1834!
Foi um anno de muitas lagrimas. Debaixo d'este formoso céo esperdiçou-se
muito sangue. As espadas terçavam por duas causas, quando dois corações
do mesmo sangue, na vanguarda de dois exercitos irmãos, anciavam
aniquilarem-se. E, se, após o ruido das armas, se fazia o silencio
tetrico da morte, prorompiam depois os gritos das mães, das viuvas e dos
orphãos. Paiz, onde esta harmonia de angustias se levanta de milhares de
labios para o céo, prova-se no supremo infortunio, e symbolisa o
holocausto de uma vingança tremenda.
Tremenda... como a de Gaza e Moab!
«Que é dos teus edificios de marmore, cidade dos obeliscos!?» dizia o
propheta das lagrimas.
Não vedes em Portugal os fustes das columnas dispersas na ruina dos
grandes edificios?
Não vedes!--Pois que tem esta terra de commum com Moab e Gaza?
Que tem?!
O enviado de Deus responderia:
«Que é dos teus edificios de virtude, terra da honra e da probidade?»
«Que importam os coruchéos de vossos palacios, Balthazares do tempo, se
lá não está a cruz veladora das felicidades da vida?!»
* * * * *
Mãe de Maria, porque choravas tu?
As tuas lagrimas já não eram um mysterio;
* * * * *
V
Uma vez, a esposa do coronel, com sua filhinha de sete annos, ajoelhava
diante da imagem da Senhora da Conceição e murmurava esta prece:
«Virgem Maria, nunca a vossos pés caíram mais afflictas lagrimas!
Attendei-me, Senhora, que eu sou uma fraca mulher, mãe de cinco filhos,
esposa de um homem, que é o amparo d'esta pobre familia, que vos
ajoelha! Vêde, ó Mãe dos afflictos, que o tumulo de meu marido é o
tumulo d'estes orphãos, e o d'esta mãe desvalida, que não tem um palmo
de terra onde possa regar com suas lagrimas um fructo, que mate a fome
de seus filhos. Protegei-o, ó Senhora, n'esta guerra desastrosa, em que
a cada instante cáe um pae de familia, tão desgraçada como a minha! Eu
não vos peço as honras, e a subsistencia que meu marido ganhára no
serviço da sua patria: o que eu vos peço é muito mais... é a vida de meu
marido, mas só a vida, sem a gloria de vencedor, sem o premio do seu
sangue derramado, sem mais outra riqueza que a do coração que elle tem,
e a resignação com que vós, consoladora do infortunio, e eu, esposa
extremosa, lhe adoçaremos a desgraça! Os labios da vossa afilhada não
murmuram a oração de sua mãe, mas o seu coração é aquelle que vós lhe
déstes ha sete annos! Eu vos supplico em nome d'ella. Fazei que estes
olhos não sintam tão cedo o travo das lagrimas, que chora sua mãe!
Piedade para todos nós!... amparo para meu marido... compaixão para
todas as mães atribuladas, que, n'este momento, vos pedem, como eu, a
vida de seus maridos...»
E era esta a oração que os suspiros não poderam cortar. Assim simples e
angustiada, confirmava a verdade de uma grande dor que não escolhe
palavras, nem se atavia das pompas do estylo. Quem orou n'um d'estes
lances, sublimes no tormento, pela explosão da agonia com que se
refugiam no céo, compreenderá o cunho pungente, marcando a mais
insignificante d'essas palavras, que proferiam os labios febris da
mulher consternada entre seus filhos.
E, depois, a mãe de Maria foi deitar sua filha, e, acalentando-a,
estremecia ás vezes, como se os accessos de uma convulsão a não
deixassem aquietar-se ao lado do seu anjo. É que a cada trom remoto da
artilharia, nas linhas de Lisboa, aquella afflicta esposa de um homem de
guerra sentia o véo da viuvez descer-lhe na face, e o luto da orphandade
envolver aquellas cinco existencias, para nunca mais se mostrarem no
mundo com direito a serem amadas por alguem. E os outros quatro meninos
aconchegavam-se no regaço d'ella; fitavam-n'a, como os passageiros de um
barco em perigo fitam o semblante do homem a quem se confiaram; e, no
choro, modelado pelos gemidos de sua mãe, compunham uma consonancia de
vagidos, e brados, e soluços. Quando assim se soffre, a indifferença do
Eterno seria um cruel desengano para os infelizes, que se acolhem ao
abrigo das suas misericordias... Não haveria Deus: a justiça divina
seria uma astucia humana.
A oração é um respiradouro de espirito, quando a mão da desventura o
comprime até lhe abafar a derradeira esperança na terra. A oração não
tem nada com este mundo. Pedir a justiça do céo para as injustiças da
terra e renunciar a toda a vingança, é pedir a felicidade de nossos
inimigos, porque Deus é misericordioso, e não precisa de fulminar o
poderoso para vingar o fraco. Orar é caír de joelhos, e muitas vezes não
articular dois sons de uma supplica: é não atinar com a linguagem de
falar a Deus, porque a sciencia do mal, exclusiva do homem, só inspira
ao desgraçado expressões para que os homens o compreendam. Aquella mãe
afflicta, quando orou, orava assim. Seu marido com o peito na frente de
regimento era o alvo das balas inimigas. Na sua frente um outro coronel,
escravo das suas convicções, da sua honra talvez, e pae de familia
tambem, ouvia o zumbir da metralha, como halito da morte a afflar-lhe os
cabellos. Mas a mãe de Maria pedia por ambos; e, quando a oração assim é
feita, o espirito de Deus está nos labios do que ora.
Enxuga as tuas lagrimas, sorve as de teus filhos com teus beijos, mãe e
esposa, que o pae d'essas creanças, o homem, que traz no coração os
alentos de que te sustentas no mundo, não ha de a bala ou a espada
cortar-lhe os vinculos a que prendeste a tua melindrosa existencia.
Não ha de, que teu marido entrou na guerra de irmãos com o coração
enlutado, como em arena fratricida, e, ao ouvir o som rispido da
trombeta que mandava morrer matando, muitas vezes eleva ao Senhor o
espirito atribulado, supplicando-lhe a reconciliação dos portuguezes.
Não ha de, que, nas vesperas angustiosas de uma peleja, teu piedoso
marido, refugiando-se dos cabos de guerra que tripudiam e blasphemam
farejando o sangue da carnagem do dia seguinte, ergue as mãos ao Senhor,
supplicando-lhe que acceite no regaço da sua misericordia, uma viuva
desvalida, filhinhos desamparados, aos quaes a mão do vencedor não
extenderá mão esmoler, seja qual fôr o triumphante.
Não ha de, atribulada mãe e esposa, porque as paixões clamorosas dos
impios não ensurdecem o céo aos rogos de um justo, que lava com lagrimas
cada gota de sangue de irmãos que lhe salpica a farda.
Expande o teu coração opprimido no seio de Deus, dolorida mãe.
Deixa rugir lá fóra o phrenesi dos odios civis, e acolhe-te, mulher
cortada de agonias, acolhe-te ao refugio da religião, respira ahi em
lagrimas a oppressão que os meigos carinhos de teus filhos não podem
consolar-te.
Ao mesmo tempo que oras no meio d'elles, o coração de teu esposo comtigo
se ala para a região serena da paz e bemaventurança eterna. Sois duas
almas puras que se encontraram na terra, juntas ascendem a Deus na
oração, juntas hão de compartir as amarguras da pobreza, juntas hão de
receber a corôa triumphal no dia marcado á recompensa dos que choram na
terra.
Assim lhe segredava o anjo da resignação alentos que a faziam confiar no
regresso de seu marido. Rodeada de seus filhos, a esposa do coronel,
fantasiava com Maria as venturas, que, ainda na pobreza, podem deliciar
corações enriquecidos pelos dons da amizade. Maria, tão joven e
innocentinha, compreendia as alegrias de sua mãe, e respondia a ellas
festejando a volta de seu pae, como se elle viesse já caminhando a
indemnisar-se dos trabalhos no goso da paz, no amor santo da familia,
nas donosas alegrias de uma obscuridade feliz.
Mas estas esperanças eram a cada hora desvanecidas pelas más novas que
vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre mãe era constantemente
despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa.