Caír de elevada jerarchia, quando os braços da religião não amparam o
infeliz na queda, deve ser morrer!
Altearmo'-nos a despeito de muitos, que não podem voejar tanto acima, é
provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da
inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mão de Deus
nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraça nos marca, no meio
d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa
arrogancia enfardára... tal vida é a preexistencia do inferno.
Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance:
A resignação;
O cynismo;
O suicidio.
A resignação não é só o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das
honras d'este mundo; é mais: a resignação não deixa caír o homem, que
olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao pé de si se
abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado
pela Providencia, o homem, que teme a Deus, não se julga, no vertice das
glorias, posto ahi pela mão do destino. Quem lhe promette o dia de
ámanhã, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a
taça do seu mel ha de ámanhã trasbordar de lagrimas? Quem affiança á
aguia, dominadora dos espaços, que, de mais alto, o açor se libra para
abate'-la nas urzes?
E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam
o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os
contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino
que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou?
onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que
nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da _nossa
sina_, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o
punhal ou o veneno, porque _estava escripto o meu suicidio_!?...
A providencia é a acção da Divindade.
O grande da terra julgára-se grande na terra pela providencia. Era um
magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mãos
de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande,
só, e proscripto das ovações, _em que elle fôra o menos laureado_, era
ainda o grande na desgraça, na esperança, na humildade, na renuncia, e
na confiança.
Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo,
onde o rico deixa debitos enormes a solver.
Humilhava-se diante Deus, que o abatera, não como um cego destino, mas
como um decreto, sanccionado no céo, cumprido na terra, e explicado no
dia das tremendas explicações dos mysterios, incompreensiveis aqui.
Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhára; diante d'aquelles,
que puderam abandona'-lo, mas não escarnece'-lo pelo seu passado
orgulho.
Renunciára quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade;
quantas pompas lhe caíam ao encontro na sua estrada de flôres; quantas
esperanças idealisára, que mais o engrandecessem, na perspectiva do
mundo, sem adulterar as mercês do Creador.
Confiava na humildade da oração, no pão de cada dia, no repouso
providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira
abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao
Creador, e vae procurar o alimento, que não deixou de vespera.