Rua da Fabrica, 66

Escrevendo estas breves paginas á frente dos _Sonetos_ de Anthero de

Quental tenho a satisfação intima de cumprir o dever de tornar conhecida

do publico a figura talvez mais caracteristica do mundo litterario

portuguez, e decerto aquella sobre que a lenda mais tem trabalhado.

Estou certo, absolutamente certo, de que este livro, embora sem écco no

espirito vulgar que faz reputações e dá popularidade, ha-de encontrar um

acolhimento amoroso em todas as almas de eleição, e durar emquanto

houver corações afflictos, e emquanto se fallar a linguagem portugueza.

Procurarei, no que vou dizer, guardar para mim aquillo que ao publico

não interessa: a viva amisade, a estreita communhão de sentimentos, o

affecto quasi fraterno que ha perto de vinte annos nos une, ao poeta e

ao seu critico de hoje, fazendo da vida de ambos como que uma unica

alma, misturando invariavelmente as nossas breves alegrias, muitas vezes

as nossas lagrimas, sempre as nossas dores e os nossos enthusiasmos ou o

nosso desalento.

Discutindo em permanencia, discordando frequentemente, ralhando a miudo,

zangando-nos ás vezes e abraçando-nos sempre: assim tem decorrido para

nós perto de vinte annos. Mas o leitor é que nada tem que vêr com esses

casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro

nos conhecemos e que só terminará n'aquelle em que um de nós, ou ambos

nós, formos descançar para sempre sob meia duzia de pás de terra fria.

I

Eu não conheço phisionomia mais difficil de desenhar, porque nunca vi

natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possivel desdobrar um

homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Anthero de Quental dava

_alma_ para uma familia inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada

expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a intelligencia mais critica,

o instincto mais pratico, a sagacidade mais lucida, que eu conheço. É um

poeta que sente, mas é um raciocinio que pensa. Pensa o que sente; sente

o que pensa.

Inventa, e critíca. Depois, por um movimento reflexo da intelligencia,

dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou.--O seu

temperamento apresenta um contraste correlativo: é meigo como uma

creança, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermittentemente é

duro e violento.

É fraco, portanto? Não. A vontade, em obediencia á qual, e com esforço,

se faz colerico, fal-o tambem forte--d'esta força persistente,

raciocinada e na apparencia placida, como a superficie do mar em dias de

bonança. O Oceano, porém, é interiormente agitado pelo _gulf stream_

quente e invisível: tambem ás vezes a placidez extrema da sua face

encobre ondas de afflicção que sobem até aos olhos e rebentam em

lagrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade.

É d'estas crises que nasceram os seus versos, porque Anthero de Quental

não _faz_ versos á maneira dos litteratos: nascem-lhe, brotam-lhe da

alma como solluços e agonias. Mas, apezar d'isso, é requintado e

exigente como um artista: as suas lagrimas hão de ter o contôrno de

perolas, os seus gemidos hão de ser musicaes. As faculdades artisticas

geradoras da estatuaria e da symphonia são as que vibram na sua alma

esthetica. A noção das fórmas, das linhas e dos sons, possue-a n'um gráo

eminente: não já assim a da côr nem a da _composição_. Aos quadros chama

_paineis_ com desdem, e por isso mesmo tem horror á descripção e ao

pittoresco. É artista, no que a arte contém de mais subjectivo. A sua

poesia é esculptural e hieratica, e por isso phantastica. É

exclusivamente psychologica e dantesca: não pode pintar, nem descrever:

acha isso inferior e quasi indigno.

Os seus versos são sentidos, são _vividos_ como nenhuns; mas o sentir e

o viver d'este homem é de uma natureza especial que tem por fronteiras

phisicas as paredes do seu craneo, mas que não tem fronteiras no mundo

real, porque a sua imaginação paira librada nas azas de uma razão

especulativa para a qual não ha limites.

O poeta é por isso um mystico, e o critico um philosopho. O mysticismo e

a metaphisica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o

temperamento e a intelligencia, combatem-se, ás vezes dilacerando-se.

Eis ahi a explicação d'esta poesia que é o retrato vivo do homem. O

genio, esse _quid_ divinatorio, que não é honra para nenhuma creatura

possuir, porque só nos dá merecimento aquillo que ganhámos á força de

intelligencia e de vontade; o genio, que é uma faculdade tão accidental

como a côr dos cabellos, ou o desenho das feições; o genio, que pode

andar ligado a uma intelligencia mediocre, mas que o não anda no caso de

Anthero de Quental--é o predicado particular e a chave do enygma d'este

homem. O genio presuppõe a intuição de uma verdade visceral ou

fundamental da natureza. Essa intuição, essa aspiração absorvente, é

para o nosso poeta a synthese da verdade racional ou positiva e do

sentimento mystico: uma poesia que exprima o raciocinio, ou antes uma

philosophia onde caibam todas as suas visões. O proprio do genio é

querer realisar o irrealisavel; é ser chimerico, no sentido critico da

palavra, quando por chimera entendemos uma verdade essencial que não

pode todavia reduzir-se a formulas comprehensiveis, ou uma cousa cuja

realidade se sente, sem se poder ver.

Dos aspectos quasi inexgotavelmente variaveis d'esta singular

phisionomia de homem, d'esta mistura excepcional de pensamentos e de

temperamentos n'um mesmo individuo, resulta porém um typo de sinceridade

e de rectidão mais singular ainda, porque mais facilmente podia resultar

d'ella um grande cynico. É sobretudo um stoico, sem deixar de ter

bastante de sceptico; é um mystico, mas com uma forte dose de ironia e

humorismo; e um mysanthropo, quando não é o homem do trato mais affavel,

da convivencia mais alegre; é um pessimista, que todavia acha em geral

tudo optimo. Intellectualmente é a phisionomia mais dubia, complexa e

contradictoria por vezes; moralmente é o caracter mais inteiro e melhor

que existe. A sua intelligencia encontra-se permanentemente no estado de

alguem que, querendo ir para um sitio, resiste por não querer ao mesmo

tempo, sem todavia ter rasões bastantes para querer nem tambem para não

querer. O nucleo da sua personalidade, se a encaramos pelo lado

praticamente humano, está na energia do seu querer moral, e não na

lucidez do seu pensamento; embora tenha a pretenção de julgar que a sua

vontade obedece sempre á sua razão. É verdade que dentro de si tem

permanentemente um espelho facetado que representa e critíca as

modalidades do seu pensamento; mas, por isso mesmo, vê ou inventa faces

de mais ás cousas, e tambem por vezes o cristal embacia. O que nunca

esmorece é a bondade luminosa da sua alma. É um homem fundamentalmente

bom.

A complexidade do seu espirito dá-lhe uma variedade de aptidões

singular. Conversador como poucos, facil, espontaneo, original e

suggestivo, ironico, humorista, espirituoso, descendo até á propria

_charge_, não ha ninguem como elle para soltar o carro da sua phantasia

critica na ladeira de uma these, e, explorando-a em todos os sentidos,

architectar uma theoria. Os seus opusculos em prosa (da melhor prosa

portugueza d'este tempo) têm em geral este caracter. São logicos, são

bem deduzidos--sem serem sufficientemente pensados. São fructos da

imaginação; são conversas escriptas, d'essas conversas que durante horas

seduzem os que o ouvem--porque é um _charmeur_.

Elle proprio se embriaga, não com as suas palavras, mas sim com aquella

theoria passageira que inventou _ad hoc_, e, quando alguem lhe objecta

um pequeno senão, todavia essencial ao seu edificio logico, resiste,

defende-se, irrita-se ás vezes, mas por fim é elle proprio que, com um

dito, desfaz toda a construcção. Seria um orador, um jornalista de

primeira ordem, se não tomasse apenas a sério a sua missão de poeta, ou

antes de philosopho.

Depois de tudo isto dirão pessoas pouco dadas ao estudo do animal homem

que Anthero de Quental é um assombro. Longe d'isso. A sua força e a

prodigalidade com que a natureza dotou o seu espirito; mas essa força é

uma fraqueza. Tem demasiada imaginação para ver bem; e por outro lado o

raciocinio critico peia-lhe os vôos luminosos da phantasia. Vê de mais

para poder ser activo, ou não tem a energia correspondente á sua visão.

Se a tivesse, seria verdadeiramente um assombro. A imaginação e a razão,

irreductiveis nos cerebros humanos com as circumvoluções limitadas que

contêm, são egualmente poderosas no seu cerebro para que qualquer

d'ellas domine. Luctam em permanencia, procurando entender-se,

combinar-se, penetrar-se, e, no desejo chimerico da synthese,

desequilibram o homem, atrophiando-lhe a energia activa. Ainda assim,

felizes d'aquelles cuja inercia désse um livro comparavel a este!

Mas é que as suas paginas foram escriptas com sangue e lagrimas! E doe

ver a vida do mais bello espirito consumir-se em agonias de uma alma em

lucta comsigo mesmo! O commum da gente, ao ler as paginas d'este volume,

dirá então: Quantas catastrophes, que desgraças, este homem soffreu! que

singular hostilidade do mundo para com uma creatura humana!--E todavia o

mundo nunca lhe foi propriamente hostil, nenhuma desgraça o acabrunhou;

a sua vida tem corrido serena, placida, e até para o geral da gente em

condições de felicidade.

É que o geral da gente não sabe que as tempestades da imaginação são as

mais duras de passar! Não ha dores tão agudas como as dores imaginarias.

Não ha problemas mais difficeis do que os problemas do pensamento, nem

crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. As agonias

dilacerantes da morte com as ancias do stertor, os horrores mais

inverosimeis dos crimes monstruosos, as afflicções mais pungentes da

saudade, as tristezas mais dolorosas da solidão, as luctas do dever com

a paixão, os gritos do homem arruinado, os ais da orphandade faminta...

tudo, tudo, quanto no mundo pode haver de doloroso, desde a miseria até

á prostituição, desde o andrajo até ao velludo arrastado pela

immundicie, desde o cardo que dilacera os pés até ao punhal que rasga o

coração: tudo isso é menos, do que a agonia de um poeta vendo passar

diante de si, em turbilhão medonho, as lugubres miserias do mundo. Todas

as afflicções têm o seu quê de imaginativas, e por isso ha apenas uma

especie de homens que não sentem: são os cynicos, esses que perderam os

nervos da moralidade, os anesthesiados do sentimento.

Quando se é poeta como Anthero de Quental, a imaginação exacerbada vibra

como as harpas que os gregos expunham ás virações da brisa nos ramos das

arvores. Nenhum dedo lhes feria as cordas, e todavia tocavam! Nenhuma

d'essas desgraças do mundo feriu a harpa da vida do poeta; e todavia

essa harpa geme e chora, solluça e grita, porque pelas suas cordas passa

o vento agreste das idéas, passa o écco ullulante do egoismo dos homens,

afflictivo como os uivos de uma alcateia de lobos famintos.

Os sonetos completos de Anthero de Quental · 第 12 / 130 题