Os meus informadores, que mais privaram na intimidade de Pinto Monteiro,
dizem que elle, no segundo regresso a Portugal, trouxera, além de
secretario, dois filhos, que deixára no Porto a educar no collegio da
Lapa, e uma filha ainda muito na flôr da mocidade. Da mãe d'estes
meninos, que pouco ha vivia ainda nos arrabaldes do Rio de Janeiro, não
ha nada romanesco; mas bem póde ser que houvesse da parte d'ella um
profundo sentimento de dó com muitissima abnegação de si mesma; e no
coração do cego com certeza houve extremoso amor de pai. Os tigres
sempre tem, e os homens costumam ter ás vezes este sancto instincto de
amarem os filhos.
Vinte e tantos contos prefaziam os haveres de Pinto Monteiro. Concluiu
as obras principiadas, comprou terras, e dirigiu pelo tacto as
bemfeitorias que fez no predio que habitava. Ha duas horas que eu estive
a reparar, por cima do muro do jardim, na graciosa vivenda que elle
enchera de luz como se um beijo do sol de agosto podesse descondensar a
algida escuridão de seus olhos. Ali passaram alegres dias os seus
convivas sob os caramancheis das parreiras. O grande prazer de Monteiro
era dar banquetes opiparos.
Ouvia lêr as _Artes de cosinha_, conhecia Brillat-Savarin, enchia-se do
fino sentimento dos guisados; e, apontando a petuitaria aos vapores das
cassarolas, marcava quando era sobejo o cravo ou escasso o colorau.
Fazia pensar se a vista, voltando-se para o interior, penetrava nos
refêgos membranaceos o ideal do estomago! Se um cego illustre deplorava
o perdido paraiso, outro cego parecia tel-o encontrado na cosinha.
Elle, que na America posera o cauterio á ladroagem, á falsificação das
notas e ao adulterio aggravado pelo homicidio, não sabia como amordaçar
a maledicencia dos seus conterraneos, se não occupando-lhes as linguas
no trabalho da deglutição. A cada injuria que lhe chegava aos ouvidos,
mandava comprar dois leitões.
--Mano Antonio, dizem que tu entregaste os ladrões ao chefe da
policia--dizia a menina Neves.
--Dizem? pois, visto que não os posso entregar a elles, compra um peru e
dá-lh'o ámanhã com recheio.
--Mano Antonio, agora dizem que denunciaste os da moeda falsa.
--Compra anhos e capões; attasca essas linguas em podim de batata,
embola-m'os com almondegas, deita-lhes aziar de ovos em fio, afoga-lhes
os escrupulos em vinho de 1815, menina.
E, depois, tinha outra paixão que o deliciava: arranjar casamentos.
Florecem hoje em Landim alguns cazaes de pessoas ditosas que elle
ajoujou, vencendo estorvos á custa de engenhosas intrigas, e até de
liberalidades de suas abatidas posses.
A filha de um cabaneiro, que se creava por sua casa, era o passa-tempo
do cego. Chamava-se a Narciza do «Bravo»,--alcunha paterna. Até aos
treze annos andava vestida de rapaz, e media-se com os mais gaiatos a
trepar á grimpa de um pinheiro, no assalto nocturno ás cerejeiras, em
duellos á pedrada, no jogo do pao e no murro. Era virilmente bella, e
bem feita; mas os meneios adquiridos nos trajos de rapaz
desengraçavam-na vestida de mulher. Ella mesmo olhava para si com zanga
e puxava a repellões as saias esfrangalhando-se. Pinto Monteiro dava
tento destes phrenesis, ria-se muito, e contava-lhe casos de mulheres
portuguezas que batalharam incognitas, cobrindo os seios com arnez de
ferro.
Estava no plano do cego cazal-a. Narciza dizia-lhe que não pensasse em
tal, porque a primeira pirraça que o marido lhe fizesse, favas contadas,
esmurrava-lhe os focinhos. Este programma não assustou Pinto Monteiro,
visto que os focinhos ameaçados eram os do marido.
A rapariga foi pretendida extra-matrimonialmente por varios devassos de
Landim, S. Thryso, e terras circumjacentes. A virago tinha perrixil do
que morde nas linguas já embotadas; mas tambem tinha mãos nervudas e uns
dedos nodosos que se fechavam em forma de box, assim que os pimpões lhe
cantavam desafinados.
Um d'estes era um forte lavrador de Sequeirô, o Custodio da Carvalha.
Apaixonou-se com a resistencia, e fallou-lhe serio em casamento. Narciza
contou a passagem ao cego, que batia as palmas com vehemente jubilo,
exclamando:
--Ó moça, aproveita antes que o rapaz se arrependa! Olha que elle colhe
trinta carros, e é um bonacheirão... E que tal o achas de figura?
--Eu sei cá!...
--Tu gostas d'elle ou não gostas?
--Como se nunca nos vissemos.
--Então, não o conhecias ha muito tempo já?
--Nunca o vi mais gordo.
--Mas queres cazar com elle ou não?
--Tanto se me dá como se me deu; mas o padrinho diga-lhe que, se se faz
fino commigo, eu pinto ahi a manta, que elle não sabe de que freguezia
é. Eu não ponho unhas em foicinha nem sachola, ouviu? Não fui creada na
lavoira. Se elle pega a mandar-me sachar milho ou cegar herva, temo'las
armadas.
--Caza, que tu amansarás...--dizia o cego.
E cazou.
Monteiro deu-lhe magnifico enxoval, cordão, cabaças, anneis, broche;
vestiu-se de fino panno; foi padrinho do casamento, banqueteou os noivos
com muitos convidados, chamou a musica de Paiva de Ruivães, e queimou
dez duzias de bombas reaes.
O marido sentiu as fascinações que enchem de delicias o inferno dos
corações escravos. Ella manietou-o sem violencia de mau genio, com as
suas caricias de gata que desembainha as unhas brincando. Folia rija!
Romagens, quantas havia no Minho; festanças com tres clarinetes e
requinta todos os domingos na eira; a Cana verde e o Regadinho saltado
pelas maiatas mais frandunas; brodios e vinho, fasta fora. Comprou egua
de marca, vestiu-se de amazona, e ella ahi ia com o marido corcovado,
somnambulo, a chotar na mula esparavonada atraz d'ella por essas feiras
e romarias. Ás vezes, se os moleiros não despejavam depressa os caminhos
atravancados com os seus jumentos carregados de foles, verberava-os com
o chicotinho, e chamava-lhes canalhas. Em questões com os visinhos, por
causa de regas ou invasões de gado, fazia ameaças sanguinarias.
Carregava as espingardas do marido e atirava aos gaios com pontaria
infallivel. Quando soube que as senhoras do Porto usavam collete e
gravata á laia de homens, exultou, como quem vê triumphar a sua idéa, e
quiz vestir calções e botas á Frederica.
O lavrador, já no cairel do abysmo, vendidas as melhores propriedades,
quiz reagir. Viu que tinha pela frente um virago de fibras. Afroixou por
medo e por amor. O pusillanime vergava ao prestigio da força. Narcisa
offuscava-o com a rutilante belleza do demonio, disfarçado na lendaria
Dama Pé de Cabra, e n'outras damas que o leitor conhece com pés
chinezes.
Dobados dez annos de vertiginosa dissipação, o lavrador resvalou do
idiotismo á sepultura, amando ainda a mulher que vendera um lençol para
lhe comprar a ultima gallinha. E Narcisa, viuva aos vinte e oito annos,
e ainda formosa, atirou com a honra ás goelas do dragão da miseria, e
não chorou uma lagrima.
Havia uma amiga que lhe dizia palavras dolorosas, com sincero dó: era a
irmã do cego. Pobre Neves! quem te predisséra o supplicio dos teus
derradeiros annos, ligada ao destino da mulher que tu crearas com
maternal ternura!...