II

Esta collecção de Sonetos é, portanto, ao mesmo tempo biographica e

cyclica. Conta-nos as tempestades de um espirito; mas essas tempestades

não são os quaesquer episodios particulares de uma vida de homem: são a

refracção das agonias moraes do nosso tempo, vividas, porem, na

imaginação de um poeta.

O primeiro periodo, de 1860-2, contém em embryão todos os successivos,

da mesma fórma que as flores incluem em si a substancia dos fructos.

Denuncía uma alma sensivel, mas patenteia já a preoccupação metaphisica

na sua phase rudimentar de duvida theologica, e apresenta uns assomos de

tristeza que são como os farrapos de nuvens quando velam

intermittentemente o sol, deixando antever a tempestade para o dia

seguinte. Estes primeiros sonetos são o balbuciar de uma creança.

Romantica? De modo nenhum. Este poeta não se filia em escholas, não

obedece a correntes litterarias: a sua poesia é exclusivamente pessoal.

Succedia, porem, que n'esse tempo já os nossos bardos classicamente

romanticos tinham passado da moda; e a Coimbra chegavam por via de Paris

os éccos do espirito novo, expresso nas obras de Michelet, de Quinet, de

Vera-Hegel, etc.

Tudo isso fermentava no cerebro de Anthero de Quental, mas a sua

personalidade não se deixava absorver pelo optimismo que, depois dos

romanticos, se espalhou na Europa, lyricamente ingenuo no Occidente

afrancezado, systematicamente philosophico na Allemanha hegeliana.

Schopenhauer, ninguem o lia. Não era moda. Pois foi essa corrente,

dominante hoje, aquella em que o nosso poeta, espontaneamente, por um

movimento do seu temperamento, se achou levado. Aos dezoito ou vinte

annos, ignorante ainda, mas inquieto e perscrutador, o poeta que

desdenha sinceramente da fama e da gloria, vê no eterno feminino de que

nos falla Goethe a synthese da existencia. Os seus amores já são

phantasticos: só tem realidade no ceu.

Alli, ó lyrio dos celestes valles,

Tendo seu fim, terão o seu começo,

Para não mais findar, nossos amores.

E se ainda o dia, a luz, o sol _esposo amado_, têm o condão de o encher

de enthusiasmo, é mister desconfiar de um homem mais caprichoso do que

todas as mulheres, porque

Pedindo á forma, em vão, a idea pura

Tropeço, em sombras, na materia dura

E encontro a imperfeição de quanto existe.

Esta nota é mais constitucionalmente verdadeira. «Seja a terra degredo,

o ceu destino» diz n'um ponto; e n'outro:

Minha alma, ó Deus, a outros ceus aspira:

Se um momento a prendeu mortal belleza

É pela eterna patria que suspira...

Não acreditemos tambem demasiadamente n'isto, porque Deus não passa

ainda de uma interrogação:

Pura essencia das lagrimas que choro

E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,

Descobre-te, visão, no ceu ao menos!

As luctas infantís d'este primeiro periodo para saber se Deus é ou não é

verdade, bastam, em si mesmo e no proprio modo por que estão expressas,

para nos mostrar que o poeta não saiu ainda das espheras da

representação elementar dos seres, para a esphera comprehensiva das

abstracções racionaes. Os sonetos d'esta primeira serie desenrolam-se no

terreno da phantasmagoria transcendente. O traço mais seguro de todos e

o mais significativo está n'este verso:

Que sempre o mal peior é ter nascido.

A segunda serie tem a data de 1862-6. Psychologicamente é a menos

original, artisticamente é a mais brilhante. O _Sonho oriental_, o

_Idyllio_, o _Palacio da Ventura_, são obras primas, até de colorido.

Talvez por isso mesmo que o estado de espirito do poeta o não obrigava a

tirar tanto de si, e porque n'esta epocha viveu mais á lei da natureza;

talvez por isso mesmo a sentiu e pintou melhor nas suas côres, nas suas

imagens.

A nebulose do primeiro periodo começava a resolver-se n'uma tragedia

mental, que umas vezes tem os sonhos dos que mastigam haschich, outras

vezes furias de desespero, ironias como punhaes e gritos lancinantes:

Se nada ha que me aqueça esta frieza,

Se estou cheio de fel e de tristeza,

É de crer que só eu seja o culpado.

Meu pobre amigo, como foi amarga esta epocha! Outros soffreram tambem,

outros penaram eguaes dores, sem conseguirem porem estrangular os

monstros que defendem os áditos do templo da Sabedoria. Heine e

Espronceda, Nerval e Baudelaire viveram vidas inteiras n'esse estado de

ironia e de sarcasmo, de desespero e de raiva, de orgia e de abatimento,

de furia e de atonia, que para ti representam quatro annos apenas!

Mas é que não havia em nenhum d'esses homens a semente de abstracção que

se descobre no _Palacio da Ventura_:

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silencio e escuridão--e nada mais!

Os romanticos, mais ou menos satanistas ou satanisados, ficavam-se por

aqui. Achando apenas silencio e escuridão onde tinham sonhado venturas,

ou davam em bebedos como Espronceda, ou suicidavam-se como Nerval, ou

faziam-se cynicos, á maneira de Baudelaire, cultivando com amor as

_Flores do Mal_.

De 1864 a 74, n'esses dez annos em que a tempestade caminha, vê-se a

onda negra da desolação espraiar-se; vê-se o «silencio e a escuridão»

que antes surgiam como surprezas medonhas, ganharem um logar apropriado,

embora eminente, no regimen das cousas; vê-se o espirito do philosopho

reagir sobre o temperamento do poeta, e tornar-se systema o que até ahi

era furia. Bom prenuncio.

N'esta epocha Anthero de Quental é nihilista como philosopho, anarchista

como politico: é tudo o que fôr negativo, é tudo o que fôr excessivo; e

é-o de um modo tão terminante, tão dogmatico e tão affirmativo, que por

isso mesmo hesitamos em crer na consciencia com que o é. Da sinceridade

não é licito duvidar, mas contra a segurança depõe a propria violencia.

A nevrose contemporanea, que produzira n'elle a terceira epocha, dá de

si ainda a quarta; mas se poude galgar a saltos por entre a floresta

incendiada que devorou e consumiu os satanicos, não poderá tambem sair

da steppe lugubre onde apodrecem os pessimistas, embriagados na negação

universal, sem se lembrarem de que são contradictorios no proprio facto

de prégarem o que quer que seja?

Ora a isto responde esta propria serie, porque, ao lado dos sonetos

crepuscularmente desolados, levantam-se como auroras os sonetos stoicos.

Para curar o poeta da vertigem satanica serviu-lhe a methaphisica

pessimista; para o curar mais tarde d'essa metaphisica, servir-lhe-ha a

reacção do sentimento moral sobre a razão especulativa. Quando pede

_Mais luz_, quando chama ao sol «O claro sol amigo dos heroes», quando

define a _Idea_ acabando por estes versos diamantinos:

A Idea, o Summo bem, o Verbo, a Essencia

Só se revela aos homens e às nações

No ceu incorruptivel da Consciencia!

sentimo-nos bem distantes das phantasmagorias do principio e das

loucuras da viagem, que todavia o poeta não terminou ainda.

Luctando furioso contra a desillusão, caindo esmagado pelo

anniquilamento, Anthero de Quental _ensimismou-se_ (para usar de uma

feliz expressão hespanhola) metteu-se dentro de si, a sós comsigo,

apellou para as energias do seu instincto de homem, e foi isso o que lhe

inspirou o bello _Hymno á Razão_.

Porem na lucta entre o temperamento de stoico e a imaginação

metaphisica, o seu espirito attribulado não conseguiu manter o

equilibrio, porque as suas exigencias de critico e philosopho

(alimentadas agora por leituras variadissimas e profundas) contrariavam

ou contradiziam as suas vizões de poeta. Á maneira que a intelligencia

se lhe cultivava, que o saber lhe crescia, que a experiencia o educava

com mais de um caso doloroso ou apenas triste--apurava-se-lhe a

imaginação até ao ponto de ver claramente o que para o commum dos

espiritos são apenas concepções do entendimento abstracto. A sua poesia

despe-se então de accessorios: não ha quasi uma imagem; ha apenas

linhas, mas essas linhas de estatuas incorporeas tem uma nitidez

dantesca.

O seu pessimismo torna-se systematico: é uma philosophia inteira, a que

corresponde, como expressão sentimental, a ironia transcendente. Na

_Disputa em Familia_, Deus responde aos atheus:

Muito antes de nascerem vossos paes

D'um barro vil, ridiculas creanças,

Sabia eu tudo isso... e muito mais!

No _Inconsciente_, este heroe metaphisico, diz assim:

Chamam-me Deus ha mais de dez mil annos...

Mas eu por mim não sei como me chamo.

Na _Divina Comedia_ os homens queixam-se aos deuses do que soffrem,

invectivando-os pelos terem creado.

Mas os deuses com voz ainda mais triste

Dizem:--Homens! porque é que nos creastes?

Como se vê, houve um progresso. No periodo anterior a negação era

violenta e terminante; agora tem como expressão a ironia que é uma das

formas conhecidas do saber, e uma das linguagens da verdade. Eis ahi o

que a reacção moral conseguiu, acompanhada pelo esclarecimento da razão,

da intelligencia e do conhecimento. O antigo poeta satanico,

transformado em um nihilista, vemol-o agora na pelle de um pessimista

systematico, sorrindo já bondosamente, com a ironia n'esses proprios

labios que, primeiro cobertos de espuma, depois nos appareciam brancos

de agonias.

Não tinha eu razão para chamar cyclica a esta collecção de sonetos? Não

tem sido este o movimento das idéas, a evolução do pensamento creador na

segunda metade do nosso seculo?

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 13 / 130 题