Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?
Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma
estrella?
Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada
pelas sombras da noite?
O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se
enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro,
como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação
futura. É o presentimento.
Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente
providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.
O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica
resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:
--Anjo, porque soffres?
X
Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita.
Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia.
O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima
afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida
n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr.
Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com
o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E
esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em
casa de Silveira.
A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que
provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o
tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor
d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser
lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o
padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s.
exc.^a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta,
qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio,
insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez,
ao seu educando.
A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se
sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma
impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem
celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em
riqueza. A distincção da virtude ou do _fanatismo_, como elle dizia da
religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não
deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma
explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia
com a classe dos padres.
Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros,
tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem
dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los
como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos
blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o
campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem
sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos
religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da
Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que
elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.
Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e
poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.
--Dormiu v. ex.^a socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.
--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do
sacerdote.--E v. s.^a como se deu no seu novo quarto?
--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um
lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma
boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O
melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando
francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da
paz. Deus defenda v. ex.^a de revolver-se um dia nos espinhos, que
perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.
--Então v. s.^a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu
cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é
o que se diz por ahi...
--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam
todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que
podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a
riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que
olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta.
Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios,
tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais
pertencer-lhes.
Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para
servir o discipulo.
--Então v. s.^a não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede
uma chavena, não recebida.
--Almocei já, sr. Silveira.
--Com o pae, não é verdade?
--Não, senhor: com a minha familia.
--Então v. s.^a tem familia em Lisboa?
--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.
--Naturalmente pobre...
--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor
do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem
sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os
infortunios...
Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A
novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe
desejos de ouvir o padre longo tempo.