(_Versão da Beira-Baixa_)
--Deos te salve, Rosa,
Lindo seraphim!
Linda pastorinha
Que fazeis aqui?
Que fazeis pastora
Por essa ribeira?
Tirae-vos ao sol,
Do sol que vos queima.
«O sol não me queima,
Que estou calejada
Do rigor da chuva,
Do rigor da calma.
--Tão gentil senhora
A guardar o gado,
Ao longo do rio
Tão bem repastado.
«Criado tão nobre
Com meias de seda!
Olhe não as rompa
Por essa resteva.
--Sapatos e meias
Tudo romperei,
Pela pastorinha
Tudo eu farei.
«Por altas montanhas
Ouço gritar gado;
São as ovelhinhas
Que me tem faltado.
--Dê-me cá a cesta,
Tambem o cajado,
Que eu lh’as vou buscar
Com todo o cuidado.
«Vá-se embora, homem,
Não me dê tormento;
Não o posso vêr
Nem por pensamento.
--O que está de ingrata,
Tão impertinente!
Homens não são lobos
Que comam a gente.
«Eu se sou ingrata
Faço muito bem;
Quero ser ingrata,
Assim me convem.
--O teu gado, Rosa,
Eu aqui t’o trago:
Um formoso moço
Para teu criado.
Não tenha esse medo
Que o gado se perca,
Por aqui passarmos
Uma hora de sésta.
«Vá-se d’aí, negro,
Não me dê mais pena;
Que aí vem meus amos
Trazer-me a merenda.
--Isso é que eu quero
Que venham seus amos;
Quero que elles saibam
Que falamos ambos.
«Tal razão como essa
Não a ouvirei;
Já dirão meus amos
Que de mais tardei.
--Diga-lhe, menina,
Que se demorou
Com esta nuvem d’agua
Que tudo molhou.
«Va-se d’aí, homem,
Não me dê tormento;
Não o quero vêr
Nem por pensamento.
--Que tem a menina
Que está agastada?
No meu coração
Trago-a retratada.
Uma vez que quer
Que me vá embora,
Lá verá o gado
Que vae serra fóra.
«Se vae serra fóra
Pois deixal-o ir;
Se o não matarem
Tornará a vir.
--Por altas montanhas
Corre grande p’rigo;
Oh linda pastora
Queira vir commigo.
«Não é de homem nobre
O dar tal conselho,
Pois quer que se perca
O gado alheio.
--O gado alheio
Não quero se perca;
Quero que tenhamos
Uma hora de sésta.
«Guardemos a sésta
Lá para depois;
Eu quero saber
Quem é que vós sois.
--Sou filho da côrte,
Assisto em palacio;
Linda pastorinha
Dae-me um abraço.
Já me vou embora
Pela serra acima,
Linda, pastorida
Dae-me a despedida.
«Venha cá, oh homem,
Venha aqui correndo;
O amor é cego,
Já me vae rendendo.
--Se você me chama
Eu me vou andando,
Que a aposta que fiz
Já a vou ganhando.
«Bem sei o que queres,
Queres um abraço;
O abraço se o deres
Dá bem apertado.
O abraço se o deres
Dá-m’o apertado,
Para apagar penas
Que commigo trago.
--O abraço que der
Não tem má tenção,
Cala-te lá, Rosa,
Que sou teu irmão.
Quer ella a menina
Que demos um brado
Á gente do povo
Que accudam ao gado?
«Oh gente do povo
Accudi ao gado,
Que foge a pastora
Com o seu namorado!
Eu quero fugir,
Que é ventura minha;
Depois de pastora
Irei ser rainha.
-Se a pastora foge,
Deixal-a fugir,
Nem cravos, nem rosas
Lhe hão de accudir.
Digo-te a verdade,
Do meu coração:
Não sou teu esposo,
Mas sou teu irmão.
Digo-te a verdade,
Oh meu camarada;
A aposta que fiz
Já cá vae ganhada.
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