A M. C.

Porque descrês, mulher, do amor, da vida?

Porque esse Hermon transformas em Calvario?

Porque deixas que, aos poucos, do sudario

Te aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdida

Buscas em vão n'este ermo solitario?

Que signo obscuro de cruel fadario

Te faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:

Deus, em penhor, te deu a formosura;

Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?... E eu, pobre e triste,

Que só no teu olhar leio a ventura,

Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 33 / 130 题