Primeiro do que ninguem tinha o dr. José Ramalho chegado á estação para
esperar os viscondes, que vinham no ultimo comboio.
Mal se começavam a reunir os empregados, bocejantes, e os guardas tinham
apenas accendido os candieiros de petroleo, com as torcidas em bicos
fumarentos, que mal alumiavam a sala de espera.
—«Uma bôa estafa este comboio das onze da noite!
—«E hoje então que a Viscondessa hade trazer _pr’a-hi_ um _rôr_ de
bagagens!
—«Ficam _p’rá manhã_.
—«Isso ficam ellas!... O chefe, _antão_... Se fosse _cô oitros_, não
digo menos, mas _cô estes_ é todo _politicas_...—Conversavam dois
carregadores, encostados á hombreira da porta, na espera ociosa e
enfastiada que precede a hora da tabella, cortada a espaços pelo resoar
da campainha electrica que nos sobresalta alegremente como voz amiga que
já nos falla dos que esperâmos, dizendo-nos a sua aproximação.
O doutor estava, contra o costume, n’uma disposição de espirito
arrelienta, nervoso, maldisposto, com vontade de implicar e dizer mal.
Aproveitando a liberdade que o seu logar de medico da companhia lhe dava,
levantou o balcão e pela casa das bagagens atravessou para a gare, que
estava ainda em profunda treva.
—«Então o que é isto!? Hoje não accendem as luzes?—perguntou mal humorado
aos homens que o tinham seguido.
—«Ainda não deu a partida, senhor doutor.
—«Ora adeus! Accendam isso que são horas—commandou energico, emquanto os
outros, vencidos, iam de má vontade buscar um caixote para chegar aos
candieiros.
Começou de passear para acalmar os nervos, e de momento a momento parava,
olhava o mostrador de duas faces do relogio da estação, puxava da
algibeira o seu _remontoir_, e confrontava-os, achando sempre que ambos
deviam estar atrazados.
Chegava a Viscondessa, causa unica e involuntaria d’aquella agitação...
Para que negá-lo? Era um sonho de muitos annos, a porção incorporea
e ingenua do seu sentir, o ideal que lhe tornava supportavel a vida
trabalhosa, solteira de affectos. Julgavam-no egoista, solteirão
incorrigivel, todo avesso a phantasias amorosas, e afinal... Desde muito
novo que esbarrára n’aquelle sonhar impossiveis que lhe fechára olhos e
coração a qualquer outro sentimento.
Nunca sentira necessidade de confessar-lhe, nem a si proprio, mesmo,
quanto havia de profundo amôr no interesse que ella lhe inspirava.
Para quê, afinal? Era tão feliz na doçura tépida e confiante d’aquella
amizade fraternal, que nem mesmo queria averiguar o que de vulgar e
humano ella continha.
Para que perturbar esse enlevo com a materialisação d’um sonho, que na
realidade não passaria d’uma vulgar intriga?
Depois, a Viscondessa era d’uma honestidade tão simples e consciente,
e com tanta graça e tanta nobreza sustentada, que nem a sombra de uma
suspeita impura ousaria roçar-lhe pela alma. E era ainda por isso que
mais a estimava, que a adorava, quasi—porque era adoração o que sentia ao
vê-la tão serena e tão bôa, tão intellectual e distincta! Tinha vontade
de ajoelhar, silencioso, resignado, e até feliz na passividade do extasi.
Elle, que era um tanto rude na franqueza do dizer, achava, para as suas
intimas conversas de bons amigos, phrases d’uma tão carinhosa ternura
como só as sabe ter um coração de mãe.
Tão pouco humano, tão desinteressado era aquelle affecto, que não
sentia pelo Visconde a mais leve repulsão. Se não eram amigos, como era
natural que o não fossem, sendo tão fundamentalmente dispares, era-lhe
todavia dedicado bastante para o auxiliar politicamente, e para lhe
ser até agradavel a sua intima convivencia. Invejava-lhe um pouco,
talvez,—criancices de amoroso—a delicadeza do seu perfil aristocratico,
a maneira requintada de vestir, a simplicidade suprema com que punha o
alfinete de perola na gravata de setim preto, collocava uma flôr na
botoeira, guiava um carro ou fallava sobre arte.
Amá-lo-ia a Viscondessa por essas miudas preoccupações que tornam certos
homens tão queridos á maioria das mulheres?
Mas o Visconde não era sómente isso, e decerto a mulher, cujo espirito
adquirira com a convivencia vibratilidades d’artista, amava muito esse
homem, _dilletante_ na politica como na arte, colleccionador por moda,
um pouco litterato e um pouco _sportsman_; sempre distincto, invejado e
imitado.
Casados por paixão, era evidente que se amariam como no principio. E
era tão natural—pensava por vezes o doutor—primos chegados, a mesma
educação e tradição de familia, fortunas eguaes, não tendo uma recordação
que pelos dois não fosse partilhada, deviam amar-se e ser felizes como
pareciam, como toda a gente queria, apezar da delicada reserva com que se
abordavam.
Pensava incoherentemente todas essas coisas, percorrendo em largas
passadas regulares o restricto espaço da plataforma onde chegava a luz.
Toda a tensão de nervos se lhe conhecia no mordiscar febril do charuto e
no franzir da testa a cada momento.
Assim se conservava ainda, quando a _gare_ foi invadida pelas pessôas
importantes da terra, que vinham, como elle, esperar os viscondes. O
Braga, azafamado, empurrando todos, grosseirão e bruto, n’uma grande
preoccupação de ser sempre o primeiro. O Neves, o Domingos, as meninas
Souzas e as Costas, com vestidos d’um exagero que pretendiam ser a moda,
olhando-se invejosas por cada fita ou flor a mais que qualquer d’ellas
pozesse.
Até as sr.ᵃˢ Rebellos, com chapéos de repolhudas flores vermelhas atados
ás velhas caras rugosas, que o pó d’arroz tentava amaciar; o juiz,
arrastando a perna gottosa encostado ao chapéo de chuva e á bengala,
tencionando já pedir desculpa pela falta da mulher, motivada por doença,
diria, mas em verdade porque não quizera alugar carro, e assim, a meias
com o delegado, o dr. Pinto e o escrivão sahia-lhe mais barato. Não, que
era preciso fazer economias, desde que os emolumentos do crime se iam
pela agua abaixo e era uma raridade um bom inventario...
Depois, ainda, os partidarios certos do visconde e aquelles que não
sabiam ainda para onde se virar.
O doutor, que estava sempre disposto a aturar aquella gente com a
inestancavel paciencia de medico e de politico, não poude n’essa noite
vê-los sem que o espirito se lhe confrangesse n’uma repulsão instinctiva,
que o fez affastar para a sombra, propositadamente, com vontade de
criticar, de ter alguem com quem podesse fallar, alguem de muita
confiança que o desculpasse sem tentar comprehender aquelle estado de
espirito, que torna os homens, mais do que as mulheres, intractaveis em
questões de amôr.
Quando por fim o João appareceu, foi-lhe ao encontro, de mão estendida,
sem se importar com os outros.
—«Já cá estava, e eu fui por sua casa para o trazer no carro—disse-lhe
logo o João.
—«Obrigado pela lembrança; não tinha que fazer, vim a pé por ahi abaixo.
Se soubesse que tinha tão bôa companhia, esperava, decerto. Mas o
agradecimento é o mesmo.
—«Não tem nada a agradecer, o favor era para mim. A mamã pediu-me para
acompanhar a Candida e como o _tête-à-tête_ me não é agradavel ia
procurar o meu amigo para o trazer comnosco.
—«E vieram juntos? Desculpa a curiosidade.
—«Vim a governar, e ella dentro. Espere... Venha cá,—levados naturalmente
por egual desejo de solidão, tinham-se refugiado na sombra, e d’ahi vira
o João chegar o Vilhegas junto da Candida, que se endireitava soberba, em
plena luz—repare com que intimidade elles se fallam!... E ainda o doutor
diz que não ha nada! Dava tudo por os ouvir!...—Agitadissimo apertava o
braço do medico, como se quizesse com a poderosa tensão do seu espirito
aprehender as palavras que os outros a distancia trocavam.
A Candida, ainda de preto,—que teimava em usar porque descobrira que lhe
adelgaçava o busto cheio, e lhe fazia sobresahir o brancomate da pelle e
o castanho loiro dos cabellos,—estava formosissima.
Alta, silenciosa e grave entre a multidão remexida das pequenas
provincianas, com um grande chapéo de rendas e plumas todo preto a
completar a _toilette_ muito leve e custosamente simples, e com o seu
glorioso ar de desdem, ella era na verdade a soberba materia que
avassalla as almas.
O Emygdio curvou-se rendido.
—«Onde esteve hontem?—murmurou incisiva, irritante, tratando-o
propositadamente por senhor.
—«Hontem, hontem...
—«Não se canse a procurar mentiras. Sei que foi a casa do Maximiano.
Fallou com M.ᵉˡˡᵉ Hortense?...—frisou, ironica.
—«Quem t’o disse?
—«Que te importa? Sei que foste; se lá voltas acabarei com tudo.
—«Mas isso é um desproposito; fui lá, é verdade, mas só vi o Conselheiro,
juro-te!—tentava convencer, afflicto, temendo que n’um d’esses ataques de
ciumes ella o compromettesse escandalosa e irremediavelmente.
Perdê-la, quasi o não incommodava já. Era formosa na verdade, mas d’uma
exigencia tão absorvente que ha muito o desgostára, a elle que não era um
artista que pozesse na belleza a aspiração suprema da sua idiosyncrasia.
Desde a morte da Pillar que tentava fugir-lhe, mas, sem um pretexto que o
desculpasse, agarrara-se agora áquelle da vinda do João e á necessidade
de por isso espaçar as visitas para fugir um pouco áquella pressão
esmagadora.
A sua intelligencia inferiorisada pela ambição obscurecia-se por completo
n’um pavor de tortura, quando assim a via imperiosa e enygmatica,
fascinando-o apezar de tudo.
—«O que dizes?—perguntou com ironia, olhando-o d’alto.
—«Decerto não irei sempre, mas...
—«Ah!... Oh sr. Braga—chamou ella o velho, que a contemplava embasbacado
havia momentos, coisa que lhe não escapára—quer acompanhar-me até junto
de meu primo?
—«Oh, minha senhora!—gaguejou o ricaço, offerecendo presuroso o braço
onde ella mal tocou com a ponta dos dedos enluvados.
Com a sua grossa mão vermelhuça puxou-lhe o braço para cima e não soube
senão dizer com uma ternura bruta:
—«Que felicidade, que felicidade!...
—«O quê, sr. Braga, acha felicidade que eu lhe peça um favor?
—«Se acho! Dava contos de réis para que fosse toda a vida assim!—córado
até ao extremo violaceo da apoplexia, esforçava-se por dizer alguma coisa
que podesse agradar áquella mulher, que havia uns tempos, desde que o
Padre Mathias na botica velha dissera aquellas coisas, lhe andava a pôr
doida a cabeça; que d’antes só as cifras enchiam.
—«Tanto dinheiro por uma coisa tão insignificante e tão natural!... Não
valia a pena, sr. Braga!—respondeu meiga, com uma voz quebrada que acabou
de atordoar o homem.
—«Lá isso valia, até tudo o que tenho! E olhe que é _p’ra_ mais de
duzentos contos—regougou o animal.
—«E vive aqui!...
Um apito prolongado do comboio ao longe terminou as conversas, na
mesma curiosidade de todos que aguardavam os Viscondes, trazidos por
desencontrados desejos e interesses.
—«Como viria vestida a Viscondessa?—perguntavam as mulheres.
—«Como os receberia o Visconde—a si mesmos perguntavam os homens que na
politica punham a sua ambição.
A machina avançava, cuspindo brazas, offegante, deixando fugir a força
com o vapor que se lhe ennovelava em cabelleira. As lanternas vermelha
e amarella furavam a noite como dois olhos de monstro phantastico que
avançava esbaforido, chocando-se em traquinada de molas e correntes.
Na plataforma todos se agitavam, adiantando-se, querendo ser vistos
primeiro. O chefe empertigou-se com a bandeirinha verde na mão, obrigando
com o seu gesto imperioso a retirar os mais atrevidos. Atraz da machina
seguiram os wagons carregados de saccos fedorentos de guano para as
terras, depois as bagagens, a terceira classe com soldados e maltezes
que vinham das ceifas do Alemtejo, estremunhados, espreguiçando-se ás
janellas... E o comboio, que mal se arrastava já sob a pressão dos
travões, parou por fim n’um choque que se prolongou até ás ultimas
carruagens.
O wagon-leito ficou um pouco acima e todos correram açodados a
cumprimentar o Visconde, que se apeou logo, esbelto ainda, mesmo bonito
homem apezar dos cabellos que iam branqueando na aproximação dos
quarenta. Mal puzera pé em terra e logo os vigorosos braços do Domingos o
apertavam n’uma expansão perdoavel a um partidario tão intransigente.
O Visconde deixava-se abraçar por todos, tendo uma palavra para cada um,
sorrisonho e amavel, apezar d’uma vaga sombra de cansaço, sustentando com
distincção o difficil papel de politico acclamado pelo seu burgo.
Logo a seguir appareceu a Viscondessa, á portinhola, vestida de azul
escuro, gravata de seda branca, chapéo que uma simples fita enfeitava,
sorrindo bondosa, recebendo com egual deferencia todos os cumprimentos.
Só quando o dr. Ramalho e o João conseguiram aproximar-se é que a sua
physionomia muito movel se abriu n’um lampejo de sincero contentamento.
Acceitando as mãos que ambos lhe offereceram saltou para o chão, dizendo
n’um sorriso de intimidade que raro prodigalisava:
—«Já me tardavam!... Como tem passado, doutor?... Como está tua mãe, João?
—«Como a prima pode imaginar!...
—«Sim, faço ideia! Se ámanhã a mamã não estiver muito fatigada irei
abraçar a minha pobre Josephina.
—«Como é bôa e como lho agradeço—murmurou o João commovido.
—«A sr.ᵃ D. Genoveva fez bem a jornada?—interrogou o medico cuidadoso.
—«É muito longa, deixa-a fatigada por uns dias, mas apezar d’isso não
está mal. Para se não incommodar com cumprimentos, pedi-lhe que ficasse
na carruagem com a D. Luzia até nós retirarmos.
—«Foi bem pensado. É preciso a maior cautella com aquelles
nervos—respondeu o dr. Ramalho.
—«Nervos?!... Emfim, pode ser!... Mas venham cá; vem cá, João, que te
quero apresentar uma pessôa que muito estimo.
—«E que eu não conheço?—«Nem eu tambem?—inquiriram os dois a um tempo.
—«O doutor conhece, tu é que não—e voltando-se chamou para dentro da
carruagem—«oh Bella!»
—«Estava a procurar a minha malinha na confusão das vossas malas,
malinhas, embrulhos, cabazes... Sei lá o que para ahi vem!—veio dizendo,
ao mesmo tempo que saltava da carruagem, uma delicada figura de mulher,
vestida de flanella branca riscada de azul, chapéo remador de palha
branca, collarinho e gravata, e no bolso do casaco o lenço de linho fito,
n’um geito um tanto masculino.
—«Oh meu caro doutor, como está, como tem passado desde o
inverno?!...—dirigiu-se ao medico, n’uma grande expansão de amizade, a
que elle correspondia affectuoso.
—«Minha filha—sorriu a Viscondessa—guarda para logo os teus comprimentos
ao doutor, que já é conhecido velho, agora deixa-me apresentar-te o meu
primo João de Mello.
—«Escusas de dizer mais, conheço-o perfeitamente—respondeu séria,
estendendo-lhe a mão, para um _shake-hands_, á ingleza, e dizendo com uma
naturalidade encantadora.—A Maria Helena descreveu-mo de tal maneira que
o reconheceria em qualquer parte.
—«Se tu o conheces—acudiu a Viscondessa, rindo—não te conhece elle,
que não teve quem, tão bem como eu, te descrevesse. É preciso
apresentar-te:—Isabella Burns, a minha maior e melhor amiga.
—«_Certainly_—terminou rindo Isabella.
—«Podemos partir—veio dizer o Visconde.
—«Quando quizeres.
—«Entrega a relação das bagagens ao Bernardo. Como o comboio não passa
hoje d’aqui, não haverá confusão.
—«Pois sim.—Abrindo a carteira de coiro da Russia onde brilhava o oiro
do monogramma e a corôa, tirou um papel que entregou ao administrador,
curvado para receber as ordens e comprimentar Sua Ex.ᵃ:—Veio o _coupé_
para minha mãe?
—«Sim, sr.ᵃ Viscondessa.
—«Tenha cautella, Bernardo, olhe se os cavallos estão folgados que vão
muito depressa...
—«V. Ex.ᵃ pode confiar em mim.
—«Bem sei, tenho toda a confiança no seu juizo, mas por isso mesmo não
quero que entregue esta obrigação a ninguem.
—«V. Ex.ᵃ pode ir descançada.
—«Bem, bem—e voltou ainda á carruagem, a fazer as mesmas recommendações.
—«Quem é aquella senhora que o Visconde cumprimentou?—perguntava
Izabella, acceitando o braço de João.
—«É minha prima.
—«Apresenta-ma?
—«Da melhor vontade, mas... perdôa-me a indiscrição d’uma pergunta? Para
que deseja essa apresentação?
—«Ora para quê!? Porque é muito bonita e quero admirá-la de perto. Ri-se?
—«Não rio; é que acho um pouco estranho esse desejo.
—«Estranho em quê? Eu admiro a belleza, e onde quer que a encontro gosto
de a contemplar.
—«É que, em geral, as senhoras não costumam fallar com essa justiça da
belleza das outras.
—«Que me importa o que as outras fazem, se eu não sou como ellas?!...
—«Tem cautella, João, olha que a Bella faz da vida um paradoxo e a maior
parte das vezes não pensa exactamente o que diz—disse a Viscondessa, que
vinha logo atraz pelo braço do doutor.
—«Agora é sómente o que penso, sem exaggero nenhum. Desejar vêr de perto
uma mulher bonita, parece-me que não é nada extraordinario. Vá, venha
apresentar-nos.
Como se tornava impossivel alcançar o Visconde e a Candida, apertados e
embaraçados por toda aquella gente que queria sahir a um tempo, chamou
alto o Visconde, que se voltou logo e esperou com o seu amavel sorriso de
homem galante. E foi alli, entre o gargalhar de toda aquella gente que se
sentia feliz da sua propria importancia, que o João apresentou a Candida,
um pouco contrafeita sob o claro olhar perscrutador de Izabella.
—«A sr.ᵃ D. Candida quer dar-nos a honra de ir na tua carruagem—disse o
Visconde á mulher.
—«Com o maior prazer.
—«A sua carruagem é fechada, Visconde?—Bella interrogou.
—«É esta _victoria_, que trouxeram fechada, não sei para quê.
—«Que pena, com uma noite d’estas!—sahindo para fóra, continuou—mas de
quem é então aquelle _phaeton_ tão bonitinho?
—«É meu, e se me atrevesse punha-o á disposição de V. Ex.ᵃ—respondeu João.
—«Mas porque se não hade atrever?! Ah!...—E, como fallando comsigo,—que
sensaboria!
—«O que dizias?—perguntou a Viscondessa.
—«Nada!... Olha lá, parecerá mal ir no carro de teu primo—disse a meia
voz, n’uma resposta que era uma pergunta.
—«Sósinha, não... Mas pode ir mais alguem, parece me que são poucos os
carros para tanta gente.
—«Pode ir o doutor...
—«O doutor, não—emendou o João apressado—como V. Ex.ᵃ prefere o meu
carro, vae o dr. Ramalho com os primos e eu vou convidar as sr.ᵃˢ
Rebellos e o Domingos que vieram a pé.
—«As manas Rebellos e o boticario, não é? Já conheço tudo por tradição;
chame-os depressa, olhe que fogem,—apressou Izabella, batendo as palmas
satisfeitissima, empurrando-o quasi para o lado onde o Domingos e as
cunhadas já estavam fazendo as suas despedidas ao Visconde.
Pouco depois, todos acamados como foi possivel, puzeram-se as carruagens
em marcha com a gravidade ceremoniosa d’um casamento pomposo.