Desesperança

Vae-te na aza negra da desgraça,

Pensamento de amor, sombra d'uma hora,

Que abracei com delirio, vae-te, embora,

Como nuvem que o vento impelle... e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça,

Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora

D'essa alma o sangue, com que vigora,

Como amigo commungue á mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança,

Emquanto a dor eternamente assiste.

E só engano nunca a desventura!

Se era silencio soffrer fôra vingança!..

Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,

Talvez sem esperança haja ventura!

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 39 / 130 题