Escrevendo estas breves paginas á frente dos _Sonetos_ de Anthero de
Quental tenho a satisfação intima de cumprir o dever de tornar conhecida
do publico a figura talvez mais caracteristica do mundo litterario
portuguez, e decerto aquella sobre que a lenda mais tem trabalhado.
Estou certo, absolutamente certo, de que este livro, embora sem écco no
espirito vulgar que faz reputações e dá popularidade, ha-de encontrar um
acolhimento amoroso em todas as almas de eleição, e durar emquanto
houver corações afflictos, e emquanto se fallar a linguagem portugueza.
Procurarei, no que vou dizer, guardar para mim aquillo que ao publico
não interessa: a viva amisade, a estreita communhão de sentimentos, o
affecto quasi fraterno que ha perto de vinte annos nos une, ao poeta e
ao seu critico de hoje, fazendo da vida de ambos como que uma unica
alma, misturando invariavelmente as nossas breves alegrias, muitas vezes
as nossas lagrimas, sempre as nossas dores e os nossos enthusiasmos ou o
nosso desalento.
Discutindo em permanencia, discordando frequentemente, ralhando a miudo,
zangando-nos ás vezes e abraçando-nos sempre: assim tem decorrido para
nós perto de vinte annos. Mas o leitor é que nada tem que vêr com esses
casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro
nos conhecemos e que só terminará n'aquelle em que um de nós, ou ambos
nós, formos descançar para sempre sob meia duzia de pás de terra fria.
I
Eu não conheço phisionomia mais difficil de desenhar, porque nunca vi
natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possivel desdobrar um
homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Anthero de Quental dava
_alma_ para uma familia inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada
expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a intelligencia mais critica,
o instincto mais pratico, a sagacidade mais lucida, que eu conheço. É um
poeta que sente, mas é um raciocinio que pensa. Pensa o que sente; sente
o que pensa.
Inventa, e critíca. Depois, por um movimento reflexo da intelligencia,
dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou.--O seu
temperamento apresenta um contraste correlativo: é meigo como uma
creança, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermittentemente é
duro e violento.
É fraco, portanto? Não. A vontade, em obediencia á qual, e com esforço,
se faz colerico, fal-o tambem forte--d'esta força persistente,
raciocinada e na apparencia placida, como a superficie do mar em dias de
bonança. O Oceano, porém, é interiormente agitado pelo _gulf stream_
quente e invisível: tambem ás vezes a placidez extrema da sua face
encobre ondas de afflicção que sobem até aos olhos e rebentam em
lagrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade.
É d'estas crises que nasceram os seus versos, porque Anthero de Quental
não _faz_ versos á maneira dos litteratos: nascem-lhe, brotam-lhe da
alma como solluços e agonias. Mas, apezar d'isso, é requintado e
exigente como um artista: as suas lagrimas hão de ter o contôrno de
perolas, os seus gemidos hão de ser musicaes. As faculdades artisticas
geradoras da estatuaria e da symphonia são as que vibram na sua alma
esthetica. A noção das fórmas, das linhas e dos sons, possue-a n'um gráo
eminente: não já assim a da côr nem a da _composição_. Aos quadros chama
_paineis_ com desdem, e por isso mesmo tem horror á descripção e ao
pittoresco. É artista, no que a arte contém de mais subjectivo. A sua
poesia é esculptural e hieratica, e por isso phantastica. É
exclusivamente psychologica e dantesca: não pode pintar, nem descrever:
acha isso inferior e quasi indigno.
Os seus versos são sentidos, são _vividos_ como nenhuns; mas o sentir e
o viver d'este homem é de uma natureza especial que tem por fronteiras
phisicas as paredes do seu craneo, mas que não tem fronteiras no mundo
real, porque a sua imaginação paira librada nas azas de uma razão
especulativa para a qual não ha limites.
O poeta é por isso um mystico, e o critico um philosopho. O mysticismo e
a metaphisica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o
temperamento e a intelligencia, combatem-se, ás vezes dilacerando-se.
Eis ahi a explicação d'esta poesia que é o retrato vivo do homem. O
genio, esse _quid_ divinatorio, que não é honra para nenhuma creatura
possuir, porque só nos dá merecimento aquillo que ganhámos á força de
intelligencia e de vontade; o genio, que é uma faculdade tão accidental
como a côr dos cabellos, ou o desenho das feições; o genio, que pode
andar ligado a uma intelligencia mediocre, mas que o não anda no caso de
Anthero de Quental--é o predicado particular e a chave do enygma d'este
homem. O genio presuppõe a intuição de uma verdade visceral ou
fundamental da natureza. Essa intuição, essa aspiração absorvente, é
para o nosso poeta a synthese da verdade racional ou positiva e do
sentimento mystico: uma poesia que exprima o raciocinio, ou antes uma
philosophia onde caibam todas as suas visões. O proprio do genio é
querer realisar o irrealisavel; é ser chimerico, no sentido critico da
palavra, quando por chimera entendemos uma verdade essencial que não
pode todavia reduzir-se a formulas comprehensiveis, ou uma cousa cuja
realidade se sente, sem se poder ver.
Dos aspectos quasi inexgotavelmente variaveis d'esta singular
phisionomia de homem, d'esta mistura excepcional de pensamentos e de
temperamentos n'um mesmo individuo, resulta porém um typo de sinceridade
e de rectidão mais singular ainda, porque mais facilmente podia resultar
d'ella um grande cynico. É sobretudo um stoico, sem deixar de ter
bastante de sceptico; é um mystico, mas com uma forte dose de ironia e
humorismo; e um mysanthropo, quando não é o homem do trato mais affavel,
da convivencia mais alegre; é um pessimista, que todavia acha em geral
tudo optimo. Intellectualmente é a phisionomia mais dubia, complexa e
contradictoria por vezes; moralmente é o caracter mais inteiro e melhor
que existe. A sua intelligencia encontra-se permanentemente no estado de
alguem que, querendo ir para um sitio, resiste por não querer ao mesmo
tempo, sem todavia ter rasões bastantes para querer nem tambem para não
querer. O nucleo da sua personalidade, se a encaramos pelo lado
praticamente humano, está na energia do seu querer moral, e não na
lucidez do seu pensamento; embora tenha a pretenção de julgar que a sua
vontade obedece sempre á sua razão. É verdade que dentro de si tem
permanentemente um espelho facetado que representa e critíca as
modalidades do seu pensamento; mas, por isso mesmo, vê ou inventa faces
de mais ás cousas, e tambem por vezes o cristal embacia. O que nunca
esmorece é a bondade luminosa da sua alma. É um homem fundamentalmente
bom.
A complexidade do seu espirito dá-lhe uma variedade de aptidões
singular. Conversador como poucos, facil, espontaneo, original e
suggestivo, ironico, humorista, espirituoso, descendo até á propria
_charge_, não ha ninguem como elle para soltar o carro da sua phantasia
critica na ladeira de uma these, e, explorando-a em todos os sentidos,
architectar uma theoria. Os seus opusculos em prosa (da melhor prosa
portugueza d'este tempo) têm em geral este caracter. São logicos, são
bem deduzidos--sem serem sufficientemente pensados. São fructos da
imaginação; são conversas escriptas, d'essas conversas que durante horas
seduzem os que o ouvem--porque é um _charmeur_.
Elle proprio se embriaga, não com as suas palavras, mas sim com aquella
theoria passageira que inventou _ad hoc_, e, quando alguem lhe objecta
um pequeno senão, todavia essencial ao seu edificio logico, resiste,
defende-se, irrita-se ás vezes, mas por fim é elle proprio que, com um
dito, desfaz toda a construcção. Seria um orador, um jornalista de
primeira ordem, se não tomasse apenas a sério a sua missão de poeta, ou
antes de philosopho.
Depois de tudo isto dirão pessoas pouco dadas ao estudo do animal homem
que Anthero de Quental é um assombro. Longe d'isso. A sua força e a
prodigalidade com que a natureza dotou o seu espirito; mas essa força é
uma fraqueza. Tem demasiada imaginação para ver bem; e por outro lado o
raciocinio critico peia-lhe os vôos luminosos da phantasia. Vê de mais
para poder ser activo, ou não tem a energia correspondente á sua visão.
Se a tivesse, seria verdadeiramente um assombro. A imaginação e a razão,
irreductiveis nos cerebros humanos com as circumvoluções limitadas que
contêm, são egualmente poderosas no seu cerebro para que qualquer
d'ellas domine. Luctam em permanencia, procurando entender-se,
combinar-se, penetrar-se, e, no desejo chimerico da synthese,
desequilibram o homem, atrophiando-lhe a energia activa. Ainda assim,
felizes d'aquelles cuja inercia désse um livro comparavel a este!
Mas é que as suas paginas foram escriptas com sangue e lagrimas! E doe
ver a vida do mais bello espirito consumir-se em agonias de uma alma em
lucta comsigo mesmo! O commum da gente, ao ler as paginas d'este volume,
dirá então: Quantas catastrophes, que desgraças, este homem soffreu! que
singular hostilidade do mundo para com uma creatura humana!--E todavia o
mundo nunca lhe foi propriamente hostil, nenhuma desgraça o acabrunhou;
a sua vida tem corrido serena, placida, e até para o geral da gente em
condições de felicidade.
É que o geral da gente não sabe que as tempestades da imaginação são as
mais duras de passar! Não ha dores tão agudas como as dores imaginarias.
Não ha problemas mais difficeis do que os problemas do pensamento, nem
crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. As agonias
dilacerantes da morte com as ancias do stertor, os horrores mais
inverosimeis dos crimes monstruosos, as afflicções mais pungentes da
saudade, as tristezas mais dolorosas da solidão, as luctas do dever com
a paixão, os gritos do homem arruinado, os ais da orphandade faminta...
tudo, tudo, quanto no mundo pode haver de doloroso, desde a miseria até
á prostituição, desde o andrajo até ao velludo arrastado pela
immundicie, desde o cardo que dilacera os pés até ao punhal que rasga o
coração: tudo isso é menos, do que a agonia de um poeta vendo passar
diante de si, em turbilhão medonho, as lugubres miserias do mundo. Todas
as afflicções têm o seu quê de imaginativas, e por isso ha apenas uma
especie de homens que não sentem: são os cynicos, esses que perderam os
nervos da moralidade, os anesthesiados do sentimento.
Quando se é poeta como Anthero de Quental, a imaginação exacerbada vibra
como as harpas que os gregos expunham ás virações da brisa nos ramos das
arvores. Nenhum dedo lhes feria as cordas, e todavia tocavam! Nenhuma
d'essas desgraças do mundo feriu a harpa da vida do poeta; e todavia
essa harpa geme e chora, solluça e grita, porque pelas suas cordas passa
o vento agreste das idéas, passa o écco ullulante do egoismo dos homens,
afflictivo como os uivos de uma alcateia de lobos famintos.