A um crucifixo

Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços

E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente,

O horizonte futuro e viste, em tua mente,

Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos,

E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?

Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente

Arrojáras de nova á campa os membros lassos...

Agora, como então, na mesma terra erma,

A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,

Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario...

E agora, como então, viras o mundo exangue,

E ouviras perguntar--de que servio o sangue

Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?--

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 38 / 130 题