«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que,
depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com
despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas
balas bateram contra a porta principal da egreja mas não puderam
vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos altares.
Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os
estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação de
dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um
de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, as
lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostração
em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado
e magestoso como um _de profundis_.
«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão
abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de
martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do
templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das
pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel,
que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!
«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as
portas á chusma de povo.
«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a
responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera
onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze,
que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle
instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus
Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multidão grande.
Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo,
como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram
na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus,
e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de
minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito
sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus passou-lhes pelo
coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens
torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam renunciar a sua
missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo arranca'-lo com
violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos.
_Morram!_ era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso
de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabeça
para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltára do nariz e
da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de
estertor; e senti que alguns vinham arrastados.
«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas.
Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir
com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei
depois.»