«Faço saber aos que esta minha carta de Padrão virem que tendo respeito

aos serviços de Manoel da Maya filho de Francisco da Maya natural desta

cidade feitos pello espaço de vinte e hum annos quatro mezes e hum dia

nos postos de Apontador das fortificaçoens, Ajudante de Ingeneiro,

Capp.^{am}, Sargento Mayor, e no de coronel de Infantaria com o mesmo

exercicio de Ingineiro desde vinte e sete de Mayo de seiscentos noventa

e oito até vinte e sete de Mayo deste anno de mil setecentos e dezanove;

no de mil setecentos e hum assistir ás obras da marinha e das batarias

da banda de Alem, tomando as alturas e examinando os materiaes e fazer

os riscos das plantas das ditas obras com muito acerto e ajudando em

todas ellas ao Lente das fortificações, Francisco Pimentel, com o qual

foy a Extremós para examinar o que faltava á fortificação da Praça; no

de mil sete centos e quatro conduzir p.^a Abrantes hum Regimento de

Olandezes, e despois voltar, tornar para a dita Villa á obra da

fortificação fazendo a medição á planta do armazem e a informação doque

convinha para a de Tancos na Campanha do ditto anno; acompanhar ao Conde

Apozentador mor que foy aquartelar a munto alto e munto poderoso Rey Dom

Pedro segundo de boa memoria, meu Rey e Senhor que Deus foy servido

levar para sy, servindo de quartel Mestre da Corte; no de mil sette

centos e sinco, ser mandado para Elvas, e sahindo no exercito assistir á

obra de huns reductos que se fizerão a (?) da da Godianha para guarda da

ponte das barcas, hindo muitas vezes vizitar os ataques e batarias por

ordem do mesmo senhor; traduzir dous livros Francezes que tratão da

fortificação, que forão recebidos com geral acceitação pello estillo e

fé da tradução e pello seu bom prestimo e intelligencia ter sido muntas

vezes occupado em varias diligencias do Real serv.^o e por ordem

expecial fazer a planta de ambas as cidades de Lisboa, occidental e

oriental, com toda a individuação de Praças, Palacios, Templos,

Mosteiros, Freguezias, Irmidas, ruas e travessas com os nomes de todas

estas couzas em tão boa forma e tão ajuizado ao Terreno que accreditou o

seu estudo e trabalho de sinco annos...»

Por este documento se vê que Manuel da Maya entrou nos serviços da

engenharia em 8 de setembro de 1737, como apontador; nelle vemos tambem

as diversas datas das suas variadas occupações como engenheiro, tanto em

tempo de paz como na guerra.

Os seus vencimentos em 1764 constam do seguinte decreto:

«A Junta da Caza e Estado de Bragança manda fazer novo assentamento

a Manuel da Maya M.^e de Campo General de meus exercitos e

guardamor da Torre do Tombo de hum conto duzentos oitenta e oito

mil reis, que deve haver em cada h[~u] anno pelo Thesoureiro da

mesma Caza, que são de sinco parcellas, que levava na folha d'ella,

a saber quatrocentos e oito mil reis, que antecedentem.^{te} lhe

erão concedidos de ordinaria sem abatimento de quatro e meyo por

cento; duzentos mil reis de tença com o encargo de pagar quatro e

meyo por cento; sento e sessenta mil reis de ordenado como

chronista; cento e vinte mil reis para aluguer de casa, por aviso

de 18 de Dezembro de 1754, e quatrocentos mil reis mais de

ordinaria, que lhe mandei continuar por Alvará do d.^o dia 18 de

Dezembro de 1754. Belem 30 de Julho de 1756. _Rubrica del Rey N.

S._--Reg.^{da} a fl. 56.»

Manoel da Maya foi nomeado mestre de campo general por carta patente de

24 de janeiro de 1758, e sargento mor de batalha pela carta patente de

12 de janeiro de 1760.

Entre os trabalhos que ao distincto engenheiro foram confiados, estão os

do hospital das Caldas da Rainha. D'isso dá noticia esta carta que se

conserva na propria lettra de Manuel da Maya.

Senhor

No anno de 1706 se entregarão no Tribunal da Meza da Consciencia

que tem o governo do Hospital das Caldas da Raynha, quarenta mil

cruzados em fazendas p.^a do seu producto se formar a convalecenca

p.^a os doentes pobres, que se vão curar ao d.^o hospital, e com

effeito chegou a haver dous mil cruzados de renda por anno

produzidos da redução que se fez das taes fazendas; mas no anno de

1750 ultimo em que a Mag.^{de} Fidelissima S.^{or} Rey D. João

Quinto quiz continuar aquelle remedio, senão achava fabricada a

convalecença, o que o Mesmo Senhor determinou se executasse; e com

esta firmeza principiei a mandar conduzir alguns materiaes p.^a a

tal obra; e por q o dito Tribunal mandou ao seu Architecto fizesse

planta p.^a a tal convalecença, e este a fizesse, e se formasse

consulta pella Mesa da Conciencia, desta consulta se me deo vista

p.^a eu responder o que me parecesse; e por[~q] achei [~q] se devia

regeitar huma janela que se queria abrir em huma casa pertencente

ao commodo das Religiosas, e o haver que nas janelas de tal

convalecença se intentara fazer de mais despesa e feitio [~q] o da

Frontaria do Hospital, o declarei assim na minha resposta

declarando os inconvenientes que havia nas ditas duas couzas: e

entendo [~q] esta consulta se acha detida na Secretaria do Estado,

de que foi secretario Diogo Mendonça Corte Real, que hoje habita em

Mazagão, na qual secretaria se pode procurar esta consulta p.^a se

lhe dar a providencia necessaria, assim p.^a bem dos pobres

convalecentes, como p.^a o d.^o Tribunal dar cumprimento a obra de

que se encarregou. V. Mag.^{de} mandará o que for servido. Lisboa 2

de 9.^{bro} de 1761.

_Manoel da Maya_.

Autographo.

Importantes foram os serviços prestados por Manuel da Maya á Torre do

Tombo como guarda-mor, não só no que respeita á ordenação e catalogação

dos documentos, mas por occasião do terremoto de 1755 em que, em vez de

acudir á sua casa, que deixou arder, procurou no que poude salvar os

thesouros do Archivo.

Falleceu em 17 de setembro de 1768, e foi, conforme a sua vontade,

sepultado na casa de capitulo do convento de S. Pedro de Alcantara.

Passava dos noventa e um annos; e toda a vida manteve severamente um

voto de castidade que fizera aos doze.

A sua exagerada devoção levou-o a ser denunciante do Santo Officio, o

que nesse tempo era tido como virtude. Denunciou em 8 de julho de 1755

um allemão das relações do P.^e Cardone por transmudar o azongue em

prata, reputando-o um illuminado, e denunciou um cunhado de Mangin,

abridor de cunhos da Casa da Moeda, como mação[33].

Que ominosos tempos aquelles em que até os espiritos mais lucidos

enfermavam d'estas aberrações moraes!

* * * * *

A titulo de curiosidade daremos noticia da oração congratulatoria que os

engenheiros militares e assistentes da Torre do Tombo, e o «superior de

uns e outros, Manoel da Maya», offereceram a El-Rei D. José I por haver

escapado ao attentado contra elle havido, e foi recitada em S. Antonio

de Lisboa pelo P.^e Fr. Manoel de Sam Boaventura, religioso carmelita

descalço. Conserva-se inedita, e noutro lugar a publicaremos, por não

ter cabimento neste estudo de natureza militar. Mas não resistimos a dar

uma amostra na parte em que explica como especialmente a congratulação

pertence aos engenheiros militares e aos empregados do Archivo:

«Todas as gerarquias de pessoas sam obrigadas a este gratulatorio

obsequio; mas com muita especialidade pertence esta acçam de graças aos

nobilissimos congressos dos Engenheiros militares, e ao dos guardas

assistentes ao Archivo da Torre do Tombo. Unem se estas duas gerarchias

em hua mesma potencia motrix, que os governa: e he identico em ambos

estes nobilissimos congreços, a obrigação, e por isso he simultaneo o

seu agradecimento que patenteão neste solemne _Te-Deum Laudamus_.

Occorre especial obrigação aos Engenheiros militares e aos assistentes

do arquivo da torre do Tombo, por huma identica congruencia das suas

proprias ocupaçoens. Aos Engenheiros militares pertence a fortificação

das praças; assim como aos assistentes do arquivo a conservação das

memorias q nelle se depositão: e como o arquivo em que melhor se guarda

a memoria dos beneficios recebidos seja a acçam de graças, sendo como he

este agradecimento huma fortaleza ou hum lugar bem disposto á recepção

de mayores petrechos para a defensa, a quem pertence a delimitação

d'esse lugar ou fortaleza? A quem se hade recommendar a guarda d'esta

memoria tão importante? Não ha duvida que aos assistentes do arquivo, e

aos Engenheiros militares do Reino. A estes pois he obrigatorio com

especialidade o obsequio do Louvor, que dedicam á Majestade Divina; com

este agradecimento desempenham dos seus officios. Uns, guardando no

arquivo da gratidão a insistencia do beneficio; outros ampliando a

praça, em que hade entrar multiplicidade de socorros Divinos. E assim

será todo o meo empenho mostrar que as vozes do _Te-Deum Laudamus_ que a

Deus se offerecem, são huma maquina de ingenho militar, com que se

agradecem ao mesmo Deos os beneficios feitos na pessoa do nosso

Fidelissimo Rey, a todo o Reyno; maquina de industria tam artificioza,

que he o arquivo em que melhor se conservão os padroens da recessão e

continuação dos favores Divinos»[34].

Pode-se chamar a isto rhetorica engenheira!

Notas:

[1] Refere-se a Goethe, que tambem se impressionou com o terremoto,

contando então seis annos.

[2] Reinaldo Manoel de Sousa.

[3] _Recordações_ de Jacome Ratton. § 65.

[4] Em alguns documentos Eugenio dos Santos de Carvalho.

[5] Deste ponto, entre outros muito interessantes, tratou o nosso

estimavel camarada, capitão de engenharia, Francisco Luis Pereira de

Sousa numa conferencia que realizou na Associação dos Engenheiros Civis,

e que está imprimindo, tendo tido a extrema amabilidade de nos mostrar

as provas relativas a esta parte, pelo que lhe deixamos aqui os nossos

agradecimentos e o nosso apreço pelo seu valioso trabalho.--É muito

interessante a apreciação das razões que justificam a construcção da

gaiola para a maior estabilidade dos edificios relativamente aos abalos

sismicos, o que é apoiado com argumentos tirados da experiencia dentro e

fora do país. O titulo da obra que, desenvolvendo a sua conferencia,

traz no prelo o nosso illustre camarada e distincto engenheiro é:

_Effeitos do terremoto de 1755 nas construcções de Lisboa_.

[6] _Annuario da Sociedade dos Architectos_, 1908.

[7] _Providencias sobre o terremoto de Lisboa_, p. 200 e anteriores.

[8] _Catalogo da Cartographia Nacional_, p. 108.

[9] Decreto de 11 de setembro de 1750, que nomeou Ludovice

architecto-mor do reino.

[10] _Providencias sobre o terremoto de Lisboa_, p. 131.

[11] Collecção Trigoso, tomo 16, p. 116.--Vide _Doc._ E.

[12] _Mem. das principaes providencias que se derão no Terremoto que

padeceo a Corte de Lisboa no anno de 1755_, por Amador Patricio de

Lisboa. Pag. 318.

[13] Entre os papeis de João Baptista de Castro, e pela letra d'este,

conserva a Biblioteca de Evora as copias completas da primeira e segunda

d'estas dissertações, e do principio da terceira até § 6.^o--No tomo XIX

do supplemento do _Diccionario Bibliographico_ informa o Sr. Brito

Aranha que os herdeiros de Antonio Ferreira Simas possuiam copia d'estas

_Dissertações_, tendo no fim a seguinte nota:--«Deixou o autor de fazer

a quarta parte não se sabe porque».

[14] Cod. C/{2-20} N^o 13.--Bibl. d'Evora.

[15] Entrelinha do Padre João Baptista de Castro.

[16] Nota de João Baptista de Castro:

«Sobre o dezenho de renovar a cid.^e de Lix.^a se pode accomodar o

epigramma daq.^{le} Poeta, fallando de Roma destruida e depois

reedificada, em q disse q se Roma não se tivesse arruinado, ficaria

menos grandiosa.

_Et tanti cecidissi tuum, Roma inclyta tanti!

Si stares, esses, Roma superba, minor_.

Igual a este pensam.^{to} he o q disse Cicero _lib 4 in Verrem_ fallando

do incendio do capitolio depois da morte de Sylla, e diz q aquellas

chamas parecião vir do ceo, não p.^a destruir o templo de Jupiter mas

p.^a lhe pedir outro melhor, e mais magnifico. _Et illa flamma divinitus

extitisse videatur non quae deleret Jovis optimi maximi templum sed quae

praeclarius, magnificentius que deposceret_. V.^e _Pensées ingenieuses_

pag. 208 e o pigr. de Oven 12. Liv. 2. Ex cinere ut Phoenix Phenicis

nascitur alter, Lisbon et Troyae prodiit ex cinere. Vid. Ruinas de J. H.

de Mattos, pag. 126.

[17] _Peculio 9 do P.^e Joam Baut.^a de Castro_ Cl., Beneficiado da S.

Basilica Patriarchal de Lisboa. An. de 1760. Cod. CXII/2-9, fl. 666 a

680, da Bibl. de Evora. Segue-se a «Terceira P.^{te}» que está copiada

apenas até ao § 6, incompleto, fl. 681 a 683.

[18] Na Biblioteca de Evora, em continuação das duas partes anteriores,

vem esta 3.^a parte, até principio do n.^o 7, com variantes. D'ellas

daremos em notas as mais importantes. Ha ainda a notar que, decerto por

lapso do copista, não existem na copia de Evora algumas palavras que

estão na da Torre do Tombo.

[19] A copia de Evora não traz as palavras «comprimento da».

[20] Na copia de Evora «até» em vez de «sendo».

[21] As palavras entre parentheses, que completam o sentido, são da

copia de Evora.

[22] «Apropriados», na copia de Evora.

[23] Estas palavras entre parentheses são da copia de Evora.

[24] «Alg[~u]» em vez de «grande» na copia de Evora.

[25] «Carretas», na copia de Evora.

[26] Da copia de Evora as palavras entre parentheses.

[27] Idem.

[28] Idem.

[29] Na copia de Evora está «nos canos e cloacas», em vez de «nas suas

situações».

[30] T. do Tombo. M.^o da Guerra--Maço n.^o 270 da remessa de 26 de

dezembro de 1891.

[31] _Theatro_ de Manuel de Figueiredo, tomo XIV, p. 630.

[32] Biblioteca Nacional--Col. Pombalina, mss. 457, fl. 340 v.

[33] T. do Tombo. Cad. 114 dos promotores da Inquisição de Lx.^a fl.

210.--Communicação do Sr. Pedro de Azevedo.

[34] No Archivo particular do digno par Simões Margiochi.

Manuel da Maya e os engenheiros militares portugueses no Terramoto de 1755 · 第 4 / 4 段