O dr. Ramalho—homem de trinta e oito annos, mais insinuante do que
bello—fôra para alli logo ao sahir da Universidade, era a Pillar
ainda uma criancita a quem beijava e contava contos. Vira-a crescer
com o desvanecimento d’um pae ou irmão mais velho, não a considerando
mulher senão quando ella lhe confessou, n’um impeto de franqueza, o
seu enthusiastico amôr pelo Emygdio. Um d’estes amôres romanticos de
rapariga, que sente um prazer morbido de sacrificada em offerecer ao
homem, julgado infeliz, todas as alegrias e felicidades da terra. O dr.
Ramalho tentára então tratá-la com ceremoniosas excellencias, o que a
fazia rir perdidamente, terminando por lh’o prohibir.
É que a intimidade acarreta mais vezes affeições assim ternas e simples
do que traz o amôr—paixão.
N’esta altura abriram-se as camaras e o dr. Ramalho, que era deputado,
teve que sahir para Lisboa.
Á despedida animára os paes, dizendo lhes que, a pleuresia aguda estando
vencida, ella ficava livre de perigo e bem entregue aos cuidados do
collega; mas se sobreviesse qualquer imprevista recahida o chamassem
logo. E terminava em confidencia—«o abalo physico foi tão forte e a
fraqueza é tanta que ha muito a recear um desequilibrio nervoso, que
temperamentos como o d’ella teem sempre mais ou menos latentes. Que era
urgente uma radical mudança em toda a sua vida... Que apressassem o
casamento. A realisação d’esse ardente desejo do seu coração havia de a
curar.
Os paes concordaram de boa vontade em apressar o casamento; tudo quanto
a filha desejasse elles fariam para a melhorar. Mas a doente sorrindo
desdenhosa á proposta e olhando o Emygdio que a fitava ansiado e a
Candida que se fingia desinteressada da conversa, respondeu que não tinha
pressa, que havia muito tempo... queria que o João assistisse, queria
melhorar de todo...
Desde esse dia é que o Vilhegas se mortificava a procurar o motivo
d’aquella mudança da noiva, que lhe roubava assim a fortuna ambicionada
quando elle já estava de mãos estendidas para a agarrar.
Redobrou de cuidados e de medicamentos, mas a Pillar, em vez de melhorar,
de dia para dia se mostrava mais enfraquecida, mais desanimada e perto
da morte. Quando os paes, cheios de dôr, fallavam em mandar vir o dr.
Ramalho, ella oppunha-se, chorava, dizia que estava melhor, e que
se elles o queriam chamar é porque a julgavam muito mal, em estado
desesperado...
Sabia-se condemnada, e comprazia-se em ver o Vilhegas soffrer sósinho,
na impossibilidade de a curar; e elle, vaidoso, preferia tambem ser o
unico a tratá-la para assim ganhar o terreno que sentia esboroar-se-lhe
sob os pés. Queria illudir-se, não vendo que a noiva tinha na face, quasi
cadaverica, um sorriso torturado de quem tudo comprehendia; e morria
vingada porque a sua morte era o castigo d’elle. Á Candida sabia bem
que o não deixava; conhecia-o agora ambicioso e vulgar tal qual era,
incapaz de se sacrificar por uma mulher ou por um interesse que não fosse
exclusivamente seu.
Morria, a pobre, mais por ter visto morrer o seu ideal do que pela doença
que lhe consumia o corpo.
Não lhes dizia nada, sentindo um mortal prazer em vê-los estorcer-se na
incerteza e no pavor. Crueldade verdadeiramente humana e bem desculpavel
a quem soffrera esse despedaçar de illusões em que corpo e alma se lhe
caem esphacelados.
Tinha dias d’uma passividade dolorosa em que era impossivel, mesmo á
propria mãe, arrancar-lhe uma palavra ou um gemido; outros em que fallava
e ria, mas de tal maneira confrangida e amarga, que antes a preferiam nos
dias de maior tristeza.
Tudo n’ella se transformára ou modificára. O proprio affecto pela mãe,
que era d’antes mais respeitoso do que carinhoso, tornára-se n’um grande
amôr apaixonado de quem se refugia, mortalmente ferido, no logar em que
a acolhida é mais amoravel e certa. Queria-a ao seu lado, sem fazer nada,
toda embebida a olhá-la, enchia-a de caricias, e atormentava a com as
palavras de mais desconsolador desânimo.
—«Oh mãesinha,—dizia lhe um dia—se não fosse o João, pedia-te, e ao papá
tambem, para morrerem commigo. Querias?!...
—«Oh meu anjo, mas tu não hasde morrer. Para que pensas n’essas tolices?
Não vês o que diz o Vilhegas? A tua doença tem muito de nervoso, hade
passar, verás!...
—«Pois é, eu sei... mas dize: gostarias de morrer commigo?
—«Oh se gostava! Que maior felicidade pode haver para uma pobre mãe?!...
Não deixar n’este mundo egoista e mau os filhos do seu coração, não os
vêr partir levando-lhes a alma?!...
—«Pensas como eu, somos bem irmãs no sentir! Se tivesse filhos... Oh!
se tivesse um filho!...—os olhos enchiam-se-lhe de lagrimas, com uma
grande magua de virgem que sente que todo o seu ser se revolta vendo-se
privada injustamente da mais alta, nobre e bella das alegrias femininas,
o orgulho de ser mãe.—Olha, se eu tivesse um filho havia de amá-lo assim.
Ficava-se horas esquecidas deitada sobre os joelhos da mãe, não podendo
sentir nem o barulho d’um relogio sem gritar que lhe espetavam alfinetes
no cerebro. De dia para dia peorava e a irritabilidade nervosa augmentava
a ponto de a pôr a cada instante em crises de soluços e lagrimas que lhe
avermelhavam a bocca com o sangue que os pulmões não comportavam já.
Emygdio, desanimado scientificamente, queria conservar a todo o custo uma
illudidora esperança; d’essa esperança sem base que está no intimo de
todos os seres humanos, inferiores ou superiores, eternas crianças que
somos, só fortes á custa de raciocinio e vontade consciente e educada.
Mas n’essa manhã desconsoladora de inverno, vira-a tão desmudada e
cadaverica, que desanimára de todo. A correr se dirigira ao telegrapho
para chamar o dr. Ramalho e para alli voltára logo e alli se conservava
na espectativa do grande desastre.
Os paes encaravam-se espavoridos, sem manifestação de sentimento, porque
a dôr quando assim forte é como anesthesico para o espirito que se
concentra no ultimo reducto da esperança, no impossivel, no milagre...
A noite cahia com a lentidão pastosa das tardes de chuva, que se afogam
em lama silenciosamente. Os criados, em bicos de pés, accendiam as luzes
indispensaveis para o serviço, trocando phrases a meia voz em que a
palavra morte se repetia já como um dobre de sinos, e soluços abafados
se suffocavam. Por toda a casa pesava o mesmo silencio funebre que se
presentia cheio de gritos prestes a explodir...
O Emygdio, junto da janella, olhava inconsciente a sombra rapida que
crescia no jardim, as arvores encharcadas pingando no chão já empoçado,
as hastes despidas de folhagem enlaçando n’uma alliança macabra aquellas
que o inverno não pode desnudar nas suas furias loucas. Como era
differente o aspecto do jardim, n’essa amorosa noite de outomno, a
ultima em que estivera com a Candida, aquella em que a Pillar adoecêra!...
Do quarto da doente vinha um murmurio de vozes, que se differençavam.
Todas as vezes que a da Pillar, um pouco rouca, já estortorosa, se ouvia,
elle enterrava as unhas nas palmas das mãos, n’um desespero de vencido.
Ella soluçava n’esse momento, deitando os braços ao pescoço da mãe como
se quizesse agarrar-se ainda á vida que lhe fugia:
—«Soffro, soffro muito!... Vão chamar o papá! Quero ver o João... Tenho
medo, mãe, tenho medo!...
—«Medo de quê, filhinha? Estou eu aqui, não vês?...—respondia-lhe
estrangulando os soluços a triste mãe.
—«Não sei!... Tenho medo de tudo!... Queria morrer sem ver chegar a
morte!...
—«Não hasde morrer, meu anjo! Deus terá piedade de nós!...
Hallucinada, reerguendo-se da cama, respondeu arquejante:
—«Não lh’o peças, ouviste? Podia attender-te, e eu não quero viver, não
quero!...
Vendo a angustia da mãe cahiu em si, e rouquejou um soluço de perdão.
—«A Candida?—inquiriu n’um cicio, d’ahi a momentos.
—«Está lá dentro. Tráta-la tão mal, que a pobre menina não se cança de
chorar.
—«É da doença,... Trato mal todos, a ti tambem.
—«Não digas isso.
—«Trato, bem sei... Mas tudo vae mudar em breve... Serei tão bôa... Vae
chamá-la, que venha, que pode vir... Não lhe farei mal...—Tão amarga
ironia resumbravam estas palavras que mais pareciam o riso funebre d’uma
caveira.
A Candida entrou sob a gelida impressão de quem entra como réo avergado á
culpa, n’um tribunal em que a consciencia é juiz inilludivel e implacavel.
Presentia que o momento solemne das explicações chegára inappelavelmente
e não podia avaliar o resultado final d’aquella entrevista que a podia
atirar para a miseria mais desoladora, a dos incapazes para o trabalho.
A doente entreabriu os olhos, acenou á mãe e á Engracia para sahirem, e
ficou só com a prima. Fixou-a em silencio, com os grandes olhos pasmados
dos moribundos, vendo-a estorcer-se n’um supplicio sem ousar avançar nem
recuar, querendo fugir á suggestão d’aquelle olhar que a condemnava mais
do que a sentença d’um juiz.
—«Vem...—murmurou por fim a inferma.
Deu dois passos cambaleando e foi cahir de joelhos junto do leito onde a
Pillar arquejava, levantando-se n’um esforço supremo de vontade, fincando
o cotovello direito nas almofadas.
Vendo-a tão proxima de si, teve um instinctivo movimento de repulsa, mas,
vencendo-se logo, poude agarrar-lhe o pulso com tudo quanto lhe restava
de vida:
—«Mataste-me, lembra-te d’isto... Sei tudo!... Vi tudo!
N’um arranco tragico, gaguejava palavras entrecortadas, que nada diziam,
nada do que ella queria talvez dizer. N’um esforço prodigioso de energia,
empurrou a prima, sentou-se na cama, e estendeu os braços no vacuo; logo
a seguir retezou-se toda, cahindo sobre a ruma d’almofadas que lhe tinham
feito supportavel a cama.
O aspecto da pobresita era terrificante, olhos escancarados como se
procurassem a luz que lhes fugia, a camisa desabotoada descobrindo as
claviculas descarnadas, a bocca augmentada pela emaciação contrahida n’um
rictus doloroso, e a pelle a que a luz da lamparina dava um tom azulado
enrugada como velho pergaminho. Os braços descahiram-lhe ao longo do
corpo e as pequenas mãos transparentes arrepanhavam a roupa...
A Candida levantou os olhos que baixára para fugir á obcessão d’aquelle
olhar condemnatorio, e a impressão de horror foi tal que d’um salto se
pôz á porta, clamando pelo Emygdio, que vira no quarto proximo.
—«Perdidos, perdidos—murmurou n’uma voz que o terror fazia trémula e
soluçante como se um frio intenso a sacudisse.—Diz que a matámos, sabe
tudo... vae dizer aos paes!...
O rapaz recuou tambem aterrorisado, até á porta, poz-se a considerar o
pequeno volume que o corpo, que fôra uma tão harmonica conjugação de
linhas graceis, reduzido á miseria d’um esqueleto sem fórma, fazia sob a
cobertura.
Rodeada de luxo e mimos, cheia de esperança e de alegria, intelligente,
boa, educada; um pequeno nada bastára para a matar—uma traição tão
grosseira e vil, que n’esse instante duvidava até que a tivessem
praticado...
Matára-a, bem certo que a matára, com o seu procedimento d’uma maldade
e estupidez revoltante e com a covardia de não querer ver o mal quando
talvez fosse ainda tempo de o remediar...
Tudo quanto na sua alma havia ainda de honesto estremecia de pavor e
remorso; depois todos os seus sonhos de grandeza se evolavam n’uma
debandada de desânimo: Tanto sacrificio pela Candida... se valia a pena!
Olhou a, pareceu-lhe como nunca formosa, d’uma imponente formosura
dramatica de Magdalena de Rubens, mas como nunca tambem a ideia de não a
esposar se apresentou nitida no seu cerebro.
Foi ella quem primeiro readquiriu todo o seu sangue frio, abeirou-se da
cama para tocar na mão que a prima conservava fóra do leito, na esperança
talvez de a sentir enregelada pela morte, incapaz de se levantar para a
apontar como traidora.
A moribunda, como se áquelle contacto fosse chamada á vida, abriu os
olhos desmedidamente, que eram já como janellas rasgadas para o mysterio;
conheceu os dois rostos lividos de medo que a fitavam, e sorriu, com um
despreso tão fundo, tão vincado nas pregas d’essa ultima mascara de vida,
que mais parecia petrificada.
Os dois recuaram espavoridos, apertando-se um contra o outro,
procurando-se para se protegerem mutuamente d’esses olhos de moribunda
que os fitavam, que os perseguiam como se quizessem levar para a terra
a imagem dos assassinos, bem juntos no mesmo crime, bem apavorados e
martyrisados por essa suprema vingança da morte.
Então, ao mesmo tempo que o corpo se lhe dobrava para traz e o queixo
descahia já sem vida, soltou um gemido tão estortoroso, tão rouco e tão
espantosamente exprobatorio, que a Candida fugiu a gritar, com a cabeça
perdida, pondo em toda a casa o desespero que o respeito pela moribunda
tinha contido até ahi.
O Emygdio foi cahir de joelhos junto da morta, e tentava fechar esses
olhos que o endoideciam.
Mas as palpebras oppunham aos seus dedos trémulos uma resistencia fria
de coisa morta. Carregava com força, brutalmente, com risco de estoirar
as pupilas, mas quando levantava os dedos elles lá estavam envidraçados,
n’um espanto tragico e vasio.
Era uma preoccupação independente da sua vontade, uma infantilidade
quasi, parecia-lhe que se ficasse assim de olhos abertos toda a gente
n’elles poderia ler o seu crime. Não ouvira tantas vezes contar, quando
criança, que assim se vingavam as victimas dos seus algozes?!... E que
extraordinaria vingança aquella! Conservar eternamente nas pupilas sem
vida a imagem de quem lh’a tirára!...
Não era o medico, o homem de sciencia que alli estava, hesitante,
enraivecido, todo em lagrimas; era um criminoso vulgar cheio de sustos e
preconceitos.
V
O sol fôra inclemente em todo esse dia de julho.
Anoitecia, e, apezar d’isso, nem a mais leve viração se levantára
consoladora a arrepiar, n’um trémulo de caricia, a folhagem das arvores,
que tinham o banal aspecto de plantas de folha pintada a que o tempo e a
poeira debotára a côr.
Na paysagem de serras e fraguedos, que o homem conseguiu cultivar e
esplanar em sucalcos successivos, os restolhos punham manchas de oiro
no verde sombrio de agreste vegetação; e o céo, d’um azul que o proprio
calôr velára, tornára-se vermelho sanguineo, agora, que o sol desfallecia
no poente.
Os jornaleiros recolhiam silenciosos aos casebres, sem riso ou cantiga
que alliviasse penas, mortificados pela trabalheira rude das ceifas
e malhas sob a rudeza d’um sol impiedoso. Nem as raparigas na fonte
gargalhavam, como de costume, emquanto a agua, correndo muito lenta e
diminuida, lhes enchia os cantaros de barro.
Só muito ao longe, pelas quebradas da serra, resoavam os chocalhos
dos rebanhos indo para o pasto e a flauta do pastor a guiá-los até á
madrugada,—que depois a calma aperta e os pobres animaes, de agoniados,
nem podem comer. Mais longe ainda, o chiar rangente dos carros de bois,
como um longo gemido angustioso... Dir-se-hia que todas as coisas
soffriam do calor asphyxiante e cahiam n’uma invencivel preguiça de viver.
É pequeno o verão nas montanhas—alguns dias de julho e agosto, quando
muito os primeiros de setembro—mas esses são pezados, infernalmente
longos e ardentes, sem nenhuma compensação e consolo de leve aragem
pelas tardinhas. Em casa abafa-se, não ha sombra que resista á subida do
thermometro quando o mercurio chega á linha do Senegal, n’um escarneo a
paizes temperados. Na rua, noite alta mesmo, não se sente nenhum allivio;
da terra sóbe uma baforada quente de fornalha, que afflige.
Abafa-se... mas é moda ir-se em julho para lá, não obstante ser
infinitamente mais agradavel um canto de praia—onde o mar põe levezas de
ar salino e um frescôr de permanente banho de espumas, as gaivotas veem á
babugem da agua gritar as sonoras alegrias das coisas simples e humanas,
e os olhos navegam longe, com a amplidão suggestiva das azas e das velas.
E passam na cidade,—n’aquelle afadigamento de distracções e afazeres,
que chegam a ser monotonos á força de repetidos—os que obedecem á
moda por preguiça intellectual de pensar e querer, os dias criadores
de primavera—quando os caminhos lá das serras se alcatifam de musgos
velludosos, as arvores se cobrem de flôres e verduras tenras, e as
nascentes correm mais abundantes e limpidas da rocha viva; quando as
andorinhas se acasalam e toda a natureza canta o grande hymno magnifico
da vida é que a montanha se torna acolhedora e falla ás almas, como uma
bôa e amorosa mãe.
Mas... não está decretado pelo habito dos que dão a nota de elegancia em
todos os actos da vida ainda os mais intimos e graves, e por isso a villa
estava radiante com os seus hospedes de verão.
João de Mello atravessou melancholico e vagaroso o largo da Fonte e
dirigiu-se á botica velha, onde o sr. Domingos José da Silva se debatia
contra o calor e distillava suor em mangas de camisa, como se tivesse
sobre as costas pezada armadura medieva. Soprava em bochechas de
affrontado, limpava a cara ao tabaqueiro de ramagens, escancarava os
braços como a arejálos, e cahia esfalfado n’uma cadeira para se levantar
incontinente como se tivesse por assento um brazeiro inquisitorial em vez
de innocente palhinha.
—«Oh meu querido sr. João de Mello—berrou descompassado, mal viu assomar
á porta a figura melancholica do rapaz—quanto folgo, quanto folgo de o
ver! Cuidámos que não queria nada _cô a gente_.
Abraçou-o expansivo e correu dentro a chamar o filho para accender as
luzes. Estava radiante com a visita do feliz herdeiro de quinhentos
contos, a melhor casa da comarca em dinheirinho de contado e bôas terras
livres, sem fallar nos fóros que se recebiam sem conto pelo S. Miguel
de cada anno. Era bôa, talvez mais extensa em propriedades, a casa do
Visconde, mas a politica como as demandas e o jogo onde entram fazem
largo rombo... Estas e outras considerações expunha elle á mana Joaquina,
sentados á fresca, sob a parreira do quintal.
—«Muito bôas noites, sr. Domingos; eu venho...—tentou dizer o João.
—«Espere, espere que já o attendo. Deixe-me cá chamar a mana _qu’ella_
está morta por o ver! _Inda honte_ tinhamos fallado, ora a graça! Ó
_Jêquina_!...—gritou para cima, para o primeiro andar, e voltou logo a
reprehender o filho porque a torcida mal cortada enegrecia a manga do
candieiro de latão.
—«Nós cá sabiamos que chegou na segunda feira. Não se pode fazer moeda
falsa, tudo se cá sabe...—Estrondosa gargalhada completava a phrase. E
depois, sem interrupção—disseram que ninguem lhe punha a vista em cima,
_qu’anda_ assim como amalucado, macambuzio... Então que vem a ser,
_soidades, soidades_, hein?!...
—«Olha o sr. Joãosinho, o meu _Janequinho_!—entrou dizendo e arrastando a
sua perna trôpega a sr.ᵃ Joaquina Ritta—uma sua criada, para os servir e
louvar a Deus Nosso Senhor, continuava ella a dizer para se apresentar.
—«Vê lá que _home_ ahi tens, a fazer a gente velha!—dizia emphatico o
boticario.
—«Pois está um _homezarrão_, está! Quem o conheceu e quem o vê! Faz uma
pessôa velha, nem já se lembra da gente, nem das tardes que passava
a cavallar no quintal com os rapazes?! Sempre era um diabrete! Mais
traquinas inda não vi! A mana é que não, sempre foi um _peringalhinho_
que não prestava para nada. O que ella queria era sentar-se ao pé de mim
a costurar ou a ler aquelle meu livro da _Felor de Maria_, do _Renhónhó_
e da _Cúrúja_. Não se lembra, ás vezes ao serão ao pé da brazeira? Um
botãosinho d’aquelles tinha uma pausa na leitura _caté_ a gente chorava
com as fallas do principe _Rodolpho_.
Os _Mysterios de Paris_, com suas gravuras baratas, e a cartilha do
_Mestre Ignacio_ eram toda a bibliotheca da sr.ᵃ Joaquina Ritta. A muita
leitura de romances e casos sentimentaes, parece que embota o coração,
pois a bôa mulher possuia sómente aquella enredada historia que relia
amiudadas vezes com a alma confrangida e os olhos distillando amargo
pranto pela desgraçada Flor de Maria. Alli havia conhecimentos e tirava
maximas para todos os casos da vida.
Já disse, não sei quem, que um só livro bem meditado é thezoiro
inexgotavel.
—«Lembro me de tudo, lembro-me!... E com saudades, sr.ᵃ Joaquina, que só
eu sei!... e os olhos de João velaram se de lagrimas.
—«Não falles n’essas coisas—reprehendeu o Domingos. Isto de mulheres
estão sempre a dar _co’a_ lingua nos dentes.
—«Tens razão, tens, mano. É que sempre foi uma _disgracia_!... Nem me
vai d’aqui, até se me dá um nó na _greganta_ quando penso n’aquella
menina!... Mas tem razão, não fallêmos em coisas tristes. Ora diga-me,
menino João, a mãesinha como vae, bôa, sim?
—«Vae indo, bôa não.
—«_Dês_ que la fui dar pesames que não a tornei a vêr. Nem tornou a
sahir, aquillo teve um sentimento! _Tamem_, não houve na terra grande nem
pequeno que não chorasse.
—«Lá tornas á mesma! As mulheres sempre são!...
—«É verdade, tem razão, esta minha cabeça! Olhe cá, menino, então gosta
de lá estar _pr’os estrangeiros_?
—«Muito. São melhores terras do que as nossas, e a gente é mais bem
educada. Olhe que não ha por lá muito quem não saiba ler nem escrever,
como cá.
—«O quê? Mesmo os _travalhadores_ de enxada e as criadas de servir?
—«Mesmo esses. As criadas então, não ha nenhuma que não leia e escreva
menos mal.
—«Ai, não sei que me lembra. Criadas tão _doutoras_ como as amas... Não
_hadem_ prestar, não ha nada como as nossas terrinhas e cá a nossa gente.
—«Calla-te ahi! Aquillo nem é para _acomparar_! As mulheres não
percebem nada cá no mundo. Em as tirando do canto da casa já nada lhes
presta—sentenciou o boticario.
João, no meio d’aquelle turbilhão de palavras que lhe cahiam em cima como
graniso, conseguiu dizer:
—«Isto hoje não é visita.
—«Ai não?! Ainda o diz, olha que ingrato!
—«Não era hoje, mas hade ser breve, sr.ᵃ Joaquina. Heide ir lá cima para
o quintal e conversaremos como d’antes.
—«Ah! Cuidei que nos esquecia...
—«Não, eu vinha aqui á pharmacia para o sr. Domingos me fazer duas
hostias de antipyrina?
—«Anti, anti, quê?!...—abria a bocca e os olhos de espanto, o boticario.
—«Antipyrina. Não tem cá? É remedio para a dôr de cabeça; não tem, não
conhece?—volveu João impacientado.
—«Talvez tenha, talvez. Mas é que esses remedios _estrambolicos_, quem os
arranja é o sr. dr. Ramalho. Como elle é que os receita!... Eu cá não me
criei com esses venenos.
—«São venenos, são, mas a gente já se não sabe curar com outra coisa e
então é melhor o sr. Domingos arranjar um praticante.
—«Tem razão, já pensámos n’isso, por isso é que o meu _Dóminguinhos_ anda
nos _estudios_.
—«Ai, é tão esperto!—acudiu a sr.ᵃ Joaquina—fez _inzâme oitro dia_.
—«Ficou bem?—perguntou João por delicadeza, sem nenhum interesse.
O velho respondeu logo:
—«Olhe que não sei, menino João. Elle mandou-me dizer que sim, mas cá
o _mê Antoino disse me logo «mê pae não infinte em estudantes, olhe
que são todos, com perdão de Vossa Senhoria, uns tratantes_!» E vae eu
escrevi ao meu _cômrrespondente_ e disse-lhe assim: «eu, Domingos José
da Silva, _phramaceutico matriculado_ no largo da Fonte, quero saber se
meu filho Domingos José da Silva _Juniór_ fez os _inzâmes_ que disse e se
ficou approvado ou reprovado.» E o _cômrrespondente_ mandou dizer «que
o estudo que fôra _bô_ mas que a respeito de _inzâmes_ se lhe tapou a
_falla nas góllas_ que não disse nem uma nem duas.
João olhou-o estupefacto, apezar de ha muito conhecer as bernardices do
boticario, não sabendo verdadeiramente se lhe devia dar os parabens se os
sentimentos, perdido de riso como estava. Livrou-o de maior maçada e do
compromettimento d’uma resposta, o dr. Ramalho que entrou na occasião.
—«Inda bem que chegou o senhor doutor,—disse o Domingos esfregando as
mãos e empurrando a irmã para dentro, sem a deixar despedir, ao que ella
oppunha séria resistencia.
—«Está alguem doente lá em casa?—perguntou o Ramalho, cuidadoso.
—«Não!... Ou sim... doentes estamos todos.
—«E bem doentes... incuravelmente doentes, meu pobre amigo.
—Apertaram-se as mãos affectuosamente, e o medico continuou:
—«Mas essa doença não se cura com remedio de botica. O que vinhas buscar?
—«Umas hostias de antipyrina. Este calor endoidece-me.
—«Ah sim... O Domingos não sabia dar-te esses remedios _novos_.
Sorrindo tirou as luvas, que poz com o chapéo e a bengala sobre uma
cadeira, e foi elle mesmo escolher, pezar e metter nas capsulas o
medicamento desejado, que entregou ao João.
—«Vaes já para casa?
—«Vou, não me interessa nada andar cá por fóra; detesto tudo isto,
aborrece-me.
—«Acompanho-te; hontem não pude lá ir porque tive uma visita longe,
amanhã vem tua prima, naturalmente tambem de lá vão á estação, e é
provavel que não tenha tempo de ir até lá antes da noite...
Despediram se do Domingos e sahiram conversando.
—«Ainda bem que vae! Acho a minha mãe tão mudada, tão triste!...
—«Não admira. A dôr de teu pae foi mais violenta; quando cheguei tinha
tua irmã acabado de expirar, vi-o perdido, convenci me que endoidecia.
Depois resignou se um pouco... Tua mãe não! Não perdeu aquella serenidade
mortificada, que não ha meio de consolar, só sendo tu que o possas fazer.
—«Pobre mãe! Eu consolá-la não poderei, sabe? Quando penso que a minha
irmã, a Pillar, aquelle encanto de graça e intelligencia é já a esta hora
um punhado de ossos ou, peor, uma horrivel podridão que nos causaria
nauseas a nós mesmos que a adorámos em vida e que a não podemos esquecer
em morta!... É horrivel, é para endoidecer, doutor!
—«Ó João, vê lá, sê rasoavel. Um desespero d’esses não é para uma
intelligencia culta como a tua, para uma razão clara.
—«Não ha intelligencia para o soffrimento, meu amigo! Eu sei que ella
já não existe, que da sua pessôa que tanto nos encantou já nada vive
senão a lembrança na nossa alma; mas vejo-a em toda a parte tal qual
me dizem que ella viveu nos ultimos tempos; oiço-lhe a voz arquejante,
que chamou por mim; segue-me, vive commigo, porque a tenho dentro do
coração... Consolar minha mãe, como o poderei fazer, se ella é mais feliz
do que eu porque espera uma outra vida melhor em que tornará a ver a
filha querida... e eu, e nós?... De que temos a certeza? De que o corpo
é materia e a materia se transforma... E que mais? E a parte superior do
nosso ser, aquillo que nos faz amar e querer, que nós amâmos nos outros
porque é a parte mais essencial do nosso ser... onde está? Em que se
torna? Tanto saber para se chegar á triste convicção de que a sciencia
que não traz comsigo uma porção de indifferença a couraçar a alma, é um
martyrio superior á intelligencia humana. Felizes os ignorantes e os
ingenuos...
—«Oh! Estás n’uma excitação doentia. Não te levo assim para casa.
Entremos aqui no meu escriptorio e vamos conversar um pouco com mais
tranquilidade.
João deixou-se conduzir passivamente, sentou-se junto á meza, emquanto
o doutor accendia a luz e se ia sentar do outro lado, no logar onde
costumava trabalhar.
—«Mas o que eu não posso comprehender—disse o João bruscamente d’ahi a
momentos—é o motivo porque me não chamaram logo que ella adoeceu. Foi
uma barbaridade, foi até um crime. Pois será justo que lhe recebessem o
ultimo suspiro, precisamente aquelles que foram, talvez, a causa da sua
morte?!...
—«Ó meu amigo, pelo amor de Deus!...
—«Não me diga que não—e levantou-se agitado, n’um passear febril,—houve
qualquer coisa de anormal, isso houve, tenho a certeza.
—«Parece impossivel! Então tu, João, um rapaz intelligente e culto, estás
fallando pela bocca da Engracia?!...
—«E o doutor jura-me pela sua honra de que está convencido que a pobre
velha desvaira?—dizia apertando-lhe o braço com força.—Diga, jura,
jura?... Diga, tire-me d’esta duvida, que é medonha.
—«Tem sangue frio, homem, não sejas criança!...
—«Ah, não jura?!... A duvida tambem lhe entrou no espirito, confesse.
—«Anda cá, João, vamos fallar com socego, como homens. Primeiro, factos:
o que sabes, o que desconfias?
—«Que a Pillar morreu victima d’um crime ou, pelo menos, de desgosto...
que quasi o fosse.
—«Mas que crime, que desgosto?
—«Não sei! E isso é que eu saberia se aqui estivesse. Lembra-se bem de
todas as particularidades com que se apresentou a pleuresia, que foi o
principio da doença? O doutor esteve lá a passar a noite, achou-a como
sempre alegre e bem disposta. Vão deitar-se, e de manhã estava cheia de
febre, com um delirio terrivel... A causa?
—«As doenças nem sempre se apresentam da mesma fórma; podia bem ser que
ella estivesse já atacada, sem nenhuma manifestação externa.
—«Pode ser... Tudo pode ser n’essa infame sciencia que não nos dá nunca
uma certeza senão a da morte.
—«Não ha mais horrorosa profissão, você tem razão—respondeu sorrindo com
bonhomia o medico.
—«Pois sim, mas supponhâmos por um instante que estava bôa como parecia,
até aos seus olhos perspicazes de profissional. O que temos? Uma pessôa
que se deita sã e accorda com uma pleuresia dupla. Estou fallando com
serenidade, bem vê. É crivel que a apanhasse mettida na cama?
—«Não é natural que chegasse á janella, que apanhasse uma corrente de ar,
que se descobrisse!?...
—«É possivel que a Candida dormindo no mesmo quarto não sentisse nada?
—«Gente nova, sem cuidados, tem o somno pezado.
—«Não é isso que ella diz. E depois, o que me diz você a essa pulseira
da Candida que a Engracia encontrou no caramanchão na manhã seguinte? Já
não quero dar ouvidos á opinião da velha, que diz tê-la visto córar como
lacre quando lh’a entregou.
—«Ora, coisas da Engracia; nada mais natural do que a rapariga tê-la
perdido de tarde...
—«Pode ser... Pois se eu tivesse a certeza! Mas o que o doutor não sabe,
é que o Manuel lavrador, que sahiu de noite para amanhecer na matta do
rio onde ia buscar lenha, disse ter visto saltar a grade do jardim um
homem com um varino. Sabe que o Emygdio trouxe um de Coimbra e usa-o
muitas vezes, principalmente á noite. E se fosse ratoneiro, sabe que a
Favorita não é para brincadeiras...
—«Tudo isso são supposições...
—«E o odio que manifestou nos ultimos tempos ao Emygdio e á Candida, a
minha irmãsinha que os amava tanto?!...
—«Ora! As doenças trazem por vezes taes desequilibrios, uns pensamentos
tão desvairados...
—«Sim... e tambem uma lucidez mais aguda... a minha irmã estaria louca?
Não o creio, nem o doutor tambem. Alli houve qualquer coisa de anormal, e
não a conhecer é o que me tortura.
—«Eu nem digo que creio nem que descreio. Não sei nada.
—«Mas heide eu sabê-lo. Os acontecimentos seguem sempre uma logica fatal,
que não illudem por muito tempo um espirito investigador. Diga-me como as
coisas se passaram tal qual as viu e observou que eu preciso juntar ás
minhas as suas informações. Recusa fazê-lo?
—«Não, pelo contrario, julgo que é até o meu dever, visto que no teu
espirito se levanta uma duvida. Fá-lo-ia com um indifferente, quanto mais
comtigo que estimo como irmão; tratando-se sobre tudo da morte da Pillar,
que é uma saudade vivissima para o meu coração.
O medico concentrou-se um instante e depois começou pausadamente, como
quem faz um relatorio, sob os olhares ansiosos do rapaz.
—«Quando cheguei de Lisboa, chamado por um telegramma do Emygdio, fui
directamente a tua casa. A Candida sahiu do quarto aos gritos, apavorada,
como louca. Eu nem reparei que teu pae desvairado se debatia nos braços
dos criados que lhe não deixavam despedaçar a cabeça pelas paredes, e
que tua mãe cahira como fulminada com os sentidos perdidos. Não vi nada!
Corri ao quarto na vaga e disparatada esperança de a salvar ainda...
—«E a desditosa criança estava já morta?!...
—«Ouve. A Pillar fallecêra n’esse instante; ainda não estava
completamente fria. O Vilhegas, junto d’ella, parecia idiotisado pelo
soffrimento...
—«Ou pelo remorso?!...
—«Não sei; já te disse que não avento opiniões, conto-te o que vi.
Tentava fechar-lhe os olhos, n’uma preoccupação de doido, que me
impressionou bastante...
—«D’ahi para deante já eu sei, nem tão poucas vezes m’o tem contado a
pobre Engracia. Foi ella quem vestiu a morta; nem quiz ninguem para a
ajudar, que a sua menina só a ella a queria...
O João escondeu a cabeça nos braços cruzados sobre a meza, n’um soluçar
de angustia.
—«Então que tolice é essa, João?!...—ralhou amigavelmente o Ramalho.
—«Tem razão, isto não é proprio d’um homem... Continúe, mas deixe-me
antes agradecer-lhe os cuidados e carinhos que n’essa occasião dispensou
aos meus pobres paes.
—«Não falles n’isso, deixa-me continuar. Quando vi que não havia alli
nada a fazer, corri para junto dos que mais soffriam. Nunca vi uma dôr
egual, e tenho assistido a bastantes!... Cheguei a pensar em mandar-te
chamar, mas, perdôa se pensei mal, vi-os tão sentidos com o desgosto
que julguei perigoso todo e qualquer abalo. Ver repentinamente o filho
que ficava quando a outra lhe fugia para sempre, era exacerbar a dôr.
A Natureza tem em si mesma o unico calmante para as grandes maguas,
o tempo. A vida, meu caro, tem-me ensinado estas coisas. Quando o
soffrimento é sincero, a propria distracção o irrita e faz maior.
—«Ah, mas o que eu soffri sósinho quando o soube! O que eu curti
só, longe dos meus, sem um amigo que bastante o fosse para soffrer
commigo!... Sem uma pessôa que ao menos me lamentasse na linguagem que o
meu coração melhor podia entender n’uma situação d’aquellas, a minha! Ah
meu amigo, que eu não sei como não enlouqueci!...
—«Pois sim, lá soffrias o mesmo, ou talvez mais, mas não tinhas a
brutalidade d’estas scenas mortuarias que forçam a dôr até á revolta.
Elles cá ir-se-hiam habituando... que a resignação é habito, filho.
—«Sim, convenço-me que fez bem, mas o que me tresvaría é a desconfiança
de que _elles_ a matassem!
—«Mas com que fim? Não era o interesse do Emygdio casar com tua irmã?
—«Seria o d’elle, mas não era o da Candida.
—«Hum!...—rosnou o doutor estendendo os beiços incredulo.—Convences-te de
que tua prima quizesse o Vilhegas emquanto te visse solteiro?
—«O que podia ella esperar de mim, que nunca a cortejei?
—«As mulheres, quando são bellas e ambiciosas como a Candida, não se
prendem com essas frioleiras...
—«Não sei, digo eu agora. O que sei é que a Engracia os surprehendeu por
mais d’uma vez conversando em voz baixa pelos cantos.
—«Lá voltas com os ditos da Engracia...
—«A Pillar aborreceu-os a ambos. Elle parece evitar-me, acanhado... A
Candida ficou despeitada, parece, pela minha sahida para a Belgica sem
lhe declarar amôr... Isto, meu amigo, são factos. Lá em casa não se pode
fallar em tal, que para meus paes a Candida é um anjo. Eu é que desconfio
muito d’aquella bondade sonsa. Desde pequena que me persegue, e,
confesso, nunca mulher nenhuma me repugnou tanto como ella, sendo aliás
bonita.
—«Formosissima, dize, que não lhe fazes favor.
—«Não acho, não a tolero. Ha n’aquella passividade, que quer fazer passar
por bondade, uma tão grande vaidade e não sei o quê de falso que me
irritou e affastou sempre.
Levantou-se inquieto e começou a passear pelo escriptorio, murmurando
palavras, como se estivesse só. De repente estacou em frente do medico:
—«Só queria saber a verdade! Mas como?! Ah, que se elles se namoram, se
casam!... Mato-os como cães damnados, percebe?
—«Ora deixa-te d’isso, casam lá!...
—«Juro-lhe que os matava por minhas mãos. É a unica prova que aguardo.
Até já pensei em namorar a Candida para descobrir alguma coisa, mas
quando lhe fallo... estou como a Engracia, parece que vejo a sombra da
Pillar a prohibir-mo!... Se ella era tão pura, como poderia querer uma
mentira?!...
—«Não te sabia _espiritista_...
—«Não sou, não era! Que eu já nem sei o que sou! Não posso com a ideia de
que minha irmã não é mais do que uma pouca de materia que se transforma
estupidamente, immundamente, na terra!...