I
Elysa!--Vou escrever um livro, mas um livro só para ti.
Ha de ser a traducção do pensamento revoando caprichoso por todo esse
universo; ha de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a não
desperdiçar uma hora de remanso, a não sorrir nem suspirar senão comtigo;
ha de ser um jornal do coração, de que tu serás o unico assignante, o unico
leitor, e mais ainda o unico entendedor; ha de ser o desapertar incerto de
ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, ha de
ser, emfim, o exercicio de uma devoção sublime do amor, será talvez o de um
sacerdocio mysterioso, será de certo o de um martyrio de ausencia pungente.
Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.
Quero-o á cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoço, no
cestinho da tua costura, nos teus passeios, no theatro, no baile, na côrte,
na provincia, nos risos, nas lagrimas, na esperança, no desconsôlo, na
vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circumstancia que te
encontres, abre-o; abre-o com a crença supersticiosa do amor e da ternura,
que nelle beberás uma superstição amorosa e terna, para alegrar-se e para
gemer comtigo.
Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.
Mas olha que este amor tão pedido para elle não consiste na presença inutil
e preguiçosa, ou no habito indifferente e quasi que importuno, não: quero-o
sempre ao teu lado, quero-o ainda mais, muito mais, ia dizendo unicamente
no teu coração.
Elysa! é com este nome que me apraz escrever-te, porque uma imprudencia, um
acaso natural da minha vida de mancebo podia revelar com o manuscripto a
palavra sacramental do meu segredo:--o véo, que é demasiado diaphano aos
meus olhos, será impenetravel aos de estranhos, e para ti é uma prova do
meu egoismo ou soffreguidão, que te agradará.
O rei formosissimo de todos os astros nem se offende nem fica menos bello,
porque a sombra ligeira de uma nuvem lhe passou pela frente.
* * * * *
Mulher-typo! divindade talvez, ou sonho, ou illusão, ou feitiço, ou sombra,
realidade, ou nada--eu te amo! E sabes tu como é este amor? escuta:
Já viste duas pombas a devorar o espaço com as brancas azas de seda,
correndo, voando, internando-se por esse azul da cupula immensa, ou
pousando á beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na
sua innocencia, innocentes nos seus carinhos?--é o amor da pomba; é o meu
amor.
Já viste ao pé dos corregos do inverno duas plantas indolentemente
enroscadas, teimosas, viçosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro,
cheias de futuro no gozo?--é o amor da planta; é o meu amor.
Já viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da sua
roseira, é, ao despontar da aurora, tão festejada, tão conversada, tão
abraçada, tão beijada e tão adorada pela briza?--é o amor da briza; é o meu
amor.
Já viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no amanhecer
da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa, porque a mãe
lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha, em meiguice,
em requebros lhe entreabre os braços e lhe pula ao collo?--é o amor da
criancinha; é o meu amor.
Já viste essa mãe carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os pés e os
braços nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a
ondular-lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda
ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento
indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar
têsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pégadas,
a ferir o rosto com uma das mãos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em
busca do filhinho, que se lhe perdera?--é o amor da mãe carinhosa; é o meu
amor.
Já viste o proscripto da patria, assentado tristemente nos pincaros de
serra estrangeira, comparando cada pedaço de terra, cada arvore, cada
penedo, cada passaro que lhe descanta, cada choupana, cada homem, cada
povo, e os ares, e o horisonte, e as nuvens, e as estrellas, e o sol, e o
céo; bradar depois pela patria, só pela patria?--é o amor do proscripto; é
o meu amor.
Já viste o marinheiro, nascido e criado nas aguas, identificar-se com
ellas, namorar-se do seu navio, brincal-o, enfeital-o, acaricial-o sempre,
beijar-lhe os cabos e velame, os mastros e o leme, contente vagar pelo
estendal das vagas, sorrir ás procellas, sorrir ás bonanças, anhelar do
longe uma ilha toda verde, que lhe está acenando na alma, um porto
fagueiro, que lhe está alvejando no pensamento, uma estrella da noite, que
lhe está radiando no coração; e atirar-se assim de encantado por esse mundo
sem raias, a espriguiçar-se nas sensações, a sorver delirios e melancolias
suavissimas, ainda que rudes e profundas; ora cavando o pelago com olhos
severos, ora analisando o concavo d'um tecto infinito com olhos
meditadores; e naquella soidão de que é monarcha, com as suas endeixas e
com o seu alaúde, apinhoando lá dentro d'alma cada vez mais desprezos da
terra, mais orgulho e fanatismo pelas suas campinas de crystal?--é o amor
do marinheiro; é o meu amor.
Já viste o captivo encostado ao marco de pedra, quasi tão quedo como elle,
com a fronte enrugada e em cada ruga um concentramento de paixão, com a
vista cravada no ferro, que lhe aperta e ennodoa a perna, uma vista tão
cravada, tão pegada, que a disseras um martello alli fundido por não poder
despedaçar aquelle annel; e uma lagrima a resaltar-lhe das faces ao ferro,
como se fôra o liquido que havia de dissolvel-o, e a mão estendida e tesa,
e depois um sorriso, um sorriso para a liberdade, para aquelle coração
outra vez a bater sem abafamentos, para aquelles olhos outra vez erguidos,
para aquelles braços outra vez seus, para aquelles pés outra vez libertos,
para aquelle ar que respirava, para aquella casa, aquelles amigos, aquella
vida, aquelle mundo, que lá lhe ficou?--é o amor do captivo; é o meu amor.
E já viste, finalmente, o condemnado a quem o vento do sepulchro sacode
sobre a escada do cadafalso, que pende para a morte como a hastea que se
murcha, e que d'alli, de sobre esse triangulo erguido para vergonha da
humanidade, escarneo de Deos, e epigramma da civilização, d'alli arremessa
uma vista infinita, insondavel, incomprehensivel para a turba, que
brutalmente o festeja, mas para a turba, que elle nunca mais ha de ver:
para o mar, que lhe rebrame ao pé como se cantara uma nenia execravel, mas
para o mar, que elle nunca mais ha de ver; para os céos, que recamados de
sombras como que lhe toldam a esperança desapiedados, mas para os céos, que
elle nunca mais ha de ver; para a terra, que lhe floreja ao longe alegre e
formosa como se o quizera insultar no ultimo transe, mas para a terra, que
elle nunca mais ha de ver; para as memorias d'um passado talvez prenhe de
sangue e de remorsos, mas um passado, que elle nunca mais ha de ver; e essa
vista resumida, em fim, a luctar entre a mortalha e o vestido, entre o
carcere e a corda, entre a corda e a tumba, entre a morte e a vida, alli
lhe foge toda para a vida; para a vida, que lhe matam, para a vida tão
querida, tão linda e tão doce olhada do cadafalso, para a vida suspirada,
gemida, e anciosamente chorada d'aquella altura tremenda, para a vida
porque é sua, para a vida porque é boa, para a vida ainda que fora má?--é o
amor do condemnado; é o meu amor.
E como o amor da pomba é innocente a amar a pomba, como o amor da planta é
viçoso a amar a planta, como o amor da briza é mimoso a amar a rosa, como o
amor da criancinha é risonho e meigo a amar a mãe, como o amor da mãe é
desalinhado e louco a amar o filho, como o amor do proscripto é gemedor a
amar a patria, como o amor do marinheiro é profundo, melancolico e
dosprezador a amar os mares, como o amor do captivo é meditado e desejoso a
amar a liberdade, como o amor do condemnado é vehementemente desesperado e
terrivel a amar a vida, é assim o amor do poeta a uma mulher;--é o meu
amor.
E tu és a minha pomba, a minha planta e a minha rosa, a minha mãe e o meu
filho, a minha patria e os meus mares, a minha liberdade e a minha
vida!--Mulher! eu te amo, eu te amo!
Agora, Elysa, que já te paguei as primicias do livro, não só como senhora
d'elle, mas como senhora da alma que o dicta e da mão que o escreve; agora
que já te defini o meu amor, que mil vezes ainda será aqui definido, e que
nunca o virá a ser ao cabo; agora que tu chegaste, de certo, á janella do
teu quarto, e te embeveceste nos encantos da noite a recordar-te dos meus
versos, deixa que me volte para a minha lyra.
São os meus segundos amores: é ella tão minha e tão formosa como tu; é a
minha companheira e consoladora; é quem me ha de ajudar neste trabalho, que
te destino:--plantou-m'a Deos dentro da alma para saber amar-te, como te
plantou a ti no mundo para que te amasse.
Quero muito á minha lyra.
O meu primeiro pensamento ao acordar é sempre teu, o segundo é sempre
d'ella; nas minhas meditações e nos meus sonhos, nos meus risos e nas
minhas lagrimas, vindes sempre ambas tão casadas, tão unidas, tão irmãs,
que eu não sei se és tu que me trazes a lyra, se é a lyra que me conduz a
ti.
Quero muito á minha lyra.
Vou conversar com ella, e preludiar-lhe ao acaso uns sons desleixados, que
lhe são queridos, um vagar delicioso por veigas da phantasia, um esquecer a
delirar por saudosa noite, á margem do Mondego, sob a rama de um salgueiro.
E que mimoso luar de primavera ahi se refrange, e espalha uma poeira de
prata na superficie das aguas!
É por uma d'estas noites suavissimas de luar que a natureza tem toda a
lindeza de mulher.
Canta, vento do sul, teus doces cantos
Por concavos do val adormecido,
Tange n'harpa de Deos, nessas folhagens,
Da noite as harmonias.
Farta agora, Mondego, com teus beijos
As boninas, que tremulas desmaiam,
Que se morrem por ti na sêde louca
De lubricos prazeres.
Banha-me a accesa fronte, meu salgueiro,
De meiga fresquidão, que ha de inspirar-me
Desassombros do sol, da luz, do dia,
Que se afogou nos mares.
E tu, filha d'amor, candida lyra,
Um abraço dos teus cinge ao teu bardo,
Outro mais.... este só... agora folga,
Folga por céos e terra.
Amo o tibio clarão do argenteo disco,
Porque a luz do luar não cega os olhos,
Como faz a do sol, porque me deixa
Nesse lago d'anil, que vai sulcando,
Namorar-lhe a belleza;
Amo a languida côr do ingente espelho,
Onde os olhos d'amantes vão casar-se;
Onde crêra talvez Grego ingenhoso
Que o velho Jove, requintando as galas,
Ia mirar-se, rindo.
Eu amo, já pagão, na branca esphera
Da casta Delia envergonhado riso,
E já lá finjo negrejando os bosques,
Onde co'a turba caçadora exerce
Seu culto pudibundo.
Amo as rosas do céo, que se emmurchecem
Quando a lua vaidosa as vai pisando,
Amo as nuvens co'os seios bipartidos
De respeito alastrando eburnea senda
Á rainha dos astros.
Amo a grenha voando ao meteóro
Quando pallido foge ante os seus passos,
Amo tudo o que assim lhe paga um feudo,
Outro feudo melhor, que não meus versos
Engeitados da vida.
Noite! noite! que mão te ha desdobrado
Tão risonha e fagueira assim no mundo?
Do templo do Senhor és véo, que os anjos
De infindos orbes d'oiro recamaram?
És lavrado padrão da Omnipotencia,
Memoria erguida em campos do infinito?
Milhões de soes, que ostentas, serão tochas
Ardendo ante o teu Deos no altar immenso?
Serão letras d'amor com que lhe escreves
Nessa pagina azul o ignoto nome?
Tuas nuvens que são? são do thuribulo,
Que agitam cherubins aos pés do Eterno,
Queimado incenso a desfazer-se em fumo?
Noite! noite! quem és? d'onde has tu vindo
A poisar-te na terra entre mysterios?....
Não sei que ternas meiguices
Falla a noite ao coração;
Minhas horas mais felices
As horas da noite são:
Com ella na solidão
Suspiro amor e saudades,
E com ella nas cidades
Não largo a lyra da mão;
Suspiro, canto d'amores
Entre os homens, entre as flores
De noite, de dia não;
Porque a noite tem meiguices,
Porque as horas mais felices
As horas da noite são.
Como é lindo este Mondego
A brincar sobre esta arêa!
Como é lindo o bosque verde,
Que as verdes margens sombrêa!
No seu crystal derretido
Lá vem, á luz do luar,
Outro Narciso, um salgueiro,
Um salgueiro a namorar.
Outra Echo, a briza doida,
Que foi por elle engeitada,
Anda carpindo, e zelosa
Traz a limpha alborotada.
Cuida que mora lá dentro
Escondida uma rival,
E por dar-lhe invejas solta
Perfumes, que traz do val.
Raivosa tolda co'as azas
O liso espelho brilhante,
Cospe co'as azas, raivosa,
O Mondego ao seu amante.
E o pobre, por si perdido,
Sacode a fronte singela,
Murmura um ai; mas teimoso
Busca n'agua a imagem bella.
Como é lindo este Mondego
A brincar sobre esta arêa!
Como é lindo o bosque verde,
Que as verdes margens sombrêa!
Como a fonte d'Ignez soluça ao longe!
Parece inda chorar-lhe a morte escura,
Osculando na pedra eternas manchas
Do sangue espadanado[1]
Como os cedros a côma baloiçando
Inda vergam de dor, inda meditam
No caso triste de memoria digno,
Que desenterra os mortos!
Alli d'um terno amor ternos momentos
N'aza do tempo languidos fugiram,
Naquelle engano d'alma que a fortuna
Não deixa durar muito!
Dos suspiros de Ignez na penedia
Inda os echos vagando ás horas mortas
Murmuram brandos ais, e aos sons da lyra
Respondem gemebundos!
Quero muito á voz solemne
Dos echos da solidão;
São amigos invisiveis
Com quem falla o coração.
É tão doce nestas horas
Poder assim conversar,
Ouvir do nosso queixume
Novos queixumes brotar!
Chamar aquella que é longe,
Chamar aquella que se ama,
E o som d'amor e saudade
Não morrer na voz, que a chama!
Sentar-me ao pé d'esta fonte,
Que tão pura se deslisa,
Clamando--Elysa!--e dos montes
Outra voz clamar--Elysa!--
Quero muito á voz solemne
Dos echos da solidão;
São amigos invisiveis
Com quem falla o coração.
Mas quem pode formar taes sons no bosque?
Será perdido amante a penar magoas,
Desprezos da que amou, desdens de bella,
Injurias d'um rival, ou será nympha
Que um ingrato engeitou, e alli chorosa
Inda, louca d'amor, serve aos amores?
Oh! falla, quem és tu, filho da selva?....
Silencio... respondeu... maldicto vento!
Que só pude escutar--filho da selva!
Embora! fique embora isso em segredo,[2]
Saiba-o sómente Deos!
Tambem segredos, que meu peito encerra,
Só se dizem nos céos.
A turba ha de escutar-me, e cada nota
Será nota d'amor!
Mas ouvidos da turba não entendem
Carmes do trovador.
Emmudece-te, ó lyra; e tu, ó noite,
Apaga o teu luar,
Das trevas no pallor deixa-me um sonho
Com Elysa sonhar.
E a lua ja roça as cumiadas do monte, e pouco a pouco se enterra por elle
abaixo... ahi ficam agora na escuridão as margens do Mondego, tão saudosas
como amante feliz na hora de um _adeos_, sellado com beijos... ahi se
empoleiram as auras pelas hasteas do choupal, cançadas de abraçar a roxa
fronte das violetas... já não se lhe escuta o frémito das azas nos seus
brincos innocentes.... faz-se um silencio longo em toda a natureza... e só
as rãs veladoras continuam na voz unisona e aguda o hymno da creação!
Elysa, é tempo de pedir a Coimbra uma casa, á casa um leito, ao leito um
somno, ao somno a tua imagem.
Como o teu livro, Elysa, é fructo das horas roubadas ao remanso, e talvez
ao estudo, nesta bem-aventurada Coimbra, quero fallar-te de Coimbra!
Cada povo tem a cidade da sua poesia, da sua imaginação, dos seus amores;
cada povo aponta para uma terra, que a tradição vestiu de galas, e diz--lá,
lá! oh! que não ha nada mais bello!
O portuguez aponta para Coimbra.
É das recordações d'esta cidade que o velho se nutre, e nutre os filhos ao
serão do seu lar:--quando eu estava em Coimbra! eis-ahi o exordio de todas
as aventuras de um pae; e a saudade, tingindo de roxas e mimosas côres todo
o discurso, engrandecendo tudo, louvando tudo, e chorando por tudo, leva o
ancião á peroração de rigor--não ha já tempo como o meu tempo de Coimbra!
Para o amor maternal é a terra dos seus sustos, porque é a terra dos
rapazes; mas nesses mesmos sustos, no longo esperar do abraço filial
encarnou-se não sei que doce sympathia para aquella cidade, que faz chorar
e rir toda a casa; é o gosto amargo da saudade, é o