Xacaras dos Conversados

(_Versão de Coimbra_)

Fui indo áquella casa

Com pequena confiança,

Com o sentido apurado,

Já com a minha lembrança.

Fui indo ali aos domingos

E dias santos do anno;

Procurando a certeza,

Ou então o desengano.

Já n’isso lhe ia tocando

Cora boa sinceridade;

Para vêr se ella me tinha

Parte de alguma amisade:

--Oh que estado tão bonito

De solteiro bem logrado;

Mas pretendo a menina

Se quizer mudar de estado.

«A resposta ao seu recado

Eu lh’a darei quando fôr,

Eu não lhe dou a certeza

Sem sabêr seu interior.

--P’ra saber meu interior

Quinze dias lhe heide dar;

Bem pode tirar inculcas

Para se certificar;

«Vá indo e vá voltando,

A resposta eu lh’a darei;

Se você me fôr leal,

Eu sempre firme serei.

--Que palavrinhas tão doces,

Com ellas me consolou;

Se você jura ser firme,

Eu tambem leal lhe sou.

«Sou a mesma que aqui estou,

E lhe torno a affirmar,

Se você de mim pretende

Trate de a meu pae falar.

--Se essa é a sua duvida

Eu já d’ella a vou tirar,

Falando eu a seu pae

Quero com você casar.

«Commigo pode contar,

A certeza eu lh’a darei;

Se meu pae lhe der o sim,

Eu sempre firme serei.

--Eu já com seu pae falei,

Elle me disse prudente:

Se você quizer ser minha,

Da sua parte é contente.

«Não o diga a muita gente

Por murmuração não dar;

Que isto anda em segredo

Em quanto se não falar.

--Quero recommendar

Algumas recommendações,

Temos tratado de tudo

Faltam agora os pregões.

«São boas recommendações

Com que se deve importar,

Tratemos de os fazer

E na egreja os ir prantar.

--Já os banhos são corridos,

Estamos apregoados;

Vamos agora tratar

Do dia d’este noivado.

«E bem dado esse recado,

Commigo pode contar,

Espere mais algum tempo

P’ra me poder arranjar.

--Ora vâmos lá com isso,

Deos lhe a saude conserve,

Eu tenho casa e vida,

Não tenho quem m’a governe.

«Se não tem quem lh’a governe

Já não é por muito tempo;

É emquanto não arranjo

O fato do casamento.

Eu com isso fui contando,

Ella ficou descansada;

Estando na fonte um dia

Pedi-lhe um pucaro de agua:

--Que pucaro tão formoso,

Que agua tão saborosa!

Tomára ser seu esposo

P’ra você ser minha rosa.

«Se essa agua é gostosa

E gosto que Deos lhe deu;

Sendo você meu esposo

Já sua rosa sou eu.

53

Romanceiro geral · 第 67 / 84 题