Quando os viscondes, com João e Bella, entraram na sua frisa no D.
Amelia, a sala tinha o aspecto buliçoso e alegre das grandes noites
de enchente. Já no vestibulo os homens quasi se esmurravam, apesar de
apparencias de cortezia, junto do cubiculo do bengaleiro que não tinha
mãos a medir para guardar abafos e bengalas.
Alguns, mais impacientes, não duvidavam empurrar as senhoras que
aguardavam os maridos para entrar na sala, com o desplante que geralmente
usam os homens quando o egoismo os mostra tal qual os tem feito seculos
de supremacia social e que torna identicos em todas as classes os
processos que usam para se desembaraçarem de importunos.
Toda essa multidão, partindo do vestibulo, se escoava pelas portas e
corredores, apressando-se a occupar o seu logar antecipadamente obtido e
acariciado como sonho que a fortuna realisára. O pittoresco e o brilho
d’esses espectaculos, muito caros e de pouco interesse para o vulgo,
accentuavam-se nas poucas noites em que a Duse se apresentava ao publico
de Lisboa, ávido de se mostrar á altura da civilisação que lá fóra
consagrára a grande actriz.
Não havia logares inferiores, de cima a baixo todos representavam um
preço que não admittia a blusa do operario e o vestidinho domingueiro da
costureira ou o côco dos pequenos burguezes, bem indifferentes de resto a
acontecimentos artisticos, para os quaes lhes falta a educação esthetica.
As casacas pretas crusavam-se nos corredores do terceiro andar como nos
do primeiro, e senhoras conhecidas na sociedade, que não tinham podido
obter melhores logares, riam de se encontrarem nas varandas com artistas,
principalmente litteratos novos, cujas bolsas lhes não abonavam mais
commodo logar para satisfazer a necessidade intellectual de ouvir e vêr
a genial artista, faziam uma festa picante, com sabôr a extravagancia,
d’essa invasão elegante em todo o theatro.
A cada momento se abriam portas de camarotes, e mulheres meio-vestidas
de gala, refulgentes de pedrarias, vinham encostar ao parapeito carmezim
da balaustrada os braços enluvados. O ruído das conversas enchia a casa
de um rumorejar de colmeia e os leques agitavam-se como azas palpitantes
de loucas phalenas nocturnas que a luz atrae e queima. Sentia-se uma
atmosphera quente de primavera que já floria os primeiros lilazes e
enverdecia as arvores do passeio sem embargo da chuva que todo esse
inverno se mostrara, com raros intervallos, irritante pela persistencia.
Os homens na plateia voltavam as costas ao proscenio, passavam em revista
as espectadoras, punham o monoculo e acariciavam o bigode, sorrindo,
satisfeitos, do mundo e de suas pessoas. Outros discutiam politica, liam
os jornaes da tarde, ou amodorravam-se nas cadeiras ao lado das esposas.
Como nessa tarde fôra a primeira toirada da época, que terminára sob
uma forte batega de agua, espessa como fumo, que n’um abrir e fechar
d’olhos evacuára a praça, contavam-se incidentes picarescos da volta
sob a chuva violenta que não admittia chapéos e cegava os que na lucta
por americanos e carros tinham ficado vencidos, tendo de esperar em
qualquer abrigo de porta ou resolver-se a aguentar o peso d’agua caminho
de suas casas. Discutia-se Guerrita, que não estivera nas suas melhores
tardes de _sorte_; fallava-se na Duse, que alguns já tinham visto lá
fóra, que outros ardiam por vêr, dispostos a acharem extraordinaria essa
notabilidade que uma fama universal precedia—Messias de uma arte nova,
toda feita de verdade flagrante, commovendo com lagrimas e alegrando com
risos copiados da sua maneira de sentir a vida, gritos arrancados ás suas
proprias dôres, gestos usados nas scenas reaes em que a superioridade
intellectual da artista apreende e estuda no corpo da mulher que a
materia despoticamente reivindica.
Sarah, a sacerdotisa—magna, amada sobre todas, vinha aos labios dos
fanaticos como um desafio á tragica italiana. Os que as conheciam, a
ambas, discutiam apaixonadamente, ora dando a supremacia áquella que na
sua voz cantada no ritmo da phrase, no choro contido a custo, consegue
hypnotisar a multidão, vencer o bom senso que requer a verdade, subjugar
os profanos e os descrentes até que o seu fragil corpo se estorça em
gritos que arrepanham a alma, que a esfrangalham n’uma lancinante
espectativa e lha atiram aos pés, frenetica de applausos, para se não dar
em lagrimas e contorsões de hystería.
Outros desdenhavam a francêsa, vantajosamente apresentada a um povo que
vive intellectualmente da França, copiador servil dos seus modelos,
e aclamavam como a maior de todas, a mulher de verdade que a Duse se
mostra, fazendo do palco uma escola de anatomia em que a sua alma
escalpella com a precisão scientifica de um operador retalhando fibra a
fibra o corpo que a doença ou a morte lhes trouxeram á mesa das operações.
Na frisa da direita, onde a Viscondessa e a amiga se sentavam entre
os maridos, discutira-se arte, evocara-se nomes e situações em que os
artistas favoritos se excediam a si proprios, e Bella lembrára Novelli,
o artista que para ella, mais ainda do que a Duse, realisava o supremo
ideal da arte moderna, a verdade, que é para os nossos espiritos
fatigados de sentir e soffrer pela imaginativa o oasis onde nos
comprazemos em descançar das orgias poeticas e romanticas de ha vinte
annos.
Mas o Visconde não se sentia n’essa noite disposto a conversas que
exigissem esforço de maior attenção, e a meia voz, n’uma visivel
sobre-excitação de nervos que se mascarava em risos, notava figuras,
recordava escandalosinhos que andavam na boca de todos, contava casos que
faziam sorrir os companheiros, principalmente na descripção dos _raouts_
que esse inverno inaugurára o Maximiano e onde os jornaes do _high-life_
diziam encontrar-se quanto ha de mais selecto na _nossa_ melhor roda.
—«A _nossa_ é a d’elles, jornalistas—ria com soberano despreso—O que os
faz enternecer é a abertura do bufete á meia noite e a possibilidade de
um empregosinho disfarçado...
—«Temos então o Maximiano singrando com vento de feição no mar largo das
grandezas?! Como a conselheira não exultará com a civilisação britannica
das suas reuniões da moda!...—commentou João.
—«É plantio d’estaca, ainda está longe da floração...
—«É ridicula esta gente na sua mania imitadora!—disse, séria, a
Viscondessa.—Nem o nosso meio, nem a educação, nem as fortunas,
comportam essas festas inventadas pela aristocracia de Londres, que em
divertimentos como em negocios não pode esbanjar tempo, e que n’um mesmo
dia tem que assistir a muitas reuniões, sob pena de deserção.
—«Mas se o nosso feitio é de perpetuos imitadores, que se lhe hade
fazer? Já nos não contentâmos em imitar a França, invadimos agora a
nossa _perfida alliada_, que qualquer dia reclama por indemnisação e
contribuição de guerra qualquer das nossas possessões... Com perdão de V.
Ex.ᵃ, minha querida prima inglêsa!...
—«Só _meia inglesa_, meu caro Visconde, e não tiro d’isso motivo de
orgulho superior ao de ser portuguêsa...
—«Pois nem todos dirão o mesmo, quantas pessoas desejariam ter uma
costellasinha de qualquer país estrangeiro para maior lustre e chic dos
seus nomes!...
—«Não vi ainda a Candida—reparou a Viscondessa.—Não virá?
—«Hade vir, mas tarde, com os ares de soberana que se arroga...
—«O camarote está vasio.
—«Mais uma razão. Se ella não viesse já o Braga o teria occupado, para
não perder tudo. Não encontrando a quem o passar, o que não seria facil a
estas horas, viria elle mesmo, para tirar o seu rico dinheiro a limpo.
—«Pobre homem! Vocês riem-se d’elle e afinal é um bom marido, que faz
tudo que a mulher deseja.
—«Oh prima, essa opinião é a das meninas lá da terra, por isso se
desesperam de o não ter conquistado—sorriu João á convicta lamentação da
Viscondessa.
—«Nem com todas teria a mesma docilidade. A Candida é uma força viva que
não convem alienar a quem se arrisca por caminhos de que só a politica
conhece as encrusilhadas.
Esta, como todas as outras phrases do Visconde, sahira lhe cortante de
ironia, tão amarga, por intencional, que João e Bella se entreolharam
surpresos da revelação. O ciume escancarava aquella alma que o estudo e o
habito tinham conseguido conter na reserva que a essas ligações exige a
hypocrisia social.
Ingenuamente, a Viscondessa continuou:
—«Não acredito nada d’isso que dizem; para que fosse verdade o ministro
da fazenda estar ao dispôr do Braga pelo interesse que a Candida lhe
inspira, seria preciso que ella o animasse.
—«Sei lá, mulheres!...
—«Nem todas são o mesmo. Apesar de _coquette_, creio bem que a Candida é
honesta.
Para cortar a conversa que lhe indispunha os nervos e como que os tornava
cumplices no engano em que a amiga se ridicularisava, Isabella perguntou
se não era a baroneza d’Amieira que entrára na frisa correspondente
á sua. Tomando habilmente a deixa, o Visconde desviou a conversa
scintillante de espirito, exuberante de risos, que, bem observados, se
sentiriam falsos e contrafeitos.
De instante a instante os seus olhos interrogavam, manifestamente
impaciente, o camarote fronteiro, fechado até ahi com uma persistencia
desesperadora.
Eram quasi horas de começar o espectaculo quando a physionomia se lhe
illuminou n’um jubilo illimitado ao vêr a Candida apparecer, como que
surgindo de entre as rendas da capa de baile, triumphante de belleza,
irisante de pedrarias, n’uma opulencia de trajar que attrahiu todos os
olhares. Da plateia muitos cumprimentos e sorrisos a procuraram como
votivo incenso que se eleva do pó até ao throno das divindades, n’uma
offerta de idolatria.
E o Visconde d’Alvora dizia bem alto a um grupo de amigos, cofiando o
bigode e empertigando-se na ponta dos pés,—que jurava aos deuses ser a
mulher mais linda que em sua vida conhecêra! Isto depois de ter viajado
por toda a Europa e ter chegado de Hespanha enjoado, positivamente, de
ver caras bellas. Palavra de honra, meninos!...
A campainha electrica deu o signal de se levantar o panno, e os homens,
excepcionalmente, apressaram-se a occupar o seu logar antes de começar o
espectaculo, o que fez com que a tragica podesse logo ser ouvida desde
a primeira scena. Desempenhava n’essa noite o papel de Magda, a mulher
soberba de independencia e energia que a traição e a infamia do homem, em
vez de quebrantar em baixesas de victimas, faz erguer n’um protesto de
indignação.
A actriz, soberana da Arte, dominando em todos os países onde o capricho
de artista a leva, sublime bohemia, que o mundo aclama exaltado, faz
vivo, arquejante de interesse, esse typo symbolico da mulher de que
a sociedade fez uma revoltada e que uma vez lançada fóra do ramerrão
comesinho da existencia burguesa, impossivel se lhe torna a vida entre os
seus, cujas ideias a amesquinham e irritam, que ella propria escandalisa
com as suas palavras e modos, de pessoa que conhece dos preconceitos
sociaes o bastante para avaliar a sua hypocrisia.
Quando a Duse (Magda, a grande cantora) entra já fatigada da lucta embóra
coroada de loiros em que o dinheiro lhe não faz mingua, mas soffrendo da
miseria affectiva em que se vê, como filha espúria de um mundo feito de
harmonia e amôr, e vem recorrer á familia, como fonte inesgotavel de
carinho, apenas encontra estranheza e hostilidade...
É então que a artista se revella extraordinaria de sentimento,
flagrantissima de psychologia feminina, mais ainda do que nas scenas
violentas de paixão, reconhecendo quanto differe da pequena irmã que na
sua ingenuidade lhe mostra o que já fôra e nunca mais poderá ser, fatal
sciencia do mal que uma vez adquirida não mais se pode esquecer nem
limpar da memoria.
Magda pensa com horror no brutal egoismo do amante que, fugindo como
covarde á responsabilidade do crime, o faz recahir esmagadoramente sobre
os hombros mais fracos da mulher, que deixa de ser cumplice para se
tornar victima.
A Duse, encarnada n’esse papel, deixa de ser uma pessôa que representa a
ficção alheia para se mostrar ella mesma, elevada e transfigurada pelo
proprio esforço e talento; tão depressa carinhosa e dôce, como mãe que
encontra um filho perdido, junto da irmã, recebendo-lhe as confidencias,
revivendo n’ella o seu passado de pureza e sentindo a devastadora mágua
dos factos irremediaveis; logo, ironica e vaidosa da leviandade que
escandalisa as burguezas puritanas que frequentam a casa dos paes; cheia
de nobre dignidade quando recusa o marido que lhe impõe o abandono do
proprio filho em respeito ao mundo; extraordinaria de paixão, quando
responde com o seu despreso de mulher que só o talento, e um feliz acaso
da natureza que lhe deu uma garganta privilegiada, salvaram da miseria
e da vergonha de que tantas outras, por desajudadas, se não podem mais
erguer. Que lhe importa uma sociedade á qual nada deve?!...
Mas não se tem impunemente uma generosa alma de mulher sequiosa de
affectos simples, não se é uma ingenua de que a vida fez uma sincera
revoltada; o grito de dôr e de remorso que lhe arranca a subita morte do
pae é tão humano e desesperadamente sentido que se fica na duvida se é
realmente para applaudir se para retirar respeitosamente, com a commoção
propria de quem assiste a um drama de familia.
Logo no primeiro acto, que terminou com ruidosa manifestação, chamadas
e applausos delirantes, o visconde sahiu com João, mas appareceu pouco
depois, já só, no camarote da Candida, que o Braga prudentemente deixára,
protestando urgentes negocios que o chamavam ao jardim d’inverno, a
fallar com uns amigos.
Retirados para a penumbra do camarote, reconhecia-se, pelo gesticular
phrenetico do visconde, que era de importancia a conversa em que elle
punha todo o ardôr da paixão e em que ella o ouvia sem deixar de sorrir
vagamente no seu sorriso incolor de imagem.
A baroneza d’Amieira vira Isabela e perguntára duvidosa a mr. William,
que a comprimentava na passagem,—se realmente era ella, a querida
criança?!...
Á sua affirmação retrucou expansiva que lhe reclamava a companhia até á
frisa dos viscondes.—Ha quanto tempo não via a Bellasinha! E mesmo Maria
Helena havia muito se não encontrava senão em casa, e ella ultimamente
tinha tido outros deveres nas suas noites.
Á entrada d’elles na frisa, onde já estavam o João e o Dr. Ramalho, a
conversa animou-se com a discussão da these debatida no drama, que a
baronesa achava de grande exagero.—Casada, a Magda seria uma mulher
recebida na sociedade, respeitada por todos; mais tarde pensaria no
filho...
Bella contestava com indignação, exaltava-se mesmo e parecia-lhe até
impossivel que a baronesa, sinceramente despresadora de preconceitos,
ainda tivesse tão injustas ideias, applaudisse tal hypocrisia.
—«O que quer, minha querida!? Embora se sinta que é injusto, é mais
commodo pensar como toda a gente... Para que serve discutir e protestar?
Se o mundo é o que é e não o que devia ser!
—«Mas é dever nosso, dos que pensâmos conforme a razão e aspirâmos á
justiça, protestar, luctar pelo futuro—respondeu-lhe João sinceramente.
—«Admiro estes seus sobrinhos, mr. William, são dois verdadeiros
apostolos, cheios de fé e de energia.
—«Por isso hãode triumphar, verá.
—«Tambem já o conquistaram, já lhe insuflaram no ânimo o fogo sagrado da
nova religião?
—«Parece... e aconselho-a, Baronesa, se tem amôr ao actual estado
de coisas, a fugir d’estes terriveis evangelisadores; são perigosos
exactamente porque são convictos, o que é raro.
—«Crê que se vença porque se tem fé, tio? Eu, não; se assim fosse não
veriamos triumphando tantos cynicos que abraçam qualquer religião, como
qualquer ideia que lhes convenha aos seus fins.
—«Esses não têm fé em coisa nenhuma. Triumpham, é certo, mas a sua obra
desmorona-se rapidamente, como edificio construido sobre lama. Só a obra
dos verdadeiros crentes, dos sinceros, é que pode resistir e fructificar.
Crês que fosse a ambição, o orgulho e a mentira dos padres, que fizeram
do christianismo uma religião? Não, foi a humildade, a sinceridade e a
fé dos convictos... É por isso que creio no futuro da vossa empresa e
aconselho a Baronesa a fugir se não quer tornar-se tambem uma convicta...
—«Pois vou-me já, tomo o seu conselho, meu caro. Nada, que não quero dar
aos meus conhecimentos o espectaculo grotesco de fazer dançar nos meus
salões os criados da lavoura nem de medir pela mesma bitola a moral da
cosinheira e a da grande dama...
—«A Baronesa a fingir-se o que não é! Todos sabemos que não ha ninguem
melhor para os seus inferiores—contradictou Maria Helena.
—«Tratá-los bem, trato, mas julgá-los meus eguaes, com direitos e deveres
como nós, isso, filho, é muito grande inovação para uma velha como eu.
—«Mas não é isso, cada um no seu logar, mas crédor do nosso respeito, tão
superior no seu officio como nós no nosso.
—«Sim, eu vejo que a razão está do vosso lado. Mas... eu afinal de contas
ainda me não dei mal com o mundo como elle está.
—«Para que V. Ex.ᵃ tenha essa consoladora phylosophia, quantos terão
soffrido miserias inconfessaveis, quantos terão amaldiçoado mil vezes a
hora em que nasceram!
—«Ora, querida Bella, se fossemos todos a pensar assim, não estaria aqui
ninguem dos que deram o seu dinheiro para vêr a Duse.
—«Porque não? Se nós viemos e podémos dar um preço exagerado, porque
temos necessidades de espiritos educados e possuimos fortuna para
realisar o nosso gosto, justo é que os que menos tem egualmente possam
frequentar divertimentos mais baratos e mais em harmonia com os seus
gostos e conhecimentos.
—«Ahi está em contradicção, logo não somos todos eguaes, vê?!
—«Jesus, que confusão! Não queremos todos eguaes, queremos todos felizes,
o que é differente. Queria a minha amiga que eu, porque detesto os
bailes, os passeios, os divertimentos em que ha muita gente, obrigasse os
outros, que só assim se divertem, a tornarem-se anachoretas? Imagina que
não ha muita gente, muitissima mesmo, que preferisse a uma recita da Duse
uma corrida de toiros?!... Até aqui, entre muitos que vieram por luxo,
porque é moda vir ao theatro por maior preço quando vem uma celebridade
estrangeira...
—«E hade ser cara, porque se fôr pelos preços da casa já não tem o mesmo
merecimento. Quando penso no Novelli a representar para as cadeiras, aqui
mesmo, pelo centenario da India!—disse a viscondessa.
—«É verdade, até nós viemos cá sempre para protestar—respondeu Bella.
—«Além do prazer de ver representar como poucas vezes na vida se pode vêr!
—«Mas tudo isso não me chega a convencer de que seja o vosso o mais
commodo caminho.
—«Isso não é, mas o melhor.
—«O que importa o bem dos outros, no fim de contas? Gente que está
habituada a soffrer não lhe custa tanto. Melhor é contentar-se cada um
com a sorte que tem.
—«Quando a má fôr para os outros...
—«Claro.—Ria desabusadamente—vejam alli a Candida se precisa pensar no
trabalho ou na ignorancia dos pobres, na felicidade ou na infelicidade
do proximo, para ser hoje a mulher mais linda de Lisboa. Não digo uma
_profissional beauty_ porque a frase é importante demais para a nossa
modestia e mesmo porque não tenho a mania de M.ᵐᵉ Vilhegas.
—«Ó Baronesa, mas de que serve ser-se bello sem mais nada?
—«Ora de que serve, mr. William, agrada aos outros. Repare n’ella, veja
se no meio de tanta cara vulgar, de tanto rostosinho miúdo de chloroticas
caiadas, não é um prazer para os olhos deparar com aquelle typo de
perfeita belleza—repostou com leviandade.
—«É uma opinião de artista. Mas é tão fragil o reinado da belleza
material—disse por fim o Ramalho, que até ahi se tinha conservado
silencioso.
—«É certo, mas emquanto dura, a belleza é um merecimento como outro
qualquer. Uma superioridade como a do talento ou a da bondade.
Respondeu a viscondessa, mas de modo tão singelo, que todos se
entreolharam na dúvida, se seria uma illudida ou uma cynica. Só Isabella,
que a conhecia bem, poderia affirmar a sua completa ignorancia de um
facto que para ninguem já era mysterio. Ciumes, dôr pungente de coração
offendido, sabia que os não teria, porque o amôr pelo marido lhe
desapparecêra ha muito com o despreso que lhe inspirára a leviandade
do seu caracter, mas esperava d’elle respeito bastante para a não
inferiorisar em convivencias equivocas, para a não obrigar hypocritamente
a ter relações que deprimiam a sua dignidade de mulher honesta.
Por isso Isabella, sentindo todo o amargôr da situação, soffria pela
amiga tão intimamente que o resto do espectaculo o passou desattendida,
apesar do interesse que a artista lhe despertava, a ella cuja alma
finamente temperada se enlevava sempre na comprehensão de todas as
grandes manifestações de arte, a ella que alheada de si mesma já seguira
uma vez, como em extasis, o desenrolar d’esse mesmo drama, só grande
pelos interpretes, quando o papel da mulher se subalternisava e quasi
desapparecia, vendo Novelli, no papel do intransigente e rigido coronel,
tomar toda a scena, encher de assombro todos os espiritos, com a verdade
tragica da sua dôr e da sua morte.
Desattendida tambem passou o intervallo do segundo acto, que lhes trouxe
á frisa innumeros conhecidos, fatigada de cumprimentos e conversas a
que não ligava sentido, com os olhos a fugirem-lhe para a Candida que
avultava em proporções quasi tragicas, nova lady Macbeth maculada pela
mentira e pela traição, laivada pelo sangue das suas victimas, aquellas
que mais acariciadoras achegava ao coração.
Quando entrou finalmente no quarto do Alliança teve a sensação de allivio
que sente o dormente acordado do pesadello esmagador.
—«Estou cançada—dizia desapertando o vestido e cobrindo os hombros
com uma capa para chegar á varanda, onde João fumava um resto de
cigarro—estou fatigada de arte, de luzes, de barulho, de gente, sobre
tudo de gente.
—«Ou isto ou o socego da nossa casa!—respondeu João, passando-lhe o braço
pela cinta, fatigado tambem de impressões, aborrecido de mentiras e
convencionalismos.
—«Que longe já estamos d’essa miseria—accrescentou ella, reclinando a
cabeça no hombro do marido—parece que vivemos em outro mundo.
—«N’um mundo que tu criaste, no reino da felicidade pelo amôr e pelo bem,
querida.
—«Tenho já tantas saudades da nossa casa, que parece que sahi ha muito de
lá. E tu?
—«Tambem eu, muitas, da nossa casa, da nossa familia, das nossas flores,
de todas as coisas que lá nos interessam, e sobre tudo da alegria e do
descanço que têm os nossos espiritos, crentes na obra redemptora que
encetámos e da qual chego a duvidar cá por fóra ouvindo o riso escarninho
de todos estes egoistas epicurianos, ou sinceramente desilludidos, como a
Maria Helena.
—«D’essa é que tenho pena... quem me déra podê-la levar para a nossa
_republica_ de bons! O que terá feito o nosso velhinho agora assoberbado
com todo o trabalho?
—«Coitado! O que terá andado do hospital para o asylo, do asylo para as
obras!... Que fortuna foi obrigarem-no a sahir da igreja! É assim muito
mais util á sociedade.
—«Não ha nada para certos caracteres se depurarem e redobrarem de energia
como as injustas perseguições. Outros desanimam na lucta e ficam com a
vontade quebrada, como a pobre Maria Helena.
—«Eu acho a na mesma, filha.
—«Não acho eu, desespera-me aquella indifferença resignada que até lhe
fecha os olhos para o procedimento do marido com a Candida.
—«Que é infamissima, como sempre. Quanto mais a conheço mais se confirma
para mim a opinião que formou d’ella a Engracia. Na sua ingenuidade
de ignorante viu melhor do que nós todos. Quando lhe vejo o impudôr,
afigura-se-me que a Pillar a aponta ao meu odio.
—«Odio, não; ao teu despreso, João.
—«Tivesse eu a _certeza_, querida, que não sei se teria coragem de _só
despresar_. Quanto daria por essa certeza, quanto!
—«Não devias dar nada; a responsabilidade dos criminosos é tão limitada,
que ninguem tem o direito da vingança.
—«Oh, minha querida, isso não é bom theoricamente, mas criminosos como a
Candida, embora irresponsaveis, são um perigo social.
—«Mais do que ella são criminosos os Vilhegas ambiciosos e os viscondes
no seu papel de fina hypocrisia. E mais do que elles todos é criminosa
a sociedade que os acolhe e os cobre com a sua cumplicidade, que faz
d’elles ornamento respeitavel da sua vida.
—«Tens razão, mas a morte da Pillar foi um repelão do destino, tão
brutal, tão cruel, que ainda me faz ter ideias de vinganças, se penso que
houve culpados!... A sangue frio concordo, a sua morte não será vingada
porque ella mesma o não desejaria; de que serve esmagar uma vibora n’um
campo juncado d’ellas? Exemplos nunca emendaram ninguem nem eu creio no
arrependimento, sublime illusão de Christo. Cada um é filho do seu meio e
da sua ascendencia, producto hibrido que só a educação e a remodelação da
sociedade poderia orientar para o bem.
—«Jesus, lá vae o meu João ao extremo!...—respondeu Bella rindo
mansamente á sua exaltação e afagando-o carinhosa—não vale desanimar,
talvez de productos pouco contaminados d’esta floração pantanosa ainda
alguma coisa se possa retirar para o novo campo saneado e moralisado.
—«Tudo isso para eu confessar que foi um acto de bôa politica acceitar
bondosamente a collaboração da pequena Costa e das Sebastianas, não é
verdade?
—«Coitadas, essas não fazem muito mal ao mundo. Mas o que me interessa
sobre tudo é a pobre Maria Helena. O que dirá ella em sabendo das
relações do marido com a Candida?
—«O que hade dizer? A situação na sociedade em que vivem, está tão
vulgarisada que não lhe dará a minima importancia.
—«Não creio! É vulgar sim, tanto que nem chega a ser escandalo, mas é
estupido para uma mulher honesta que tem invencivel repugnancia pela
mentira reconhecer que tem vivido rodeada d’ellas. Pobre Maria Helena!
Quando a vejo tão desgraçada, não sendo feliz nem fazendo feliz o marido,
podendo-o ser tanto com quem a ama e... ia jura-lo, ella ama tambem!
—«O dr. Ramalho?
—«Sim. Se houvesse divorcio tudo se liquidava bem.
—«É um triste remedio.
—«Mas sempre era remedio, e assim é a condemnação irremediavel das
mulheres honestas.
Calaram-se ambos olhando o céo scintillante d’estrellas, que um
vento fresco limpára de nuvens. Pelo Chiado passavam apressados os
retardatarios que tinham ido cear aos restaurantes. Raros garotos
apregoavam ainda os jornaes da noite humidos de tinta e cheirando
fortemente a papel impresso; um cautelleiro gritava n’uma melopeia
triste:—é o 3:499, amanhã anda a roda! Quem se habilita?... É o
3:499. Quem quer ser rico sem trabalhar tem o 3:499, tres... mil...
quatrocentos... e noventa e nove...—repetia na cantilena que todo o dia
tinha gritado pela cidade, que arrastava pela noite fóra como um pungir
de saudade e de vaga esperança...
Toda a psycologia dolorosa de um povo, vivendo de aventuras e de
milagres, alli estava no pregão do cautelleiro, inconsciente do bem e
do mal, cego como o destino que deu a sorte grande um dia a este povo
corajoso e submisso para, após longos annos de baldões, seculos de
aureas miserias, chegar á suprema inconsciencia de hoje.
—«Quem quer ser rico sem trabalhar?—isto é, quem quer viver para gosar de
todos os luxos e commodidades, sem comprar com o seu labor o direito de
possui-las?
Trabalhar, para quê?! Se foi a _sorte_ que nos guiou á conquista do
mundo; se é a _sorte_, a cega roda da fortuna que girando sobre si mesma
nos pode dar a fruíção dos gosos sem o cançaço do trabalho? Se é a sorte,
o arbitrio, o empenho, que eleva os nullos aos primeiros logares, e se é
na esperança d’ella ser favoravel uma vez, que todos, desde o operario
que arranca á sua miseria os vintens para a cautella até aos ricos que
põem nas despesas obrigatorias um bilhete da loteria grande, têm a vaga
esperança de um dia a _sorte_ lhes ser favoravel!... A fatalidade, a
sorte, o destino, são palavras de desânimo e resignação passiva, palavras
que trazem impressas em si mesmas a porção de sangue mosarabe que por cá
ficou...
A pouco e pouco toda a vida da cidade parou, suspensa por um pouco,
emquanto não começavam os varredores o seu trabalho de forçados.
As estrellas punham tremores nervosos na impassibilidade do céo, uma
aragem leve lembrava que a primavera ainda de todo não escorraçara o
inverno... João e Bella sentiam-se tranquilisar, como que adormentados
de espirito, longe do mundo que os irritava, muito alto sobre a cidade
adormecida.