Produced by Pedro Saborano
Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
em 1904.
Foi mantida a grafia usada na edição original de 1904, tendo
sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não
alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.
O ANNEL MYSTERIOSO
NOVA COLLECÇÃO PORTUGUEZA
II
O ANEL MYSTERIOSO
SCENAS DA GUERRA PENINSULAR
ROMANCE ORIGINAL DE
ALBERTO PIMENTEL
3.ª EDIÇÃO, ILLUSTRADA, REVISTA PELO AUCTOR
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
_Sociedade Editora_
LIVRARIA MODERNA
Rua Augusta, 95
TYPOGRAPHIA
45, Rua Ivens, 47
1904
PROLOGO DA 3.ª EDIÇÃO
Este é um dos romances da minha mocidade. Foi publicado pelos editores
da _Bibliotheca Universal_, de Lisboa, em 1873. Precederam-n'o os
_Idyllios á beira d'agua_, (1870), a minha primeira tentativa no
romance, e _O testamento de sangue_, escripto aos vinte e trez annos.
Estas datas desculpam hoje, aos meus proprios olhos, tudo quanto ha de
hesitante e incorrecto em todas as trez novellas, que foram as primicias
litterarias de um rapaz educado n'uma terra essencialmente commercial,
avessa a idealidades romanescas e ao convivio e apreço de escriptores,
bons ou simplesmente toleraveis.
Pelo que especialmente respeita ao _Annel mysterioso_, se quando agora o
reli me não descontentou a acção dramatica, achei-lhe comtudo algum
excesso de floração declamatoria, que é um defeito peculiar a todos os
estreantes.
A grande arte de escrever está na ponderada sobriedade da expressão, no
equilibrio estavel entre a phrase e o pensamento.
Fóra d'isto ha rhetoricos, mas não ha escriptores.
Se eu, no decorrer dos annos, consegui aproximar-me d'este requisito
essencial, não perdi de todo o meu tempo. Mas, ainda n'esse caso, é
defensavel a reimpressão de uma novella, que póde fornecer elementos de
confronto entre duas épocas da vida de um escriptor.
Como quer que seja, o _Anel mysterioso_ agradou quando foi publicado em
1873. A breve trecho sahiu a segunda edicção. E os mesmos editores me
convidaram a escrever logo em seguida outro romance, que foi _A Porta do
Paraizo_.[1]
Ambos estes livros me abriram caminho entre o publico de Lisboa.
O exito da _Porta do Paraizo_ explica-se facilmente pelo interesse que
inspirava ainda então o reinado de D. Pedro V.
Quanto ao _Annel mysterioso_, que não é senão a biographia de uma
celebridade das ruas do Porto, parece que foi o entrecho commovente que
no espirito dos leitores lisbonenses suppriu a falta de conhecimento
directo do protagonista.
Quando eu escrevia este romance, muitas pessoas d'aquella cidade se
lembravam ainda de ter visto frequentes vezes o _Desgraça_.
Uma d'essas pessoas era Camillo Castello Branco, que, seis annos depois
da publicação do _Anel mysterioso_, dizia a pag. 296 do livro
_Sentimentalismo e historia_: «A um canto (do botequim da _Aguia
d'ouro_) estava um velho de semblante livido, muito desgraçado, com um
chapeu enorme de sêda d'um azulado decrepito, com um grande cigarro no
canto da bocca. Ao lado, sobre um mocho, via-se uma guitarra com manchas
gordurosas de suor que punham brilhos, e aos pés um cão d'agua com o
felpo encarvoado, cheio de torçidas, encaroçado, dormia, e acordava de
salto, apanhando com muita furia, no ar, as moscas que lhe picavam as
orelhas. Era o José das Desgraças, o legendario mendigo, que morreu de
saudades do seu cão, aggravadas pela fome».
Esta referencia authentíca hoje o retrato de uma individualidade
popular, cujos contemporaneos dormem, como ella, o somno eterno da morte.
Lisboa, 10 de abril de 1903.
_Alberto Pimentel._
[1] A quarta edicção, luxuosa, d'este romance, foi por nós
publicada em 1900.
(Nota dos editores.)
O ANNEL MYSTERIOSO
I
O Desgráça
Entre os typos populares, que pouco a pouco vão rolando a sepulturas
ignoradas, deixando após si o rasto de uma vida sobremodo accidentada de
peripecias quasi sempre sombrias--rasto que só um ou outro escriptor se
compraz em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue ao
cemiterio--avulta na tradição portuense um homem que por longo tempo ahi
foi o alvo das assuadas do rapazio e dos chascos dos frequentadores de
botequim. Uns chamavam-lhe o _José das Desgraças_, outros simplesmente o
_Desgraça_.
Parece dever inferir-se de tão lutuosa alcunha que a população da cidade
lhe conhecia a biographia exuberante de lastimosos lances. Tal não ha.
Quando elle passava coxeando arrimado ao seu bordão, sobraçada a
guitarra inseparavel, de velho chapéo alto amassado, sobrecasaca
abotoada, pendente a medalha de prata da guerra peninsular, annel d'ouro
na mão esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle proprio manipulava
com pontas de charuto, seguido do cão fiel, que se chamava _Junot_, por
motivos que mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria
alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, ou rompia em
apostrophes de _Ó Desgraça! Ó Desgraça!_ que elle parecia não ouvir ou
despresar em sua imperturbavel serenidade.
E a populaça, sem sequer suspeitar da tenebrosa origem do cognomento,
quedava-se a ouvil-o, calmadas as arruaças com que era saudado, quando
elle, sentado á porta de um café, especialmente o do Jardim de S.
Lazaro, começava a tanger melancolicamente a sua guitarra, na qual
executava operas completas, queimando o seu enorme rolo de tabaco e
contemplando, de cabeça inclinada, o cão que parecia escutal-o
attentamente...
Depois, quando a mão caía extenuada sobre as cordas silenciosas,
affigurava-se, tão alheado ficava, que estava rememorando maguas
intimas, segredos da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento das
esmolas que lhe atiravam ao regaço os que entravam ou saíam a porta do
botequim.
Ás vezes, como se não houvesse conseguido linimentar com a musica as
recordações dolorosas acordadas no imo peito, voltava a tanger na
guitarra uns dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a alma
tempestuosamente alanceada, chorando por elle, que não tinha lagrimas.
Restituido á realidade da sua resignada nobresa, erguia-se firmado no
bordão, sobraçava a guitarra, e continuava a peregrinação, vagueando
pelas ruas da cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo
impassivel os óbolos que jámais solicitava. E o cão, o leal companheiro
de infortunio, seguia egualmente resignado seu dono, e quasi sempre
indifferente ás provocações do rapazio que se divertia em apedrejal-o e
açulal-o.
Frequentemente intervinha o _Desgraça_ ameaçando com o bordão os
perseguidores do seu dedicado companheiro; mas como o inquieto rapazio
conhecesse que a velhice lhe desnervava o braço, entrava de levantar
celeuma atroadora, em que, ainda assim, quasi sempre se distinguiam
vozes de «Morra o _Desgraça_ e o _Junot_! Vende o annel e não andes a
pedir!»
Estranho homem devia de ser esse, que parecia guardar grande mysterio, e
tinha por unico amigo, entre uma população inteira, que o apupava, o cão
fiel, e por consolação unica a sua guitarra, e por unica protecção a
piedade dos seus conterraneos, que elle não implorava.
O povo não suspeitava sequer que a biographia d'aquelle homem
justificasse o appellido. Quando o _Desgraça_ fazia chorar a guitarra
entre os dedos, e o cão denunciava comprehender a guitarra, como que
ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas d'ahi a pouco, quando
estrondeavam os apupos, era o cão o unico espectador que mostrava lêr na
physionomia do velho o mysterio de uma vida tormentosa.
Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia de homem e cão. E
todavia não saía d'entre a arraia miuda o mais desgraçado dos populares
a dizer ao pensativo guitarrista: «O teu cão sente e não fala; eu
falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas consolação. Eu sou
tambem muito infeliz, muito mais do que tu, porque não tenho guitarra
nem cão. Deixa-me pois compartir do teu cão e da tua guitarra, que eu te
darei o que tu não tens, dois ouvidos que te escutem, uma voz que te
responda.»
Não. A desgraça é tão infeliz, que se ri da desgraça; é ella que se
desauctorisa a si mesma. Só lhe falavam para chasqueal-o, para lhe
cuspir na face a zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar,
deixava resvalar aos pés.
E todavia aquelle homem era um grande desgraçado, que só tinha no mundo
a sua guitarra, o seu cão, e as suas recordações. O annel, que trazia na
mão esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome, mas não haveria
miseria que lh'o arrancasse do dedo, porque as suas recordações estavam
n'aquelle annel.
* * * * *
II
Na quinta das Chãs
Na noite de 17 de fevereiro de 1809, a morgada viuva da quinta das Chãs
conferenciava gravemente com o seu capellão n'uma das salas terreas do
solar, a duas leguas de Braga, sobranceiro á aldeia de Carvalho d'Éste.
A morgada, senhora de uns sessenta annos, deixava entrever nas sombras
da physionomia a tempestade que lhe agitava a alma; o capellão,
passeando de um para outro lado, enviesava á morgada olhares
investigadores, que para logo revelariam perfidia e cupidez.
--É preciso partir, padre capellão, dizia afflictivamente a morgada. Se
os francezes logram atravessar o rio Minho, estarão brevemente em Braga.
A mim pouco me importaria a vida se não fosse Augusta, que a esta hora
está dormindo na serenidade da sua innocencia. Tomára que chegasse o
Teixeira para contar o que se passou. Diga o que disser, padre capellão,
é preciso pensar maduramente. Meu genro fez-me depositária de um
thesouro, que eu hoje quero salvar de todos os perigos, custe o que
custar, porque se me affigura que já estimo mais Augusta do que aos seus
proprios paes, e a seu irmão. Recebi minha neta aos 5 annos, porque á
luz da consciencia conheci que melhor poderia eu sustentar uma criança,
apesar das hypothecas da minha casa, do que um pobre capitão do exercito
poderia sustentar dois filhos. O padre capellão administrava as
propriedades. Que me restava a mim para não morrer de aborrecimento
durante o dia? Augusta, a criança que me tinha sido confiada. Era ella a
minha unica distracção, o meu unico amor; ha dez annos que este tecto
lhe abriga a innocencia, e ha dez annos que eu abençôo a resolução de a
chamar para amparo da minha velhice. Olhe que os annos tornam a gente
egoista, padre capellão; a abnegação é só apanagio da mocidade.
Não pense que me bastava a unica distracção do voltarete; é sempre a
mesma cousa! Quando eu _peço licença_ o padre capellão _prefere_, e o
Teixeira dá-lhe _codilho_. Tambem é boa embirração a sua de _preferir_
sem jogo. Nem que tivesse vontade de fazer mal... E o dia, estes longos
dias da provincia, que não teem fim! Era morrer de fastio. Augusta
trouxe-me cuidados e variedade. A principio com as suas exigencias de
criança; agora com as suas ingenuidades de donzella. Vi, anno a anno,
desabotoar a flôr. A flôr, disse bem, porque Augusta é realmente uma
rosa... de quinze annos. E é que eu a estimo como seu jardineiro que
sou. Instantemente lhe pedi que se deitasse para que não ouvisse dizer
ao Teixeira as proezas que os senhores francezes teem feito lá para esse
rio Minho. Mas, padre capellão, o que é certo é que eu já haveria
partido para o Porto, se n'esta occasião estivesse prevenida com
recursos. O padre capellão bem sabe...
--Sei, sei, senhora morgada, que a occasião é má para todos.
--Se os caseiros pudessem pagar o resto das rendas...
--A senhora morgada devia conhecer o que é guerra sobre guerra. Tivemos
esse excommungado Junot, mais as suas aves de rapina, a comer-nos os
olhos da cara. Nem as egrejas respeitou, o maldito! A senhora morgada
ainda fala em pedir o resto das rendas aos caseiros! E para quê? Para
fugir para o Porto, para casa de seu genro, para abandonar as suas
propriedades!
--O padre capellão velará por ellas. É que eu bem sei os sustos que
curti aqui durante a primeira invasão. Se no Porto não estivesse a
soldadesca do Taranco, teria fugido para lá.
--E que teima essa de me querer confiar as suas propriedades, capacitado
como estou de que a senhora morgada suppõe que lh'as administro mal!
Administro mal, administro, porque não forço os caseiros a pagarem o
resto das rendas para vossa senhoria o ir gastar no Porto com a familia
de seu genro. Depois de uma guerra e em vesperas de outra é que a
senhora morgada fala em pagar!
--Pagar é um dever, padre capellão, e quanto mais nos apressamos a
fazer o que devemos tanto maior é o repouso do espirito. Bem sei que são
más as circumstancias, mas é que tambem esta pobre gente se importa
pouco com o calendario, e acha que todo o tempo é tempo. É que tambem
não imaginam que se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e
genealogias. Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capellão que eu
falei no resto das rendas porque n'esta occasião não ha dinheiro em
casa. Ninguem melhor o sabe, porque lhe passam os negocios pela mão. O
que é certo é que eu sinto ameaços de pobresa...
--Nem tanto ao mar, senhora morgada...
--Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias Chãs, encantada nas
graças d'Augusta, cerrando ouvidos ao bulicio da cidade que está
proxima. Não posso fazer despezas extraordinarias, é preciso não largar
a brida da mão para costear as indispensaveis.
--Os chás não são indispensaveis, senhora morgada...
--Magôa-me a sua ironia, padre capellão! Tanto mais que sabe como é
limitado o serviço da nossa mesa de jogo. E depois queria que eu
fechasse as minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal da nossa
casa desde a mocidade de meu marido? Sabe o padre capellão como o
morgado deixou as propriedades sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho
podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias e da maxima
abstenção d'obras de beneficencia...
--Maxima abstenção!...
--É injusto, padre capellão! Refere-se talvez á Augusta... Não sabe que
é filha de minha filha, casada por inclinação com um honrado militar do
exercito portuguez, a quem não basta unicamente a sua immaculada
honradez para ser feliz! Era-me impossivel soccorrer a mãe; soccorri a
filha. Eu não podia ir mais longe, senão teria ido. Sempre
contrariedades! Sempre o padre capellão a annunciar-me algum novo
desastre! Ah! mas d'esta vez creia que não haverá desastre nem
contrariedade que me véde o tirar dos hombros uma enorme
responsabilidade, levando Augusta para a companhia dos seus, e minha
tambem, porque ella é minha, e muito minha, pelo sangue e pelo
coração... Em ultimo caso, recorrerei ao emprestimo...
--Outro?
--É minha filha e meus netos que eu prejudico; o padre capellão, não.
Todavia, como é para bem d'elles, elles m'o perdoarão. O padre capellão
por sua propria mão recebe os juros das quantias que tem desembolçado, e
creio que as propriedades que conservo fartamente abastarão ao pagamento
do capital, no momento em que queira usar dos seus direitos de crédor.
--Eu não quero...
--Deixe-me figurar a peior hypothese, e evidenciar-lhe que lhe não
causam detrimento os seus desembolços.
--Falando francamente, senhora morgada, sou a dizer-lhe que o juro é
pequeno...
--Augmente-o como lhe apraza. Não é meu costume questionar cinco réis ao
padre capellão.
--Eu sou tão pobre como a senhora morgada, tartamudeou o reverendo com
um frouxo de tosse que denunciava estar providencialmente entalado com o
osso da mentira.
A morgada gesticulou de incredulidade e enfado.
--Eu sou tão pobre como a senhora morgada, reatou o capellão ajudando-se
a engulir a falsidade com um sorvo de rapé--e é á custa de trabalho que
tenho recolhido escassas mealhas ao canto da gaveta. De inverno arrosto
as neves da madrugada para saír aos campos a espionar os trabalhadores
no interesse de vossa senhoria. No verão aguento as calmas do meio dia
para os estimular ao trabalho. As horas feriadas de canceiras externas
passo-as á banca a fazer a escripturação ou no quarto a rezar as minhas
orações. Tenho envelhecido ao serviço de vossa senhoria, e o magro
peculio do pobre padre ao trabalho o devo. E o mais é que já vou achando
ser horas de descançar... Vejo porém que não seria facil encontrar quem
com zelosa dedicação governasse a casa alheia, e, se me é canceira o
dirigil-a a despeito da velhice, tambem me é consolação o ouvir dizer-me
a consciencia que devo trabalhar por não ver quem facilmente me
substitua. Digam embora o senhor seu genro e a senhora sua filha o que
quizerem, e me consta que dizem: a verdade é esta...
--Convenho, padre capellão, e é por conhecer a sua desinteressada--a
morgada deu a esta palavra uma inflexão sensivelmente
ironica--desinteressada dedicação, que tenho batido á sua porta sempre
que a necessidade me obriga a incommodar alguem. Se lhe pedia agora para
passar aviso aos caseiros, era porque não queria importunal-o com
repetidas mercês...
--Nunca me incommodaram as ordens de vossa senhoria, atalhou o padre,
curvando-se respeitosamente a meio da sala.
--Eu é que a mim mesma me incommodo com a ideia de incommodal-o, posto
que eu não seja dos devedores que mais devem aborrecer por egoistas...
--Creio que já tive a honra de dizer á senhora morgada que a occasião é
má para todos.--E proseguiu mirando ao alvo que elle queria attingir:
Era porém grande a quantia que vossa senhoria desejava?
--A sufficiente para me transportar ao Porto com a menina, e para não
tornar pesada a hospedagem que minha filha haja de dar-me. É preciso
partir, padre capellão, se os francezes não forem repellidos na
fronteira. Entrarão por esse Minho dentro furiosos, e eu não respondo só
pela minha vida, que já pouco vale, mas tambem pela de Augusta, que me
foi confiada em deposito. Que valeria a minha presença aqui? Os criados
fugiriam decerto, e a edade do padre capellão não lhe permittiria
defender duas mulheres, ambas timidas, uma porque é velha, e outra
porque é nova. Além de maior segurança que offerece o Porto, como grande
cidade que é, Augusta poderá d'ali seguir melhor a sorte de seu pae e
seu irmão nos combates. Não estará para aqui anciosa sem receber
noticias que a tranquillisem. Aqui, quando ha guerra, apenas se sabe que
ha guerra, e mais nada. O padre capellão offereceu-se para ficar;
desappareceram todas as difficuldades. Sem o seu offerecimento eu não
poderia deixar desamparado o solar de meus avós. Teria de luctar
angustiosamente entre o amor d'Augusta e o respeito á memoria de meus
paes e meu marido. Se os invasores entrarem, respeitarão porventura a
sua velhice e as suas vestes, padre capellão, se é que elles respeitam
alguma cousa...
O padre capellão, julgando haver já simulado a precisa resistencia á
partida da morgada, apostrophou de golpe:
--Mas, voltando ao caso, senhora morgada, ponhamos os pontos nos i i.
Quanto desejava vossa senhoria?
--Eu... cem moedas talvez.
--Cem moedas é muito, senhora morgada, e eu não estou prevenido.
--Pois veja o padre capellão se póde obter essa quantia, que eu cederei
a qualquer exigencia de juro.
--Menos de 15 por cento não será possivel, senhora morgada...
--Pagarei os 15 por cento; trate o padre capellão de negociar sem demora
as cem moedas.
--Hum! rouquejou o padre. Veremos. Póde ser que se abra alguma porta ao
homem honrado que só em grande estreiteza deixa d'abrir a sua. Ámanhã
falaremos, senhora morgada. Vou fazer as minhas rezas emquanto não chega
o palrador do Teixeira com noticias dos francezes...
E saíu da sala em direcção ao seu quarto.
A morgada, vendo-se só, pareceu respirar com sofreguidão, como o
encarcerado que conquista a liberdade e, como elle, pareceu conversar
comsigo mesma:
--Que alma de marmore a d'este homem! É um inimigo que tenho de portas a
dentro e que conservo porque me não permitte o animo nem a edade travar
lucta com tão arteiro contendor, que apara todos os golpes na batina com
beatitude irritante.
Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou com os olhos fitos na
porta que apparecesse a criada.
--A menina dorme? perguntou.
--Dorme, senhora morgada.
--Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater o sr. Teixeira, manda
entrar.
Palavras não eram ditas, resoou a aldrava do portão.
Momentos depois entrava á sala o velho Teixeira, fidalgo retirado das
pompas da côrte por conselho da consciencia que o advertia de que estava
a empobrecer d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam a
retirada da familia real para o Brazil, as tentações de Lisboa eram
tantas, e tão dispendiosas, que não admirava que um cortezão immolasse a
celebradas damarias o seu opulento morgado do Minho. Alguma coisa
salvára porém o velho aulico do muito que na côrte consumira. Trouxera
de lá a palaciana compostura que realça até mesmo na decadencia.
Maneiras e palavras, pesadas com fina discreção, estavam desculpando a
cada passo as sombras que por mais d'uma vez denunciavam não ser
impeccavelmente crystalina a reputação das açafatas da rainha D. Maria I.
Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe anciosamente:
--Que noticias nos traz vossa senhoria?
--Boas, senhora morgada, se póde haver boas noticias quando a
tempestade, que se descondensa n'um ponto, ameaça n'outro.
--Inda bem! inda bem! apostrophou a morgada relanceando um olhar
d'alegria á porta do quarto onde estava descançando a neta.
O padre capellão, sem se dar o incommodo de desculpar a ligeireza com
que alinhavara as suas orações, appareceu mordido de curiosidade.
--E o caso é que pensei que das indagações já não sobrava tempo para o
nosso voltarete!--disse o Teixeira sentando-se a um gesto da
morgada.--Venho tarde, e porei por desculpa da demora o bom empenho que
tinha em poder satisfazer a justa anciedade de vossa senhoria.
--Não obstante serem boas as informações, supplico-lhe que não aggrave
as côres do quadro, dado que entre por ahi de improviso a minha neta,
que se recolheu aos seus quartos, por ordem minha, para não ser
testemunha auricular da narrativa no caso de que fosse lugubre.
--Os francezes foram repellidos heroicamente, disse o fidalgo baixando a
voz.
--Vamos a isso! atalhou o padre capellão fungando uma pitada.
O fidalgo proseguiu:
--Os francezes não ousaram metter-se ao Minho, que vae de monte a monte,
com a agua que tem caído, por se arreceiarem da cheia. Trouxeram por
terra os barcos que puderam obter na Guardia, e puzeram-n'os a nado no
Tamuge.
--Que artes teem os malditosl exclamou o capellão lembrando-se de
que não haveria thesouro que resistisse á astucia franceza.
--Deixe ouvir... observou a morgada.
--Eram vinte e tantos os barcos, que pretendiam abicar á praia do
Camarido. Trez separaram-se, ao descer o rio, e chegando primeiro á
praia, os soldados desembarcaram. Os outros barcos tiveram que luctar, e
muito, contra a maré que lhes era adversa. Isto durou toda a noite. Só
hontem de madrugada foi que o Champalimaud percebeu claramente a
tentativa do inimigo, e que mandou fazer fogo de fuzilaria. Um dos
barcos foi a pique; outro despedaçou-o o mar. Os francezes dos trez
primeiros barcos refugiaram-se no Camarido. Estes desastres deram alento
aos paisanos, que se embarcaram para atacar o inimigo no rio, protegidos
pela artilharia da Areia Grossa e da Insua, e pelos soldados do 21. Os
francezes, contrariados pela correnteza das aguas e pela resistencia dos
nossos, retrocederam para a margem direita do Minho, desesperando
d'atravessal-o. Então bateram os nossos a matta do Camarido, encontrando
dentro mais de trinta francezes, um dos quaes consta ser capitão e haver
declarado o nome do general em chefe de todo o exercito. Chama-se Soult
o general...
--Elles tambem escolhem-n'os pelos nomes! interrompeu o padre para quem
toda a prosodia era difficil, incluindo a latina e a... portugueza.
--Os paisanos, segundo se dizia em Braga, fizeram proezas, continuou
placidamente o fidalgo. Até as mulheres acudiram com fouces roçadouras e
forcados.
--Nunca as mãos lhes dôam... observou impudentemente o capellão
--Pelo meio dia atacaram os francezes Villa Nova da Cerveira, sendo
ainda repellidos brilhantemente pelos nossos, tropa e povo. Mas, senhora
morgada, o que mais dava que falar era a coragem de trez rapazes de
Valença, que se arrojaram a ir encravar um morteiro, que os francezes
tratavam de assestar contra a praça. Isto é o que se sabe desde manhã; o
que já se terá passado pertence a Deus e aos que estão em armas.
--Mas que lhe parece a vossa senhoria: entrarão ou não entrarão?
perguntou a morgada.
--Para que nos havemos de illudir com mentirosas esperanças? Os
invasores são poderosos e por mais d'uma parte poderão entrar, ao passo
que os nossos, divididos para guarnecerem as fronteiras, perdem muito de
sua força n'essa mesma divisão.
--Com que então não se fala por ora em guerra! disse de improviso a
morgada ouvindo abrir a porta do quarto d'Augusta.
O fidalgo já não teve tempo de responder porque sentiu na sala os passos
da menina.
--Então não ha guerra? exclamou Augusta com graciosa innocencia.
--Não ha, não ha, respondeu amavelmente o fidalgo; a não ser a do nosso
voltarete.
E continuou, convidando a morgada a sentar-se:
--Permitta-me vossa senhoria, senhora morgada que eu continue a assestar
a bateria dos codilhos contra a muralha de _preferencias_ do nosso
reverendo. Então, padre capellão, quer sentar-se?... Em que estava
pensando tão absorto?
--Estava pensando que se não puderem entrar pelo litoral, poderão entrar
por Chaves, porque o castello está desmantelado, disse o capellão com a
maxima impudencia ou com a maxima velhacaria.
--O quê?! perguntaram todos a um tempo, incluindo Augusta, que pareceu
fulminada de raio.
--Ah! sim... isto é quando elles entrarem. Vamos lá fazer a partida.
* * * * *
III
Pomba que presente sangue
A morgada das Chãs passou agitadamente essa noite, e do inquieto cogitar
na solidão do seu quarto resultou levantar-se decidida a partir n'esse
dia com a neta.
O padre capellão negociou as cem moedas... comsigo mesmo, dizendo que as
obtivera d'um proprietario mediante o desconto dos juros d'um semestre
adiantado.
Partiu a morgada, de manhã, para o Porto, acompanhada por Augusta,
depois de haver entregado as chaves da sua casa ao capellão, que tinha
nos labios um sorriso de alvar alegria. Tambem a morgada estava radiosa
do duplo jubilo de poder respirar desopprimida da sombra d'aquelle
homem, e de ir collocar sob o amparo paternal a neta querida do seu
coração. Nas faces d'Augusta havia egualmente um reflexo d'intimo
contentamento, não só porque a aproximavam dos paes, mas porque a
levavam para os braços do irmão, a quem ternamente estremecia, e com o
qual permutava cartas diarias perfumadas das mais suaves fragrancias do
amor de familia.
A menina contava quinze annos, como já sabemos; o irmão, que se chamava
José Maria, tinha dezeseis. Estas duas creanças eram filhas do capitão
do exercito Graça Strech, que em 1809 morava á rua nova do Almada[2].
O appellido Strech inculca á primeira vista procedencia
estrangeira, e realmente é d'origem germanica. O pae do capitão Graça,
allemão de nascimento, fôra capitão de navios, e tivera por ultimo um
modesto estabelecimento commercial em Cima do Muro. Os dois filhos de
Graça Strech nasceram porem á rua Direita, na casa que divide a rua de
Santo Ildefonso da rua de Santo André, e onde elle morára durante os
annos de 1793 e 1794.
Augusta era tudo o que se póde imaginar de graciosamente feminil na
época em que nos é dado conhecel-a. O pintor que quizesse retratal-a
facilmente lançaria á tela os cabellos loiros, naturalmente annelados;
os olhos d'um azul suavissimo como os mais formosos horizontes; as faces
d'uma brancura levemente rosada; a estatura _mignonne_,--tudo quanto
póde haver de mais correcto e dôce em figura de mulher. Mas a
difficuldade estaria seguramente em reproduzir no retrato a meiga
morbidez dos lirios que se abrem ao desabrochar da manhã. E n'ella
brotava a mulher das graças da creança, como um lirio á luz da aurora.
José Maria era uma organisação inteiramente opposta á de sua irmã.
Dir-se-ia que ella havia nascido para rosa, e elle para roble; ella para
succumbir, e elle para luctar. Desenhavam-se no seu corpo de dezeseis
annos os contornos athleticos d'um spartano. Olhos vivos, e pretos como
os cabellos; talhe esbelto, maneiras sacudidas e ageis. Pois que elle
era a força e Augusta a brandura, affigurava-se providencial essa
disparidade de constituições, e até de genios, para que a flôr pudesse
ser protegida pela sombra do roble.
Quando a morgada das Chãs chegou ao Porto, entrou-se de profundo
arrependimento por ter feito vingar a sua resolução. Em casa da familia
Strech era grande a tristeza. O pae e o irmão[3] estavam no
exercito, e portanto a tristeza provinha da anciedade com que o azar dos
combates alvoroça sempre as familias dos militares.
--Eu trouxe Augusta, dizia a morgada, chorando, á filha, para que, se
houvesse de correr perigos, não ficasse o meu coração atormentado de
medonha responsabilidade; porque mais facilmente saberia aqui noticias
do pae e do irmão do que nas Chãs; e porque finalmente o Porto
offerecia maiores garantias e segurança do que qualquer outra terra.
De feito, a cidade do Porto era julgada inexpugnavel, e a ella se
acolhera grande parte da população do Minho, á medida que os
acontecimentos da guerra se iam desdobrando.
Tratemos de saber quaes foram.
Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho do litoral, que lhes
tinha sido ordenado, marcharam para Traz-os-Montes no proposito de
entrar em Portugal pelo valle do Tamega. No dia 8 de março estavam as
avançadas francezas á vista de Chaves, que no dia 10 foi sitiada,
rendendo-se no dia 12. O marechal Soult, vendo-se impossibilitado de
guardar os prisioneiros, despediu as milicias e as ordenanças, que
estavam dentro da praça, depois de lhes exigir juramento de que nunca
mais pegariam em armas. As praças da tropa de linha convidou-as a
bandearem-se no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram com o
proposito de desertar, como aconteceu.
O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos
que dois caminhos: o que vae a Villa Real e o que vae a Braga. O
marechal preferiu o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado que
fosse a Braga, só encontraria no caminho do Porto a difficuldade da
passagem do Ave em Santo Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para
as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim Freire d'Andrade,
tendo noticia de que os piquetes francezes escaramuçavam na Portella de
Avado e em Villarelho da Raia com as avançadas do general Silveira,
commandadas pelo coronel Magalhães Pizarro, tomou desde logo todas as
medidas possiveis para salvar o Porto, repartindo as suas pequenas
forças por Salamonde, Ruivães, Salto e Ponte do Cavez, guarnecendo a
raia, e mandando occupar Amarante o brigadeiro Victoria, a cujas ordens
militavam o capitão Graça Strech e seu filho.
No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela população de S. Gens,
quando voltava de visitar os postos entre Braga e Ruivães. O fim a que
avisava o general portuguez era retardar a marcha do inimigo sobre
Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade
saíssem para a defeza do Porto as munições e o laboratorio. Depois de
haver expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar no
Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia 17 a Braga, encontrando por
todo o caminho vestigios da grandissima exaltação popular, que se
levantára mal que soou a noticia da aproximação dos francezes. Dado o
signal de rebate, o povo do Minho saíu em turbamulta a esperar o inimigo
em Carvalho d'Éste, e outros logares convisinhos, armado de chuços,
fouces roçadouras, e mais instrumentos proprios do seu uso.
Em Carvalho d'Éste houve brodio geral, constante de pão e vinho, a
expensas d'alguns particulares patriotas, o que não obstou a que um dos
membros da sordida junta de segurança apresentasse o rol das despezas.
Procedendo-se a uma collecta geral, que foi voluntariamente paga, ficou
o povo duplamente esfomeado, porque a contribuição parece que só
aproveitou á junta de segurança.
Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade de Braga, e
conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17 em que ali entrou, que era
impossivel qualquer defeza, mandou retirar pela estrada do Porto,
resolvido a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa marcha.
Todavia o povo, suppondo-o traidor por não se haver empenhado em acção
geral com os invasores, saíu-lhe ao encontro em Carapoa, e já ahi seria
morto se lhe não valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma
brigada de ordenanças.
Removido o inesperado perigo, seguiu o general seu caminho, mas
encontrando-o as ordenanças de Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a
Braga, onde, chegado que foi é prisão do Aljube, a populaça desenfreada
o arremessou pelas escadas abaixo, acabando de matal-o ás chuçadas.
Subsequentemente foram tambem immolados á sanha popular, em Braga, o
quartel-mestre general de Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas,
o corregedor da cidade, Bernardo José de Passos, e outros; e em Santo
Thyrso, D. João Correa de Sá e Manoel Ferreira Sarmento.
No mesmo dia da morte do general Bernardim Freire de Andrade tomavam os
francezes posição em frente de Carvalho d'Éste, sendo repellidos no
primeiro ataque.
O barão d'Eben commandava as nossas tropas, com as quaes se havia
bandeado a gente das aldeias convisinhas. Entre a populaça contavam-se
os criados da quinta das Chãs que desampararam o padre capellão, sempre
prompto a castigal-os, e odiado por elles.
Pelas onze horas da noite chegaram, para reforçar o posto, a legião de
Salamonde e duas companhias do regimento de Vianna. Soldados e povo
estavam famelicos. Durante a noite um magote de populares, engrossado
pelos criados da morgada, bateu ao portão da quinta. Ao primeiro
chamamento não respondeu ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas
a cabeça silicosa do padre capellão.
--Pão e vinho! gritou a turba.
--Não está cá a senhora morgada, tartamudeou o reverendo.
--É o mesmo; abra a porta, contestou o gentio.
Como porém a impaciencia da turba fosse muita, a populaça metteu a porta
dentro a tempo que o padre atravessava o pateo de lampeão em punho.
Um dos populares vibrou-lhe uma chuçada que o prostrou, e logo outro,
que era criado da casa, acrescentou:--Vamos á _burra_ do padreca; no que
fôr da senhora morgada não se toca.
No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho d'Éste, e no dia 20
voltou ao ataque, apparecendo em grande força.
Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada das Chãs a fugir de
um ponto onde a lucta foi mais renhida, porque, posto que os populares a
respeitassem, o inimigo caiu no dia 20 em forte columna sobre Carvalho
d'Éste, empenhando-se ataque geral, e sendo desesperada a posição dos
nossos, que fugiram em grande confusão, acossados muito de perto pela
cavallaria franceza.
No pateo da quinta das Chãs tinham os nossos quinze barris de polvora
que, não podendo ser salvos, por estar muito proximo o inimigo, foram
incendiados por ordem do barão d'Eben, perecendo oito homens na execução
d'esse serviço.[4] As chammas, enleiando-se pelos alpendres
encostados ao edificio, acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos
francezes entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado matava
os presos encarcerados no Aljube, ardia, chammejando como fornalha
enorme, o solar das Chãs, a duas leguas de distancia da cidade invadida.
A noticia da tomada de Braga só se soube no Porto no dia 22, quer dizer,
quarenta e oito horas depois.
Havia dias que o brigadeiro Victoria se tinha internado n'esta ultima
cidade com as suas forças, por ordem do agora fallecido Bernardim Freire
de Andrade. Como já sabemos, o capitão Graça Strech e seu filho
militavam ás ordens deste brigadeiro. Portanto, teve Augusta occasião de
abraçar o irmão e o pae, que procuraram serenar com palavras de carinho
e conforto os receios do angustiado coração da menina.
A morgada, quando soube que os francezes tinham rompido por Carvalho
d'Éste sobre Braga, apesar de ignorar os pormenores da lucta, a morte do
capellão e o incendio do solar, agradeceu ao anjo da guarda a inspiração
da resolução tomada.
N'esse mesmo dia foi o Porto theatro de lastimosas scenas.
Conhecida a derrota de Braga, dirigiu-se a populaça á cadeia da Relação,
reclamando a entrega dos presos da Inconfidencia, e arrancando para fóra
dos muros do carcere o brigadeiro Luiz d'Oliveira e mais quatorze
infelizes, que foram arrastados pelas ruas até Villa Nova de Gaya,
d'onde a gentalha ensanguentada os precipitou, do Caes da Bica, á
corrente do Douro, por haverem sido condemnados á morte pelo tribunal
popular constituido na _Porta do Olival_.
Só o bispo, D. Antonio José de Castro, poderia, por muito respeitado que
era, conter a furia dos cannibaes das ruas, mas, provavelmente para não
incorrer no desagrado da canalha contrariando-lhe os brutaes instinctos,
deixou-a espostejar á vontade os presos da Inconfiencia.
Sua excellencia reverendissima é que se não arriscou a ser conceituado
de jacobino.
Quando a turba descia com os presos a calçada dos Clerigos, ouvia-se na
rua Nova do Almada a celeuma das victimas e dos algozes.
Augusta, tremula de horror, acolheu-se nos bracos do irmão, que obtivera
licença para sair por alguns momentos do seu posto na linha de
defesa, e poz as mãos supplicando a Deus que a tirasse do mundo onde os
homens se estavam despedaçando como feras no sertão.
Só as caricias de José Maria lograram aquietal-a, quando a vozeria soava
mais longe, porque já a multidão havia enveredado pela rua das Flores,
caminho da Ribeira.
A mãe e a avó pareciam agonisar abraçadas em estreito amplexo.
O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar as suas communicações
com Tuy ou marchar sobre o Porto, mas, como era natural, attenta a
importancia d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou pelo segundo
dos caminhos a tomar, porque melhor realisaria assim o seu sonho de
conquistador.
Ouçamos o sr. Soriano historiando o roteiro que o marechal Soult seguiu
de Braga ao Porto: «Deixando portanto em Braga a divisão do general
Heudelet, para lhe defender a rectaguarda contra as incursões do general
portuguez, José Antonio Botelho de Sousa e Vasconcellos, que commandava
as forças da divisão da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu o seu
exercito em trez columnas, a primeira marchou pela estrada de Guimarães
a S. Justo, com ordem de forçar a passagem do Ave de Cima e occupar o
campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada pelo proprio Soult em
pessoa, marchou logo direita á Barca da Trofa; e a terceira, deixando
Barcellos, para onde de Braga tinha sido mandada, tomou a estrada da
ponte do Ave. A passagem d'este rio foi fortemente disputada pelos
portuguezes, sendo a columna da esquerda obrigada a bater-se
renhidamente em Guimarães, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo n'este
ultimo ponto, onde morreu o bravo general Jardon, cuja falta muito
sentida foi pela totalidade do exercito inimigo. A marcha da columna do
centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se ter n'ella cortado a
ponte do Ave; mas Soult, vendo o grande cumulo das nossas forças ali,
forçou a passagem em S. Justo, ganhando a margem opposta. Desde então
facil lhe foi a columna da direita fazer o mesmo, ficando assim vencida
a passagem do Ave em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente o
caminho em direitura para a cidade do Porto, a cujos entrincheiramentos
o exercito francez chegou no dia 27 de março.»
Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avançada do inimigo, acampado em S.
Mamede de Infesta, adeantou-se até um quarto de legua das baterias do
Porto.
Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproximação dos francezes. Para
logo se espalhou o terror, não obstante terem sido organisados alguns
elementos de resistencia.
As familias que tinham os seus empenhados nas linhas de defeza,
afflictivamente receiavam os perigos de uma grande catastrophe, pois que
ainda quando a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interpôr-se
aos primeiros combates e aos louros do triumpho um mar de sangue portuguez.
Que dolorosa commoção não seria a de Augusta, que torturado soffrer nas
vascas da anciedade não seria o seu, ao ouvir estrondear á distancia o
fogo que os invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde
combatiam o pae e o irmão! Aquellas trez mulheres, a avó, a mãe e a
filha, ajoelhadas deante de uma imagem de Nossa Senhora, cerrando
convulsamente os olhos a cada detonação longinqua, dir-se-iam outros
tantos authómatos, empedrados pelo terror, se não fôra o ciciar dos
labios e o abrir e fechar nervoso das palpebras.
Sabem como baloiça a haste do lirio, quando o sopro calido da tempestade
proxima passa esfuziando por entre a folhagem das plantas que lhe
offereciam resguardo?
Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher, entre os dois
corações amigos, o da avó e o da mãe, que já não podiam garantir-lhe
protecção.
Conhecera o marechal Soult que era má a fortificação da cidade e má a
guarnição, e expediu no dia 28 um emissario propondo capitulação. O
emissario, para se não arriscar á morte, serviu-se de um ardil de guerra
e disse-se incumbido de negociar a entrega do exercito francez mediante
condições favoraveis.
Entrou o bispo em negociação, cuja má fé, por parte dos invasores,
estava manifesta na circumstancia de continuar a ser intenso o ataque
durante todo o dia.
N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma nas ruas.
Recresceu a anciedade no presupposto de serem as avançadas francezas.
A morgada das Chãs teve a coragem precisa para se aproximar da vidraça,
e viu um militar francez rodeado de grande turba de populares que
gritavam enfuriadamente: «_Morra o Maneta! Morra!_»
Adivinhou-lhe o coração que era um emissario, que provavelmente ia á
bateria de S. Francisco a parlamentar com o bispo. Quasi defronte das
janellas, como augmentassem as vozes de: _Morra Loison, morra o Maneta_,
o militar francez levantou ambos os braços para desfazer o equivoco. Não
obstante, a populaça arremettia contra o cavallo em que elle vinha
montado, e a celeuma rugia temerosamente.
A morgada correu a abraçar a filha e a neta, ajoelharam orando
fervorosamente, e longo tempo supplicaram que um raio da Providencia
illuminasse o coração do povo, para que á desgraça da invasão não
sobreviesse a furia da represalia.
O emissario francez não era effectivamente o general Loison, mas o
general Foy; com blandicias e ameaças, escriptas por Soult, vinha propôr
a rendição, que foi recusada.
Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28 tempestuosa e triste,
como se o céo compartisse do luto da terra. Ás detonações do trovão
respondiam as detonações da artilharia.
[2] Chamava-se então rua _Nova_, porque o celebre governador
da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha
transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou
o seu nome.
[3] Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi
obrigada a pegar em armas.
[4] Este facto consta do relatorio do proprio barão.
* * * * *
IV
Horrores da invasão
Durante a noite de 28 para 29 continuou tão rijo o fogo, que o inimigo
logrou forçar a bateria da Prelada.
Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando se soube que sua
excellencia o bispo generalissimo se havia retirado para a Serra do Pilar.
Este facto demonstrava não só a descrença do prelado na defeza do Porto,
senão que tambem punha a descoberto a intenção de fuga, no caso de
perigo, o que realmente aconteceu.
Não lastimemos a impiedade deshumana do pastor, que abandonava em tão
dolorosa conjunctura o rebanho indefeso, porque basta a historia a
stygmatisal-a, mas calculemos a funesta impressão que semelhante noticia
causaria nos animos desalentados dos portuenses.
A familia do capitão Graça Strech foi seguramente uma das que mais
succumbiram n'aquella tormentosa noite.
As trez mulheres estavam entregues ás suas orações e angustias,
inabalaveis no proposito de esperar a pé quedo a desgraça,
verdadeiramente sós, porque os criados, que foram os primeiros a dar
rebate, fugiram, durante a noite, bandeados com outros habitantes, para
Gaya.
O capitão e o filho combatiam ás ordens do brigadeiro Victoria, na linha
do Bomfim, posto defensivo que, á hora da invasão, veiu a nobilitar-se
com esforçados prodigios de coragem por parte do intrepido brigadeiro e
dos seus.
Umas visinhas da familia Strech, já preparadas para a fuga, instaram com
as pobres senhoras para que as acompanhassem. Segundo o seu plano,
acoitar-se-iam em Gondomar, onde diziam ter parentes lavradores.
Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoção, reagiu energicamente.
--Se meu pae e meu irmão morrerem--dizia ella--deixemo-nos morrer
tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte. Se vencermos,
seremos as primeiras a abraçal-os, a agradecer-lhes por nós e pela
patria. Elles cumprem o seu dever; e nós tambem. Elles estão no seu
posto; nós estamos no nosso. O meu coração revolta-se contra a ideia de
levarmos o egoismo da nossa vida até ao esquecimento de que temos dois
soldados nas linhas de defeza. Muito obrigada, minhas amigas, mas minha
mãe e minha avó são da mesma opinião, e ficaremos todas. O perigo, se o
houver, repartido por trez será menor. Vão, não percam tempo; oxalá que
nos tornemos a vêr...
E despediram-se, chorando e soluçando, como se se despedissem para a
eternidade.
Ao alvorejar da manhã forçaram os francezes as baterias de Santo
Antonio, Pedral e Aguardente.
A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas ruas da cidade,
correu a atacar pela rectaguarda as baterias que resistiam ainda.
Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente resistiram, foi a do
Bomfim.
Já quando era grande a confusão em todo o circuito, destacou o
brigadeiro Victoria para o exterior da linha a gente que lhe restava da
legião lusitana, e mais duas partidas na força total de cem homens.
O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o ajudante da praça de
Valency, Antonio de Azevedo, e o capitão Graça Strech corriam
denodadamente de um lado a outro animando o povo, que ali confluira, e
que esperava poder fugir protegido por duas baterias, as quaes não só
defendiam a rua do Bomfim mas até as baterias de Campanhã.
Outro tanto não aconteceu no lado esquerdo da linha, commandado pelo
brigadeiro Antonio de Lima Barreto.
Logo pela manhã o immigo começou a atacal-o com energia; Barreto,
perdendo algumas baterias, voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes:
--Encravem as peças. Retirem-se. Estamos perdidos.
Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe duas balas
no corpo, e despejaram a ultima polvora contra o inimigo.
Quando a cavallaria franceza, forçando a bateria d'Aguardente, entrou na
cidade, as ordenanças, desamparados os postos, fugiram tumultuariamente
para a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada.
A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda longinquo, correu á
janella, e reconheceu á distancia as ordenanças.
--Que é? perguntaram-lhe anciosamente a filha e a neta.
--Não é nada; é o povo que se affez a correr e a gritar, respondeu a
morgada, tranquillisando ambas.
Como porém a massa enorme rolasse já mais perto, ouviram-se
distinctamente vozes de:
--São os francezes!
--Vem ahi!
--Fujam! fujam!
--Á ponte! á ponte!
--Não ha outro caminho!
--Depressa!
Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou espavorida, e
deixou-se cair nos braços da mãe, gritando dolorosamente:
--Ah! meu pae!... meu irmão!
Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão adeante de si a onda
allucinada dos fugitivos que procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam
a direcção da Foz, outros, em maior numero, corriam para a Ribeira, na
ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns passaram o rio a nado ou em
barcos. Mas o grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa
confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro assentava, de
espaço a espaço, sobre um renque de lanchões. E as primeiras pessoas que
conseguiram transpol-a abriram, logo que se julgaram a salvo, os
alçapões da ponte--systema de defesa empregado em casos
extremos--pensando preparar assim um desastre aos francezes que as
perseguiam.