VI

Situação dos exercitos.--O Nilo, a secca, os areaes.--Os perigos de

um «Jehad».--O septicismo mussulmano.--O mundo ingleza-se.--Filaucias

de John Bull.

Postos estão frente a frente

Os dois valorosos campos...

Esta melancolica chacara que, se bem me recordo, chora as desgraças de

Alcacer-Kibir--serve para pintar graphicamente a situação estrategica de

inglezes e egypcios, desde que se abriu a campanha.

Para comprehenderem bem, imaginem um grande A. O triangulo interno da

lettra é o Delta--essa terra amada dos deuses, tão rica, que ella, só

por si, outr'ora alimentou o imperio romano; ao alto da lettra, na

ponta, está o Cairo--de sorte que um poeta persa poude dizer gentilmente

que o Delta é um leque verde fechando sobre um botão de diamante, que se

chama o Cairo. Á base da perna direita do A fica Alexandria, e ahi

permanece uma parte do exercito inglez, defendido pelas fortificações de

Ramleh--e tendo deante de si, a tiro de peça, o grande campo

entrincheirado de Arabi-pachá, que se chama Kraf-Daonar, contendo 18 mil

egypcios, enormes parques de artilharia, e fechando a marcha pelo Delta.

A outra parte do exercito inglez, commandada pelo proprio general em

chefe Sir Garnet Wolseley, dirigiu-se por mar á base da perna esquerda

do A, que é, pouco mais ou menos, Ismailia, e d'ahi subiu por essa linha

até Kassassine, onde parou e se fortificou; achando-se igualmente a

pouca distancia, outro enorme campo entrincheirado, onde Arabi tem

quinze mil homens, que se chama Tel-el-Kebir. E estes quatro campos,

postos frente a frente, e observando-se, constituem até hoje a guerra do

Egypto.

Para chegar, pois, ao Cairo, seu objectivo militar e politico, Sir

Garnet precisa tomar as posições egypcias de Kraf-Daonar, se quizer ir

pelo Delta--e as de Tel-el-Kebir, se tentar avançar pelo deserto.

Até hoje os quatro campos limitam-se a trocar entre si, em certas

escaramuças, algumas languidas balas. Os jornaes de Londres,

naturalmente, noticiam estes tiroteios de vanguarda com um tremendo

apparato de lettras de palmo, mappas lithographados e largos rufos de

prosa--fazendo maior alarido do que se tivesse sido pelejada de novo a

batalha de Waterloo; mas isto é simplesmente para promover a venda do

numero.

Os egypcios, entrincheirados, em seus campos contam com poderosos

alliados: do lado do Delta confiam no Nilo, o velho e bondoso Nilo, que

não poderá deixar de ser fiel áquelles que ha seculos nutre, e que,

dentro em pouco, inundando as terras do Delta; e ajudado pelos

engenheiros d'Arabi, que certamente obstruirão os canaes, terá

convertido n'um immenso estendal de lamas inatravessaveis esse caminho

do Cairo, o mais favoravel para os inglezes, pois seria como marchar

n'uma rica e infindavel granja, entre pomares, jardins, frescuras e

celleiros cheios... Do lado do deserto, os egypcios contam com o sol,

com a secca e com a areia. Póde-se imaginar o que soffrerão essas tropas

do frio Norte, marchando em areaes abrasados n'uma reverberação de luz

que estonteia, sob um calor tão torrido, que o _metal dos estribos

cresta os botins_, e tendo para beber só agua barrenta, que é necessario

ferver primeiro! Já as insolações, as dysenterias, a nostalgia, dizimam

os regimentos--e como o commissariado inglez, sempre mau, encontra aqui

difficuldades de transporte, as tropas de S. M. a Rainha Victoria _já

tem soffrido fome_! Ah! custa caro o caminho das Indias!

Além d'estes alliados que elle possue na natureza, Arabi espera ainda

nas tribus beduinas, e n'essas hordas errantes d'arabes a cavallo que

estão chegando do lado de Tripoli a combater o _cão estrangeiro_, e que,

se diz, constituem um reforço de trinta mil homens...

Por seu lado, os inglezes contam apenas comsigo. E isto não é pouco.

Como diz a sua celebre canção de guerra--_elles têm os navios, têm o

dinheiro, e têm os homens_. Têm tambem essas magnificas tropas indias,

que riem do sol, da secca, e das areias d'Africa. E isto levou Sir

Garnet a declarar que a campanha estaria finda no dia 15 de setembro. É

verdade que nós estamos a 7 de setembro, e elle, entrincheirado em

Kassassine, tendo deante de si a barreira formidavel de Tel-el-Kebir,

ainda está pedindo reforços. Mas isto prova só que esse raio de guerra,

tendo habitos differentes dos de Cesar, _chegou, viu, e reflectiu_.

Demos-lhe mais um mez; demos-lhe tres largamente; o certo será que ao

fim d'este anno, Arabi, os seus campos, o seu exercito, a sua bella

aspiração a uma nacionalidade egypcia, tudo isso se terá esvaido--como

se esvae uma nuvem n'esse secco céo africano.

Os inglezes poderão soffrer revezes, perder milhares d'homens, gastar

milhões de libras; mas, tendo uma vez compromettida a honra da sua

bandeira, com um fim d'engrandecimento imperial, não embainharão a

espada antes de ter installado na cidadella do velho Cairo, ao som do

_God save the Queen_, um governador inglez.

Evidentemente o snr. Gladstone falla apenas de _restabelecer a ordem e

restaurar o Khediva_. Meras locuções diplomaticas. O _Times_, que é o

verbo d'Inglaterra, esse falla, sem rebuço, em _protectorado_. E ha

muitos inglezes, ainda menos reservados que o _Times_, que dizem redonda

e seccamente--_conquista_.

Mesmo quando o snr. Gladstone, que é a seu modo um democrata dentro dos

limites do Evangelho, e o seu illustre collega Lord Granville, que é um

jurista e um diplomata, quizessem, em respeito ao liberalismo, á Europa,

ao direito internacional e a outras cousas vagas, deixar o Egypto

reorganisar-se a si mesmo--sahindo elles de lá com as mãos vasias,

depois de terem supprimido Arabi e o seu turbulento partido--a

Inglaterra inteira, em massa, protestaria contra este philosophico

desinteresse...

Ha alguem ahi assaz ingenuo para suppôr que John Bull, essa torre de

senso pratico, consentiria em que se lhe dizime o exercito, em que se

lhe gaste o dinheiro como elle gasta a agua das fontes, em que se lhe

augmente o _income-tax_--só para que o Khediva, esse amavel moço,

continue a fumar o _narghilé_ do poder sob as sombras dos jardins de

Choubra? John Bull não ficará satisfeito senão com este resultado

macisso e duradouro--um _Egypto inglez_, tendo dentro do seu territorio,

como um corredor de casa particular, o canal de Suez, caminho das

Indias. Um ministerio que, depois de ter enterrado nos areaes da Africa

milhões de libras e milhares de vidas, não lhe der isto--receberá no

mesmo instante, na parte posterior da sua individualidade, o bico da

bota de John.

Mas se Arabi, derrotado, conseguir levar o Scherife de Méca a proclamar

contra a Inglaterra um _jehad_--que é uma guerra santa, uma crusada, um

levantamento em massa do mundo mussulmano?

Bons espiritos, em Inglaterra, dizem ser este um grande perigo--pois que

só na India ha cincoenta milhões de mahometanos. Eu não creio, porém,

que haja aqui motivo para John Bull empallidecer. E lamento-o! Porque é

d'um bello pittoresco essa idéa d'um _jehad_ com o seu ceremonial--o

Scherife de Méca desenrolando o estandarte verde de Mahomet, os doutores

do Islam assignando todos o _fetva_ fatal, e logo, de cada canto da Asia

e d'Africa, a torrente dos crentes precipitando-se em nome de Allah!

Bello motivo d'ode--a que não corresponde nenhuma realidade...

Em primeiro logar, nunca se fez! O crescente tem sido muitas vezes

humilhado pela cruz, o Islam tem recebido na face a mão da Europa

christã, o Califa tem fallado repetidamente em proclamar um _jehad_--e

todavia o estandarte do Propheta continuou enrolado nos sacrarios de

Méca. E a minha opinião é que se elle fôsse um dia desenrolado--haveria

apenas um pedaço de panno verde mais, fluctuando ao vento do ceu.

E querem que lhes diga porque? Porque penso que os mussulmanos estão a

esta hora tão scepticos como nós outros, os christãos. Nas areias do

deserto, como nas nossas praças allumiadas a gaz--já não será facil

encontrar mil homens de boa vontade, que peguem em armas em nome do seu

Deus.

De certo todo o bom mussulmano, a certas horas do dia, se orienta para o

lado de Méca e se prostra nas reverencias rituaes: pura questão de

educação, de boas maneiras, de habito, como nós outros tiramos o chapéu

ao passar por um calvario de aldeia. Ou então, superstição vaga, vago

terror nervoso, como o de certos philosophos e positivistas das minhas

relações, que sempre, ao saltar da cama, fazem o signal da cruz.

Dentro do Alcorão vê-se já o caso melancolico de uma lei divina ir

cahindo em desuso. O Sultão recebe a jantar os embaixadores, e bebe com

elles _champagne_: a policia do Cairo prende os santos _derviches_

vagabundos, e já não é respeitado o jejum do Ramazan.

Como o nosso Evangelho, a palavra de Mahomet vae-se tornando objecto de

poesia, de commentario, de controversia. Ha Renans no Islam; e o verbo

divino, uma vez analysado, deixa de inspirar a fé que leva á morte.

O mundo mussulmano está no seu seculo decimo-terceiro, na sua plena meia

edade, e certamente ha muito beduino sob a tenda, tão crente, tão

penetrado de Mahomet, como aquelles corações simples, que, ainda ha

pouco no deserto dos nossos claustros, choravam ao ler a paixão de

Jesus; mas não creio que mesmo esses patriarchas deixassem os seus

oasis, os seus rebanhos, os seus harens, para virem gratuitamente, sem

outro pret a não ser o sorriso das houris nos jardins do Paraizo,

supportar o fogo dos canhões Krupp. E emquanto ás classes cultas de

Constantinopla, do Cairo, de Smyrna, de Tunis, essas acreditam tanto na

promessa das houris, como nós outros, aqui em Regent-Street, nas palmas

verdes da Bemaventurança e no côro dos Serafins...

Por todo o universo a religião desapparece das almas; e apenas lá fica

essa vaga religiosidade, feita em parte do abalo que deu ao nosso

coração uma tão longa sujeição ao sobrenatural, em parte do confuso

terror que impera n'este grande universo que nos cerca, tão simples e

tão mal comprehendido. N'este estado negativo, de passividade na duvida,

não se gera facilmente um impulso d'acção forte. Um _jehad_ no Islam é

tão impraticavel--como uma cruzada no Christianismo. Pedro Ermita hoje

iria acabar na policia correcional, por perturbador da ordem publica e

das relações internacionaes; e os fanaticos que, ainda hoje, ás portas

das mesquitas do Cairo, bradam contra o _touriste_ estrangeiro as

injurias aconselhadas pela boa doutrina, são immediatamente levados para

a enxovia, por _fazerem alarido nas ruas_!

Mahomet, nas suas mesquitas, Christo, nas nossas capellas, vão

singularmente envelhecendo; o nosso Messias vae-se cobrindo pouco a

pouco do pó que levanta o forte arado da razão, lavrando um mundo novo;

e o propheta do Islam, tendo perdido a força da sua unidade, subdividido

em mil prophetas menores que presidem a mil seitas differentes, mal póde

resistir á lenta avançada da civilisação occidental. E com Christo e

Mahomet, que eram os principios militantes e vivos das suas religiões,

desapparece o que n'essas religiões havia de vivo e de militante. Resta

Deus, resta Allah. Sublimes abstracções, incapazes de inspirar amor ou

heroismo.

O que mais faz amar a Divindade é a quantidade de humanidade que ella

encerra. Clovis batia-se por Jesus, que tinha um peito de homem como o

d'elle, e n'esse peito humano cinco chagas abertas; Soliman morreria

feliz por Mahomet, que era como elle um guerreiro, e como elle amava a

belleza.

Mas quem se vae bater por Deus, por Allah, essas entidades tão vastas

que enchem todo o ceu, e tão pequenas que não bastam a satisfazer o

nosso coração, que nos são subalternas, porque são feitas á nossa

imagem, e são no fundo a nossa propria alma alargada até ao infinito com

todas as suas fraquezas?!

De resto, é possivel que eu esteja aqui attribuindo a fortes corações de

Meca e do deserto os scepticismos litterarios de _Pall-Mall_ e do

_Boulevard de la Madeleine_. Que sabemos nós do que se passa dentro do

Islam? Tão pouco como os lettrados da mesquita d'El-Azhar sabem o que

por cá vae dentro do nosso confuso catholicismo.

Mas, mesmo que se effectuasse um _jehad_, seria apenas motivo para a

Inglaterra gastar mais alguns milhões e sacrificar mais alguns

regimentos. Nem o Alcorão, nem o famoso estandarte verde, nem o proprio

Mahomet, que voltasse á terra a desfraldal-o, impediriam que John Bull

se estabeleça no Egypto...

Já lá está, nunca mais de lá sahirá!

Estão em toda a parte, esses inglezes! O seculo XIX vae findando, e tudo

em torno de nós parece monotono e sombrio--porque o mundo se vae

tornando inglez. Por mais desconhecida e inedita nos mappas que seja a

aldeola onde se penetre, por mais perdido que se ache n'um obscuro

recanto do Universo o regato ao longo do qual se caminhe--encontra-se

sempre um inglez, um vestigio de vida ingleza!

Sempre um inglez! Inteiramente inglez, tal qual como sahiu da

Inglaterra, impermeavel ás civilisações alheias, atravessando religiões,

habitos, artes culinarias differentes, sem que se modifique n'um só

ponto, n'uma só prega, n'uma só linha o seu prototypo britannico.

Hirtos, escarpados, talhados a pique, como as suas costas do mar, ahi

vão querendo encontrar por toda a parte o que deixaram em Regent-Street,

e esperando Pale-Ale e _roast-beef_ no deserto da Petrea; vestindo no

alto dos montes sobrecasaca preta ao domingo, em respeito á egreja

protestante, e escandalisados que os indigenas não façam o mesmo;

recebendo nos confins do mundo o seu _Times_ ou o seu _Standard_, e

formando a sua opinião, não pelo que vêm ou ouvem ao redor de si, mas

pelo artigo escripto em Londres; impellindo sempre os passos para a

frente, mas com a alma voltada sempre para traz, para o _home_;

abominando tudo o que não é inglez, e pensando que as outras raças só

podem ser felizes possuindo as instituições, os habitos, as maneiras que

os fazem a elles felizes na sua ilha do Norte!

Estranha gente, para quem é fóra de duvida que ninguem póde ser moral

sem ler a Biblia, ser forte sem jogar o _cricket_, e ser _gentleman_ sem

ser inglez!

E é isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se

_desinglezam_. Ha raças fluidas, como a franceza, a allemã, que, sem

perderem os seus caracteres intrinsecos, tomam ao menos exteriormente a

forma da civilisação que momentaneamente as contêm. O francez no

interior da Africa adora sem repugnancia o _manipanço_, e na China usa

rabicho. O inglez cahe sobre as idéas e as maneiras dos outros, como uma

massa de granito na agua: e alli fica pesando, com a sua Biblia, os seus

_clubs_, os seus _sports_, os seus prejuizos, a sua etiqueta, o seu

egoismo--tornando-se na circulação da vida alheia um encommodativo tropeço.

É por isso que, nos paizes onde vive ha seculos, é elle ainda o

_estrangeiro_.

Em toda a parte onde domine e impere, todo o seu esforço consiste em

reduzir as civilisações estranhas ao typo da sua civilisação

anglo-saxonia. O mal não é grande quando elles operam sobre a Zululandia

e sobre a Cafraria, n'essas vastidões da Terra Negra, onde o selvagem e

a sua cubata mal se distinguem das hervas e das rochas, e são meros

accessorios da paizagem: ahi encontram apenas uma materia bruta, onde

nenhuma anterior fórma de belleza original se estraga, quando elles a

refundem para a fazer á sua imagem. Vestir o desventurado rei negro

Cetewayo, como elles agora fizeram, de coronel de infanteria, obrigar os

chefes dos Basutos a saber de cór os nomes da familia real ingleza, são

talvez actos de feroz despotismo, mas não deterioram nenhuma primitiva

originalidade de linha ou de idéa. Para Cetewayo, que andava nú, uma

fardeta, mesmo de infantaria, não faz senão vestil-o; e é indifferente

que dentro do craneo dos Basutos haja só formulas de invocação ao

_manipanço_, ou tambem nomes de principes da casa d'Hanover.

Mas quando elles trabalham sobre antigas civilisações como a da India,

onde existem artes, costumes, litteraturas, instituições, em que uma

grande raça pôz toda a originalidade do seu genio--então a politica

anglo-saxonia repete pouco mais ou menos o attentado sacrilego de quem

desmantellasse um templo buddhico, bello como um sonho de Buddha, para

lhe dar na sua reconstrução as linhas hediondas do _Stock Exchange_ de

Londres; ou ainda de quem se fôsse ao marmore divino da Venus de Milo, e

tentasse, á força bruta de martello e cinzel, dar-lhe o feitio, as

suissas e a sobrecasaca de lord Palmerston! A expansão do inglez para o

Oriente, seu objectivo imperial, seria toleravel, mesmo aos nervos de um

artista--se elle se contentasse em levar para lá os seus tecidos, as

suas machinas, os seus telegraphos, os seus railways, deixando depois

que essas raças usassem esse colossal material de civilisação em se

desenvolverem no sentido do seu genio e do seu temperamento. Que por

todos os modos se forneça á santa cidade de Hydrabad gazometros e

illuminação--mas, por Deus! que se não mettam á força bicos de gaz

dentro dos seus templos, se isso offende os seus ritos e repugna ao seu

gosto! Que a India, por exemplo, seja coberta de caminhos de ferro,

fornecidos pelos industriaes de Northumberland e pagos pelo

indio--excellente! Mas ao menos que as aldêas onde elles passam, essas

aldêas que os mesmos inglezes descrevem como pequenos paraizos de paz,

de trabalhos simples, de costumes doces, de frugalidade, de frescura, de

belleza moral, não sejam tornadas tão tristes como as tristes parochias

de Yorkshire, introduzindo-se logo lá o _policeman_, o deposito de

cerveja, a capella protestante de tijolo, o livreiro de Biblias, o

vendedor de _gin_, a fumaraça de uma fabrica, a prostituição e a

_workhouse_!...

Mas deixemos isto. É facil maldizer da Inglaterra. Basta abrir os livros

dos seus grandes homens, desde Thackeray, o artista, que com um tão frio

rancor lhe fez a satyra sangrenta, até Carlisle, o philosopho, que

passou a existencia a fulminal-a com uma tumultuosa colera de propheta...

Da Inglaterra póde-se dizer que--ao contrario da generosa França--as

suas virtudes só a ella aproveitam e os seus vicios contaminam o mundo.

É á Inglaterra que se deve o egoismo crescente que nos vae petrificando

o coração--esse egoismo tão particularmente inglez, que faz com que em

Hyde-Park, no seu centro de luxo, trezentas pessoas, em torno de um

lago, vejam uma pobre criança afogar-se, sem que nenhuma se encommode a

tirar o charuto da bocca para lhe estender uma taboa! É á Inglaterra que

devemos esta crescente hypocrisia que invade o mundo, e que faz com que

em Londres, nos cartazes que annunciam as peças de Sardou ou Dumas, se

ajunte esta estupenda declaração: _adaptada ás justas exigencias da

moralidade ingleza_;--emquanto que, na rua, por baixo d'esses mesmos

cartazes, rola, sem cessar, a mais vil torrente que o mundo viu de

bebados e de prostitutas!

Mas deixemos as maculas da Inglaterra: a lista é longa;--quero só

alludir a um outro abominavel defeito que ella sempre teve, e que agora

desenvolveu em proporções intoleraveis:--a sua espantosa filaucia, a sua

ruidosa basofia, o seu tremendo ar _mata-sete_!

É sobretudo n'este momento, desde o começo da guerra do Egypto, que os

que, como eu, amam a Inglaterra, soffrem de lhe vêr estes extravagantes

modos de valentão de romance picaresco. Os telegrammas que os

correspondentes dos jornaes enviam das operações da guerra, sobretudo os

commentarios dos proprios jornaes, seriam lamentavelmente grotescos, se

não fossem odiosamente impertinentes. Os francezes (que não são

modestos) puzeram trinta mil allemães fóra de combate na batalha de

Gravellote, e todavia não fizeram a decima parte do alarido, da

gloriola, do espalhafato com que os inglezes celebravam a escaramuça de

Ramleh, onde os egypcios perderam _quarenta e tantos homens_! Parece

faltar-lhes o sentimento da proporção das cousas. Um correspondente do

_Daily News_ annunciava, ha dias, como um feito heroico, digno de ir á

posteridade, o terem alguns soldados em marcha dado um pedaço de pão de

munição a um arabe que morria de fome á beira de um caminho! Era espanto

de encontrar dentro de peitos inglezes um resto de piedade humana? Não.

Queria provar que nenhum exercito no mundo faz a guerra com uma tão

profunda clemencia!

Ou celebrem o aspecto physico dos regimentos ou a afinação das bandas de

musica, a pontaria dos artilheiros ou a fórma dos capacetes, os talentos

do Estado Maior ou a excellencia da bolacha de munição, vem logo em

lettras gordas, a phrase tola--_o que ha de melhor no mundo_!

Faz uma vedeta ingleza fogo sobre uma vedeta egypcia e depois recolhe á

trincheira? Logo este facto é declarado _tão nobre pelo heroismo como

habil pela prudencia_!

Os córos que se entoam em torno do general Wolseley, pertencem á pura

farça.

Eu quero crêr que elle é um grande homem--ainda que por ora nada mais

fez que debandar uma pobre horda de negros armados de flechas que

vegetavam junto a não sei que rio d'Africa; mas que se póde pensar

quando se lê, no _World_ e em outros papeis, que elle é o _maior general

do seculo_? Onde vive um certo Moltke? Quando existiu um chamado Napoleão?

O melhor, mais bem feito, mais importante jornal de Londres, a _Pall

Mall Gazette_, envergonhado de tudo isto, explica, com a sua usual

habilidade, que estas fanfarronadas não são destinadas á Europa, mas ao

Egypto «para levantar o moral das tropas!» Têm pois esses regimentos em

campanha nos areaes da Africa, diante d'um inimigo formidavel, vagares

para ler as gazetas? Recebe cada soldado raso, com o seu rancho da

manhã, um numero do _Times_? A respeitavel _Pall Mall_ blaguêa. Para

animar, recompensar as tropas, lá estão as proclamações dos generaes.

Ahi, sim, a emphase deve correr em torrentes: e quando um desgraçado

homem depois de ter marchado todo um dia, com fome, com sêde, com os pés

em sangue na areia e um ceu de fogo nas costas, volta á noite ao

acampamento, estendido n'uma maca com duas balas no corpo--não é muito

que se lhe diga que elle é o primeiro soldado do mundo!

É também «para levantar o moral das tropas» que o _Times_ e o

_Spectator_, fallam, de mão na cinta, e suissa ao vento, de «impor á

Europa a vontade da Inglaterra?»

Não; é mera fanfarronada.

E não é só nos jornaes. Entre-se n'um club, n'um restaurante,

converse-se com um conhecido, entre duas chavenas de chá--e vem logo a

mesma jactancia de roncador: «Vamos dar cabo de tudo. Temos dinheiro a

rodo. Cá, ao pulso inglez, nada resiste... E se o mundo respinga,

quebram-se-lhe as ventas!...»

A Inglaterra perdeu as suas boas maneiras.

É forte, de certo--mas falla da sua força com a brutalidade de um

Hercules de feira que esbogalha os olhos e mostra os musculos; é rica,

de certo--mas falla do seu dinheiro com a grosseria d'um ricaço que

abarrota fazendo tinir as libras na algibeira...

Onde está a famosa _self-possession_ da Inglaterra, a sua tranquilla

dignidade? John Bull tornou-se Ferrabraz. Ora uma muito velha banalidade

ensina-nos que não ha verdadeira força sem serenidade e que sem modestia

não ha verdadeira grandeza.

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Cartas de Inglaterra · 第 26 / 33 题