A fuga dos europeus.--O grande sonho inglez.--O «casus belli».--A
vespera do bombardeamento.
Esta _matança de christãos_--para continuarmos a dar-lhe a sua alcunha
diplomatica--puxou bruscamente a attenção do mundo que lê jornaes para o
Egypto, e por isso devem ahi ter presentes e vivos--sem que se torne
necessario o rememoral-os, detalhe a detalhe--todos os episodios que
n'uma semana se desencadearam uns sobre os outros, com uma barafunda de
melodrama: a indignação excessiva e tumultuosa da Europa, excitada pelo
clamor e pelos gritos da imprensa ingleza; o desordenado panico que se
apossou dos europeus residentes no Egypto; e o facto, estranho mesmo
n'essa terra de classicos exodos, de uma colonia de mais de _cem mil_
almas abandonando de repente o solo, onde, desde gerações se
estabelecera, deixando occupações, interesses, empregos, casa e fazenda,
precipitando-se apavorada para os caes de embarque, apinhando-se em
paquetes, em navios de carga, em barcaças, em qualquer cousa que pudesse
fluctuar na agua, e fugir da terra funesta, pagando a peso de ouro o
direito de se agachar n'um buraco de porão; a maneira magistral como a
Inglaterra, pelos officiaes da sua armada, organisou e policiou esta
nova fuga dos hebreus; emfim, a chegada a Alexandria do Khediva, que
perdera toda a auctoridade no Cairo, e colhia a opportunidade de vir
abrigar os restos esfrangalhados da sua realeza sob os canhões do
almirante Seymour.
Arabi-pachá, que se tornára, de facto, dictador, correu tambem a
Alexandria--e o seu primeiro passo foi estabelecer tribunaes marciaes,
para julgarem os _massacradores_ do dia 11.
Note-se que se não tratava, nem por sombras, de punir os europeus que
tinham mandado _tresentos_ mussulmanos d'esta terra de miserias para o
paraiso de Allah; mas sómente os mussulmanos suspeitos de terem posto
mãos violentas sobre christãos. Ainda assim, os jornaes inglezes
bradaram logo que não se podia ter confiança na justiça, na
imparcialidade dos magistrados egypcios, tão hostis ao estrangeiro como
á populaça--e que taes julgamentos não passavam d'uma farça, onde os
réus, que se mostravam um momento á Europa carregados de ferros
postiços, eram depois, por traz dos bastidores, acclamados como bons
patriotas.
Arabi-pachá propoz então que esses tribunaes se compuzessem de juizes
arabes e de officiaes inglezes. Isto indicava um desejo vivo, quasi uma
sofreguidão de justiça. E, com effeito, se o partido nacional agora todo
poderoso, se não mostrasse severo--corria o perigo de passar por
cumplice; e se as suas refórmas tinham já inspirado tanta antipathia á
Europa--o que seria se a elle se pudessem plausivelmente attribuir taes
attentados?
De resto, para um mussulmano orthodoxo e fino como Arabi, toda a
violencia contra o estrangeiro, contra o hospede, constitue a mais negra
violação da lei santa. Arabi era sincero. Mas a Inglaterra não acceitou
as suas propostas...
A Inglaterra não acceitou. A Inglaterra estava armada a bordo dos seus
couraçados. E, todavia, mais que nenhuma outra nação ella soffrera com
os tumultos d'Alexandria: o seu consul, brutalmente espancado, achava-se
á morte; alguns dos officiaes da esquadra tinham recebido no uniforme,
que é o orgulho da Grã-Bretanha, a lama e as pedradas da populaça
egypcia; a maior parte dos europeus assassinados eram de nacionalidade
ingleza; contra a Inglaterra se prégara a guerra nas mesquitas, nos
bazares, e até sob a tenda beduina...
Mas a Inglaterra, generosa e paternal, queria esquecer essas injurias.
Pudera!
É que não lhe convinha reconhecer as atrocidades do dia 11 como um mero
e casual episodio de fanatismo mussulmano, a que algumas grilhetas e
algumas cordas de forca poriam definitivamente termo; nem lhe convinha
descer dos seus couraçados unicamente para ir a um tribunal ajudar a
sentenciar dez ou doze facinoras.
O que á Inglaterra convinha, era attribuir a este conflicto local a
magnitude de uma anarchia nacional, e offerecer ou impor o seu
prestimo--não para castigar os tumultos de um bairro, mas para pacificar
todo um paiz em desordem. E assim ella rejubilava com a chegada d'esse
dia tão appetecido, tão pacientemente esperado desde o começo do seculo,
tão anciosamente espiado desde a abertura do canal de Suez, em que teria
emfim um pretexto para assentar na terra do Egypto o seu pé de ferro,
essa enorme pata anglo-saxonia, que, uma vez pousada sobre territorio
alheio, seja um rochedo como Gibraltar, uma ponta de areia como Aden,
uma ilha como Malta, ou todo um mundo como a India--nenhuma força humana
póde jámais arredar ou mover.
Já se não tratava de libertar o Khediva coacto, de defender as
algibeiras dos portadores do emprestimo egypcio. Um interessse mais
alto, ligado com os destinos do Imperio, levantava-se, dominava tudo.
_O Egypto estava em anarchia_: logo competia á Inglaterra, paladino da
civilisação, restabelecer lá a ordem, impedil-o de recahir no estado
barbaro.
_O Egypto estava em anarchia_: logo competia á Inglaterra, como grande
potencia oriental, defender essa parte preciosa da terra egypcia--o
canal de Suez, e evitar que elle cahisse nas mãos de Arabi ou de outro
dictador mussulmano, hostil aos beneficios da civilisação.
É o que pouco mais ou menos respondia a Inglaterra, e bem alto, para que
o mundo ouvisse--quando Arabi-pachá lhe propoz uma alliança judicial
para punir o crime mussulmano do dia 11.
--Não, dizia John Bull, não se trata do dia 11! Esqueçamos o dia 11.
Esqueçamol-o, como se elle fosse apenas o dia 7. A questão é outra. _O
Egypto está em anarchia._ É necessario salvar a civilisação!
E estas nobres palavras significavam, despidas dos seus atavios
humanitarios, que a Inglaterra, sob o pretexto de pacificar o Egypto,
desembarcaria em Alexandria, occuparia por motivo de operações militares
Port-Said e Suez, as duas portas do canal, e depois--depois nunca mais,
n'esses pontos estrategicos do caminho da India, se arriaria a bandeira
ingleza!
E, feito isto, ficava realisado o grande sonho britannico:--posse
absoluta da estrada das Indias; John Bull fazendo sentinella a todas as
portas succesivas que conduzem ao seu imperio do Oriente: á entrada do
Mediterraneo, Gibraltrar e o seu rochedo inexpugnavel; no Mediterraneo,
Malta e Chypre, duas ilhas, dois collossaes depositos de guerra: á
entrada do canal, Port-Said; ao fim do canal e á bocca do Mar Vermelho,
Suez; á beira do Golfo Persico, Aden; e d'ahi por deante as suas
esquadras varrendo os mares...
Deante d'esta esplendida opportunidade se achou a Inglaterra, depois das
carnificinas de Alexandria; e, tendo logo declarado _officialmente_ o
Egypto em anarchia, sem perda de um momento, começou a armar-se.
E, no meio de tudo isto--a Europa? Oh! a Inglaterra convidava, com
bellos ademanes de desinteresse, a Europa a partilhar com ella a honra
de pacificar o Egypto! Mas sabia bem que nenhuma das potencias moveria
um soldado: nem mesmo a França, que tinha uma frota na bahia de
Alexandria e collaborára nas manifestações platonicas; a França,
governada por uma democracia burgueza que enriquece, e tornada toda ella
uma vasta casa de negocio, não quereria por cousa alguma perturbar
aquella paz tepida e doce em que amadurece o Milhão.
Além disso, as potencias já tinham resalvado a sua dignidade,
sentando-se em torno da mesa verde da conferencia, á beira das aguas
luminosas do Bosphoro, meditando com a cabeça entre os punhos a solução
da questão egypcia. E, emquanto ao resto, estavam-se observando, armadas
até os dentes, desconfiadas, ciumentas, odiando-se, mas immobilisadas
reciprocamente pela propria magnitude dos seus armamentos.
A França receia a Allemanha; a Turquia teme a Russia; a Austria está
contida por ambas; a Italia necessita a benevolencia de todas; e cada
uma por seu turno treme do snr. de Bismarck, o hediondo papão, o Jupiter
trovejante do Olympo diplomatico, que, no seu retiro de Varzin,
torturado por toda a sorte de males, passa parte do tempo sob a
influencia da morphina...
De resto, que todas appeteciam os despojos do Egypto, só o póde duvidar
quem ignore os instinctos de pilhagem, de gatunice, de pirataria, que
alberga sempre a alma d'um povo civilisado; mas nenhuma das potencias é,
como a Inglaterra, uma ilha cercada d'um mar agitado, onde se move a
maior frota da terra; e, apertadas no estreito continente, hombro contra
hombro e espada contra espada, nenhuma dellas ousaria dar um passo para
o lado do Egypto, com receio que o vizinho lhe saltasse ás guellas.
Limitavam-se, por isso, cheias de rancor, a trocar phrases de
diplomatica doçura, sentadas á mesa da _conferencia_.
Quando, deante d'uma casa fechada, os que lhe appetecem as riquezas,
discutem, de penna na mão, a melhor maneira de lá entrar--a vantagem
pertence toda áquelle que, em logar d'uma penna, se muniu d'um machado e
atira de subito a primeira machadada á porta. Foi o que fez a
Inglaterra. Emquanto os outros faziam planos _pro-forma_ em cima d'uma
carteira--ella fez fogo sobre Alexandria.
Sómente não se póde atacar uma cidade inoffensiva sem um pretexto. E a
Inglaterra foi, á falta de outro melhor, forçada a apresentar um tão
máu, que, como dizia a _Associação dos Positivistas Inglezes_, no seu
protesto contra a invasão do Egypto, a sua puerilidade só consegue
augmentar a sua immoralidade.
Perante os armamentos da Inglaterra, Arabi-pachá, se lhe não
comprehendia as intenções espoliadoras, devia pelo menos concluir que
era contra elle, contra o partido que elle dirigia, e contra as idéas
que elle encarnava, que a Inglaterra se estava preparando; e, muito
naturalmente, na espectativa de um ataque, organisou a sua defesa,
artilhando os fortes de Alexandria, e erguendo baterias novas pela costa.
Foi contra isto que a Inglaterra protestou; e foi d'isto que fez um
_casus belli_--declarando que, se as obras dos fortes não cessassem,
ella destruiria os fortes!... Sem estar em guerra com o Egypto, ella
considerava-se no direito de reunir deante de Alexandria uma frota
ameaçadora; mas não admittia que as auctoridades de Alexandria
concertassem sequer as brechas das velhas fortificações de Mehemet-Ali!
E que explicações estupendas o snr. Gladstone dava á Europa para
justificar o _casus belli_! As baterias que Arabi ergue (dizia elle), os
novos canhões que monta, _põem em perigo os couraçados inglezes_! E os
couraçados não punham em perigo os fortes? Mas ao lado da esquadra
ingleza estavam navios de guerra francezes, allemães, italianos, gregos,
austriacos--tão expostos ás balas de Arabi como os que hasteavam o
pavilhão britannico: e esses não se julgavam _em perigo_!
Que diria a Inglaterra se o commandante de algum dos couraçados
francezes ou allemães, que por vezes vêm ancorar nas aguas de Portsmouth
ou de Southampton--mandasse de repente prohibir ao governador de uma
d'essas praças a continuação das obras de defesa que ahi se vão
incessantemente aperfeiçoando, sob o pretexto de que taes baterias
_poderiam fazer mal_ ao navio de seu commando?... Com tal precedente, os
almirantes inglezes, que honram frequentemente o humilde porto de Lisboa
com a presença dos seus pavilhões--estariam auctorisados a exigir a
destruição da torre de S. Julião, do Bugio e de Belém! Dir-se-hia que
não é de prever que o portuguez, pacato e bonacheirão, faça fogo--muito
menos sobre couraçados inglezes. De accordo. Mas que ganharia
Arabi-pachá em mandar de surpreza algumas balas á esquadra ingleza--e
portanto ás outras que estavam no mesmo ancoradouro--senão o attrahir
sobre si, e o seu partido, e o seu paiz, a pavorosa vingança da Europa
inteira, injuriada em todos os seus pavilhões?
Arabi fez uma cousa fina: cedeu, promettendo interromper os trabalhos de
defesa. E a Inglaterra ficou desapontada. Esta submissão de Arabi
desmanchava o seu engenhoso plano.
Alguns jornaes mais cynicos e impacientes chegavam a aconselhar que se
não respeitasse a palavra d'um vil mussulmano--e que se fosse
_bombardeando_! O trabalho então da frota foi vigiar incessantemente as
fortificações, na esperança de descobrir algum sapador, d'enxada ao
hombro, que desmentisse a promessa d'Arabi. De noite, os couraçados
projectavam sobre a costa longos e vivos raios de luz electrica,
movendo-os lentamente ao longo das baterias, pesquizando anciosamente os
menores recantos, procurando o mais leve vestigio de trabalho--fosse
elle um cesto de pedras esquecido; e assim foi que uma noite--noite
venturosa para o governo do snr. Gladstone!--a esquadra descobriu dois
soldados limpando um velho canhão! Que allivio para a Inglaterra!
Immediatamente o almirante Seymour mandou este _ultimatum_ a
Toulba-pachá, governador da cidade:--dentro em vinte e quatro horas os
fortes deveriam ser entregues ás tropas inglezas, ou toda a linha de
couraçados abriria fogo sobre Alexandria. A isto, realmente, só se póde
responder a grande palavra de Cambronne em Waterloo.
Lamento que Arabi a não dissesse: era a segunda vez na historia que John
Bull a receberia em plena face.
A vespera do bombardeamento foi dramatica. O almirante Seymour fez sahir
da bahia todos os navios mercantes; e, depois, com a usual etiqueta,
convidou os navios de guerra de outras nações a fazerem-se ao largo,
levando para fóra da linha de fogo a neutralidade das suas bandeiras.
Essa longa procissão de couraçados de toda a Europa, deixando lentamente
as aguas da Alexandria, para que a Inglaterra pudesse livremente
commetter o seu attentado--é descripta pelos correspondentes inglezes
como cheia de solemnidade e de ceremonial. As salvas succediam-se; uns
aos outros cortejavam-se os pavilhões dos almirantes. Os ultimos a sahir
foram os navios francezes, os alliados na _manifestação_, que, honra
lhes seja, não quizeram ser alliados no crime:--e a tricolor afastou-se
tambem, saudada pelo almirante Seymour, entre os _hurrahs_ de despedida
da marinhagem e o estridor da _Marselhesa_. A tarde estava bella; tudo
era luz na bahia; os minaretes d'Alexandria branquejavam no azul...
Magnifico espectaculo, sem duvida:--sómente que pensariam d'elle os
milhares de pobres arabes, de mulheres e de creanças, que o contemplavam
das alturas da cidade, e sobre os quaes ia cahir no dia seguinte bala,
metralha e bomba?
Por fim, a noite desceu e estrellou-se; á beira da agua calma luziam as
luzes d'Alexandria; tudo ficou em silencio na bahia.
Estavam a sós, frente a frente, sob a paz dos ceus, uma grande esquadra
ingleza e a cidade inoffensiva que ella, na madrugada seguinte, para
satisfazer a sofreguidão mercantil de um povo de lojistas, ia friamente
arrasar.
V
Depois do bombardeamento.--Os incendios.--As responsabilidades.--Uma
Alexandria ingleza.--A invasão.--A attitude da Europa.
O almirante Seymour, dias antes, tinha declarado que em duas breves
horas desmantelaria os fortes de Alexandria. Ao cabo, porém, de nove
compridas horas ainda não fizera calar as baterias egypcias; e ainda
justamente uma bomba vinha escavacar a camara do commandante do
_Inflexivel_.
Sir Beauchamp Seymour reconheceu, nos seus despachos para o almirantado,
«que os melhores artilheiros da Europa se poderiam orgulhar de uma tão
bella resistencia». Mas nem coragem, nem reductos, nem muralhas de
granito prevalecem contra esses negros monstros que desfeiam os mares--o
_Monarcha_, o _Alexandra_, o _Soberbo_, o _Sultão_, o _Invencivel_, o
_Minotauro_, e tantos outros que lá estavam, movediços castellos de
ferro, servidos pelas forças combinadas do vapor, da hydraulica, da
electricidade, devastadores como um cataclysmo e exactos como uma sciencia.
Pobres fortalezas de Mehemet-Ali! Foi a velha fabula da panella de barro
contra que tombou a panella de bronze. Ao anoitecer, eram apenas montões
de ruinas fumegando em silencio...
Estava consummada a façanha! Na bahia, agora, tudo cahira n'uma grande
paz; a noite descera calma e escura; os enormes couraçados repousavam;
da cidade vencida não vinha o menor ruido; só n'um ponto de terra o
palacio de Rasel-tin ardia ao abandono. Foi então que o eloquente
correspondente do _Standard_ telegrahou para o seu jornal esta phrase
que merece fama:--_A situação não póde ser mais satisfactoria!_
Pelo meio da noite, porém, da parte de Alexandria, onde ficava a _Praça
dos Consules_, começou a erguer-se um vasto clarão. Alli, evidentemente,
havia um incendio. Mas como? Porque?
O almirante Seymour lavaria d'ahi as suas mãos--se tivesse a bordo a
bacia de Poncio Pilatos. Elle concentrára escrupulosamente o seu fogo
sobre os fortes: uma ou outra bomba poderia ter cahido nos bairros
arabes--e nada mais legitimo, nem de mais salutar terror; mas a parte
européa de Alexandria fôra poupada... E todavia, era lá que o incendio
se estendia avermelhando, aquecendo o ceu; e de outros pontos visinhos
iam subindo na noite altas labaredas. Diabo! A situação já não era tão
satisfactoria...
Ao outro dia houve um tempo muito nublado, com um mar muito forte. Os
couraçados, por precaução, fizeram-se ao largo. Quando, horas depois,
vieram retomar as suas posições de combate, Alexandria, deante d'elles,
ardia toda como uma monstruosa fogueira. Positivammente, não era nada
satisfactoria a situação!
Não era. Arabi-pachá abandonára Alexandria, levando o grosso do
exercito. E a população mussulmana, enfurecida por nove horas de
bombardeamento, sem policia para a conter, com os _ulemas_ a excital-a,
tomada da cobiça da pilhagem, e inflammada pela furia das represalias,
correra aos bairros europeus,--e incendiou, saqueou, matou, destruiu;
matou pela raiva de matar, porque até pobres cavallos de carruagem
appareceram esquartejados; destruiu pela raiva de destruir, porque se
acharam nas ruas, aos pedaços, vestidos de senhoras, relogios de sala e
oculos de theatro...
Ferocidades de fanatismo, que se arremessa n'uma vingança indiscriminada
sobre tudo o que lhe represente a raça, os costumes, as idéas que elle
odeia--sobre os homens e sobre os espelhos. Isto não se dá só em paiz
mussulmano. Sempre que os parizienses invadiam as Tulherias, rasgavam á
ponta de sabre o setim das poltronas...
Collocou-se a população de Alexandria, por taes excessos, fóra da
humanidade? Os inglezes dizem que sim; eu digo que nós teriamos feito o
mesmo, nós europeus, christãos e podres de civilisação. Se, quando os
allemães estavam bombardeando Pariz--os parizienses vissem no centro da
sua cidade um bairro exclusivamente allemão, compacto, monumental,
luxuoso, erguido pelo dinheiro que o allemão ganhára a explorar a
França,--resistiriam os parizienses, os mais civilisados dos mortaes, a
besuntal-o de petroleo e fazel-o flammejar por uma bella noite de inverno?
A resposta é facil, lembrando-nos que, quando por seu turno o snr.
Thiers, esse homunculo de estado, bombardeou Pariz, os parizienses
apressaram-se a destruir o palacete do snr. Thiers.
Foi Arabi que ordenou o incendio de Alexandria? Não, evidentemente.
Arabi não é um patriota selvagem, do typo d'esse Rostopchin que queimou
Moscou: é um fellah fino e sagaz, que sabe que na Europa, na Inglaterra
sobretudo, onde affectamos todos uma sensibilidade humanitaria, nada
desacredita mais que uma fria crueldade. Basta observar a attitude
polida, quasi paternal que elle toma com os prisioneiros inglezes--o
guarda-marinha Chair, por exemplo.
Quando este official foi levado ao acampamento arabe, Arabi disse-lhe
logo, depois d'um _shake-hands_.
--Escreva a sua mãe, conte-lhe que está entre mãos leaes, e tire-a
d'inquietações...
Isto era de certo sincero--mas sobre tudo habil: e uma tal palavra voou
direita ao coração de todas as mães inglezas. Desde os conflictos
d'Alexandria, o empenho d'Arabi tem sido proteger os europeus que ainda
restam nas villas do interior. Os _cadis_ que não evitaram o massacre
dos empregados do caminho de ferro do Delta, foram decapitados. A elle
se deve a tranquillidade do Cairo, onde existe uma enorme massa de
propriedades e riquezas européas. Que ganharia Arabi em destruir esta
prospera cidade egypcia, no começo da campanha e com o seu exercito
intacto? Apenas a fama d'um monstro boçal.
Á Inglaterra cabe a responsabilidade da catastrophe. As bombas do
almirante talvez, com effeito, não tivessem arrasado mais que alguns
casebres arabes; mas á imprevidencia do governo se deve a ruina
d'Alexandria.
Desde o meiado de junho, o mais experiente, mais auctorisado dos seus
agentes diplomaticos, o snr. E. Malet, consul geral do Egypto, não
cessou de bradar--que se o bombardeamento era inevitavel, Sir Beauchamp
Seymour devia ter tropas de desembarque, para occupar a cidade, apenas
os fortes fossem destruidos, e impedir assim que, no caso provavel de
Arabi se retirar para o interior, ella ficasse á mercê d'uma plebe
semi-barbara...
Nada d'isto se fez.
Sir Beauchamp Seymour bombardeou, arrasou, repelliu virtualmente
d'Alexandria a Arabi, a unica força que continha uma populaça de cem mil
fanaticos--e, depois, ficou a bordo do seu couraçado, vendo
tranquillamente arder, deante de si, uma das mais ricas cidades do
Mediterraneo.
Por outro lado, a quem aproveitava o incendio? Á Inglaterra. O pretexto
de que os fortes _punham em perigo os couraçados britannicos_, só a
auctorisava, perante os escrupulos da Europa, a destruir os fortes, não
a occupar a cidade. Agora, porém, que ella estava em chammas, abandonada
á anarchia, á pilhagem, ao ataque das hordas beduinas que corriam do
deserto--agora ella tinha o direito--mais, ella tinha o dever!--de
desembarcar e ir salvar de uma total aniquilação tanta riqueza, tão
esplendido centro de commercio!...
Generosa Inglaterra! E desembarcou logo, aquartelou tropa, plantou
bandeira. Tinha deante de si um monte de ruinas, e em poucos dias foi
dando fórma a uma Alexandria nova, já com feição ingleza e administrada
á ingleza.
Os incendios foram dominados; as ruas desentulhadas; estabeleceu-se uma
policia terrivel, que executava summariamente os ladrões e os
incendiarios; abasteceu-se a cidade: a alfandega reabriu as portas; em
substituição das lojas destruidas, armaram-se barracões de venda; o
machinismo judicial foi posto em movimento; reparou-se a fabrica do gaz,
a cidade foi reilluminada; os bancos voltaram a funccionar.
E, como era necessaria uma auctoridade, em nome de quem se reorganisasse
a vida municipal, os inglezes, que apenas estão alli (diziam elles) como
um corpo de policia, foram buscar o Khediva a uma casa dos arredores,
onde elle se refugiara durante o bombardeamento, e installaram-n'o
solemnemente no palacio de Ras-el-tin, palacio meio ardido, onde elle é
uma auctoridade meio morta!...
Desde este momento, a situação tornou-se muito definida, muito simples.
Os inglezes possuiam, governavam Alexandria, tão naturalmente como se
ella estivesse situada no condado de Yorkshire; e de fronte
d'Alexandria, n'essa especie de isthmo arenoso que a liga á terra do
Delta, estava Arabi n'um acampamento entrincheirado, governando d'ahi
todo o valle do Nilo e o deserto até o mar. Os inglezes recebiam
incessantes reforços de casa e da India. Arabi chamava á guerra contra
os inglezes todo o povo fellah. A Inglaterra preparava uma invasão.
Arabi organisava uma grande defesa nacional. Nada mais claro. A questão
é entre a Inglaterra, procurando estabelecer um protectorado sobre o
Egypto, arrancar-lhe as cidades estrategicas que dominam o canal, e
Arabi-pachá, um patriota, que quer o Egypto para os egypcios, que receia
a protecção do estrangeiro como a peior desgraça de um paiz fraco, e que
entende que, pelo facto de que Alexandria, Port-Saïd e Suez se acham
desgraçadamente no caminho da India, não é motivo para que se tornem
guarnições inglezas. E dos dous lados, grande enthusiasmo.
Em Londres, onde acabou a _season_ e começa a monotonia das praias de
banhos, o partir para conquistar o Egypto passou a considerar-se uma
feliz aventura. Se o ministerio da guerra o consentisse--toda a mocidade
de ouro, ou apenas de latão dourado, se alistaria, porque é do mais
requintado _chic_ ir dar cabo de Arabi!
O duque de Connaugth, um dos filhos de S. M. a Rainha, faz parte da
expedição, e o duque de Teck, seu cunhado, não sendo militar, partiu,
diz-se, como simples empregado do correio. Os officiaes dos regimentos
de guardas, essa pura nata da aristocracia e flôr da finança, tiveram a
ventura de vêr os seus luxuosos regimentos, de ornamentação monarchica,
expedidos para o Egypto; sómente este natural prazer foi em parte
estragado pela severidade do ministerio da guerra, que, como se tratava
de uma campanha e não de um torneio, não consentiu que esses
gentis-homens fôssem seguidos por equipagens, creados de librés, tendas
de luxo e caixas de vinho de Champagne.
Um d'estes officiaes exprimiu alto a sua indignação, porque o
estado-maior só lhe consente tres cavallos de sella, dous creados de
quarto e cinco malas de bagagem!
Por outro lado, ao comprido do Nilo toda a população fellah se declarou
por Arabi; como por elle se declararam as classes lettradas, as
mesquitas, os _ulemas_, os _coptas_, os proprios principes parentes do
Khediva. Os _mudirs_, governadores de provincias, pagam-lhe a elle os
impostos. Os _scheiks_ do deserto mandam-lhe a sua cavallaria.
E este ardor é tanto maior, quanto Arabi-pachá foi de ha muito
prophetisado; já a sua inesperada entrada no governo se considerou um
advento divino; e este rebelde (como outros rebeldes que tão
gloriosamente fizeram o seu caminho na terra e no ceu) é Messias!
Uma antiga prophecia mussulmana annuncia que no seculo decimo terceiro
da Hegira nascerá á beira de um grande rio um homem de raça vil, por
nome Ahmet, que se revoltará, e restaurará o esplendor do Islam; ora, os
arabes estão no século XIII da Hegira, e Arabi, cujo nome é Ahmet, cuja
origem é _fellahina_, tendo nascido n'uma aldêa á margem do Nilo,
revoltou-se contra o seu califa. Assim, elle reune o duplo prestigio de
um Spartacus e de um Christo.
Concentrada a questão entre uma poderosa nação invasora e um patriota
que defende o seu solo--a Europa tomou logo a sua tradicional attitude:
isto é, murmurou algumas palavras de branda admoestação, e depois recuou
para longe, a observar como um braço forte sabe usar da sua força, a
estudar como se consuma a espoliação de um fraco.
Nos ultimos quinze annos a Prussia roubou a Dinamarca, e depois foi pela
Allemanha saqueando reinos e grãos ducados; em seguida, desmembrou a
França; mais tarde a Russia espatifou a Turquia; ha dous annos,
subitamente, a Republica Franceza cahiu sobre Tunis, e empolgou esse
desventurado estado barbaresco. Em cada um d'estes casos a Europa
comportou-se como um coro das operas d'antiga escola, quando membrudo
barytono, ahi pelo quarto acto, erguia o ferro sobre o tenor gentil e
magrizela: o côro adeanta-se, modula uma larga phrase, agita os braços
em cadencia, faz o commentario amargo da acção, brada talvez:
_suspendei_! Depois, afastando-se em grande compostura, deixa á bocca da
scena o tyranno barbudo sondando tranquillamente com a ponta da lamina o
interior do galã...
Não fallemos mais na Europa. Não ha, nunca houve _Europa_, no sentido
que esta palavra tem em diplomacia. Ha hoje apenas um grande pinhal de
Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos
outros, tremem uns dos outros, e, por um accordo tacito, permittem que
cada um por seu turno se adeante--e assalte algum pobre diabo que vegeta
ou trabalha ao canto de seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas
do Direito Internacional, allumiadas por Ortolan e outros lumes,
rouba-se de carabina alta, e rompem a cada momento brados de povos
assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia
estar coberta d'estes avisos em lettras gordas: _Beware of
pick-pockets!_ Cautela com os salteadores.
A pequena propriedade politica tende a acabar. Toda a terra vae em breve
reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietarios... Hontem,
era Tunis--porque a França necessita proteger a fronteira da Argelia.
Hoje, é o Egypto--porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da
India. Amanhã, será a Hollanda--porque a Allemanha não póde viver sem
colonias. Depois, a Servia--por motivos que a seu tempo a Austria dirá.
Mais tarde, a Rumania--porque a Russia é forte. Depois a Belgica--porque
sim. Depois...
Este assumpto é lugubre. Voltemos ao valle do Nilo!