XXII

N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae

de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.

A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a

impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua

altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe

applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle

momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o

homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre

sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres

cavalheiros da força moral do conde.

Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não

conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho

do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da

verdadeira sciencia.

--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não

tem academias cá na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.

--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.

--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.

--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com

risonha benevolencia.

--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a

sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra

reverendissima.

--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o

padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para

depois avaliar a opinião de v. ex.^a. Quando eu disse que a verdadeira

sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se

dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de

principios certos, é Deus. Se v. ex.^a quizer insistir na primeira

intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um

exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»

--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com

acatamento ironico.

--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.^a

citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha,

por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram

recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é

possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.^a esta minha linguagem,

buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei,

falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa

philosophia emprega contra Deus.

--V. s.^a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a

philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a

philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito

dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade

do christianismo.

--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.^a concluir que a

philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como

v. ex.^a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella

astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu

agora, quaes são os mais reflectidos?

--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!

--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?

-É.

--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é

uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não

passa de uma humana impostura. Póde v. ex.^a elucidar-me n'esta grave

questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?

O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do

padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava

bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a

arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil

edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade,

tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.

--Estou como v. ex.^a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á

qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por

nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades

vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a

razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo

escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim

chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo,

desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram

philosophos, sr. conde?

--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert,

Holbac...

--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados

philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a

philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação

do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as

academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut,

expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de

Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a

formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia,

escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto

eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os

segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho

recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias

naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira

philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por

isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se

acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu

proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao

conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada

razão do homem.

--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem

é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços

d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do

Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do

homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.

--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.^a

devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros

philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu

prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me

que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia antiga, e

restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova

impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia que Voltaire

combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.^a vê as

cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.^a

ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder á

apologia que fez á razão do homem.

Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em

sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente

esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem

conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê

v. ex.^a que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas,

já que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me

explique os principios de que ella tira as suas consequencias

scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande

principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.^a em nome

d'elles?

--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.

--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que

attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque

observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse

explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento de corpos

inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a

«attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a

força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro

globo, que não conhecemos?

--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da

creação.

--Mas v. ex.^a concede que o Creador não os ignora?

--Seria um absurdo não o conceder.

--E a razão humana não póde conhece'-los?

--Já disse que não.

--Mas v. ex.^a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes

difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram

d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela

celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde

profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo

facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para

si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento

de certas e determinadas verdades como «razão.»

--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a

desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me

com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.

--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação

de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não

posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a

emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo

como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado

em si, segundo v. ex.^a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra:

Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos

principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao

conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel

conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde

tentam descortinar.

--Pois v. s.^a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?

--Não, senhor, não admitto.

--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?

--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe

das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo

poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua

omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?

--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem

corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.

--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da

alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia

espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que

sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de

nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á

memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á

operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo

soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a

intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido

citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.^a invoca os textos de Voltaire.

«Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é

caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o

homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e

paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas

virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle.

Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera

d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas

palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu

a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a

elles.»

--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da

geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem

evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam

perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses

tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras

sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta

que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum

orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á

força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus!

--V. ex.^a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de

calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras

textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas

palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na

creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem

a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao

Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua

intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz

creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente

d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor,

conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são

inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal

da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe

conservar a sua felicidade!»

--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de

Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da

esposa de Jesus Christo.

--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos

desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço

homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me

blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.

--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não

póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o

mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da

natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos

que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao

universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a

ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade,

submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.»

«Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o

psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e

destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem,

quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se

tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não

é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do

homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro.

Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da

eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É

aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega

primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer,

porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a

alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de

materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das

nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por

intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento

que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema

intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as

presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas

paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus

movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma,

posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os

seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar

penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além

do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus.

--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não

está, Deus é um ente bem imperfeito.

--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do

homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no

momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem

degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi

depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se

pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia

dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus,

seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma,

para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso

provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos

convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que

amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como

os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao

pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o

espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma

porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do

sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma

substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo

Espirito.

--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união

real?--interrogou o conde.

--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se

serve para obter o conhecimento dos objectos.

--Mas qual é a natureza d'essa união?

--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio

d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil

entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima

consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal

união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia

da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposição dos

órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as

fibras. Sabe, por ventura, v. ex.^a explicar-me a natureza de certas

operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida

pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu

exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela

resistencia dos sentidos.

--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de

querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa

tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto

parece-me uma flagrante injustiça!

--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o

peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus

descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos

d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes,

alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa

semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma

acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um

crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e

com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos

os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta

estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo

porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos

é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em

proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de

innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela

culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se

escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a

tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da

vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.

O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo

a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo.

Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:

--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo,

responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...

--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite

pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia

sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as

funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.^a que os

apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora

eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não

quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha

noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João

Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.

Lagrimas Abençoadas · 第 66 / 115 题