lavrador, comprovando-a pelas circumstancias do passaporte,
pela omissão do nome do homicida na lista dos desembarcados no Rio, e
pela certeza que lhe deram de Amaro Fayal ter morrido poucos dias depois
que chegára, no hospital, com o roubo ainda intacto, segundo vira na
noticia dos espolios dos fallecidos. Replicou-lhe o delegado que
semelhante justificação era insufficiente: o cego redarguiu que não
tinha outra, nem essa mesma daria, se Amaro Fayal fosse vivo, por que no
seu braço se amparara vinte annos, vinte annos vira pelos olhos d'elle,
e mal remunerado o despedira, sem que o seu guarda-livros murmurasse da
mesquinhez da paga.