XXV

Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os

seus livros, e uma pouca de roupa branca.

--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle

continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e

estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde

um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua

cartinha.

Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a

instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na

côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.

--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o

proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei

então saber qual ella foi.

--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.

--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja

prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento

que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma casa, que

não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se é

possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a

mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no

teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco...

Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com

olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma

só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é

Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te

eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte,

perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.

Lagrimas Abençoadas · 第 92 / 115 题