desespero, loucos de medo, iam caindo pelos alçapões ao rio, e a
dizimada cavallaria portugueza, fugindo tambem, e procurando a ponte,
maior pressão fazia ainda sobre a grande massa de povo, pisando-a,
atropellando-a, empurrando-a com os cavallos para o sorvedouro
hiante onde centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo que as
baterias de Villa Nova, vendo os francezes descer a rua de S. João, iam
metralhando a Ribeira, e augmentando involuntariamente o terror e o
morticinio.
Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados no vacuo dos alçapões,
nivelaram o pavimento da ponte, facilitando passagem aos ultimos
fugitivos por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos outros.
Os proprios invasores se commoveram com esta horrorosa tragedia, e ainda
puderam salvar da morte algumas pessoas.
Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram para Villa Nova,
d'onde facilmente desalojaram as nossas baterias.
Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça Strech e da sua
familia n'essas crudelissimas horas da invasão.
Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria, na bateria do Bomfim,
até aos ultimos momentos em que a ambos, e a poucos mais, foi dado
combater pela patria.
O que é certo, e a historia o refere, é que puderam proteger a retirada
de mais de seis mil pessoas, que se evadiram por aquelle lado da cidade.
Abrigados os restantes valentes por um muro, que se levantava no outeiro
do Bomfim, lograram continuar o fogo com desesperado denodo.
Foi realmente heroico esse render-se de heroes, quando, desamparados de
todo o soccorro, enviaram ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.
O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a posição, apertou a mão
do tenente coronel Champalimaud, do ajudante Antonio de Azevedo e do
capitão Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de commoção:
--Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio da nossa vida nada
aproveitaria á patria, que está invadida. Fizemos o nosso dever;
pelejámos emquanto pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua vida
para quando mais util possa ser á terra em que nascemos.
Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas duas pessoas
das que rodeavam o brigadeiro: o commandante dos artilheiros e o capitão
Graça Strech.
--Que foi? perguntou Victoria.
--Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam a um tempo os dois
bravos militares.
Era necessario retirar; por Campanhã já não podia ser. Optaram por
atravessar o Douro, que o brigadeiro e alguns officiaes conseguiram
passar defronte d'Avintes. N'esse numero porém não podemos incluir o
capitão Graça Strech.
Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado a gravidade do
ferimento, conheceu que era perigoso o seu estado. Foi então que se
lembrou da filha, da esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas
tinha perdido de vista.
Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem protecção aos horrores
d'aquelle dia? E o filho, que se batera como valente na bateria do
Bomfim, haveria ficado entre os muitos que lá succumbiram, e adormeceram
sobre a terra embebida no sangue de seus irmãos?
Não sabia.
Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se lhe fechasse em torno a
noite escura da eternidade. Pouco lhe importava morrer; o que elle
queria era obter a certeza de que a embriaguez da victoria não tinha
desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem fracas mulheres
indefesas.
Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para amparar o golpe que
fosse vibrado contra ellas!
Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros momentos da refrega,
por que o não tornou a vêr.
Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se na cidade, tambem.
Todavia o primeiro meio era a morte no desespero; o segundo podia ser a
morte com a esperança.
Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava--a esperança, de
poder abraçar os seus.
Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e do sangue que cada vez
lhe repuxava do peito com maior intensidade, tentou descer a rua do
bomfim e bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam as
ruas desvairadamente.
Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas, só lhe restava a alma.
Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía fugindo a vista, á medida
que empenhava as ultimas forças para adiantar caminho.
Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado o coração do pae.
Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça Strech procurou com a mão
um amparo que não encontrou.
Após um momento de oscillação, ruiu em terra. Estava morto.
Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da ponte, e os invasores,
enfurecidos pela resistencia que encontraram, iam encetar as tremendas
represalias que estão na memoria de todos os portuenses.
Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a esse drama de sangue
e terror que teve por bastidores os muros d'uma cidade inteira.
Infelizes os que viram despedaçar-se momento a momento nas garras dos
cannibaes os até então immaculados thesouros do seu coração. Infelizes,
finalmente, os que viram cavar-se a seus pés a sepultura ingente de
milhares de familias e não puderam enchel-a com o sangue dos que
assassinavam em nome da victoria.
José Maria da Graça Strech pertence ao numero d'estes grandes
desgraçados, que foram muitos.
Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de seis mil pessoas, já
quando, depois das oito horas da manhã, era desesperada a situação dos
portuenses, duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada,
acenaram ao denodado moço que por acaso olhára na direcção que ellas
seguiam.
Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas antes tinham
convidado Augusta a acompanhal-as na fuga e que, arrastadas pela onda
impetuosa dos que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim.
Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento radioso de felicidade,
porque lhe acudira a lembrança de que as pessoas da sua familia as
haveriam acompanhado. Oh! se sua irmã, se a estremecida menina estivesse
ali, poderia fugir incolume aos horrores que elle presagiava imminentes,
attenta a vantagem do inimigo em toda a linha.
--Ellas vieram? perguntou açodadamente José Maria.
--Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida uma das senhoras.
--Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão Strech levando a mão ao
coração.
--Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que estão sósinhas,
desampadas de criados...
--Mas como? Como?! articulou o moço estendendo o braço para a posição do
inimigo, como se quizesse indicar que era preciso combater a todo o transe.
--Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a, salve-a, que ella
morrerá de pavor! acrescentou a outra visinha.
--Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo, olhando para as duas
lacrimosas mulheres e para os seus companheiros d'armas que defendiam á
distancia a unica bateria que não se tinha rendido.
E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia com desalento:
--Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a todo o instante, e ellas
sem defeza, sem ninguem!...
Então, aproveitando a opportunidade d'um momento, ordenára o coronel
Champalimaud que se désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se
tinha adiantado.
--Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço as duas
mulheres--Salvem-se ao menos, e obrigado, muito obrigado. Eu verei se as
posso salvar... a ellas, a Augusta.
O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade do perigo.
--São elles, disse de si para comsigo, correndo na direcção da bateria,
os poucos que n'esta hora se sacrificam pela patria. E tambem hão de ter
mãe, e irmã... e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! cobardia do
meu coração, não, não te posso, não te devo ouvir...
E não tardou que se collocasse ao lado dos seus esforçados companheiros.
Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso desfecho d'aquella
desesperada resistencia. Começava a lavrar a confusão na bateria,
fustigada por violento fogo dos francezes--indomito ataque, de que
em breve foi victima, como já dissemos, o proprio capitão Graça Strech.
Tamanha era a fumarada, que já se tornava impossivel verem-se uns aos
outros. Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha,
conhecendo que era impossivel prolongar por mais tempo aquella proeza de
bravos patriotas, se lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria
o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as palavras
afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se para elle os
braços tremulos d'Augusta, que pedia soccorro.
Então, como se o coração houvesse decretado uma sentença irrevogavel,
cortou resolutamente o fumo da polvora, e affastou-se da bateria,
murmurando os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó.
Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu tambem, e que o
capitão Graça Strech caiu morto na rua do Bomfim.
Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por entre a multidão que,
semelhante a um grande mar, ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do
desespero. Algumas vezes teve de se esconder, outras de retroceder, e só
pela tarde chegou á rua nova do Almada.
Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz ou mais infeliz que
seu pae, venceu todas as contrariedades, até que finalmente, escoando-se
por entre os grupos desvatrados, entrou em casa no momento em que ao
fundo da rua assomavam tropas francezas que, senhoras de toda a cidade,
continuavam o saque, as violações e a carnificina que tristemente
assignalaram esse dia memoravel nos fastos da nossa historia.
* * * * *
V
O juramento de vingança
As casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas.
Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os
habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que, á hora em
que começou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos
foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forçar a entrada. A
este numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, entregue aos
seus pavores, a familia Strech. José Maria, ao entrar açodado pela
aproximação dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que
lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se
domiciliariam nos predios devolutos e de que não porfiariam em forçar
uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar n'esse
momento de suprema preoccupação que meditassem a pilhagem e a
carnificina que, passadas horas, consummaram.
Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, que, ouvindo passos
apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez,
romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus
esconderijos.
--Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou precipitadamente
José Maria para serenal-as e correndo pelo corredor.
--José! José! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um
tumulo.
E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram o moço, e uns labios
gelados de mortal frialdade lhe procuraram as faces, e um novo grito de
dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.
E immediatamente soaram passos, que elle conheceu: a mãe e a avó,
seguindo a pobre menina que as precedera, correram ao encontro de José
Maria.
Augusta, apertando-o contra o peito, alternando beijos e olhares por
egual frementes, porque o sangue congelado no coração parecia, acordado
de subito, correr em turbilhões ao cerebro, não lograva articular
palavra, tão violenta era a sensação que estava experimentando.
Não assim, porém, sua mãe, que, parando como que fulminada á porta,
tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:
--E... teu pae?
--Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. Bem póde ser que a
Providencia o tenha salvado como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim,
fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, minha mãe, e...
Não pôde completar a phrase, porque de repente foi chamado á realidade
pelo estrepito que a soldadesca franceza fazia na rua.
--Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os francezes, bem os vi, são
elles! Esconde-te, Augusta, minha mãe, minha avó...
N'este momento estremeceu o predio nos alicerces como se a porta tivesse
soffrido o embate de um ariete.
--Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, que de novo descorára até
á lividez do cadaver.
--São elles que forçam a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando
entrei, sim, eu fechei-a.
--E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a avó.
--Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar.
Perseguem-me! tornou afflicto José Maria.
E, após segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da
soldadesca que entrava.
Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pôde fugir; todas como
que ficaram chumbadas ao pavimento.
E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram á porta
muitas cabeças cujos olhos chammejavam de cubiça e sensualidade.
Então José Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta,
estendendo o braço para defender as trez mulheres e, quando ia
talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e
recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fôra mais
doloroso que profundo.
As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, soltaram uma d'essas
exclamações impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito
lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque
uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.
E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando com o pé o corpo de
José Maria, sedenta de prazer e rapina.
Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os
horrores que se succederam á invasão do Porto, vamos copiar apenas
algumas linhas da _Historia da guerra civil_, de Soriano:
«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade foi posta a saque, por
castigo da sua resistencia, como em casos taes se costuma praticar,
saque que começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores a todas
as casas de habitação, a par do terror que infundiam, o roubo, a
violação e a morte, excitados de mais a mais para isto por encontrarem,
segundo alguns dizem, varios prisioneiros francezes sem olhos, com
linguas cortadas, e os membros truncados ou rasgados.»
Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles é o sr. Claudio de
Chaby que, nos seus _Excerptos historicos_, refere:
«No transito das ruas e praças encontraram os soldados de Soult alguns
dos seus camaradas, que nas differentes refregas tinham os nossos
aprisionado, exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante crueza: a
uns tinham cortado a lingua, arrancado a outros os olhos ou decepado os
membros!--O effeito natural da observação de taes crueldades, junto á
tambem natural disposição de espirito dos invasores em taes
circumstancias, levou estes á pratica de vingativos e deploraveis
excessos, de _assassinato, roubo, violencia e profanação_!»
O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, depois que a
soldadesca entrára, não o soube exactamente José Maria que, ao cerrar da
noite, tornára a si, depois de haver perdido muito sangue pelo
golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na terra e no céo essa
noite, como podem confirmar os poucos que se lembrarem d'ella.
Tamanho era o temporal havia dias imminente ao Porto, que trinta navios
inglezes, carregados de vinho e outros productos, impedidos de sair das
aguas do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder do marechal
Soult, bem como a polvora guardada n'um vasto armazem, e 196 peças de
artilharia, recolhidas nas differentes baterias da cidade.
Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o braço direito, que
d'instante a instante fraquejava, procurando orientar-se e recordar-se.
Era profundo o silencio na casa toda.
Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.
Assim que pôde rememorar o que se passára até ao momento de ser ferido,
entrou de chamar em altas vozes a irmã, a mãe e a avó.
Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações o chofrar dos
aguaceiros nas vidraças.
Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue com a roupa, e começou a
sondar a escuridão, procurando alguem.
Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os pés encontraram.
Curvou-se e tacteou. Encontrou vestidos de mulher. Estendeu a mão e
apalpou um rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José Maria
estremeceu como se tivesse recebido em pleno peito um novo golpe de
ferro, e rugiu d'afflicção e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto
de sua irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. O mesmo
silencio, a mesma immobilidade!
--Mortal morta! rouquejava elle convulso.--Minha mãe! minha avó!
E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a vidraça.
Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, podia ser que sua irmã
estivesse apenas adormecida em deliquio.
--Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou talvez.
Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. Mas minha mãe? E minha avó?
Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.
Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar luz.
Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando una candieiro
de latão á altura da cara, reconhecia trez cadaveres.
..........................................................................
N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente se banqueteavam
n'uma taberna do largo da Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns
soldados da divisão Delaborde.
Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a celebração solemne d'um
dia de saque, que requeria uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras
francezas cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas aos hombros
dos soldados, uma canção marcial, cujo estribilho podia ser traduzido
d'este modo:
Viva a França! viva a França!
Que triumpha na matança!
Rataplan!
Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes retorcidos,
chasqueava na sua lingua natal com uma das vivandeiras que se lhe queria
escapar dos braços:
--Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do que tu!
--Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.
--A portugueza que me resistiu.
--E que tu mataste?
--E que eu matei para que não deixasse de resistir a outro.
--A pobre rapariga!
--Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido pura! Tu não morres
assim, _ma petite chienne! Par Dieu!_
--Cruel!
--E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei as duas mulheres que a
defendiam e abraçavam. Um soldado do imperador livra-se depressa ainda
que seja d'um cento de mulheres.
--Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando por desprender-se
dos braços do soldado.
--Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas é quantos homens matei!
Por Deus! que era precisa a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se
chamam portuguezes, não nos queimaram a alma porque não puderam.
Atiravam-nos desesperados! E matavam os nossos emissarios! e mutilavam
os nossos irmãos! Quantos centos de francezes imaginas tu que morreram
hoje? Não se mata impunemente um francez como se mata um cão. E desde
que entrámos em Portugal quantos não teem ficado para nunca mais voltar
a França! Vingámol-os; estão vingados! _Vive l'empereur! Vive le
marechal! Vive la France!_
E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava proxima, jogou-lhe
esta phrase intimativa:
--Esta é minha; canta tu.
E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;
Viva a França! viva a França!
Que triumpha na matança!
Rataplan!
..........................................................................
Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech.
José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia
que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o coração havia
adormecido. Era um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento,
mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a
realidade, embora o cerebro não tivesse actividade para comprehender.
Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que
o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta.
José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o
coração humano é tão valente ás vezes que se excede a si mesmo, resistiu
áquella dôr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu
pensamento o auxilio de uma ideia.
N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso um raio de luz, ainda
que fosse sinistro como os clarões sulphureos dos mysticos paineis que
representam o inferno.
E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia.
Se o leitor, apesar das indicações historicas de que me tenho
soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um
romance tenebroso, achará no seu proprio espirito a convicção da
verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre
quadro, allusivo á invasão dos francezes, que pende da muralha da
Ribeira, a dois passos da ponte pensil.
Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão da noite duas zonas
luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a
pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros
sombrios, as armações dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehenderá
todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas
na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.
A inscripção do quadro nem por singela deixa de convidar á meditação:
«Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na
entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e
uma Ave-Maria.»
Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a procurar a triste
inspiração para escrever as primeiras paginas da historia da familia
Strech. Estes horrores poderão hoje parecer sinistramente romanticos,
mas uma hora só de recolhimento em face do quadro da Ribeira basta a
acordar em nós a consciencia historica d'essa epoca calamitosa.
Para os que morreram na catastrophe da ponte pede o rotulo uma oração,
mas quantos não morreram então sem oração e sem mortalha, quantos não
agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem a mortalha que
desejariam, e sem uma oração de que blasphemariam!
Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as maguas, só tu podes
contar as bagas de suor que ressumbram na fronte dos infelizes que tu
não matas logo, para que não morram em desespero sacrilego!
E José Maria não morreu.
Por um esforço intellectual, que só a Providencia podia permittir a um
soldado ferido, quando já as trevas da loucura procuravam
cingir-lhe o cerebro escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, se
bem que a principio tibia e vaga como o diluculo que se vae alargando e
colorindo pouco a pouco até chammejar no céo.
E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre moço lhe queimára a
intelligencia, como se fosse labareda, mostrando-lhe as ruinas do
passado ainda fumegantes de um incendio recente.
Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...
Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, retintas de sangue, a
clamar vingança.
E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas palavras ao mesmo
passo desalentadas e calorosas não puderam, depois que inteiramente se
recordou da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os trez
corações paralysados, descerrar os labios da mãe, da irmã e da avó, para
sempre mudos, para sempre adormecidos.