IV

Longo tempo ignorei (mas que cegueira

Me trazia este espirito ennublado!)

Quem fosses tu, que andavas a meu lado,

Noite e dia, impassivel companheira...

Muitas vezes, é certo, na canceira,

No tedio extremo d'um viver maguado,

Para ti levantei o olhar turbado,

Invocando-te, amiga derradeira...

Mas não te amava então nem conhecia:

Meu pensamento inerte nada lia

Sobre essa muda fronte, austera e calma.

Luz intima, afinal, alumiou-me...

Filha do mesmo pae, já sei teu nome,

Morte, irman coeterna da minha alma!

V

Que nome te darei, austera imagem,

Que avisto já n'um angulo da estrada,

Quando me desmaiava a alma prostrada

Do cançaço e do tedio da viagem?

Em teus olhos vê a turba uma voragem,

Cobre o rosto e recúa apavorada...

Mas eu confio em ti, sombra velada,

E cuido perceber tua linguagem...

Mais claros vejo, a cada passo, escritos,

Filha da noite, os lemmas do Ideal,

Nos teus olhos profundos sempre fitos...

Dormirei no teu seio inalteravel,

Na communhão da paz universal,

Morte libertadora e inviolavel!

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 114 / 130 题