«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre
para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração
vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e
irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus
bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas
palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me
com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?»
perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.
«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o
jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote?
perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do
Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco
leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos
homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os
ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava.
Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um
epitheto injurioso.
«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á
valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me
em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui
instrumento de fortaleza.
«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me
comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»
--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel.
--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz
que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se
de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á
resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do
Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me
querem: é assim, Maria?
--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como
se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o
todos.
Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou,
exclamando:
--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem
attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia!
Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro
fosse quebrado.