XXVI

Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o

esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se

deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo

da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma

accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.

Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O

portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava

sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe

Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse

hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou

elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta,

a carta de sua mulher.

Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que

este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de

consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou

tambem.

--Vamos, filha--disse elle por fim.

--Já?! de noite?--reflectiu ella.

--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma...

Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com

a nossa familia.

--Pois está tudo arranjado?

--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da

sr.^a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de

deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho

dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos

embora.

Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até

entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém,

foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi

apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe

bebiam as lagrimas da face.

O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém,

queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por

lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque

fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos

da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.

Lagrimas Abençoadas · 第 93 / 115 题