N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae
de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.
A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a
impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua
altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe
applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle
momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o
homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre
sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres
cavalheiros da força moral do conde.
Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não
conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:
--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho
do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da
verdadeira sciencia.
--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não
tem academias cá na terra.
--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.
--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.
--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.
--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com
risonha benevolencia.
--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a
sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra
reverendissima.
--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o
padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para
depois avaliar a opinião de v. ex.^a. Quando eu disse que a verdadeira
sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se
dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de
principios certos, é Deus. Se v. ex.^a quizer insistir na primeira
intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um
exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»
--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com
acatamento ironico.
--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.^a
citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha,
por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram
recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é
possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.^a esta minha linguagem,
buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei,
falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa
philosophia emprega contra Deus.
--V. s.^a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a
philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a
philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito
dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade
do christianismo.
--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.^a concluir que a
philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como
v. ex.^a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella
astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu
agora, quaes são os mais reflectidos?
--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!
--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?
-É.
--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é
uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não
passa de uma humana impostura. Póde v. ex.^a elucidar-me n'esta grave
questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?
O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do
padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava
bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a
arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil
edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade,
tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.
--Estou como v. ex.^a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á
qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por
nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades
vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a
razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo
escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim
chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo,
desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram
philosophos, sr. conde?
--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert,
Holbac...
--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados
philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a
philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação
do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as
academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut,
expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de
Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a
formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia,
escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto
eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os
segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho
recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias
naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira
philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por
isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se
acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu
proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao
conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada
razão do homem.
--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem
é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços
d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do
Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do
homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.
--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.^a
devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros
philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu
prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me
que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia antiga, e
restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova
impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia que Voltaire
combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.^a vê as
cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.^a
ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder á
apologia que fez á razão do homem.
Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em
sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente
esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem
conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê
v. ex.^a que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas,
já que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me
explique os principios de que ella tira as suas consequencias
scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande
principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.^a em nome
d'elles?
--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.
--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que
attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque
observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse
explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento de corpos
inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a
«attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a
força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro
globo, que não conhecemos?
--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da
creação.
--Mas v. ex.^a concede que o Creador não os ignora?
--Seria um absurdo não o conceder.
--E a razão humana não póde conhece'-los?
--Já disse que não.
--Mas v. ex.^a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes
difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram
d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela
celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde
profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo
facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para
si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento
de certas e determinadas verdades como «razão.»
--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a
desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me
com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.
--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação
de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não
posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a
emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo
como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado
em si, segundo v. ex.^a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra:
Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos
principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao
conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel
conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde
tentam descortinar.
--Pois v. s.^a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?
--Não, senhor, não admitto.
--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?
--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe
das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo
poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua
omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?
--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem
corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.
--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da
alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia
espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que
sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de
nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á
memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á
operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo
soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a
intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido
citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.^a invoca os textos de Voltaire.
«Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é
caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o
homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e
paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas
virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle.
Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera
d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas
palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu
a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a
elles.»
--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da
geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem
evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam
perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses
tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras
sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta
que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum
orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á
força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus!
--V. ex.^a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de
calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras
textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas
palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na
creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem
a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao
Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua
intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz
creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente
d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor,
conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são
inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal
da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe
conservar a sua felicidade!»
--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de
Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da
esposa de Jesus Christo.
--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos
desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço
homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me
blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.
--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não
póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o
mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da
natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos
que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao
universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a
ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade,
submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.»
«Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o
psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e
destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem,
quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se
tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não
é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do
homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro.
Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da
eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É
aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega
primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer,
porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a
alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de
materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das
nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por
intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento
que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema
intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as
presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas
paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus
movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma,
posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os
seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar
penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além
do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus.
--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não
está, Deus é um ente bem imperfeito.
--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do
homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no
momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem
degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi
depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se
pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia
dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus,
seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma,
para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso
provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos
convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que
amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como
os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao
pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o
espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma
porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do
sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma
substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo
Espirito.
--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união
real?--interrogou o conde.
--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se
serve para obter o conhecimento dos objectos.
--Mas qual é a natureza d'essa união?
--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio
d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil
entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima
consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal
união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia
da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposição dos
órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as
fibras. Sabe, por ventura, v. ex.^a explicar-me a natureza de certas
operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida
pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu
exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela
resistencia dos sentidos.
--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de
querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa
tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto
parece-me uma flagrante injustiça!
--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o
peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus
descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos
d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes,
alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa
semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma
acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um
crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e
com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos
os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta
estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo
porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos
é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em
proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de
innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela
culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se
escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a
tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da
vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.
O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo
a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo.
Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:
--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo,
responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...
--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite
pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia
sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as
funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.^a que os
apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora
eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não
quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha
noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João
Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.