ordens de edificios [~q] as formão por h[~u]a de suas partes huma rua
estreita de sinco ou seis palmos que chamão, alfugere, sem que hajão
para ella portas, mas só janelas de que se lancem nella as tais
superfluidades, que no Outono costumão ser extrahidas pellos carretões,
para serem lançadas em lugares determinados; e em algumas partes desta
Cidade, se achavão as tais alfugeres, posto que com o inconveniente de
inficionarem o olfato dos moradores daquellas cazas a que ficão
contiguas, [~q] necessitão de vidraças para moderarem aquelle
inconveniente, ou custumarem-se a sofrello; pello que dos quatro modos
referidos, sempre o do conductor subterraneo para as cloacas me parece o
milhor onde as houver: o dos carros, ou carretas, havendo a quantidade
sufficiente, estimo em segundo lugar; e em terceiro, o commum e uzados
carretães, e ultimamente o das Alfugeres, [~q] alem do seu perpetuo
inconveniente, deminuem o terreno dos edificios. A consideração porem da
diversidade das despezas, poderá alterar muito este meu parecer, que
sempre como tudo o mais deixo pendente da melhor ponderação.
8.^o A esta consideração de conservar as ruas de Lisboa livres dos
embaraços que as fazem immundas, para o que concorrerá muito a mayor
largura das ruas, e a menor altura dos edificios, não excedendo de dous
pavimentos sobre as loges, se segue necessariamente outra não menos
importante, e consiste em determinar melhor lugar em que possão os tais
embaraços ser lançados com menores inconvenientes; e por que me occorre
hum mais livre delles do que os já observados, e promete huma grande
conveniencia ao bem publico, sejame licito prezentalo neste lugar.
Consiste elle em [~q] os tais embaraços se vão lançar dentro do Rio de
Sacavem, para que com este adjutorio se chegue a formar nelle hum valle
á imitação do de Cheias, em que as agoas salgadas chegavão em algum
tempo ao templo das Virgens Vestaes, hoje Convento de relligiozas de
Sancto Agostinho; por [~q] se este pequeno Valle soccorre tão
agradavelmente a Corte com as suas hortaliças e frutas, quanto melhor o
fará o Valle de Sacavem com a sua muitas vezes mayor grandeza, e sem se
poder dizer que os embaraços ali lançados podem cauzar algum impedimento
na barra, como se pode temer de qualquer dos outros modos em que se não
lanção em terra: pode esta consideração ter contra si o embaraço do
refugio das embarcações no tempo em que se recolhem a buscalo; mas a
isso se pode responder [~q] nem as embarcações necessitão de todo o
esteyo de Sacavem para se refugiarem, nem seria justo [~q] inteiramente
se lhe impedice o refugio, mas que só se formasse em Valle aquillo que
lho não impedice [~q] sempre será de grandeza muy proveitoza.
9.^o Tambem parece precizo attenderse com antecedencia aos conductos da
agoa para as fontes de que he muito justo se milhore esta cidade baixa
destruida, para alimento dos povos para extincção dos incendios, e para
adorno das praças: no terreiro do Paço pode servir a agoa [~q] vem das
Cruzes da Sé: na praça do Rocio, pode o seu chafariz receber mayor agoa,
e mais segura do bairro alto, ficando a que de prezente lança ao
Desterro de donde traz a sua origem, onde tambem he necessaria para
acodir ao muito povo que naquella circumvezinhança tem crescido: O
Hospital Real de todos os Santos pellos seus grandes privilegios se faz
acredor de toda a agoa [~q] lhe é necessaria: O largo da Victoria está
pedindo com muita razão ao bairro alto hum soccorro de agoa: o bairro de
S. José o imita com a mesma justiça, por que ali a virão buscar do Campo
do curral onde não ha a sufficiente: e estes lugares da Cidade baixa que
tenho apontado, são os inexcuzaveis deste soccorro, porque se fosse
possivel [~q] em cada rua houvesse huma fonte, ou cada caza tivesse huma
chave de agoa, nunca se poderia chamar superfluo este melhoramento: mas
pois que o não pode ser em todo, para [~q] ao menos o possa ser em
parte, se devia fazer alguma deligencia, para se convocarem, e ajuntarem
mais agoas, pois para isso forão formados dous encanamentos no
Acqueducto [~q] conduz a agoa para o bairro alto, no que se não tem
posto thé o prezente aquella applicação [~q] a materia merece, e com que
se poderão conseguir, segundo os apontamentos que para esse fim forão
feitos, [~q] posto o fogo os consumice todos, ainda se acharão alguns
vestigios na idêa.
10.^a E porque a agoa sem instromentos com [~q] se applique he como
espada sem braço, e as bombas o custumão ser, devem estas acharse
repartidas em lugares convenientes, e ao menos h[~u]a em cada freguezia,
e junto da mesma Igreja para o que se determinará edificio particular de
que poderá ter a chave o andador da Irmandade do Santissimo Sacramento,
por se achar ordinariamente assistindo na Igreja, ou perto della: Os
baldes de couro em bom numero são inseparaveis das bombas, para com
promptidão e segurança ajudarem neste conflicto: cuja repozição deve ser
muito observada por meyo de alguma horroroza penna contra quem tiver o
desacordo de os não repor em seu lugar, achandose em qualquer mão fóra
delle.
11.^a Não posso deixar de acrescentar aqui ser muito preciza huma
especial attenção na elleição das pessoas que hajão de ter por sua conta
a execução desta difficultosa obra da renovação de Lisbôa baixa, para a
guiarem livre dos embaraços [~q] se poderão encontrar, ou incluir entre
a correspondencia do antigo com o moderno, no cazo de haver alguma
commutação do velho, com o novo que he aonde consiste a mayor
difficuldade; para cuja solução não julgo inteiramente sufficientes os
adjutorios das plantas, e se faz muito precizo que se vão observando no
terreno com todo o genero de precauções [~q] a materia merece; por que
sendo certo [~q] se não uza de petipé nos planos das cidades antigas tão
irregulares como custumão todas ser, não se pode uzar delles como de hum
plano regular de hum Convento ou de hum Palacio: E ainda [~q] a nossa
planta de Lisbôa antiga se avantage em se lhe ter assignado petipé, nem
por isso se deve caminhar por ella, sem ser como com huma continuada
sonda reta por cauza da dita commutação; porque o formar huma Cidade de
novo sem attencão mais que a ella propria, unindoa a outra antiga como
em Turim, será mais divertimento que trabalho; para esta execução me
persuado estarem em primeiro lugar o Tenente Coronel Carlos Mardel e o
Capitão Eugenio dos Santos de Carvalho, porque álem de serem Engenheiros
de profição, são tambem na Architectura Civil os primeiros Architectos.
12.^a E como athé o prezente se não sabe o modo de commutação [~q] se
uzará com os donos das cazas destruidas, e a conjectura [~q] eu fazia
era na suppozição de que na deligencia [~q] em forma de tombo se
executava pellos bairros, se incluia a avaliação dos edificios, o que
com effeito não he assim, mas só consiste na medição das areas, e
algumas clarezas [~q] não comprehendem a avaliação, me vejo obrigado a
entender que, ou esta avaliação se fará separadamente por segunda
deligencia, prezentes os mesmos edificios ou não prezentes, ou que se
não quer uzar mais que de medições das Areas, para serem commutadas por
areas; porque como na renovação da Cidade baixa por ruas largas, se
mudão totalmente os sitios dos edificios que não são mandados avaliar,
parece poder ser o intento da commutação por Areas correspondentes,
assim aos sitios mais ou menos proximos do mar, como á grandeza mayor ou
menor, correspondente á do edificio destruido; mas como se não pode
entender [~q] por cauza da mayor largura das ruas restem areas para
suprir as dos edificios destruidos, segue-se deste conhecimento que
commutando-se as areas com igualdade, hão de faltar areas para completar
as de muitos edificios antigos, que ou se hão de suprir com areas em
outros sitios novamente determinados, ou em dinheiro no cazo dos donos
dos tais edificios se não conformarem com a tal commutação. Se porem se
julgar licito que se faça huma commutação de areas proporcionada de
outro modo, isto he, sabendo ao todo a area de todos os edificios
destruidos, e sabendo tambem ao todo a area dos terrenos edificandos, e
observando a proporção entre estas duas areas totais; e fazendo sobre
ella, e á sua imitação, a commutação das areas particulares, não seria
necessario suplemento de areas, e ficarião todos com areas
correspondentes, ainda que menores das que tinhão; no que serião mais
intereçados os das ruas estreitas extinctas pellas vantagens das ruas
largas; e no cazo de não servir de obstaculo esta diversidade para se
fazer a compensação, resta ainda averiguar como se há de suprir o mais
ou menos de area que a alguns acredores faltar, ou crescer para bem
edificar; o que já no § 6.^o da segunda parte desta dissertação
supriamos por meyo das avaliações que suppunha se fazião: mas como já
reconheço se não tem feito, e [~q] sem ellas me não occorre suplemento
para os tais cazos, parece [~q] para elles são as avaliações inevitaveis
se se houver de abraçar o dito modo de compensação; e no cazo de se
fazerem seria bom que fosse prezentes os edificios e renovadas as
medições, para se fazer correcção em algumas de que tenho noticia
necessitão della, pois nem sempre as principaes pessoas as prezenciavão.
13.^o O Sennado de Lisboa que já cultivou esta materia nas ruas dos
ourives da prata, e do ouro, e dos douradores, não achou melhor meyo
[~q] tomar a si as cazas avaliadas que queria emmendar, e fazendo a obra
á sua custa, vendel-as a quem mais déce, para satisfazer aos credores; e
poderá ser [~q] avaliados os edificios destruidos de huma freguezia, e
formados os edificios novos da mesma, e postos depois em venda, possa o
seu producto satisfazer assim o valor dos edificios destruidos, como a
obra dos edificios novos: e como a Cidade baixa destruida, se não pode
reedificar toda ao mesmo tempo, parecia justo que a experiencia se
fizesse em huma de suas partes, que poderia ser em parte da freguezia de
S. Julião no sitio incluzo entre a rua dos ourives do ouro e a rua nova
do Almada, por haver nelle muitos beccos e ruas estreitas [~q] he onde
pode haver a mayor duvida--, advertindo parecer conveniente que o
Sennado determinace os arruamentos, para que segundo elles se formassem
logo os edificios com os commodos proporcionados.
14.^a As duas renovações mais celebres das Cortes da Europa, tem sido a
de Londres, e a de Turim; e dezejando eu saber o como se procedêo com os
particulares na sua execução, sem ter Livro de que me valer, nem
Bibliotheca publica [~q] nunca mais preciza me pareceo que na prezente
occazião, nem occazião mais propria para se lhe dar principio que esta,
ainda [~q] não seja logo tam numeroza como hoje são as mayores [~q] não
principiarão tão grandes, me achey obrigado a mendigar huma historia de
Inglaterra que incluice o anno de 1666 em [~q] não consegui noticia de
proveito; e vendo no Diccionario Geografico de Martiniere a descripção
de Londres, em que lhe delinea as ruas como as nossas da Villa de
Thomar, tambem não achey nelle clareza de que me service; o que poderia
conseguir se tivesse mais [~q] revolver. A renovação da Corte de Turim,
não he como alguns dizem, [~q] fora arrazando Turim Velho, para fazer
Turim novo, porque só foi acrescentar Turim novo a Turim velho, fazendo
em hum sitio plano contiguo a Turim, hum aditamento a Turim, no que não
havia difficuldade que vencer; donde venho a concluir [~q] a renovação
de Lisbôa destruida tem muito mais que ponderar que o augmento da de
Turim acrescentada.
O que resta ainda determinar he se as ruas mais principais se devem
dividir em tres partes como as de Inglaterra; e se se hão de fazer
porticos, ou columnatas em algumas ruas como havia na rua nova dos
ferros, e na Confeitaria: sobre o que me parece dizer [~q] nas obras do
terreiro do Paço as columnatas sejão de bom uzo, e bom adorno, mas que
nas ruas de logeas me parece mais conveniente que não haja columnatas e
que as antigas da rua nova dos ferros servirão aos homens de negocio por
falta do edificio da bolça, [~q] fazendo-se no terreiro do Paço como
espero, he escuzado suplemento em outra parte; declaro [~q] as ruas de
Inglaterra são formadas de trez divizões, a do meyo mais larga para as
carruagens, e as duas dos lados para a gente de pé; aquella calçada de
pedra miuda, e as duas de enchelharias groças com seus postes que as
separão da do meyo, para que as carroagens não vão embaraçar os dous
passeyos; as principais são de larguras excessivas, o que nós poderiamos
suprir com quarenta e cinco ou cincoenta palmos de largo, dando dez
palmos a cada hum dos dous passeyos, ficando o resto no meyo para uzo
das carroagens: mas não me inclino a esta divizão de ruas, porque nas
occaziões de festas, e de concurços, se não poderão concervar bem em seu
estado proprio, não sendo de huma largura muito mayor, o que no grande
comprimento de algumas ruas de Inglaterra se faz mais adequado, e na
nossa Cidade de Lisbôa baixa destruida consumirá muito terreno, em
prejuizo dos donos dos edificios que obrigados a não levantar mais [~q]
dous pavimentos sobre as logeas, clamarão contra a maior largura das
ruas do que as tres divizões serão cauza.
Na planta n.^o 4.^o apresento mais huma renovação da cidade baixa
arruinada expressada pello Ajudante Pedro Gualter da Foncêca com toda a
liberdade possivel, sem attender á conservação dos sitios das Igrejas
Parroquiais para no cazo de não servir de embaraço a tal mudança possa
tambem entrar na conta dos pensamentos ponderados.
15.^a Em 5.^o lugar offereço a planta de huma rua de 60 palmos de largo
á imitação de algumas da de Londres dividida em tres partes, a do meyo
de 40 palmos de largo para carruagens, e gente de cavalo, e as duas dos
lados de dez palmos de largo cada huma para a gente de pé e Cadeirinhas,
com a separação de pilares e pavimento que o profil mostra, e no mesmo
profil a figura da Cloaca, ou Cano Real para serventia das agoas dos
montes e limpeza dos conductos, que dos edificios se lhe introduzem.
16.^a Em 6.^o lugar offereço o primeiro prospecto em que se mostra a
altura e simmetria dos edificios com dous pavimentos sobre as logeas com
janelas rasgadas no primeiro, e com janelas de peitoris no segundo, e
divizões de paredes altas sobre os telhados para deffensa da
communicacão dos incendios.
17.^a Em 7.^o lugar offereço o segundo prospecto, em que se mostra a
altura, e simmetria dos edificios com dous pavimentos sobre as logeas,
ambos de janelas rasgadas, e com divizões de paredes altas para diffensa
da communicação dos incendios.
18.^a Em 8.^o lugar offereço o 3.^o prospecto, em que se mostra a
altura, e simmetria dos edificios, com seus porticos, ou columnatas,
contra as inclemencias do tempo com dous pavimentos sobre as logeas, e
ambos de janelas rasgadas, e divizões de paredes altas sobre os telhados
para impedimento dos incendios.
19.^a Em 9.^o e ultimo lugar offereço huma forma de edificio mais nobre
para o Terreiro do Paço com seus porticos com mezaninos contra as
inclemencias do tempo, dous pavimentos de janelas rasgadas (dos quais
hum se poderá abater parecendo grande a altura) e outro pavimento de
mezaninos junto aos telhados; e divizões de paredes altas para deffensa
da communicação dos incendios; e todas estas sinco ultimas
reprezentações são expressadas pello Capitão Eugenio dos Santos e
Carvalho.
E he quanto me foi possivel unir nesta 3.^a parte, guardando o restante
para a quarta. Lx.^a 31 de março de 1756.
*Additamento*
Em decimo lugar offereço a planta n.^o 5 p.^a a renovação da cidade de
Lisboa baixa arruinada sem attenção á conservação de sitios de templos
ideada pello Cap.^m Eugenio dos Santos e Carvalho na qual a cor amarela
mostra o que se fará de novo, e o vermelho o que se conserva do antigo.
Em undecimo lugar offereço a planta n.^o 6.^o p.^a a renovação de Lisbôa
baixa arruinada sem attender á conservação dos sitios antigos, ideada
pelo Capitão Elias Sebastião Pope. Lx.^a 19 de abril de 1756.--_Manuel
da Maya_[30].
* * * * *
Basta este trabalho para mostrar a competencia e autoridade de Manuel da
Maya como um verdadeiro engenheiro, na mais ampla accepção d'esta
palavra, e com as mais largas vistas sobre os complexos assuntos que se
prendem com a sua profissão e nella exigem os conhecimentos mais
profundos sobre as necessidades capitaes da organização social. Não
admira por isso que o seu nome cresça no respeito dos vindouros, como
fôra respeitado e querido pelos seus contemporaneos.
Do conceito e estima em que era tido pela gente do seu tempo, reza por
exemplo o seguinte trecho do 14.^o volume do _Theatro_ de Manuel de
Figueiredo, repositorio importante de informações e noticias com que
entramos no conhecimento do meio português no seculo XVIII, por uma
forma por vezes pittoresca e palpitante:
«Ó virtuoso, constante e distincto Português Manuel da Maya! Quanto não
soffrerias para nos deixar aquelle incomportavel thesouro, que hoje
desfrutamos! (e até os mesmos Gallegos) fallo do manancial das
Agoas-Livres, obra de principios tão solidos e plano tão exacto,
imaginada e conhecida por ti; aquella abundancia que tanto tem
concorrido para a sustentação da extensa cidade de Lisboa: á tua
sabedoria e ao teu genio se deve este bem! Não empregaste as
mathematicas nos utilissimos fins de nos matarmos huns aos outros com
mais presteza, mas sim em evitar o morrermos á sêde. Nunca ouvi gabar
estes teus cuidados e lembrança original; custou-me a saber quem teria
sido a origem deste tão grande bem, que nos deixaste. Ó grande Patriota
Manuel da Maya! O ceu te remunere as tuas grandes virtudes quanto
utilizou nellas o teu grande Discipulo! Que originaes lhe não deixaste
impressos no coração e no entendimento! Aonde tiveste a satisfação de
presencear o quanto forão respeitadas pela Providencia aquellas obras no
grande abalo terrestre de 1 de novembro de 1755[31]».
Da consideração em que os planos de Manuel da Maya foram tidos nas
regiões officiaes, diz o officio do Duque de Lafões que atraz deixámos
publicado; mas aqui temos outro documento, este official, em que, poucos
dias depois da data da terceira parte do relatorio do eminente
engenheiro, o governo manda pôr em execução em grande parte as suas
ideias:
Manoel da Maya M.^e de Campo Gn.^{al} e Engenhr.^o mor do R.^{no}.
Em virtude de h[~u]a ordem de S. Mag.^e a mim dirigida e
partecipada ao Ex.^{mo} S.^r Duq.^e Rej.^{or} ordeno ao Ten.^e
Coronel Carlos Mardel e aos Cap.^{es} Eugenio dos Santos, Elias
Seb.^{am} Pope acompanhado do Ajud.^e Ant.^o Carlos Andrey, e do
Prat.^e José Dom.^{es} Pope tomem por sua conta fazer, delinear,
demarcar e balisar o terreno [~q] jas entre os terrenos de Lisboa
edificada e o lineam.^o de sua Fortef.^{am} principiando a delig.^a
desde a porta do carro da casa professa de S. Roque, continuando
por defronte de S. P.^o de Alcantara, Noviciado da Cotovia, toda
estrada fronteira, a bica das aguas livres até Anjos ao Arco do
Carvalhão tudo q.^{to} fica a p.^{te} direita. As ruas, praças, e
mercados, [~q] no d.^o terreno se poderem em boa forma distribuir,
assim p.^a o bom uso e comodid.^e do publico como p.^a enobrecer a
d.^a Cid.^e com este augm.^{to} da melhor eleição, reduzindo ao
mesmo tempo em planta o [~q] se for demarcando debaixo do petipé
que vay sinalado a margem p.^a se ajustar com a da renovação de
Lisboa baixa arruinada, empregandose nas ruas mais principaes, e de
mayor comprim.^o a largura de 60 palmos, e nas menos principaes de
40 p.^{mos} e nas travessas de 30, não servindo de embaraço ao tal
balizam.^o e demarcação muros de quintas, nem valados de faz.^{as},
desenhando tambem prospectos de casas de dous pavim.^{os} sobre as
lojas, o 1.^o com janellas rasgadas, o 2.^o com peitoris, ou .....
diversificando as ruas pelas cores em [~q] as portas e janelas
serão pintadas: Para as casas nobres se formarão prospectos de
diversos portados com mais n.^o de janelas mas não de mayores
alturas, por não alterar a principal regularid.^e. As paredes [~q]
dividirem os edificios excederão a altura das paredes das
frontarias pelo [~q] se julgar bast.^e para [~q] o fogo se não
comunique de hum telhado p.^a outros: As ruas mais principaes [~q]
recebem as aguas dos montes, ou das fontes devem conter cloacas por
onde possa andar hum cav.^o digo h[~u] homem a cav.^o, com os quaes
edificios hão de ter comunicação por seus aqueductos, o [~q] será
representado em h[~u]m perfil das mesmas cloacas, pois he o modo de
melhor preservação p.^a [~q] os edificios se aproveitem delle com
anteced.^a q.^{do} as cloacas se formão, de [~q] tudo se fará
impressão p.^a se distribuir, e comunicar aos interessados para
[~q] se execute este projecto com a promptidão q. S. Mag.^e ordena.
O d.^o Ten.^e Cor.^{el} avisará as pessoas nesta ordem mencionadas
p.^a lhes comunicar em certo dia a ordem, como he costume, e pelo
[~q] toca ás despesas [~q] neste projecto se farão, o d.^o
Ten.^{te} Cor.^{el} com o rol [~q] apresentar ao d.^o Ill.^{mo} e
Ex.^{mo} Snr. Duque Reg.^{or} alcançará promptam.^e o desp.^o p.^a
a satisfação da import.^a--Lisboa 9 de abril de 1756»[32].
* * * * *
Á amabilidade do digno par do reino Sr. Francisco Simões Margiochi
devemos o ter conhecimento de uma preciosa collecção de manuscritos
referentes a Manuel da Maya, reunidos por seu pae, uns da letra do
grande engenheiro, outros, documentos officiaes a seu respeito, d'onde
tiraremos desde já algumas informações, guardando a publicação d'esses
documentos para outro logar, principalmente para quando noutro logar nos
occuparmos da biographia do reedificador de Lisboa.
No seu testamento datado de 27 de junho de 1764 diz Manuel da
Maya:--«Declaro que sou natural d'esta cidade de Lisboa, baptisado na
freguesia de Sam Julião em cinco de Agosto de mil seis centos settenta e
sette, sendo meu Padrinho o muito Reverendo Padre Pedro de Vargas
capellão da Capella Real do Senhor Rey Dom Pedro o segundo, filho
legitimo de Francisco da Maya e de sua segunda mulher Paula de Almeyda,
recebidos na freguezia de Santiago da Villa de Almada, de donde passarão
para a freguesia de São Julião desta corte, onde viverão até o fim de
sua vida e forão enterrados no convento de São Francisco da mesma Corte,
em cuja Religião erão terceiros. Não fui casado e não tenho herdeiro
algum forçado ascendente ou descendente, e se houver alguem que proue
lhe sou deuedor de alguma couza ordeno seja attendido como fôr justo.
Nomeyo por meus testamenteiros em prim.^o lugar ao Reverendo Beneficiado
da Santa Igreja Patriarchal Pedro do Valle Maya, em segundo lugar a seu
(?) tio Theodoro da Silva Maya a quem rogo queyram por caridade e amor
de Deus dar a execussão o que aqui determino. Será meu corpo leuado no
esquife ou tumba da minha Veneravel Irmandade dos Clerigos pobres com o
titulo de caridade e protecção da Santissima Trindade cita no hospital
Real de todos os Santos e acompanhado pella mesma Veneravel Irmandade (á
qual?) offereço dez moedas de ouro como já offereci na minha entrada, e
será sepultado no mesmo convento de Sam Pedro de Alcantara das
Religiosas Arrabidas cuja communidade toda no dia seguinte dirá missas
pela minha alma de corpo presente...»
Mais adeante diz:--«Declaro que o fogo que se seguiu ao terramoto do
primeiro de Novembro de mil sete centos sincoenta e sinco me queimou o
edificio em que morava na travessa do Salema, freguezia do Santissimo
Sacramento desta corte e me destruhio quanto nelle tinha em que entravam
todas as minhas memorias conseguidas em largos annos com documentos,
plantas e instrumentos da minha principal profissam e da minha fabrica,
e noticias procedidas de diversos empregos do Real Serviço assim diurnas
como nocturnas, e que ao depois fiz algumas nouas dissertaçoens,
discursos e reparos e principalmente pertencentes ao lugar de Enginheiro
mor do Reyno e ao de Guarda mor da Torre do Tombo conducentes ao Real
serviço e bem publico, dos quaes alguns tem sido por mim propostos ainda
que nem todos attendidos e que os primeiros se acharão na minha casa de
visitas e os segundos na casa em que tenho os liuros, e pesso ao
Reverendo Beneficiado Pedro do Valle Maya meu testamenteiro primeiro que
com os dous destes Reverendissimos Padres Frey Antonio de Santa Anna e
Frey Anastacio dos Santos os revejão e observem com attenção (pois que
eu com a diminuição de potencias e sentidos e de mais de outenta e seis
de idade me não acho em termos de o fazer), separando o que lhe
parecerem util para se entregarem da minha parte aos meus dous
successores que lhe darão a prouidencia que melhor lhes parecer...»
Na carta regia de 9 de dezembro de 1758 em que a Manuel da Maya se faz
mercê de doze mil reis de tença annual, vem os seguintes dados
biographicos: