Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua
primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o
ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com
quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao
extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não
ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã.
O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:
--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. A minha conversão
religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava
pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando voltava com
enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, immergido no
lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos
confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a libertinagem,
procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, desesperado de
encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu destino.
«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel.
Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas
perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os
seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e
alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu
coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O
amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia
sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da
liberdade.
«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que
aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria
tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos:
dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do
templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se
apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas,
até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi por isso
que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os conselhos de meu
pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha mulher me levavam
desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas verdadeiro.
«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me
que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a
conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de
alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a
respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas
perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me
insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que
parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros
e de baixa condição.
«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a
mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.
«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei.
Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive
uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação
aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do
diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa
da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi
quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, porque estou pobre, e
outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.
«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos
sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos
braços.
«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas
o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o
infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o
espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na
esperança de uma vida melhor.
«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de
impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o
desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo
divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é
o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a
omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da
argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que
o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo,
creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos
aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha
rehabilitação.»
Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de
felicidade inexprimivel.